Narciso no Espelho?
Pensamento do Leigo

Narciso no Espelho?
Post. Elton Roney Carvalho ( [i])
Os tempos não são os melhores da história da peregrinação do homem na terra. A competição pela sobrevivência não é algo que se perdeu após a formação social dos Estados Nacionais, ao contrário, o desenvolvimento do sentimento capitalista acentuou essa competição. Hoje, não diferente de outros tempos, o Homem deve desejar ser atuante e sobrevivente em um mundo onde sobrevivem os mais fortes, quanto aos mais fracos, que Deus esteja com esses.
Um ponto interessante sobre essa tal competição pela vida, diz respeito a um sentimento muito forte que o homem tem: a confiança. Essa, o faz enxergar ou não, possibilidades, encarar cada fato diante de um contexto e explorar novos caminhos e discernimentos. Através das qualidades de cada um, tem-se o desenvolvimento de uma vida que este sonha alcançar.
É bom que cada um tenha um desejo de construir seus sonhos baseados em acreditar que cada um tem seu “espaço” aqui e todos têm a capacidade para tal feito. Mas, existe um certo sentimento que surge cada vez mais enfaticamente na sociedade atual: o Narcisismo.
O termo narcisismo provém da Mitologia Grega, que narra a história de Narciso, um jovem muito bonito que desprezou o amor da ninfa Eco e, por isso, foi condenado a apaixonar-se por sua própria imagem espelhada na água. Este amor impossível levou Narciso à morte, afogado em seu reflexo. O narcisismo, portanto, retrata a tendência do indivíduo de alimentar uma paixão por si mesmo. Segundo Freud, isso acontece com todos até um certo ponto, a partir do qual deixa de ser saudável e se torna doentio, conforme os parâmetros psicológicos e psiquiátricos. Este termo, como tantos outros emigrados do campo psíquico, tornou-se vulgarmente usado para indicar alguém vaidoso ou egoísta. No caso de se referir a uma esfera social, pode significar elitismo.
Temos, portanto, visto o crescimento de uma postura social que enfatiza a paixão por si mesmo e o egoísmo doentio, que surge de um desejo tão grande de crescer em detrimento aos outros que faz o homem não olhar mais para o lado, mas, apenas para o espelho. É como se não mais existisse a possibilidade de caminhar junto a um crescimento em conjunto, como se não fosse mais possível abrir mão de nada para que o próximo fosse alcançado.
Penso que o homem tende a complicar, consideravelmente, a sua existência nesse lugar. Ele complica, pois, deseja tanto um sucesso que esquece que sucesso é ser bem sucedido e ser bem sucedido é ter vidas tranquilas, que nada tem a ver com patrimônio e, sim, com vida, não preciso definir vida (João 10:10) e não precisar lembrar que essa a proposta cristã é partilhar vida.
É. Sinto dizer que estou em um mundo tão pós-moderno que esqueceram que antigamente um já morreu afogado por se olhar demais no reflexo de si mesmo. Devemos ter cuidado, para que de repente, Narciso não apareça em nossos espelhos.
[i] Elton Roney Carvalho é membro da Diocese do Recife; faz parte da Equipe Pastoral da Paróquia Anglicana Comunhão, no Arcediagado Paraíba; é Postulante, e também Seminarista do SAT-PB.
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Última atualização (Qua, 30 de Dezembro de 2009 10:07)
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