Sermão de Encerramento do XXIX Concílio Diocesano
XXIX Concílio Diocesano
Sermão de Encerramento
Jaboatão dos Guararapes (PE), 05 de dezembro de 2009
Sl 117; Am 5:18-27; Jd 1:17-25; Mt 22:15-22
Amados irmãos e irmãs,Graça e Paz!
Estamos chegando ao fim dessa jornada, que agora nos chama a refletir, a incorporar, a planejar, a projetar o que aqui pensamos para o Ano Eclesiástico que se inicia. Agradecemos a todos que trabalharam para o bom êxito desse Concílio, e pelo espírito conciliar de cada participante. Celebramos esse Culto no dia dedicado à memória de Clemente de Alexandria.
Louvemos ao Senhor por sua benignidade e por sua bondade. A Palavra nos chama a atenção para um culto sincero, em espírito e em verdade, e não para as cerimônias, festas e sacrifícios desprovidos de coerência, compromisso, sinceridade e autenticidade. A religiosidade oca não agrada a Deus, e traz o seu juízo para os tais que a praticam. Nesses tempos do fim, que antecedem ao fim dos tempos, já somos advertidos dos escarnecedores na Igreja, dos que se fazem caracterizar pela concupiscência e pelas divisões. A esperança do Dia Final nos move à piedade, à misericórdia, e à fidelidade ao glorioso Senhor das Nações, agora, e para todo o sempre.
Em nossa trajetória terrena, como Povo de Deus, somos ensinados pelo Senhor Jesus a cumprir as nossas obrigações lícitas para com as organizações desse mundo, e cumprir a nossas obrigações lícitas para com as organizações que nos aglutinam em torno do Senhor, mas, como nos adverte o recente Documento de Manhattan: “Não podemos, jamais, dar a César o que é de Deus!”. E essa orientação tem que ser vivenciada na concretude dos nossos desafios pessoais e comunitários.
Esse Culto não é apenas o encerramento de um abençoado Concílio Diocesano. Nele teremos a profissão de votos de um Noviço de ordem religiosa, teremos a formatura e a investidura de nossa primeira turma de Capelães, teremos reconhecimento de Ordem Diaconal e Ordenações Diaconais. Um dia, sem dúvida, de festa da fé, de celebração do sagrado, de alegria de vocações. Que o Senhor da Igreja esteja confirmando a obra das mãos de cada um, na diversidade de suas personalidades, chamados e carismas.
O eixo temático para o próximo ano será exatamente o das vocações. Tema tão bíblico, tão querido ao reformador Martinho Lutero, e tão atual e necessário para o crescimento quantitativo e qualitativo da Igreja, e para a consolidação do nosso projeto diocesano. Uma comunidade sadia deve ser marcada como um celeiro de vocações, inclusive ministeriais, e quando isso não acontece, algo de preocupante está a marcar negativamente a vida daquela comunidade e/ou da sua liderança. As vocações não são paroquiais, mas para a Igreja-Diocese e para toda a Igreja de Jesus Cristo.
Ser um ministro de Deus é um grande privilégio, uma grande honra e uma grande responsabilidade. Tantas vezes nos sentimos isolados, sobrecarregados, incompreendidos, não apoiados, e somos tentados a desistir e “cuidar da nossa vida”, ou, qual Jonas, a tomar o navio para Társis e não para Nínive. Os ministros, em geral, são seres solitários, e, como outros cristos, sofrem o peso da cruz.
Essa Diocese já presenciou quem a abandonasse em busca das honras e dos cargos, quem as abandonasse em busca de vantagens, quem as abandonasse por terem esfriado do primeiro amor, deixado os fundamentos da verdade e cedido aos cantos da sereia do pecado e do mundo, ou aqueles que optaram por buscar as coisas antes do Reino. Nunca pude deixar de me entristecer com abjurações ou desvios daqueles que, por tantos anos, militaram no exército de Cristo, e agora se foram para águas turvas. Nunca pude deixar de me entristecer com os que, com ruptura ou sem ruptura de doutrinas e de ética, romperam os relacionamentos pessoais de tantas décadas. Em um tempo de esfriamento de afetos, deles e dos outros, aprendi a recolher os meus sentimentos incompreendidos, e a me lembrar do poeta quando escrevia: “Ri, e o mundo rirá contigo; chora, e chorarás sozinho”.
Nossa Diocese tem uma História, tem clero e tem povo, tem CNPJ, tem Estatuto, tem Cânones, tem doutrinas, tem orçamento, tem cargos, tem trabalhos, mas nunca superou a carência dos laços de afeição, particularmente entre os seus líderes. Sei que esse não é um problema apenas nosso, mas é um problema também nosso. Mesmo que isso nunca venha a mudar, não podemos ter outra atitude senão apontar para a sua existência e buscar a sua superação.
Partilho da preocupação de muitos com o nosso futuro institucional, mas tenho sido ensinado a esperar com paciência no Senhor. Partilho da inquietação de muitos com as nossas carências de finanças ou de pessoal, mas é o que somos e o que temos, e com esse poucos pães e poucos peixes nos tornamos permanentemente dependentes do milagre. A honra será sempre d’Ele e nunca nossa.
Apesar das nossas limitações, olhamos para trás e atestamos os feitos de Deus, e olhamos para frente e esperamos mais feitos ainda.
Celebramos a nossa inclusividade e o respeito às nossas individualidades e diferenças secundárias, mas sempre em respeito mútuo e em respeito aos limites impostos pela Palavra de Deus e pelos parâmetros que marcam a nossa identidade anglicana. Como pessoa, como cristão, e como pensador, tenho minhas ideias e minhas preferências, me identifico com correntes internas e externas, mas a responsabilidade do cargo me impõe o compromisso de nada ensinar que não seja respaldado pelo Livro de Oração Comum, de 1662, especialmente os XXXIX Artigos de Religião e o Ordinal, ou, mais contemporaneamente, pelas Resoluções das Conferências de Lambeth.
Somos cercados pelo mundo globalizado e suas tentações materialistas, pelas atraentes propostas seculares e religiosas oriundas dos centros hegemônicos. Mas, o Senhor nos colocou nesse lugar chamado Brasil, com sua história, sua cultura e seus desafios. As Igrejas que mais contribuíram para a história do Cristianismo foram aquelas que contribuíram para o todo a partir da sua inserção local, seja em Roma, em Bizâncio, em Antioquia ou em Alexandria. Creio que os nossos seminaristas e os nossos pastores necessitam conhecer o Anglicanismo para que ele sirva de padrão para o que nos vem de fora, e conheçam a Cultura Brasileira e a Teologia Latinoamericana, para que sirvam de padrão para o que nos vem de fora. Sabemos que não foram os saduceus helenizados quem tornaram possível a sobrevivência do Judaísmo, como cultura e como religião.
O uso das nossas vestes peculiares, da nossa maneira de mobiliar e decorar os templos, o uso diligente do Livro de Oração Comum Brasileiro (LOCb), que não contém palavras de Cranmer, mas é um depositário de um rico tesouro de espiritualidade de muitos séculos e lugares, e compatível com a complementação das palavras de hoje, o conhecimento da nossa história, do nosso ethos, da nossa rica reflexão teológica concorrem para sermos e não para não sermos ou quase sermos, ou em parte sermos. Assim não chegamos ao todo de mãos vazias. Triste é não ser por não conhecer, ou pior, por não querer conhecer, ou, ainda, conhecendo e não concordando, permanecer não se sabe por quê. Creio que avançamos no uso do LOC na Liturgia Eucarística, mas ainda o temos ignorado na Liturgia da Palavra.
O processional precedido de um cruciferário não pertence a uma das nossas correntes internas, mas é uma marca da nossa espiritualidade, e que urge resgatar em nossa Diocese.
Em um mundo em que a ideologia secularista vem tentando varrer qualquer símbolo cristão do cenário público, e onde, por outro lado, os minaretes das mesquitas vão alterando, com grande carga simbólica, o cenário das cidades ocidentais, o radicalismo iconoclasta de fundo anabatista que marcou a inserção do protestantismo em nosso continente, e a recente onda informalista das chamadas igrejas emergentes, por mais bem intencionadas que sejam as suas motivações, se tornam, de fato, em fortes colaboradores os nossos adversários, pois a hegemonia cultural passa, necessariamente, por uma afirmação de símbolos. Nós, os anglicanos, temos uma grande responsabilidade em manter os símbolos cristãos no espaço público, incluindo-se o uso evangelístico e pedagógico do colarinho clerical. Vestes e símbolos a serviço da missão do Reino.
Em 2010 estaremos comemorando os 120 anos de Anglicanismo Missionário no Brasil, e, nada mais justo, que a nossa Diocese assuma um calendário de eventos alusivos, visto que a Província Anglicana brasileira é a única denominação deste país a romper com o ideário dos seus fundadores. Nós, contudo, somos legítimos herdeiros e continuadores do sonho evangélico e evangelístico de Kinsolving e Morris. 120 anos depois, ainda não temos comunidades anglicanas em 90% dos municípios brasileiros. Em outros casos há igrejas de imigrantes, igrejas liberais e/ou igrejas ditas Continuantes. Recebo, com frequência cada vez maior, correspondências de pessoas que conheceram o Anglicanismo ortodoxo quando de visita a outros países, ou são admiradoras do Anglicanismo pelo estudo da História e dos teólogos anglicanos contemporâneos. Muitos são assíduos frequentadores da nossa página na Internet. Alguns pediram para comprar o LOCb por via postal. Essa parcela de cristãos precisa encontrar em nós a disposição de resposta às suas aspirações.
No próximo ano teremos eleições gerais em nosso País, e é nosso dever estar bem informados, veicular informações, interceder pelo processo e pelos postulantes, nos envolver como cidadãos e ter, como Igreja, uma voz profética. A falta de ética, de programas e de compromisso público, por parte dos que ocupam ou aspiram um cargo na direção do Estado, são desafios constantes. Não devemos cair no contínuo pecado da omissão.
Meus irmãos e minhas irmãs,
Espero continuar a contar com a colaboração de todos nesses anos que me restam à frente do Episcopado. Certa vez um jovem – hoje bem sucedido cientista social – disse que a minha vida seria marcada como um advogado das causas perdidas.
A primeira “causa perdida” seria a minha defesa da responsabilidade social da Igreja, atropelada pela polarização entre “evangelho social” e “evangelho individual”, entre fundamentalismo e liberalismo, entre pentecostalismo e teologia da libertação, com muita gente achando que ação social é algo para os governos, que devemos apenas cuidar das almas. A grande massa dos cristãos é de fato insensível ou acomodada. A grande maioria das Igrejas não tem qualquer projeto social, e quando tem, em geral de cunho meramente assistencialista, e a maioria dos seus membros não se envolve. Muito da miséria desse país seria minorada, se esse aspecto da Missão Integral fosse levado a sério.
A segunda “causa perdida” seria a minha defesa da participação política dos cristãos, que esqueceram o passado, se omitem, tem preconceito, ou, o pior, muitos participam dando mau testemunho, fazendo o jogo da anti-ética reinante no país. Esse outro aspecto da Missão Integral parece ser muito menos levado a sério.
A terceira “causa perdida” seria a minha defesa da elaboração de uma teologia, de uma ética e de uma pastoral da sexualidade, que se baseassem em uma leitura honesta das Sagradas Escrituras com uma abertura para a contribuição analítica das Ciências Humanas. Para tanto, escrevi dois livros e vários artigos, pronunciei muitas palestras.Clamei no deserto e ainda fui apedrejado, pois as opções ou são pelo atrelamento a cultura tradicional e a repressão, ou a cultura vanguardista e a permissividade.
Com a idade que tenho, a luta que travo agora é para que a implantação de uma jurisdição verdadeiramente ortodoxa e verdadeiramente anglicana no Brasil venha a ser uma realidade, como alternativa diante de tantas opções que o mercado religioso oferece, e uma alternativa séria e positiva. Espero que esse projeto ao qual venho dedicando os últimos doze anos da minha “aposentadoria” não seja, no outono da minha existência, a minha quarta, e última, “causa perdida”.
Edilson e Silvana,
Uma palavra especial para vocês nessa data tão importante e inesquecível de resposta ao chamado do Senhor. Diante de tudo e de todos, não temam, resistam, perseverem, busquem forças no Autor e Consumador da nossa fé. Tornem o Evangelho relevante para a sua geração. Que esse seja um passo antes de tantos outros que a Providência lhes reserva. Contem com a solidariedade do seu Bispo, e dos seus irmãos e irmãs clérigos e leigos.
Jorge,
O Senhor optou por você e você optou por nós, e nós o acolhemos em amor. Bem vindo ao porto seguro e ao lar acolhedor. Essa é a sua casa, a sua Diocese. Juntos, construamos o futuro, com idealismo de alvos e realismo de passos, e que o Senhor o abençoe.
Meus irmãos e minhas irmãs,
Daqui saiamos todos para escrever novos capítulos em nossas existências e na trajetória da Igreja de Jesus Cristo em nossa Pátria.
A Ele toda a glória! Dele toda dependência!
Jaboatão dos Guararapes (PE), 05 de dezembro de 2009.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Sáb, 12 de Dezembro de 2009 09:31)
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