Sermão de Ordenação Diaconal do Rev. Carlos Alberto Chaves
| Ordenação Diaconal |
| Isaías 61:1-11 Meus caríssimos irmãos e irmãs, Diante do Trono da graça, contritos prestamos um culto em Espírito e Verdade, ao Deus Triuno: Pai, Filho e Espírito Santo. A Ele seja sempre toda honra, louvor e glória. E nós, seus humildes servos, somos por Ele sarados, por Ele edificados, por Ele revigorados pelo mistério do culto, pela relação com o transcendente, pela consciência do Sagrado e um Sagrado que faz diferença em nossas vidas. Estamos iniciando o Tempo da Quaresma. Na quarta-feira passada, a cinza nos chama a atenção para a nossa finitude, para o que um dia esses corpos mortais serão, e, ao mesmo tempo, para a necessidade de humildade e constante busca do perdão e de purificação. Esse é um tempo em que o Espírito conduz ao deserto com Cristo, conduz à tentação com Cristo, mas que, também, tira do deserto e torna possível sempre a vitória sobre a tentação. No silêncio e na solidão do deserto, nos encontramos conosco mesmos, nos encontramos com Deus e nos encontramos com o demônio. No jejum e na solidão – semelhante ao Messias – sentimo-nos fracos, e temos sede e fome. Na solidão do deserto lutamos contra o inimigo das nossas almas, no duelo em torno do conteúdo da Palavra de Deus. Se o inimigo a usa, ela é, também, a única arma que nos permite derrotá-lo. A graça do Espírito nos cerca de anjos que nos ministram, e que saciam as nossas necessidades materiais e espirituais. Durante esses 40 dias, pois, sigamos as pegadas de Cristo, aprofundemos a nossa identidade, como testemunhas dos seus ensinos, dos seus exemplos, dos seus milagres; citamos o peso da sua traição, da sua paixão, o momento difícil da sua morte e da sua ressurreição. A Quaresma nos marca, nos faz contemplar a Ascensão, nos prepara para o Pentecostes, antecede a missão. Nesta noite a Igreja prossegue em sua trajetória, de misérias, martírios e glórias, até a consumação dos séculos. Prossegue pelo ato de cultuar, pela partilha da Palavra e pela partilha dos Sacramentos, pela comunhão dos santos. Mas, de forma particular, pela Ordenação de um Ministro, co-responsável pelo receber, preservar, vivenciar e transmitir o Sagrado Depósito da fé apostólica. Rev. Carlos Alberto não é um neófito, um iniciante, mas alguém que uma vez chamado e separado para o santo Ministério, já respondeu o chamado do Seu Senhor, e durante décadas com suas fraquezas e seus dons o tem servido com alegria. A História da primeira e segunda Alianças foi feita por pessoas que foram usadas por Deus. Então, por que a Ordenação esta noite? Em primeiro lugar, do ponto de vista humano, fazemos migrações existenciais e elas são marcadas por ritos de passagens em nossa vida pessoal e comunitária, e por necessidade de integração a novas comunidades, novos símbolos, novos códigos, novas sub-culturas. Lembro-me das minhas duas migrações: aos 18 anos, da Igreja de Roma para a Igreja Luterana, e aos 31 anos, da Igreja Luterana para a Igreja Anglicana. Entre leituras, diálogos, convivência, ritos levei – em média – dois anos para substituir uma identidade por outra. Rev. Carlos Alberto, vai deixando para trás os seus tempos de bom e dedicado presbiteriano e avançando para os novos tempos de bom e dedicado Anglicano, parcelas ambas da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica de Cristo. Em segundo lugar, do ponto de vista institucional, cremos na Igreja Anglicana, que os ritos sacramentais de Ordenação ao Diaconato, Presbiterato e ao Episcopado têm um caráter sacramental, nos integram, de forma mística, a um segmento de servos, herdeiros espirituais da Ordem de Melquisedeque e da Ordem de Arão, continuadores, por dois mil anos ininterruptos, da mensagem das grandes Sés históricas, que foram epicentros de radiação missionária, tendo nos Bispos símbolos de unidade, guardiões da fé, e transmissores dessa dimensão sacramental que sela o reconhecimento pela comunidade de fé, e pela instituição dessa vocação específica, legitimando o seu exercício no vínculo com a totalidade da Igreja. A Igreja Anglicana sempre reconheceu o caráter de verdadeiras Igrejas, para aquelas comunidades de fé que após a Reforma Protestante construíram o seu governo nas formas congregacional e presbiteral, embora considere lamentável a ruptura à vida por setores reformados do Episcopado histórico, que por 16 séculos garantiu em todos os ramos da Cristandade, e em todo o mundo, a Sucessão Apostólica. A ausência de Episcopado não descaracterizaria uma Igreja, mas a privaria de um Ministério que foi elaborado pelos Pais Apostólicos e pelos Pais da Igreja. O Episcopado, ao lado da formação do Cânon Bíblico e da descrição das Doutrinas centrais da Igreja, contidas no Credo dos Apóstolos e no Credo Niceno, forma um tripé que sustentou e sustenta a Igreja, cremos porque assim aprouve ao povo de Deus, aos Ministros de Deus, e ao próprio Espírito Santo. Tomemos a imagem de um ser humano em sua formação. Ele passa por três estágios: o primeiro como embrião; o segundo como feto; e, o terceiro, como nascituro, o novo ser. Não há nada de errado com o embrião, apenas que ele é um estágio transitório e deverá evoluir para o estágio seguinte de feto. Não há nada de errado com o feto, apenas que ele é um estágio transitório e deverá evoluir para o estágio seguinte de nascituro. Assim aconteceu com a Igreja: em seu momento embrião, descrito no livro dos Atos dos Apóstolos, e pelas ilações tiradas das Cartas Apostólicas, um punhado de novos crentes se descola do tempo de Jerusalém (que viria a ser destruído) e é obrigado a se reunir em residências, às margens dos rios ou nas catacumbas, ensaiando uma organização básica. O equívoco dos congregacionalistas foi procurar tornar normativo e definitivo o embrião, acrescido das normas parlamentares de Westminster, inexistente tanto nas Sinagogas dos Semitas, quanto na Agora dos helênicos. O equívoco dos presbiterianos foi procurar normativo e definitivo o estágio posterior: o feto, quando os ministérios diaconais, presbiterais e episcopais davam os seus primeiros passos, ainda não cristalizados. Esse ramo reformado, por outro lado, reflete o individualismo da nova classe hegemônica burguesa com a transição do modo de produção feudal, para o modo de produção capitalista. Mas, já no segundo século, tínhamos o nascituro, o bebê havia nascido; o Episcopado tão bem refletido por Inácio de Antioquia, Cipriano de Cartago e Irineu de Lyon, seria o modelo, o único modelo, para nestorianos e jacobitas, para bizantinos e para romanos, da Britânia à Índia. A Igreja Anglicana esperou o nascer do novo ser, e o vem aperfeiçoando ao longo dos tempos, ajustando-o às circunstâncias locais. Sempre julgamos que a recuperação do Episcopado e das Ordens plenas do Diaconato e Presbiterato seriam fundamentais para o caminho da Unidade da Igreja, e isso foi muito bem atestado, há mais de meio século, na criação das Igrejas Unidas do Sul da Índia, do Norte da Índia, do Paquistão e Bangladesh. Creio que o coração do Senhor Jesus, em sua oração sacerdotal, almejava para a Nova Aliança, um só povo e uma só instituição. Fatores culturais dividiam a Igreja no Oriente, fatores políticos separaram o Ocidente do Oriente, diferenças doutrinárias secundárias dividiram os reformadores, e hoje, o Espírito do século e a carne dilaceram o Corpo de Cristo em uma miríade de "denominações" e "sub-denominações", as mais exóticas. Nesse tempo de Quaresma, devemos lançar um olhar para o passado bíblico e para o passado da Igreja Antiga, para daí recuperarmos sua seiva; um olhar de realismo de consciência de pecado, e de busca do perdão, diante da crise porque passa a Civilização e a Igreja (esta última tanto em termos de unidade, quanto em termos de verdade), e lançarmos um olhar para o futuro, na esperança de que o Espírito continua a dar aos discípulos do Messias, a vitória que lhe foi concedida, tornando todos os desertos parte do passado, e a ministração angélica uma abençoada realidade do presente. Rev. Carlos Alberto, em pé e diante do seu Deus, e dessa expressão do povo de Deus, diante do seu Bispo, e diante da História, como Abraão na peregrinação entre Ur e Canaã, você está erigindo mais um altar esta noite. Altar como um lugar de culto, um lugar de comunhão, um lugar de santidade. A sua caminhada prossegue, alternando desertos e oásis, tentações e glórias, derrotas e vitórias. Apenas seja dependente, permita que Ele aperfeiçoe a sua força em suas fraquezas. E que o Deus-Pai, Criador; e que o Deus-Filho, Redentor; e que Deus, o Espírito Santo, Santificador, nos abençoe, nos guarde e nos dirija hoje e sempre. Amém! |
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