Afirmando a Igreja
Reflexão Quaresmal
Afirmando a Igreja
Como seus membros, suas pedras vivas, nesse tempo de Quaresma reafirmamos a singularidade, a importância e o papel da Igreja na economia da salvação, redenção e restauração. Com a clareza de um monoteísmo de revelação, com a Lei e com os Profetas, e, finalmente, com a Encarnação de Jesus Cristo, Israel cumpriu o seu papel como povo da Primeira Aliança. Jesus promete edificar a sua Igreja, e a unge dos recursos espirituais a partir do Dia do Pentecostes. Agora há uma Segunda Aliança. Não mais a Aliança da Lei, mas a Aliança da Graça. Não mais um povo étnica e geograficamente localizado, mas um povo de todos os povos e para todos os povos. A Igreja, nas palavras do apóstolo Pedro, herda os atributos e os títulos de Israel. Ela é o Novo Israel: geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, Povo de Deus. Ela é o Corpo de Cristo, a Universal Assembleia dos Remidos.
Ela não é uma colagem de indivíduos, mas um povo, uma comunidade, de vínculos permanentes, comprometida. Ela não existe para o benefício dos indivíduos, mas para ser sinal, antecipação, vanguarda, ensaio da nova humanidade a caminho da plenitude na Nova Jerusalém, após o retorno do Senhor e o Juízo Final.
Ela é reunião separada para tratar dos negócios do Reino, anunciar o Reino e promover o Reino. Reunião, comunhão, comunidade de adoração, de ensino, de afetos, de serviço, de profetismo. Reunião cujo culto deveria ser um vislumbre da glória, com a Liturgia da Palavra e dos Sacramentos. Reunião de santos, com seus dons e suas vocações. Uma comunidade do Messias, uma comunidade messiânica, uma comunidade com uma missão.
Desde os primórdios essa Igreja deveria ser marcada pela unidade, pela santidade, pela catolicidade e pela apostolicidade (Una, Santa, Católica e Apostólica).
Como não é formada por anjos, mas por seres humanos, culturais e sociais, o Espírito Santo ilumina a sua organização, a sua institucionalização, desde a eleição de Matias, a designação dos diáconos, a decisão conciliar sobre os judaizantes, indo à definição do Cânon das Escrituras, a listagem dos Sacramentos, a solução das controvérsias, a definição das doutrinas centrais nos Credos. Mas, também no segundo século, estava universalmente definida a continuação do ministério apostólico pela tríplice ordem dos Diáconos, dos Presbíteros e dos Bispos.
Com a criação dos modelos eclesiásticos do presbiterianismo e do congregacionalismo, no século XVI, e com a desordem denominacionalista a partir do século XIX, vive-se a contradição de afirmar a iluminação do Espírito Santo nas decisões tomadas pela Igreja como instituição nos primeiros séculos, e, ao mesmo tempo, a negação da iluminação do Espírito Santo na organização dessa instituição que tomou aquelas mesmas decisões.
O Liberalismo, universalista, tem pretendido negar a instituição e suas deliberações mantidas ao longo dos séculos (consenso dos fiéis), apelando para a legitimação do ativismo social. O Cristo como um dos caminhos, teria a Igreja-Sociedade como apenas uma das agências. O Conservadorismo Protestante tem pretendido manter as deliberações e negar a instituição, apelando para a legitimação do ativismo missionário. Ambos fogem do dilema eclesiológico com o apelo para uma pretensa “unidade espiritual”, metafísica, neoplatônica, quando o espiral de cismas e fragmentações, como expressão do pecado, vai se tornando um escândalo, apoiado e justificado por uns e visto como “natural” e “inevitável” por outros.
A condenável pretensão da Igreja de Roma e da Igreja Bizantina a serem, cada uma delas, a “verdadeira igreja”, como instituição, não se pode responder com a condenável pretensão a uma unidade apenas espiritual e fraternal. Ambos os desvios estão a anos luz do que foi a Igreja do século II e III, base de tudo que somos.
A Igreja de Jesus Cristo está hoje presente em todos os continentes. A questão do Evangelho a ser missionado vs. a cultura dos missionários ainda está irresolvida, vide 100 milhões de membros das Igrejas Africanas Autóctones. A Missão Integral tem sido parcializada, a ética profundamente arranhada, a inculturação obstaculada pelas importações forâneas, o poder do Espírito Santo minimizado pela confiança nas técnicas, nos métodos, nos especialistas, nos recursos materiais e humanos. O conhecimento da verdade enfraquecido pelas heresias racionalistas e pelas heresias emocionalistas, pela reconstrução da igreja à luz de ideologias, culturas e poderes nacionais. Dois mil anos de História, de Martírio, de Exemplos, jogados no lixo pela arrogância, pela rebeldia, pelo narcisismo, pela megalomania.
Que esse tempo de Quaresma seja uma reafirmação da Igreja como sacramento, mistério, criada pela vontade de Deus, recuperando a sua natureza e a sua destinação.
Que a Igreja possa voltar a ser estudada teologicamente, e não apenas jurídica, administrativa ou tecnicamente. Que se reafirme a Igreja e se reafirme a ausência bíblica do conceito de denominação, e o caráter herético e pecaminoso do denominacionalismo.
Que se rejeite como carnal essa negação da iluminação do Espírito Santo sobre a organização da Igreja, outra forma de dualismo, pois a unidade da Igreja não pode ser apenas “espiritual”, mas concreta, histórica, pois, como bem já se afirmou: “Um corpo sem alma é um cadáver; uma alma sem corpo é um fantasma”.
Que haja na Igreja, nesse tempo de Quaresma, arrependimento pelos pecados na e da Igreja!
Que haja joelhos em terra, bater nos peitos, sacos e cinzas!
A Igreja não é o Reino, mas é a única Agência do Reino. Ele virá para buscar a Sua Igreja, que com Ele um dia irá reinar.
Fora da Igreja não há salvação!
“Deus Todo-poderoso, louvamos-te pelas bênçãos trazidas à humanidade através da tua Igreja; bendizemos-te pela graça dos Sacramentos, pela comunhão que em Cristo temos contigo e uns com os outros, pelo ensino das Escrituras e pregação da tua Palavra, pelos exemplos de virtude dos teus santos, pelos teus servos fiéis que já partiram e pela recordação feliz que nos deixaram de quanto em suas vidas foi verdadeiro e bom. Junta-nos a eles na companhia dos teus redimidos. Mediante Jesus
Cristo, nosso Senhor. Amém” (LOCb).
Paripueira (AL), 01 de março de 2010,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Seg, 22 de Março de 2010 18:28)
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