| Irmãos e Irmãs, A viagem missionária prossegue! Na segunda-feira passada, dia 01.06, tive, ainda em High Springs, Flórida uma reunião com o Pároco e uma membro da Junta Paroquial, que a representa no plenário que prepara os documentos básicos da Diocese em Formação (Norte da Flórida + Sul da Geórgia). Com a "estrada" já percorrida por Recife, e nossos Cânones Diocesanos aperfeiçoados ao longo desses anos, pude chamar a atenção para algumas debilidades de cunho bíblico-teológicos (eclesiologia) e jurídico-canônicos, mas com cuidado, porque nossos amigos e irmãos dos EUA (seculares ou religiosos, liberais ou conservadores), são um tanto, digamos, "sensíveis" a opiniões vindas da periferia do mundo... Sente-se a crise econômica muito mais forte aqui. O desemprego é enorme. Já tem gente na rua ou em abrigos, tomando sopinha de caridade. O Império balança... Duas horas de carro, e fui dormir em Tallahasse (capital do Estado), em um hotel, para pegar o voo cedo no dia seguinte, para cruzar o país de sudeste a noroeste (Porto Alegre-Manaus...). Terça-feira, dia 02.06. Chego cedo ao aeroporto. Avião quebrado. Colocam-me em um bimotor, cansado de guerra, de 20 lugares, sem sanitário a bordo. Uma hora para Tampa. Outro avião do mesmo tipo. Uma hora para Miami. Chá de aeroporto. Duas horas e quarenta minutos para Chicago. Quarto voo: quatro horas para Seattle. Três fusos horários diferentes (já estou menos quatro horas do horário do Recife). Alan Lansdowne está me esperando. Mais dois trechos de carro e um de barca. Na minha cabeça já é madrugada. Ufa! Finalmente, chego a Poulsbo, cidadezinha fundada por noruegueses, e onde temos a nossa pujante Paróquia Anglicana St. Charles. Star, a esposa de Alan, meus velhos anfitriões, está com pneumonia. Fico hospedado na casa do Arcediago Rev. Duncan Clark e sua esposa Sharon. Os filhos, estudando fora, somente ficam os fins de semana. Sou rapidamente “adotado” por Paul, um mestiço de labrador e Peter, um gato tamanho família (parece uma oncinha). Assisto televisão com Peter no colo e Paul ao meu lado. Saudades de Bóris, meu huski siberiano, e Mimi (siamesa), na casa da praia, e a mestiça Branquinha, um tanto “hiperativa” na casa de Olinda. Quarta-feira, dia 03.06. Almoço de trabalho com os reverendos Duncan Clark e Henry Morris. Reunião à tarde com a Junta Paroquial. Jantar de confraternização (com período de perguntas e respostas) com os membros da Paróquia. Pedem-me para falar sobre a conjuntura da Comunhão Anglicana, o nascimento da nova Província (ACNA) e a transição da Diocese do Recife/Cone Sul para a nova estrutura, com uma Diocese em Formação (Diocese de Cascadia = nome das montanhas daqui). Clima de calorosa fraternidade. Quinta-feira, dia 04.06. Visita pastoral ao irmão Ted George e esposa na reserva dos índios Suquamish. Ted é membro da Paróquia e do Conselho da tribo, e, por dois mandatos, foi membro do Conselho Consultivo Federal de Educação Indígena. São cerca de 400 reservas nos EUA, com o status de “nações tuteladas”, após uma triste história de etnicídio. Depois, visita pastoral e “jantar brasileiro” (feijão, arroz e filé), com a família Ifland, para conhecer de perto o modelo de “educação no lar”. Com queda de nível, a indisciplina, as drogas e a ideologia Secularista/GLSTB, milhares de famílias estão optando pelo “home schooling”: do Jardim de Infância ao Segundo Grau em casa, com livros, atividades artísticas e desportivas. A família Ifland – atípica com seus 08 filhos – é um caso bem sucedido dessa experiência, que só tende a crescer. Sexta-feira, dia 05.06. Almoço de trabalho com o Revmo. Boyce (ex-Igreja Episcopal Reformada), vigário-geral da Diocese em Formação nessa região. Falamos sobre a transição. Há a decisão de que Cascadia e Recife sejam “Dioceses Companheiras”, com “Paróquias e Missões irmãs”, para continuarmos o relacionamento. Visita pastoral ao irmão Augus MacDonald, oficial da reserva da Marinha e sua esposa. Vou encontrando pessoas piedosas. Muitas, quando na Universidade, militaram na ABU (Inter-Varsity). A grande curiosidade é como fazemos Cursilhos “evangelísticos”, pois aqui é para aquecer crente frio ou treinar líderes. O Bispo Boyce quer que enviemos uma equipe dos nossos cursilhistas que fale inglês, para ajudá-los a implantar o nosso modelo. Sábado, dia 06.06. Um Culto em horário atípico, a uma da tarde: 07 Batismos infantis, entre 02 e 07 anos, e 09 Confirmações e recepções (eles chamam aqui de rededicação), seguido de uma confraternização no salão paroquial. Fotografia do Primaz e do Bispo Diocesano em destaque no templo. Jantar de trabalho com o Rev. Ralph Haynes, que dirigiu quatro horas e meia desde Eugene, Oregon. Domingo, dia 07.06. Festa da Santíssima Trindade. Ordenação Presbiteral do Rev. Peter Briggs, jovem professor de música em colégio do Estado (a esposa ensina Ciência). Templo superlotado. Delegações de outras Paróquias. Presença do Bispo Boyce, e dos reverendos: Duncan Clark, Joseph Navas (índio pueblo), Paul Oritt, Pamela Schmaling, Henry Morris e Ralph Haynes (Presbíteros), e das Diáconas Permanentes Cecilia Morris e Dana Navas. O pai do Ordinando diz que: “Os nove novos Presbíteros e Diáconos, Ordenados nesses quatro anos, é o maior legado do Recife à nova Província”. O ofertório é uma colaboração para a edição do Livro de Oração Comum Brasileiro (LOCb). Reúno-me com a diretoria da Fundação Anglicana Península, que se compromete em nos apoiar com passagens para os eventos-chaves da Comunhão Anglicana, até que obtenhamos um status definitivo. Nesses dias percebo o agravamento da falta de evangelismo dentro do país. Eles mandam missionários para a Cochinchina ou para a Antártica, mas são bloqueados de “ofender” os brancos, civilizados, com a pregação do Evangelho em um país marcado pelo individualismo, o multiculturalismo e a “tolerância”. Falar em pecado, inferno, só Jesus salva, etc., seria ofensivo. Ficam preocupados com a descristianização do país, mas estão paralisados. Em minhas falas tenho batido nessa tecla, e no fato de que o Evangelho é ofensivo mesmo, desde o início. Por outro lado, vejo a grande mão-de-obra que espera o Revmo. Robert Duncan, futuro Primaz da nova Província (ACNA), com todas essas lealdades a diversos grupos, nos diversos países, Paróquias independentes, ou oriundas de jurisdições Continuantes, com os egos dos bispos, etc., juntar esse povo todo em um novo espírito de Corpo, vai demorar e será muito trabalhoso. Daí, no início, se conviver Dioceses territoriais com Dioceses não-territoriais (tipo a Foward in Faith, ultra-anglo-católica). Algumas Dioceses não Ordenam mulheres; outras Ordenam apenas Diáconas, outras Ordenam Diáconas e Presbíteras, com anglo-católicos, evangélicos e carismáticos. Os anglo-católicos se parecem com os protestantes fundamentalistas em questões de moral. Ainda não li na íntegra os novos Cânones Gerais (Provinciais), mas sei que diferem um passo atrás na autorização de casamentos religiosos de divorciados (por pressão anglo-católica), de uma visão geral do pecado e do arrependimento e novidade de vida (hoje majoritária na Comunhão Anglicana), por uma visão casuística (que motivos seriam ou divórcio lícito ou não). Não há impedimento para Ordenação de divorciados, mas por pressão de alguns bispos africanos eles não poderão ser eleitos bispos-fundadores nesse momento de necessidade de reconhecimento institucional. Complicado esse negócio de Igreja... mas Deus é mesmo paciente... com as picuinhas do seu povo... Embora cansado, sinto-me feliz pela generosa acolhida e pela gratidão das comunidades daqui por a termos recebido. Apesar de entenderem que nossa missão era transitória, e que conseguimos atingir os nossos alvos, há um lamento em deixar o Recife, daí a proposta da “Diocese Companheira" ter sido recebida com entusiasmo. Amanhã ainda estarei em Poulsbo, depois prossigo para Oak Harbor e outras cidades. Continuo a contar com as suas orações! Poulsbo, 07 de junho de 2009. Dia da Santíssima Trindade. + Dom Robinson Cavalcanti, ose Bispo Diocesano |