Sermão de Abertura do XXIX Concílio Diocesano
XXIX Concílio Diocesano
Sermão de Abertura
Jaboatão dos Guararapes (PE), 03 de dezembro de 2009
Sl 16; Am 5:1-7; Jd 1:16;Mt 22:1-14
Meus amados irmãos e irmãs,
A Graça e a Paz do Nosso Senhor e Salvador seja com todos vocês!
Bem vindos ao XXIX Concílio Diocesano!
Nesse tempo do Advento, nesse dia dedicado à memória de João Damasceno (760 a.D.) e à promulgação de um dos mais importantes documentos confessionais da História da Igreja, a Confissão de Westminster (1646), nos reunimos reafirmando a herança apostólica, a memória dos mártires, o legado dos Pais da Igreja e a sã doutrina, católica, ortodoxa e reformada. Desde o Concílio de Jerusalém, registrado no capítulo 15 do livro dos Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo tem estado presente em ajuntamentos solenes e sinceros da liderança do povo de Deus, para iluminar mentes e corações na direção da verdade, e no governo do Corpo de Cristo, enquanto Igreja militante. Iniciamos esse Concílio com essa invocação ao Paracleto e com a mesma disposição de buscar a vontade de Deus para nossa época e lugar.Com o salmista, reafirmamos a nossa confiança em Deus e em seu Senhorio, o louvamos e nos regozijamos com sua glória, pois Ele é o nosso livramento e aquele que guia os nossos passos em todas as circunstâncias. Com o profeta, cremos que é na busca ao Senhor que nós podemos ter vida, e lamentamos quando o povo que se diz seu não o busca, infringe os seus estatutos e se coloca sob o seu juízo. Desde os primórdios, a Igreja registra problemas internos, com os que andam segundo as suas concupiscências, arrogantes, murmuradores e interesseiros, segundo lemos na carta apostólica. Não seja assim entre nós, e em sendo, nos arrependamos, e lamentamos os que assim são em outros arraiais, trazendo danos ao Evangelho e aos eleitos de Deus. Ao contrário dos mal ouvidos convidados às bodas, cheguemo-nos com motivação, com alegria e com dignidade à festa do Filho do Rei, honrados por sermos seus convidados, de estarmos dentre os poucos escolhidos na multidão dos chamados.
Meus irmãos e minhas irmãs,
Somos chamados a proclamar o Evangelho e a viver o Evangelho a uma humanidade que, pela primeira vez em sua multimilenar história consegue ameaçar a sua própria sobrevivência, e a desse planeta que é o nosso lar. Mais do que nunca, a natureza geme por sua redenção. De guardiães e continuadores da obra da Criação, o ser humano tem-se tornado o seu agressor. E para esse ecopecado, a palavra profética do Povo de Deus deve se fazer ouvir, em defesa da integridade da Criação.
Vinte anos nos separam da queda do Muro de Berlim, quando outros “muros da vergonha” vão sendo fisicamente construídos, como na fronteira entre o México e os Estado Unidos, ou entre Israel e a Palestina, além dos muitos muros que separam os que têm dos que não têm; os privilegiados, os explorados e os excluídos: nações, regiões, classes sociais, etnias. Muros nos corações humanos de pedra, que os separam de Deus, do próximo, de si mesmo e da natureza. Como o véu foi rasgado, Jesus, o Messias, é o único capaz de derrubar os muros das separações, e foi Ele quem nos confiou o ministério da reconciliação.
A cultura da morte vai concorrendo para a não-gravidez, para o aborto, para o homossexualismo e para a eutanásia, que já prenuncia o fim da velha Europa da Cristandade, substituída pela mão de obra dos seguidores do Islã. Diante da cultura da morte, a palavra profética do Povo de Deus deve se fazer ouvir em defesa da vida, desde a sua concepção.O fim da União Soviética viu o Estado opressor ressurgir no Ocidente, a nos impor, com sua crescente cristianofobia, a ideologia secularista e a agenda GLSTB, que ameaça criminalizar os postulados éticos da fé revelada.
Somos chamados a proclamar o Evangelho e a viver o Evangelho em um país com uma opinião pública manipulada pelo monopólio ideológico dos meios de comunicação, que deforma e distorce os fatos, e anestesia o nosso senso crítico. A fome, a miséria, a ignorância, a violência, a desonestidade, a injustiça continuam a ser pecados nacionais, enquanto a multidão dos que creem vai se mundanizando, corrompida e pelo poder. E, onde está o Povo de Deus como “consciência moral” da nação? Povo de Deus desobediente por sua fragmentação escandalosa, dilacerando o Corpo de Cristo, sob a passividade fatalista dos nossos olhares. Desobediente pelos falsos ensinos do liberalismo e do sincretismo. A promessa do Senhor em estar com o seu povo até a consumação dos séculos, passa pelo levantamento de um remanescente fiel, capaz de andar na contramão do século, e pagar um preço por isso.
Contramão em relação a César, e em relação a Herodes, em relação ao Império e em relação aos Reinos, honrando a Deus com a vivência santificante em nossa cultura, em pensar com as próprias mentes iluminadas, em olhar com nossos próprios olhos, em elaborar propostas e construir os nossos próprios caminhos, fazendo o que nos cabe fazer quando a história nos dá a oportunidade e o desafio para tanto.
Canalizando a imagem de Deus e reprimindo o pecado, devemos concorrer para o pacto democrático, mas, como o escravismo e o feudalismo passaram como modos de produção, assim também acontecerá um dia com o capitalismo, a quem não devemos nos atrelar, mas buscar a promoção de uma economia solidária, quando cada um venha a ganhar o seu pão com o suor do próprio rosto, e não com o suor do rosto do seu próximo.
Diante dos desafios de cada tempo, apelemos para o eterno da revelação, que se encarnou, e que se fez história, com o Espírito Santo derramado sobre a Igreja através dos séculos, inspirando o Cânon bíblico, e iluminando o consenso dos fiéis. Essa é a catolicidade da nossa fé, que a Reforma pretendeu purificar e reafirmar, atualizando as suas implicações e aplicações sempre. Como evangélicos, continuamos a desafiar a todos ao novo nascimento, que nasce de algo, para também que nasce para algo.
Se a crise do Ocidente, com o seu secularismo, chegou até o nosso país, aqui também chegou o seu subproduto religioso: o liberalismo pós-moderno revisionista. Esses desafios requerem de cada um de nós, e de toda a comunidade de fé, uma atitude de quietude interior e de repouso em Deus, firmeza de convicções, conhecimento da Palavra, da História, e do modo cristão de pensar. Requer profundidade e solidez, não o correr desenfreado em busca de novidades, nem o descontrole do emocionalismo, nem a fuga pelo misticismo, nem a manipulação do sagrado, nem a estreiteza mental do literalismo e do legalismo.
Conteúdo, herança, legado, identidade, que o GAFCON tão bem chamou a nossa atenção, o ano passado, em Jerusalém, no tocante ao Anglicanismo. Não somos um ajuntamento de uma diversidade ilimitada, um mero melhor barco para se pescar, um lugar para a busca de interesses de grupos ou de interesses pessoais. Mas o conhecimento do conteúdo doutrinário, ético, teológico e litúrgico do Anglicanismo, conhecimento com convicção, que nos firma para resistir ao dia mau.
Devemos, periodicamente, e de forma honesta, nos perguntar: Por que estou aqui? Por que a denominação dos meus sonhos não me deixa ser Ordenada por eu ser mulher, ou por eu ser divorciado, ou porque bebo, danço ou fumo? Devemos permanecer em um casamento, em que desprezo o meu cônjuge e vivo a fantasia da valorização de outro cônjuge ideal? Não se está pedindo uniformidade, nem suicídio intelectual, mas conhecimento, convicção e valorização do que se pretende ser. Isso requer se ir além do individual e dos particularismos, para a construção harmônica do todo. Anglicanismo, diocesanidade, episcopalidade, são precondições se queremos ser algo relevante e ter algum futuro.
Convicção anglicana não quer dizer sectarismo ou denominacionalismo, mas algo peculiar a se contribuir para o todo da Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica. As Igrejas unidas da Ásia ultrapassaram as denominações, juntando a riqueza de cada uma no todo de novas instituições, sendo esse fenômeno um dos melhores frutos do movimento ecumênico. No Ocidente, porém, o antidenominacionalismo apenas viu multiplicar novas denominações, empobrecer o conteúdo das denominações, ou substituir a maturidade das instituições pelo caudilhismo eclesiástico de lideranças personalistas.
Durante esses 12 anos, temos insistido na identidade anglicana, e na eclesiologia episcopal-diocesana, porque sem isso seríamos qualquer coisa, menos uma Diocese Anglicana, e porque cremos que esse projeto coletivo não sobreviveu por si mesmo, nem sem sentido, mas porque tem algo a ver com a Providência divina para o nosso País, e para a Igreja nesse País.
Temos enfrentado muitas dificuldades externas e internas, mas o Senhor nos mandou resistir, avançar e estender as tendas. E temos procurado obedecê-lo. Não vivemos a nossa fé apenas no recôndito dos nossos seres, mas no tempo, no espaço, na cultura e na conjuntura, ao que somos chamados a conhecer, discernir, interceder e intervir.
Meus irmãos e minhas irmãs,
Demos graças a Deus por mais um ano de existência da nossa Diocese, e por tudo que aconteceu em seu meio no ano que agora termina, por cada pessoa que veio a confessar a Jesus Cristo como Senhor e Salvador, por cada conversão ou reconciliação, por cada passo na caminhada da santidade, por cada dúvida esclarecida, por mais altos ideais adotados, por cada cura ou libertação demoníaca, pela presença da paz, pelas obras de amor e de justiça. Graça a Deus por cada Batismo ou Confirmação, pelos novos espaços dedicados ao culto, por cada resposta à vocação, por cada instituição ou Ordenação.
Graças a Deus pela vida e ministério de cada clérigo e de cada leigo. Pela publicação do Livro de Oração Comum Brasileiro (LOCb), do livro sobre Anglicanismo, pela reedição do livreto sobre a Diocese e a Sua Doutrina, pela nova fase da nossa página na Internet, e pelo ministério do Maná, das reflexões dos clérigos e dos leigos, pelo alcance da nossa lista, pelo trabalho dos nossos Seminários, dos nossos Arcediagos, Secretários, Juntas e Comissões, pelo labor de base em cada Paróquia, Missão e Ponto Missionário, pela criação dos IATs, pela consolidação do Arcediagado Sul/Sudeste, pelo nosso relacionamento com os segmentos ortodoxos na Comunhão Anglicana.
As nossas visões se alargaram, o nosso território se alargou, o nosso povo se alargou, o nosso compromisso se alargou, a nossa missão se alargou, a nossa responsabilidade se alargou, a nossa satisfação se alargou, a nossa alegria se alargou, porque do Nordeste o Senhor da Igreja nos projeta para o País, nos relaciona com o continente e com o mundo. Louvado seja Deus! A Ele toda a honra e toda a glória! Porque nossas tendas se estenderam e sob ela muitos encontraram e encontrarão abrigo. Tenhamos sempre abertura e grandeza de atitude e de gestos, e sejamos dignos da honra e da tarefa que do Senhor recebemos.
Amados irmãos e irmãs,
O Concílio começa. Construamos com nossos gestos, sentimentos e palavras esse momento, como um só coração e uma só alma, deixando Ele operar em nós, fazendo novas todas as coisas.
Vivamos a festa das bodas do filho do Rei! E que Ele nos abençoe, agora e para sempre. Amém!
Jaboatão dos Guararapes (PE), 03 de dezembro de 2009.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Sáb, 12 de Dezembro de 2009 09:33)
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