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Deus está de volta

Reflexão Episcopal


Vou a uma livraria aqui perto do Hotel Davenport, e compro o novo best-seller em matéria de análise religiosa da atual conjuntura mundial: Deus Está de Volta – Como o Reavivamento da Fé Está Mudando o Mundo (405 páginas), escrito por John Micklethwait e Adrian Woodridge, respectivamente, editor geral e chefe da sucursal em Nova York da prestigiosa revista semanal inglesa The Economist, um ateu e o outro católico romano. O livro trabalha com algumas teses:

  1. A proposta de modernidade sem religião (a ser superada, ou combatida, como sinal de atraso) está sendo superada pela proposta de modernidade com religião;
  2. A primeira proposta teria sua origem na Revolução Francesa, e a segunda na Revolução Americana;
  3. Os dirigentes dos Estados e da Cultura, por ignorância ou preconceito, não estão sabendo analisar o fenômeno, nem formular políticas públicas que o levem em consideração;
  4. A proposta francesa teria falhado por não levar em conta a religiosidade natural dos seres humanos, e porque, na Europa, a resposta religiosa foi inadequada: as Igrejas Nacionais (Católicas, Protestantes e Ortodoxas), com o seu monopólio e o seu clero de funcionários públicos acomodados;
  5. A proposta norte-americana teria vencido, porque a separação Igreja vs. Estado protege o Estado da teocracia, e protege a Igreja da tirania, estimula a competição, e os pastores têm que arregaçar as mangas, pois vivem do que cai na mochila...

Para Micklethwait e Woodrigde tem razão Phillip Jenkins com a visão de um maior fortalecimento da religião no hemisfério sul, e acham que a Europa vai, por um tempo, continuar sendo uma exceção de aridez religiosa em um mundo cada vez mais religioso.

A realidade norte-americana é que a frequência regular as igrejas/sinagogas/mesquitas é três ou quatro vezes maior do que na Europa, embora 60% dos norte-americanos seriam membros de religiões não cristãs, ateus/agnósticos ou religiosos nominais.

Devo ressaltar que o Secularismo na sociedade e o Liberalismo nas Igrejas não são os únicos responsáveis pela estagnação das estatísticas religiosas e para o não-evangelismo por parte das Igrejas Will Heberg aponta para a importante variável da religião de imigração, que marcou o cenário dos Estados Unidos no século XIX e início do século XX. Já tínhamos denominações de pretos e denominações de brancos; depois denominações de holandeses (reformados), de alemães, de suecos, de dinamarqueses, de noruegueses (luteranos), com cada nação tendo a sua. Os luteranos levaram cem anos para se juntar. Entre os católicos romanos quem é de uma Paróquia irlandesa não frequenta uma Paróquia italiana, ou polonesa, e vice-versa. O quadro se repete entre os imigrantes atuais.

Se você passar por uma Igreja Batista Nacional, ou por uma Igreja Metodista Episcopal Sião, elas são de negros. Um sociólogo afirmou que, embora a segregação racial tenha se tornado ilegal há décadas, ela subsiste por duas horas (das 10 ao meio-dia) todos os domingos: no horário do culto.

E qual é a lição disso para o não-evangelismo: cada grupo étnico tinha a sua igreja-clube, e um sueco não ia trazer para o seu meio um italiano, nem esse ia se sentir à vontade. Resultado, ninguém evangelizava fora do seu aquário. Heberg também aponta para a “migração denominacional” dos que vão subindo de vida. Há, também, a migração geográfica: um norte-americano médio residirá em 5 Estados diferentes em sua vida. Com 50% de divórcio, e os filhos saindo de casa para cursar universidade o mais longe possível, a família ampla desaparece, e, o pai estará em Michigan, a mãe na Califórnia, o filho na Flórida e a Filha em Vermont...

Por sua vez, se criou a chamada “religião civil”, em torno do mito de um novo “povo escolhido”, associada a civilização norte-americana com uma religiosidade geral moral. O próximo passo foi se eliminar do vocabulário religioso a terminologia “Salvos vs. Perdidos” pela terminologia sociológica “Frequentadores vs. Não-frequentadores” de igrejas. Daí esse povo, generosamente, contribuir para obras sociais e para o evangelismo dos esquimós e dos pinguins, mas ser incapaz de falar de Cristo para outro nacional. Há uma sensação de um “universalismo implícito”: vir para a igreja é bom para você nessa vida, quanto a outra já está garantida para todos.

Portanto, nem tudo se deve ao Secularismo e ao Liberalismo (que, obviamente, agravam o quadro); a ausência de jovens e a proliferação de “congregações geriátricas” se dá, grosso modo, tanto entre conservadores quanto entre liberais.

Deus não está de volta, porque nunca deixou de existir. O que está de volta é o crescimento dos que reconhecem a sua existência e/ou dos seus adoradores, e o lícito desejo das religiões de se fazerem respeitar e ser ouvidas no espaço público.

Agora, que Deus precisa voltar para muitos norte-americanos, e que muitos norte-americanos precisam se voltar para Deus, é outra verdade. A mão-de-obra é fazer com que os norte-americanos conduzam os seus compatriotas por esse caminho! Nisso reside a diferença com a maioria dos outros países, e se constitui no maior desafio para a Igreja.

Spokane, 20 de junho de 2009.

+ Dom Robinson Cavalcanti, ose
            Bispo Diocesano

 

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