Reflexão Episcopal
Palavra e Sacramento – Alimentando o Rebanho de Cristo
O papel principal dos ministros é alimentar o rebanho de Cristo. Somos ordenados ministros da Palavra e dos Sacramentos, porque esses são meios de Graça. O livro dos Atos dos Apóstolos narram a vida de piedade da Igreja Primitiva:
o espírito comunitário, a partilha dos bens, as orações, a leitura da Palavra e o partir do pão, ou seja, a celebração da Ceia do Senhor. A partir do livro dos Atos e pelas narrativas mais antigas dos diversos ramos da Igreja: Nestorianos, Pré-Calcedônios, Bizantinos, Romanos e Uniatas, fica a clara constatação de que a Ceia do Senhor (Eucaristia) era celebrada semanalmente aos domingos, como memorial da ressurreição de Cristo. Ao longo dos séculos, especialmente nos movimentos monásticos, foram sendo elaborados ritos da Liturgia da Palavra (sem a Ceia), como as Matutinas, as Laudes, as Vésperas, as Completas (consentâneas com a tradição das Sinagogas), além dos momentos de piedade pessoal, doméstica ou comunitária.
No período que antecede a Reforma Protestante do Século XVI, especialmente no Ocidente, a liturgia tinha ficado centrada na Missa, esta em Latim, centrada no Sacerdote e com um conteúdo de repetição sacrificial, com uma percepção quase-mágica. Os reformadores mais radicais, tanto calvinistas quanto anabatistas foram ao outro extremo do pêndulo: a Ceia do Senhor passou a ser celebrada apenas um domingo por mês, despojada de sua beleza litúrgica, e, no caso dos anabatistas e seus descendentes, esvaziada do seu caráter sacramental, reduzida a mero memorial.
No Luteranismo e no Anglicanismo se procurou manter a beleza litúrgica, despojada de seus “acessórios” romanos, e o seu caráter sacramental. A celebração apenas uma vez por mês, no caso da Inglaterra, teve menos um caráter religioso do que a escassez de Presbíteros, e a recusa dos bispos em autorizar a bênção prévia dos elementos para ser distribuídos por Diáconos e Ministros Locais leigos (os então denominados “leitores”). Por isso a Oração Matutina se tornou a expressão litúrgica mais usada durante um tempo. A partir do século XIX foi havendo uma revalorização da celebração da Ceia do Senhor dominicalmente, mas não em todos os cultos. As Orações Matutinas e Vespertinas foram mantidas nos outros cultos dominicais e em cultos durante a semana.
Quando o Anglicanismo começou a ser disseminado no Recife em língua portuguesa, por razões de mercado (a maioria da “primeira leva” era formada de egressos de igrejas protestantes), o nosso ex-clérigo celebrava vestido com o robe genebrino presbiteriano, não usava as vestes anglicanas usuais, nem estolas ou típete, e a Ceia era apenas no último domingo de cada mês. Com a chegada de egressos da Igreja de Roma, se adotou um dos cultos dominicais com Ceia e os outros eram uma Oração Matutina ou Vespertina e uma Bênção da Saúde. Com a vinda de mais ex-romanos se passou, primeiro para se celebrar três Eucaristia aos domingos e depois até nos cultos semanais de oração e/ou estudo bíblico. Como dizia, pragmaticamente, o nosso ex-ministro: “Se o povo quer hóstia... hóstia para o povo!”.
Creio que a nossa Diocese tem buscado as fontes bíblicas e históricas; tem buscado se libertar de tradições e controvérsias de outras épocas e de outros lugares; e tem buscado o equilíbrio e o bom senso, além da obediência ao nosso mandato de alimentar o rebanho de Cristo com a Palavra e os Sacramentos. Se, por um lado, não somos imitadores da Igreja de Roma, não somos “papa-hóstias”, nem centramos o nosso Culto na Eucaristia, desvalorizando ou não usando regularmente as Orações Matutinas e Vespertinas, porque a Palavra tem valor em si mesma. Por outro lado, devemos nos desvencilhar de toda imitação às expressões do radicalismo protestante, discursivo e iconoclasta, hoje também coreográfico, desvalorizando as cores, os símbolos, os cheiros, a contemplação e o mistério, reduzindo a celebração da Ceia a quase que uma “obrigação” mensal.
Gostaria de fazer um veemente apelo ao nosso clero, agora portador desse maravilhoso instrumento que é o Livro de Oração Comum Brasileiro (LOCb):
- Vamos manter os cultos de oração e os cultos de estudos bíblicos durante a semana, bem como retomar a Escola Bíblica Dominical;
- Vamos valorizar a Oração Matutina e a Oração Vespertina, com ênfase em uma sólida exposição da Palavra de Deus;
- Vamos celebrar dominicalmente a Ceia do Senhor, dentro da melhor tradição apostólica e para o bem-estar espiritual do Povo de Deus. As Paróquias e Missões que celebram mais de um culto aos domingos, deverão, em rodízio de horário a cada semana, ter um dos mesmos como Ceia do Senhor (Oração Eucarística) e o outro uma Oração Matutina, Oração Vespertina, com ou sem a Bênção da Saúde.
Como amigo do meu clero e do meu povo, faço esse apelo pastoral em favor da nossa construção madura diocesana, com o melhor da nossa rica tradição. Todos seremos beneficiados.
Nem “papa-hóstias”, nem verborrágicos! Mas anglicanos, católicos, reformados, equilibrados.
Palavra e Sacramento, sim, e sempre!
São Luiz (MA), 09 de novembro de 2009.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Ter, 17 de Novembro de 2009 09:12)
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