Sermão de Ordenação Presbiteral da Revda. Silvana Gomes Venancio

Sermão de Ordenação Presbiteral da
Revda. Silvana Gomes Venancio
Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade
Copacabana (RJ), 31.07.2010
Salmo 75; Juízes 5:19-31; Atos 2:22-36; Mateus 28:11-20
Meus amados irmãos e irmãs,
Que a Graça e a Paz do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo seja convosco!
Gostaria de saudar a todos os presentes, aos fiéis anglicanos, aos irmãos e amigos de outras confissões, aos parentes e amigos de Silvana, que se reúnem nesse templo nessa noite para um momento que considero histórico.
Estamos em um momento de culto, e o salmista chama sempre a nossa atenção para que sejamos, antes de tudo, adoradores, pessoas de fé, de consciência do sagrado, que se relacionam com o transcendente, com o grande “Eu Sou”, em espírito e em verdade, glorificando e louvando ao seu nome, proclamando as suas maravilhas, os seus feitos. Celebramos sempre esse relacionamento que nos faz ser o que somos: aqueles que procuram o projeto de vida pautado por um Deus de Revelação, e que em suas vidas o anunciam.
Essa adoração ao sagrado não nos aliena da consciência que vivemos em um mundo caído, injusto, conflitivo, que a nossa fé é empurrada para dentro da História, com todas as suas contradições e ambiguidades, com todas as suas tragédias, tantas vezes incompreensíveis à nossa mente finita, quando enfrentamos adversidades gratuitas, e quando a insensatez faz o homem ser inimigo do seu próprio Criador. História também de possibilidades para sinalizarmos o Reino, confortados pela palavra que nos diz: “porém os que o amam sejam como o sol quando sai na sua força”, ou seja, iluminando, aquecendo, permitido ver as coisas de forma mais nítida, gerando vida.
A História, como interregno entre a Ordem da Criação e a Ordem da Restauração, tem o seu momento culminante com a encarnação de Jesus de Nazaré, e é impactada por uma cruz sangrenta e um túmulo vazio. O Messias veio. E a história continua a ser impactada por seus discípulos, que integram a comunidade messiânica, o povo da nova aliança, a Igreja sobre a qual foi derramado, de forma muito especial, o Espírito Santo, que faz covardes virar corajosos, tímidos virar audazes, havendo um lugar único para um discurso que impacta. As profecias se cumpriram. Jesus ressuscitou e subiu ao céu. E o discurso atinge corações e mentes, no milagre sempre negado e sempre afirmado da conversão. E os convertidos formam uma nova comunidade, da fé e da partilha.
Comunidade chamada à atipificidade, ao escândalo, ao contraditório, ao inusitado, à esquisitice, porque é chamada à justiça e a paz, daí o enfrentamento com os poderes desse mundo sintonizados com as potestades espirituais da maldade nas regiões celestes. Poderes terrenos, que são poderes da mentira e poderes da corrupção. Esse sinal, antecipação e vanguarda do Reino, quando obediente e coerente, é sempre alvo da ira dos poderosos. Comunidade da cruz. Comunidade do martírio.
Mas é um mistério que essa comunidade sobrevive dois mil anos, a tudo e até as suas próprias fraquezas, testemunhando o funeral dos que pretenderam enterrá-la. É um mistério que a luz continua a vencer as trevas nas vidas das pessoas, com impacto ao seu redor. Mistério que alguém, diante de todas as possibilidades materiais que se descortinam em uma economia capitalista, resista aos apelos do hedonismo consumista, do materialismo prático e, sem ser masoquista, se sinta realizada em entrar pela porta estreita, com todas as limitações, privações e riscos e, não somente, opte pessoalmente pelo caminho da cruz, mas, ainda por cima, queira caminhar nas pegadas dos apóstolos.
Mistério e escândalo, mas os vocacionados sabem que nunca terão paz na desobediência ao chamado, na fuga a essa sacrossanta vocação. Os vocacionados se sentem incapazes, impuros, inadequados, dão mil desculpas, racionalizam, mas, ao fim, chega aquele momento singular do: “Eis-me aqui, envia-me a mim!”. E, a partir daí trilhamos os caminhos que não sabemos quais, na aparentemente louca aventura da vida cristã e, mais ainda, do ministério cristão.
A Ordenação de uma pastora, de uma anglicana mulher no Rio de Janeiro, que foi a última Diocese a realizá-la na velha Província brasileira, na retomada das convicções dos nossos pais fundadores e que, ainda nas primeiras décadas do século passado, escolheram o Rio de Janeiro como alvo missionário, é um momento singular, é um momento histórico, a sinalizar uma nova experiência e um novo tempo para esse ramo reformado da fé católica em terras fluminenses. A distância geográfica da Sé de Boa Viagem, no Recife, vai sendo superada, pela consciência de um projeto nacional.
Silvana é Ordenada em uma determinada conjuntura histórica, marcada pela pós-cristianização do espaço euro-ocidental, e pela cristianização do espaço ao sul da linha do Equador. Conjuntura marcada por sinais contraditórios de ceticismo, de misticismo e de fanatismo e, até, pelo fanatismo do ceticismo, já denominado, por um pensador inglês, de fundamentalismo iluminista. Esse cipoal de ideias permeia a mídia, a academia, o Estado e são, como sempre foram, em todos os tempos, um desafio para a tarefa apologética da Igreja, para os seus métodos e abordagens na sua missão.
O mundo neo-romano de um Império, de seus Pilatos e de seus Herodes, está aí. As desigualdades sociais e regionais em nosso País estão aí. A concentração do poder, do saber, da renda e da propriedade estão aí. Os tóxicos, a violência, a fome, a cegueira espiritual, as falsas propostas religiosas estão aí. Estão aí diante dos cristãos, e dos Ministros do Senhor. E quem disse que vida de cristão é fácil? E, mais ainda, que vida de pastor é fácil? Ele recebeu todo poder no céu e na terra, sopra sobre nós o Espírito Santo e, depois de nos ter chamado e transformado, nos manda: “Portanto, ide!”. Vai lá Silvana, que esses problemas são teus...
O problema maior, meus irmãos e minhas irmãs, é quando a Igreja, que deveria ser parte da solução, se torna parte do problema. E assim é uma das marcas da atual conjuntura, com um divisionismo escandaloso, com um falta de ética de arrepiar, com a proliferação do exótico e do delinquente, ao sabor dos caciques e da sua capacidade de manipulação.
Sou de um tempo de reduzido número de denominações, quando as convergências eram muitíssimas vezes maiores do que as divergências, quando o protestantismo brasileiro era um desdobramento do movimento missionário, herdeiro do avivamento Wesleyano, reformado, com pitadas salutares de pietismo e de puritanismo. Esse evangelicalismo moderado tem sido atingido pelo literalismo, pelo legalismo, pelo moralismo, pelo sectarismo, de um Fundamentalismo corrompido de um movimento confessante em um movimento esterilizante, pelo Pentecostalismo corrompido de um movimento renovador e dinamizador em um movimento patogênico, pelo Liberalismo corrompido de um movimento libertador em um fundamentalismo às avessas, com o radicalismo de um só dogma, a verdade única da ausência completa de verdade.
Como anglicanos brasileiros, somos cercados pela literatura e pela mídia fundamentalista, pentecostal e neopentecostal que nos rodeiam e que, com frequência, trazem danos às nossas comunidades e, talvez mais do que qualquer outro segmento cristão, temos sido vítimas da intolerância dos tolerantes, unitarianos-universalistas, em crise com o monoteísmo, em crise com a noção de revelação, em crise com a noção de verdade e, abjurantes, com zelo de sinais trocados, partem para a destruição dos que se interpõem em seu caminho na construção da civilização da paz, porque civilização sem verdade.
Enquanto isso o Secularismo, travestido de Laicismo, nos quer varrer do espaço público, silenciar a voz da fé, fazer calar os profetas, e nos reduzir à irrelevância da subjetividade ou do espaço privado dos lares e dos templos.
Tempos duros, Reverenda Silvana, mas são os nossos tempos, os seus tempos. Mas, lembre-se que diante de todos os tempos há a eternidade e há o eterno. E que o eterno chega até nós, até você, com a força da fé, o poder do Espírito, aperfeiçoando a Sua força em nossas fraquezas, abatendo os exaltados e exaltando os abatidos.
Portanto, minha irmã, ouça essa mensagem de um louco para outra louca: vale a pena a nossa loucura!
E que o Senhor da História, Senhor da Igreja e Senhor de nossas vidas, a assista, em todos os dias da sua existência e do seu ministério. Combata o bom combate, guarde a fé até o findar da carreira. Ele será contigo todos os dias. E Ele já venceu.
Que o Senhor nos abençoe!
+Bispo Robinson Cavalcanti
Bispo Diocesano
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Última atualização (Dom, 01 de Agosto de 2010 22:51)
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