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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS,

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA COM

O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

 

 

REVMO. EVILÁSIO TENÓRIO JR.

BISPO-ELEITO / 2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

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Nós e Eles – A Construção da Brasilidade Cristã

Reflexão Episcopal


Cursando o segundo ano colegial (Clássico) no Colégio Nóbrega (jesuíta) do Recife, li, pela primeira vez, um texto que anos mais tardes discutiria em classe com meus alunos na Universidade: o clássico Bandeirantes e Pioneiros – Paralelo Entre Duas Culturas, de Vianna Moog, o melhor ensaio comparativo, sob uma ótica teórica weberiana, sobre os Estados Unidos e o Brasil. Em um dos capítulos, o autor trata da figura do “mazombo” (equivalente ao criolo hispânico), o filho de português nascido no Brasil, e que não conseguia nem ser brasileiro nem português. Quando aqui, ficava botando defeito em tudo; quando ia estudar em Coimbra, ficava com saudades do Brasil, e compunha: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

O nosso primeiro modelo foi, obviamente, Portugal, e algo só tinha valor se viesse da Corte, da Metrópole, do Reino. A pimenta... do reino; o queijo... do reino!

Ai veio a Família Real para o Brasil, o Tratado de Amizade, Navegação e Comércio com a Inglaterra, e abrimos os portos “as nações (mui)amigas...”, ou seja, a própria, para cujos cofres dos banqueiros judeus Rothschild ia parar o nosso ouro, e apenas passava por Portugal. Aí fomos comer batata... inglesa, e vestir casimira... inglesa. Em pleno calor dos trópicos usávamos a última moda... de Londres, com seus “leves” tecidos... O primeiro-ministro inglês falava ao Parlamento com o dedo polegar no bolso do colete? O nosso, imediatamente, seguiu o exemplo, para se sentir “civilizado”. Registram os anais, que toda uma tarde, no Senado Imperial, foi dedicado ao debate de qual seria a pronúncia correta do galicismo na língua inglesa “Pall Mall”, se seria “pol-mol”, ou “pel-mel”. Como se vê, algo de extrema relevância para a vida nacional...

Chega a República, pelas mãos dos positivistas, e aí, embora mantendo comércio e compra de tecnologia da velha Albion, passamos a nos encantar com a França. É a vez do pão... francês, da etiqueta... francesa, dos Colégios Sacre-Coer de Jesus, e Sacre-Coer de Marie, do Colégio Sion, para os filhos da aristocracia. “Ver Paris, e depois morrer”, escreveu um dos nossos intelectuais.

Nos anos 1930, por sua vez a Itália, de Mussolini, e a Alemanha, de Hitler tiveram seus admiradores, precedido do racismo nacional, por influência de Gobineau e Chamberlain, quando alguns dos nossos pensadores se referiam aos nossos mestiços (quase todos nós), como “sub-raça”...

Vem a Segunda Guerra Mundial, Hollywood, o Fox-Trot, a coca-cola, e aí, os brasileiros descobriram – e, mais uma vez se deslumbraram – com a América... Com a Ditadura Militar, e o Acordo MEC-USAID, os nossos mestrandos e doutorandos foram empurrados para as Universidades norte-americanas, o latim, o espanhol e o francês foram rifados, e agora todo mundo tinha que aprender inglês. Sai Filosofia e Sociologia do currículo (“perda de tempo”) e entram as “matérias profissionalizantes”. Trocamos o bufet pelo self-service, e Disney passou a ser a Meca dos adolescentes.

Esse negócio de “por que me ufano de ser brasileiro” (conde Afonso Celso), ou “ama com fé e orgulho a terra em que nasceste”, fica para dia de jogo da Copa do Mundo.

No campo religioso, caminhamos do conceito de Portugal como “nação eleita” do padre Antonio Vieira, passamos por Maritain e Mounier... e chegamos a Kenneth Hagin...

Fico pensando na lista de nações (e culturas) listadas como audiência no Dia de Pentecostes, na antevisão de todas elas prostradas diante do Cordeiro, na Nova Jerusalém. Fico pensando como Israel sobreviveu 5.000 anos, justamente por ser uma nação (cultura), com seus ritos, seus vocábulos, sua culinária, sua memória histórica.

Depois de cinco séculos, com toda uma riqueza cultural, os brasileiros ainda não assumiram a sua identidade, compartilhando-a, e continuam a ser uma nação de deslumbrados... com os outros, um sentimento de inferioridade ainda não superado, apesar de integrar os BRICS...

Contam os historiadores, que os saduceus dos tempos de Jesus, com seu racionalismo, eram deslumbrados com a cultura greco-romana, preferiam falar as línguas do Império, ou, muitas vezes, falavam hebraico e aramaico com sotaque. Isso me faz lembrar um pastor batista brasileiro moreno, que conheci em São Paulo, que fala português com sotaque, só porque estudou alguns anos nos Estados Unidos...

A exemplo de outros países do nosso continente, a criação da Igreja Presbiteriana Independente (IPI), em 1903, o Movimento Radical Batista, em Pernambuco e no Maranhão, nos anos 1920, a longa e fecunda caminhada da Confederação Evangélica Brasileira (CEB), de 1930 a 1964, tiveram dentre os seus objetivos, uma inculturação da fé evangélica, sob liderança nacional. Depois, vale ressaltar a criação da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), e a realização decenal dos CLADEs – Congressos Latino-Americanos de Evangelização. A minha geração, educada antes do Acordo MEC-USAID, foi profundamente impactada pelo texto clássico do pensador peruano Samuel Escobar: “O Evangelho e a Roupagem Anglo-Saxã na América Latina”. A FTL, com Samuel, Rene Padilla, Pedro Arana, Orlando Costas, e tantos outros, nos desafiou a assumir a história, a cultura (literatura, arte) e a identidade do nosso continente e dos nossos países, na encarnação da missão do Reino.

Creio que os anos 1960-1980, tanto a FTL, com Teologia da Missão Integral da Igreja, quanto a TL (Teologia da Libertação) enfatizaram o tema da identidade cultural, da ótica cultural, dos temas conjunturais.

Creio que a minha educação familiar, a vivência da cultura popular e do folclore do interior de Alagoas, a contemporaneidade com o “cinema novo” e a “bossa nova”, o idealismo libertário dos anos 1960, minha educação na Igreja de Roma (especialmente com os jesuítas), a FTL, a ABU, concorreram para marcar a minha formação como latino-americano, brasileiro e nordestino, no enraizamento da minha fé e da minha teologia (particularmente a missiologia).

Creio que o protestantismo brasileiro terá uma contribuição significava a fazer ao conjunto do orbe cristão, quando cada um tiver se aprofundado em seu ramo (como base e ótica para incorporar outras contribuições), e quando cada um tiver se aprofundado em sua brasilidade (como base e ótica para a incorporação da catolicidade, das contribuições dos outros), examinando tudo e retendo a variedade do bem.

Quando do primeiro governo militar (general Castelo Branco), o então Ministro das Relações Exteriores, Juracy Magalhães, pronunciou uma frase antológica, que definia a subordinação daquele governo na ordem nacional da Guerra Fria, e que parece marcar a visão de tantos ainda hoje: “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil!”.

No próximo mês de agosto, completo 44 anos que visitei os EEUU pela primeira vez, e tenho aqui regressado quase todos os anos. Conheço dois terços dos seus Estados, fui aluno (UCLA), professor (Universidade de Alabama, Birmingham), estagiário do Departamento de Estado, conheci o velho sul racista, acompanhei a revolta estudantil contra a Guerra do Vietnam, a luta contra a segregação, o movimento hippie, conversei de vereadores a senadores, estive em um sem número de eventos religiosos. Sempre fiz uma separação entre Governo (e sistema), cultura e povo. No povo, tenho amigos; da cultura, pouco me atrai; do Governo (sistema) estou muito distante. Como latino, continuo, 44 anos depois, apenas como um visitante. Na época do regime militar afirmava ter escolhido Madri se fosse necessário me exilar. Como estudante de Direito, na velha Faculdade do Recife, jurara, diante de Deus e da minha consciência, nunca residir em um país em que meu imposto fosse financiar a execução de penas de morte. Nunca me tornei um nacionalista xenófobo, nem um deslumbrado.

Antes de vir para aqui a primeira vez, alem da obra já citada de Vianna Moog, muito aprendi com os livros Gato Preto em Campo de Neve, e A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo.

Qual a minha preocupação hoje?

A ideologia hegemônica nos Estados Unidos é uma confluência/aliança do Secularismo, do Politicamente Correto e da Agenda GLSTB, cada vez mais dominante no Governo, nas Universidades, na Mídia e nas Artes. Para variar, em nossos arraiais, mais uma vez “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”. Acompanhei daqui os milhões de compatriotas na 13ª. Marcha do Orgulho Gay, em São Paulo, que já superou as “pioneiras” de Nova York e São Francisco como “a maior do mundo...”.

No campo religioso, creio que nem os Mórmons e as Testemunhas de Jeová, o fundamentalismo ou o liberalismo, a teologia da prosperidade ou a teologia da batalha espiritual, tragam algum benefício para o evangelicalismo brasileiro.

O mesmo se diga do “movimento apostólico”, ou de movimentos centrados em personalidades fortes, que apenas reforçam um taco cultural negativo nosso: o caudilhismo. A elaboração de macetes (“nada se cria; tudo se copia”) apenas inibe a nossa criatividade. A “informalidade” de alguns desses movimentos (que, também, desvaloriza o passado) apenas ajuda o secularismo na remoção dos símbolos cristãos, e da própria presença – e influência – cristã na cultura. E, como não há teologia, nem metodologia, dissociada de cultura, me reservo o direito ao estudo crítico de tudo que lá aparece, sem nunca me filiar a qualquer das suas instituições e/ou movimentos, nem nunca depender de um ISO 2009 de nenhum deles para legitimar o meu ministério.

Fiquei escandalizado, no ano passado, quando, em um congresso sobre avivamento, ouvia um pastor de uma igreja pentecostal (muito) independente, afirmar: “Como a cultura ibérica é católica romana, e, em decorrência, idólatra; e como as culturas afro e ameríndia são macumbeiras, não há nada a se aproveitar na cultura nacional, e, como tal, o protestantismo brasileiro tem que se construir pela importação das culturas Anglo-Saxã, germânica e escandinava “evangélicas”...”. Vade retro!

E o que é que eu faço com Oliveira Viana, com Sergio Buarque de Holanda, com Caio Prado, com Gilberto Freyre (civilização luso-tropical)?

E o que é que eu faço com o pensamento de pastores como Natanael Cortez, Jerônimo Gueiros ou Benjamin de Moraes Filho, dentre tantos outros?

Trocamos, no louvor, o estrangeiro velho pelo estrangeiro novo, quando o “gospel” soterrou, tão rápido, Sergio Pimenta, Guilherme Kerr Neto, Nelson Bomilcar, João Alexandre, Carlinhos Veiga, que nos traziam esperanças de um louvor verde-amarelo...

Vivenciando o momento difícil por que passa esse Norte, onde me encontro, temo, que, lamentavelmente, a partir do sul, se possa, outra vez, inverter o poeta, quando: “As aves que aqui (no Brasil) gorjeiam; gorjeiam como lá (nos EUA)”.

Haverá “bancada brasileira” diante do Cordeiro, ou o louvaremos com sotaque?

Spokane, WA, EEUU, 16 de junho de 2009.

+ Dom Robinson Cavalcanti, ose
            Bispo Diocesano
 

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