Sermão de Ordenação Presbiteral de João Peixoto de Siqueira Filho
| Ordenação Presbiteral |
| Sermão de Ordenação Presbiteral de João Peixoto de Siqueira Filho A todos os irmãos e irmãs, Quando nos reunimos em espírito e em verdade diante de Deus, estamos lhe prestando um Culto. Quando nossos corações estão cheios de alegria e de gratidão, esse se torna um Culto de Ação de Graças. Louvado seja Deus! Graças a Deus! O Deus que a tudo criou e a tudo e todos sustenta, o Deus que intervém, o Deus que fala e escuta, o Deus que providencia no meio da História das Nações e da existência humana, com suas grandezas e misérias. O Deus que rejeita o pecado e se dá em amor para o resgate dos pecadores. O Deus que estava em Jesus Cristo e o Deus que enviou o Espírito Santo. O Deus que fez aliança com Israel e o Deus que criou a Igreja como instituição e povo da Nova Aliança, canal de salvação, sinal do Reino, ensaio da Nova Humanidade que resultará do Juízo Final. Em seu poder ilimitado, Deus tudo poderia fazer diretamente ou por meio das suas legiões de anjos. Mas a ele aprouve criar os seres humanos, dotá-los de um mandato cultural, e, quanto aos salvos, regenerados, eleitos, usá-los para o anúncio e a vivência do seu Evangelho, a despeito da nossa finitude e de nossas limitações físicas, emocionais, espirituais e morais. Ele aperfeiçoa a sua força em nossas fraquezas! Deus sempre se manifesta diante dos seus escolhidos. E essa manifestação – em sua grandeza e santidade – sempre assusta os escolhidos. A iniciativa da manifestação e do chamado é sempre d'Ele, quando, como e a quem julga dever fazê-lo. Ao pecador é sempre impactante a visão do sagrado. A reação inclui êxtase, temor, sensação de impureza e de incapacidade. Ele é tudo e nós nada somos, mas Ele, o tudo, entrega uma tarefa a nós, o nada. Diante do nosso temor e pequenez, Ele é quem purifica – ontem com a brasa viva; hoje com o sangue do Seu Filho. É ele que nos outorga o poder, nos empodera, nos dá as condições de realizar o seu querer, e fazendo uma diferença em nossas vidas, podemos fazer diferença nas vidas das pessoas, e na própria História. Nascemos com talentos naturais, e estes são purificados com a conversão, redirecionados com a santificação, usados para o Reino. A conversão nos torna possuidores de dons para a edificação conjunta do Povo da Nova Aliança, a Igreja de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, em sua unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade, sempre se reformando ao projeto original do seu Senhor. Deus tem um projeto para cada um de nós, e não há felicidade enquanto não estivermos no centro da vontade de Deus, adequando os nossos projetos ao projeto de Deus para nós. Há multidões de infelizes porque ainda não se reconciliaram com Deus, e há multidões de infelizes porque se reconciliaram com Deus, mas não adequaram suas vidas à vida que Deus tem para elas. A esse projeto chamemos de vocação: uma tarefa específica no mundo. Em todas as profissões dignas Deus tem vocacionado e tem os seus vocacionados. Na Antiga Aliança escolheu a tribo de Levi, para servi-lo, de modo especial junto ao Templo. Na Nova Aliança, são tribos de todas as tribos, que têm representantes no novo sacerdócio da Palavra e dos Sacramentos. Alguns em tempo integral, alguns em tempo parcial (os "fazedores de tenda"), alguns voluntários. Todos dignos e todos importantes, no que fazem com sinceridade para o seu Deus. Cada cristão é um sacerdote do Altíssimo. "Sacerdócio Real", nas palavras do apóstolo Pedro, capazes de trazer Deus às pessoas e levar as pessoas a Deus. Há tantos ministérios na Igreja e tantas missões no mundo, que há sempre lugar para todos, e ainda falta, "porque grande é a seara e pouco os obreiros". O Senhor chamou a uns para pastores, outros para mestres, outros para evangelistas. Anunciar as Boas Novas, construir uma comunidade de fé, equipar os santos, servir aos necessitados, denunciar o mal e promover o bem. Que grande tarefa, diante do poderoso, mas derrotável, ministério da iniqüidade, de satanás e seus anjos caídos, da natureza caída em suas concupiscências. Por dois mil anos o Espírito Santo de Deus tem iluminado a Igreja na Ordenação de Bispos, de Presbíteros e de Diáconos, como líderes, coordenadores, aglutinadores, orientadores, dirigentes dessa travessia espiritual. O Anglicanismo, como ramo histórico, católico e reformado da Igreja de Cristo, com toda a seriedade possível, tem mantido essa tradição, que atualiza sempre a Igreja em sua missão, em cada tempo e em cada lugar. O Rito Sacramental desta noite, com a apresentação, o exame, o juramento, a imposição de mãos do Bispo e dos Presbíteros sobre o novo Presbítero, que já é um Diácono, um servo dos servos de Deus, e que, cumulativamente, também permanece Diácono para sempre. Cada novo Presbítero é chamado para se comprometer, vencendo toda tentação de preguiça, de acomodação, de desvalorização, de procrastinação. Toda tentação de superficialidade, de realizar a obra de Deus de forma improvisada, impensada, insensata. Em uma era de instabilidade, de superficialidade, em que todos vivem pulando de galho em galho como consumidores de novidades, Deus quer homens e mulheres maduros para liderar o seu povo. Homens e mulheres comprometidos, toda vida e até a morte, dispostos a pagar um preço, de vidas em permanentes riscos de martírio. Compromisso, estabilidade, perseverança, paciência, bondade. Cada novo Presbítero deve estar de olhos e ouvidos abertos para o seu tempo, sua conjuntura, o seu mundo, porque é canal do Eterno para a História, e somente sendo bem informado, participante, poderá ser relevante. Métodos e ênfases podem e devem ser ajustados, atualizados, recriados, para que possamos tornar o Evangelho relevante para a nossa geração, sem concessões, porém, aos modismos e pecados do espírito da época. Coragem para manter, coragem para mudar, sabedoria para discernir entre o que deve permanecer e o que deve ser mudado, já nos ensinou um pensador. Gostaria, como Bispo e como amigo, ressaltar para o Reverendo João Peixoto, três ênfases importantes para a tarefa que já iniciou e para a tarefa que lhe espera. Em primeiro lugar, o compromisso com a Verdade, com o ensino relevado nas Sagradas Escrituras e na Tradição Apostólica, mantida pelo consenso dos fiéis, por vinte séculos, a despeito das heresias e da pressão, quase irresistível, das "ondas" periódicas da falsidade e da descaracterização. Há uma Verdade. O Espírito do Senhor é um espírito de verdade, e sê tu, Reverendo Peixoto, um guardião e um mestre da verdade, a qualquer preço. Em segundo lugar, o compromisso com a Unidade. Deus criou uma Igreja, que deveria ser uma como instituição e como organismo. A pecaminosidade dos seus membros, lamentavelmente, a tem conduzido, periodicamente, a rupturas traumáticas, a divisões. Por muitos séculos esse fenômeno triste era ainda limitado, raro, localizado. A Idade Contemporânea, contudo, tem sido a idade do dilaceramento institucional e relacional do Corpo de Cristo, com a Igreja dividida em um sem número do que chama de "denominacões", uma confissão viva do fracasso humano do ideal divino da unidade, monumentos à vaidade, com o esgarçamento das relações interpessoais dentre os membros do próprio Corpo de Cristo. Não há desculpas aceitáveis para esse pecado. Não há eufemismo ou malabarismo lingüístico, nem argumento neo-platônico que o justifique. É um estado permanente grave de pecado, e, como tal, deve ser visto e denunciado. Sê tu, Reverendo Peixoto um instrumento de Unidade nesta Diocese, no Anglicanismo, e para todo o Povo de Deus. Em terceiro lugar, o compromisso com o Amor. Nascemos com a ambigüidade afetiva de amar e odiar. Nosso amor humano, erótico ou fraterno, é limitado, imperfeito, inconfiável. Mas Deus nos amou de forma perfeita e nos outorgou, como fruto primeiro do Espírito Santo, o dom do amor, de um novo amor, de um amor diferente, porque vem a nós desde o céu. Amor que nos faz doar, servir, solidarizar-se, no grande salto existencial do egoísmo para o altruísmo. Amor que nos faz embaixadores de Deus e ministros da reconciliação. O mundo é um mundo de guerras, de homicídios, de agressões, de estranhamentos. A falta de amor afeta mortalmente a vida das comunidades de fé, das famílias, do trabalho, da convivência dos grupos e movimentos sociais, e a vida do próprio corpo político nacional e internacional. A própria disciplina eclesiástica tem se transformado em uma trágica sucessão de falta de amor. Sê tu, Reverendo João Peixoto, aberto para o amor de Deus em sua vida, um canal do amor para outras vidas. Compromissado, maduro, consagrado, que a Verdade, a Unidade e o Amor sejam marcas centrais em seu ministério, nesse tempo que, aparentemente, é o mesmo, mas que, na realidade, é um novo tempo. Como Bispo, em nome da Diocese, quero agradecer à sua esposa, aos seus filhos, aos seus familiares, aos seus amigos e colegas, aos irmãos e irmãs da comunidade de fé onde você serve, que são, cada um em seu papel, seus apoiadores, e co-responsáveis pelo êxito do seu ministério. Quero agradecer a presença de todos esta noite neste santo lugar. Sei que vocês não estão aqui para apenas cumprir um compromisso social, mas para expressar a sua solidariedade a alguém que vocês amam e consideram. Meu caro Reverendo João Peixoto, No dizer dos velhos pescadores: "o mar não está para peixe". Esse é um tempo difícil e complicado, porque é uma crise de transição de Civilização. A Igreja de Cristo, inserida nesse mundo, não poderia deixar de estar afetada por essa crise, inclusive a nossa amada Igreja Anglicana. O nosso País vem sendo marcado pela violência, pela corrupção e pela injustiça social. Os desafios são tão grandes, a insensibilidade tão grande, a falta de respostas tão grande, que, até, teríamos o direito de desanimar. Mas Ele aperfeiçoa a Sua força em nossa fraqueza, e, em Sua Providência, Ele quis que você nascesse e vivesse nesse tempo e nesse lugar, e não em algum lugar do passado ou em algum lugar do futuro. Fique firme, meu irmão, pois, no dizer popular dos crentes: "Deus tem negócio com você". A História – e, particularmente, a História da Igreja – se faz assim. Hoje estamos fazendo História! Louvado seja Deus, hoje e sempre. E que sua bênção caia copiosamente sobre nós, hoje e sempre. Amém e Amém!
+Dom Robinson Cavalcanti, ose |
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