Episcopado: Cargo, Encargo Ou Carisma? - Bispo Robinson Cavalcanti
Reflexão Episcopal
Episcopado: Cargo, Encargo ou Carisma?
O Pentecostes não se esgota em si mesmo, como um episódio desconectado da Economia da Salvação. O Pentecostes é o ponto de partida para a Nova Aliança, com o Espírito Santo derramado sobre a Igreja, permanecendo no meio da mesma, assistindo-a ao longo dos séculos. Por outro lado, o livro do Apocalipse fecha o Cânon bíblico da revelação escrita, normativa e autoritativa, mas não fecha a contínua revelação de Deus, Senhor da História e Senhor da Igreja. Por mais de dois mil anos, apesar da fraqueza e do pecado dos seus componentes humanos, o Espírito Santo iluminou a Igreja em sua institucionalização e em sua missão, como geradora e transformadora de cultura. Assim foi-se estabelecendo a Tradição, como fé viva e vivenciada pelas gerações, mente da Igreja e consenso dos fiéis.
Por quinze séculos o Espírito Santo iluminou a Igreja em sua forma de governo, estabelecendo, de forma profunda, clara e inequívoca o Episcopado, como vocação, carisma, ordem e ministério. Da Antiga Pérsia à China, nos primeiros séculos, a Igreja Assíria do Leste (Nestorianos), pré-Efesianos, se constituiu em um dos mais dinâmicos focos de irradiação do Cristianismo, chegando a contar com 400 Dioceses, até sofrer os reveses devastadores nas mãos dos mongóis e do Islã. Dioceses foram, desde o princípio, estabelecidas pelas Igrejas Orientais pré-Calcedônicas: a Igreja Armênia, a Igreja Siriana, a Igreja Copta (Egito, Etiópia e Eritréia), e a Igreja de Malenkar (Índia). Dioceses, desde o princípio, foram organizadas em todo o vasto mundo ortodoxo bizantino, em comunhão com o Patriarcado de Constantinopla (Antioquinos, Búlgaros, Sérvios, Gregos, Russos). Dioceses são a unidade eclesial de todo o mundo ortodoxo em comunhão com a Sé Romana, os chamados “uniatas” (Maronitas, Melkitas, Caldeus, Ukranianos etc.). A Igreja Latina, organizada em torno do Patriarcado Ocidental de Roma foi episcopal desde o princípio. Ou seja, quando a Reforma Protestante do Século XVI ocorre na Europa Ocidental toda a Cristandade adotava o Episcopado como forma de governo. Teria o Espírito Santo abandonado a Igreja nessa área? Teria Ele se equivocado? Ou, ao contrário, era essa a sua vontade?
O Luteranismo Escandinavo e Báltico, assim como o Anglicanismo, preservaram o Episcopado Histórico. Os Luteranos alemães construíram um Episcopado Não-Histórico (sem apelo à sucessão apostólica), como o fariam, posteriormente, os Metodistas e outras denominações, mantendo ou não a nomenclatura do episcopos, mas, sem dúvida, mantendo o ministério do episcopé. A reelaboração eclesiológica, de cunho presbiteriano ou congregacional, parte da negação da História, da negação da iluminação do Espírito Santo sobre a Igreja, como instituição, de uma visão mítica da “igreja primitiva”, mas, na verdade, mais fundada na Ágora da democracia ateniense e na elaboração democrática pela burguesia do século XVI, do que qualquer outra fonte sólida.
Chegamos ao século XX com algumas constatações: 90% dos cristãos vivem sob governo episcopal, e a maioria absoluta destes sob Episcopado Histórico. Por outro lado, 90% dos cismas que fragmentaram a Cristandade se dão em espaços congregacionais e presbiterianos, sendo o Episcopado responsável por maior estabilidade e unidade. Mas, por outro lado, constatamos, também, uma profunda crise eclesiológica nas últimas décadas no Protestantismo. A Eclesiologia é cada vez menos uma reflexão de caráter teológico, para, dentro de um processo de secularização, nem sempre consciente, se fazer a partir de uma ótica meramente humana, racional, dentro da teoria da administração. Há um processo de dessacralização da autoridade como vocação e carisma, caindo-se em uma visão funcionalista e pragmática. O Episcopado é reduzido a um mero cargo ou encargo, e o Bispo a um mero administrador, político ou burocrata, esvaziado da sua dignidade e de sua unção particular.
Independente da controvérsia, para se saber se o Episcopado é Plena Esse, Bene Esse ou Esse (traz plenitude, benefício ou essência à Igreja), o abandono da Teologia pela Administração, do Sagrado pelo Secular, leva a uma aproximação do Episcopado segundo critérios humanos das repartições públicas ou das empresas. No caso do protestantismo brasileiro, as igrejas episcopais, além desse Secularismo, ainda enfrentam a forte influência do congregacionalismo e do presbiterianismo, hegemônicos nas organizações, formas de pensar e bibliografia disponível em nossas livrarias evangélicas. Diante do caos desordenado e exótico que destroça e infelicita o protestantismo na América Latina, a afirmação do Episcopado Histórico (se convicção existisse) seria um serviço prestado ao conjunto da Igreja, para a sua cura, para melhor testemunho e missão.
A Diocese do Recife, além de todos os fatores acima enumerados, ainda teve que sofrer, adicionalmente, a devastadora influência de um presbiteriano que se fazia de episcopal, barthiano que se fazia de evangélico, fomentando nos fiéis não-doutrinados e sem identidade denominacional, uma aversão às marcas do Anglicanismo. Um exótico Episcopalismo sem Bispo. Um exótico Anglicanismo sem Livro de Oração Comum. A maioria dos que foram confirmados em nossa Diocese – por conversão ou adesão, foi (de)formada nessa conjuntura. Cada Paróquia, qual “franquia”, deveria ter o seu “dono”, e o exercício dos cargos diocesanos sofreria dessa cultura patrimonialista. O Bispo, essa figura que, lamentavelmente, recebemos da nossa denominação, deve ser contido, reduzido a uma figura simbólica, ritual, ornamental ou burocrática, evitando-se o seu contato com os fiéis, e dos fiéis com ele. Ao contrário da mente dedutiva anglicana (que raciocina do geral para o particular), sofremos a formação de mentes indutivas (do particular para o geral). A ideia da Igreja como Diocese e das Paróquias como suas congregações, a ideia do Bispo como o pastor e dos clérigos como seus representantes nunca saiu dos Cânones ou das Resoluções das Conferências de Lambeth para a vida prática. Daí, falamos no sermão de abertura ao nosso último Concílio Extraordinário, na existência, em nossa Diocese, não do Quadrilátero de Lambeth, mas de um “Trilátero de Lambeth” (Escrituras, Credos e Sacramentos), pois o Episcopado não é estudado, ensinado ou praticado como deveria ser em um espaço anglicano. A grande responsabilidade que a História está a nos reservar nos próximos anos, demanda de todos uma tomada de consciência e uma mudança profunda, de concepções e práticas, não em virtude de Bispo “A” ou “B”, mas por uma necessidade inadiável de um encontro sincero conosco mesmo.
Por oito anos tenho procurado, a duras penas, “falando grego”, sob resistências ostensivas ou veladas, com uma multidão de fiéis que não sabe para que serve esse homem que se veste de púrpura, contrariando interesses, tolhido na docência, na supervisão e na pastoral, ir além de um “cargo” que tem-se reduzido a um “encargo”. Preocupa-me a minha sucessão. Sem que eleitores e eleitos assumam a vocação bíblica e histórica, o ministério e o carisma do episcopado, serei sucedido por um outro ocupante do “cargo”?
Ao contrário das várias funções seculares que exerci ao longo da vida, com papel social claro e claras normas regulamentadoras, ser o não-ser ou o dever-ser, sem se ser, tem sido uma experiência existencial profundamente dolorosa, uma das cruzes mais pesadas que o Senhor colocou sobre os meus ombros, e que nos momentos de gólgota me pergunto se valeu ou vale a pena. Fui trazido por Deus para o Anglicanismo depois de uma década de aproximação, de uma ampla experiência interdenominacional, e depois de estudar cerca de 250 denominações. Cheguei convertido, convencido e comprometido. Não sabia, porém, que ia encontrar um deserto, o mundo da fantasia e da negação impiedosa da identidade. Como Bispo, fui levado a me conter na divulgação para não fazer propaganda enganosa ou para não vender produtos escassos nas prateleiras. Sectário? Não? Apenas um valorizador da História e do Espírito que soprou sobre ela.
Não podemos nos unir apenas contra o adversário comum, mas a favor da identidade em comum.
Será possível uma metanóia teológica e institucional ainda com essa geração? Oramos que sim, desejamos que sim, trabalhamos para que sim. Não tenho dúvidas da vontade de Deus, e nem sempre tenho a mesma certeza no que diz respeito à vontade dos homens (e mulheres). Não tenho dúvidas, muito menos, nem quanto a minha vocação, nem quanto a Providência do Senhor da Igreja, em transformar gerações, e suscitar líderes, também para o episcopado, inclusive neste ramo do cristianismo, neste país, nesta região, nestas circunstâncias e neste tempo.
Resta, então, ao conjunto da nossa Diocese uma urgente resposta à pergunta: Episcopado: Cargo, Encargo ou Carisma?
“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja”
(1Tm 3:1).
Paripueira (AL), 16 de Agosto de 2005.
+Dom Robinson Cavalcanti
Bispo Diocesano
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Última atualização (Qua, 01 de Agosto de 2012 10:33)
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