Afirmando a Mordomia
Reflexão Quaresmal
Afirmando a Mordomia
Embora na compreensão popular “mordomia” seja entendida como o usufruto de privilégios, particularmente do poder, a compreensão bíblica do termo está associada ao Mandato Cultural entregue pelo Criador aos seres humanos: cuidar, administrar, gerenciar a Criação segundo o projeto do Criador. Não somos proprietários de nada. Nascemos nus e somos enterrados sem desse mundo nada levar. Somos apenas posseiros transitórios, cuidadores.
Do Senhor recebemos o Tempo, como primeiro bem a cuidar. Muitos apenas “gastam” o tempo, ou “passam a vida em passatempos”. O tempo é um bem precioso, tanto para o trabalho e a criação, quanto para o ócio merecido ou a contemplação e a meditação, necessárias para a vitalidade espiritual. O tempo pode ser usado para o mal ou para o bem, para edificar ou para destruir, e, pode-se apenas se omitir de dar sentido ao tempo, que passa inexorável. Os cristãos são chamados a ser uma ponte entre a eternidade e o tempo, salgando e iluminando as vidas, seus relacionamentos e a própria História.
Do Senhor recebemos Talentos, para serem cultivados, amadurecidos, e usados para a sua honra e glória e para o bem comum da humanidade. Os Talentos são também chamados de Aptidões Inatas ou Dons Naturais. Todos nós nascemos com Talentos, embora nem sempre os cultivamos, e nem sempre os usamos para o bem. O cultivo e o uso correto dos Talentos nos fazem crescer como pessoas, e, colocados no altar, são instrumentos para o testemunho do Evangelho e a promoção do Reino de Deus.
Do Senhor recebemos Tesouros, bens móveis, imóveis e semoventes, que se supõe fruto do trabalho digno e honesto, mas que pode conduzir à avareza, e que a ferrugem e a traça cuidam de destruir, se tornam ídolos quando neles colocamos o nosso coração. Difíceis de acumular, facílimos em esbanjar. Somos convidados a trazer os tesouros à casa do Senhor. Tesouros podem ser bênçãos ou maldições, fonte de ostentação e de vaidade, de orgulho, soberba, discriminação e privilégios. A consciência da mordomia dos tesouros nos leva, como cristãos, ao cultivo de uma atitude despojada, de um estilo de vida simples, libertos da concupiscência dos olhos e do consumismo materialista prático.
Do Senhor, após a nossa conversão, recebemos, pelo Espírito Santo, Dons Espirituais. Não podemos pedir dons, muito menos um dom específico, mas estar atentos para aquilo que o Senhor nos outorga, para ser cultivado e para a edificação conjunta do Corpo de Cristo.
Do Senhor, no processo de santificação, recebemos uma Vocação: um chamado com uma destinação específica do nosso lugar no mundo como embaixadores do Reino de Deus, a qual nem sempre obedecemos, na sofreguidão das melhores profissões em termos de status ou recompensa financeira. Optar pela Vocação é estar no centro da vontade de Deus.
Nesse Tempo de Quaresma, nos perguntamos: nosso Tempo, nossos Talentos, nossos Tesouros, nossos Dons e nossa Vocação estão no altar de Deus? Estamos sendo dignos e obedientes? Ou temos uma vida fragmentada em vários cartões: de membros de associações, de crédito... da igreja, como departamentos estanques de um ser não integral e integrado, mas des-integral, conduzindo pelo próprio ego e pelo espírito do século?
Nessa Quaresma, renovemos a nossa disposição de sermos apenas bons mordomos de Deus.
Recife (PE), 06 de março de 2010,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Seg, 22 de Março de 2010 18:29)
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