Eleição de Bispo Sufragâneo (VII) - Bispo Robinson Cavalcanti
Série: Eleição de Bispo Sufragâneo (VII)
Ao Clero e Povo da Diocese do Recife
Eleição de Bispo Sufragâneo (VII)
Amados irmãos e irmãs,
Vamos avançando pela Quaresma como um tempo para pensar e amadurecer, centrados na pessoa de Jesus. Nesse tempo tenho compartilhado sobre histórias e memórias da nossa Diocese, visando à preparação para eleição dos nossos Sufragâneos.
Como chegava esse hoje Bispo, em 1976, a, então, Diocese Setentrional?
01. Chegava, tendo vivido em duas Igrejas (malgrado suas virtudes e defeitos) sólidas e estabelecidas, realmente existentes, “de mesmo”: a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), então um Distrito da Igreja Luterana – Sínodo de Missouri. Elas possuíam suas doutrinas, seu governo, sua maneira de ser;
02. Chegava, tendo sido um membro convicto, informado e praticante de ambas: até os 18 anos na Igreja de Roma (Paróquia de Santa Maria Madalena, União dos Palmares, AL; Colégio Nóbrega/Capela de Fátima, Universidade Católica). Rompi com a sua soteriologia; seus “erros, desvios e superstições” (como afirmavam os Reformadores), mas nunca deixei de considerar sua produção cultural; dos 18 aos 30 mergulhei na Bíblia e no pensamento Reformado, ocupando várias funções na Paróquia Luterana de Casa Amarela – Recife – PE. Em ambos os casos, fui movido pelo trinômio: leitura-devoção-militância;
03. Chegava, como obreiro da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), integrante dos Gideões Internacionais, da Fraternidade Teológica Latinoamericana e do Movimento de Lausanne já tendo viajado muito, pelo país e pelo exterior, conhecido de perto a vida de várias “denominações” evangélicas, vivenciado trabalhos interdenominacionais, ao mesmo tempo, mantido a minha identidade;
04. Chegava conhecendo um Protestantismo que se caracterizava pela sua estabelecida realidade institucional, em termos de normas e práticas, com os pastores como meros ocupantes ocasionais de cargos e funções. Enquanto o Brasil ainda lutava com os resquícios do poder pessoal do coronelismo, a Igreja Evangélica era a vanguarda da institucionalização moderna, típica do Estado de Direito;
05. Chegava em um contexto em que cada novo convertido em uma igreja evangélica – ainda sofrendo forte discriminação (e, até perseguição) social –, era instruído no conhecimento da Bíblia, das Doutrinas Cristãs (e sua Ética), bem como na História da Igreja e nas marcas da sua denominação. Como ser “crente” implicava em um preço, tínhamos muitos convertidos-comprometidos, e raros aderentes;
06. Chegava, como professor e ocupante de cargos administrativos em colégios, seminários, faculdades e universidades, privadas e públicas, onde tinha levado a sério o meu trabalho, com ética, de forma crítica e criativa, mas em estrito respeito às normas, princípios, identidade e objetivos das instituições;
07. Chegava tendo conhecido o Anglicanismo através do pioneiro no Nordeste, Rev. Alfredo Rocha Fonseca, com quem muito conversei e recebi literatura, pelas leituras de teólogos anglicanos, pelas viagens, e, do missionário batista inglês Dionísio Pape (da ABU), meu discipulador, recebi o Livro de Oração Comum (LOC). Foi um longo período de estudo, oração e discernimento. À “tese” romanista e à “antítese” luterana, chegava “à síntese” anglicana, convicto e em paz, certo de que esse seria o meu lugar para servir ao Senhor pelo resto da minha vida. O Evangelho não se vive fora da Sociedade, da Cultura e da História, sem uma moldura, e o Anglicanismo me pareceu ser a melhor das opções;
08. Jovem, entusiasmado, idealista, ingênuo, chego ao Anglicanismo do Recife em 1976, para, paulatinamente, enfrentar a decepção, o “baque”, descobrir que ele era como estúdio de cinema: só tinha a fachada. Fui vítima de propaganda enganosa. O produto não estava disponível na prateleira. Não havia Anglicanismo. Não se pretendia implantá-lo. E se tinha raiva de quem o pretendesse. Estava em curso algo novo no Protestantismo brasileiro: o retrocesso da institucionalização para o poder pessoal e para os projetos e interesses pessoais. Isso requeria um povo manipulável com escassa instrução bíblico-doutrinária e nenhuma instrução denominacional. O novo “Quadrilátero” que iria se multiplicar pelo País afora, tendo nossa Diocese como “pioneira”, com vários “hóspedes” (“entrismo”, na análise de Gramsci) era:
1. Superficialidade Cristã e Ausência de Identidade Denominacional;
2. Clubismo Religioso Localista;
3. Educação Moral e Cívica Burguesa;
4. Ode ao “Amado Líder” (modelo norte-coreano).
Como se diz no vulgo: “entrei numa roubada”, “comprei gato por lebre”, “entrei em uma fria”, “me ferrei”, mas, já era um caminho sem volta. Agora era tentar ir em frente, pois, afinal, não estava eu convencido de ter sido trazido pelo Senhor? O deserto me esperava (e, com pit-stops em alguns oásis), não saí mais dele. Com isso, não quero desanimar os candidatos a Bispo...
Vivenciemos a Quaresma!
Paripueira (AL), 06 de abril de 2011,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Seg, 23 de Julho de 2012 15:39)



















