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Comunhão Anglicana

 

  

 ROWAN WILLIAMS,

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA COM

O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

 

 

REVMO. EVILÁSIO TENÓRIO JR.

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“Uma Bênção... Trinta Anos Depois...”!

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“Uma Bênção... Trinta Anos Depois...”!

 

Algumas coisas mudam, outras não ou nem tanto, ou não tão rápido. Há trinta anos me encontrava residindo em Niterói, RJ, cursando o Mestrado em Ciência Política (como primeiro evangélico e primeiro nordestino), exercendo um ministério entre estudantes, como assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), e escrevendo (como primeiro autor evangélico brasileiro) um livro sobre Sexualidade, a pedido dos estudantes, e para preencher uma lacuna no mercado. Tentamos responder as indagações e ensaiamos um tratamento multidisciplinar, lançando mão, principalmente, da História e da Antropologia. Sexualidade, Política, Ação Social, foram temas que a Providência e a História me reservaram um papel pioneiro entre os evangélicos deste país. Pioneirismo sempre vem acompanhado de mal entendidos, preconceitos, incompreensões, reações. No caso particular da Sexualidade (quando não se tratar do sexo dos anjos...) a coisa é mais grave, porque nada teórica, mexe com o interior das pessoas e com os costumes onde as mesmas se inserem, seja na Igreja, seja na Sociedade.

 

A Primeira edição de “Uma Bênção Chamada Sexo” se constituiu, então, em um best-seller, seguida de um total de oito edições, amplamente vendidas nos países de língua portuguesa. Por anos fui convidado para debater o tema em igrejas, seminários, faculdades e congressos. Estávamos vivendo, em todo o mundo, o impacto da “Revolução Cultural” dos anos 60, que atingiu a Sexualidade, com a disseminação dos métodos de controle da natalidade, um questionamento das tradições e um novo papel para a mulher fora dos limites do lar.

 

O surgimento do vírus HIV-AIDS e a reação conservadora de segmentos sociais substituiu, nos anos 80 e 90 a “Revolução Cultural” por uma “Contra-Revolução” conservadora, embora algumas mudanças culturais tenham se tornado irreversíveis. No Brasil, a Teologia da Libertação, principalmente na Igreja Romana, concorreu para um certo afastamento da rígida moral do pontificado de Pio XII, que marcara aquela Igreja. Entre os Protestantes, o avanço do Fundamentalismo durante o Ciclo de Ditaduras Militares na América Latina, concorreu para a substituição do silêncio por uma enxurrada de livros, fitas e palestras de uma só linha: a extremadamente dogmática, literalista, legalista e moralista, que veio a marcar, de forma indelével, as últimas gerações. Todo estudo que expressasse outras abordagens do passado ou do presente no Protestantismo, foi sistematicamente censurado ou desqualificado. O desconhecimento, o silêncio ou o dualismo entre a rigidez do discurso institucional e a flexibilização na prática da vida dos fiéis, tem sido a realidade desse tempo.

 

Enquanto isso, no Brasil, foi aprovada a Lei do Divórcio, não optando pelo casuísmo (quais as causas que o justificam), mas, de forma responsável e realista, procurando legalizar situações, de fato, pré-existentes e irreversíveis. Em decorrência, e com muita rapidez, quase que desapareceu o preconceito social contra as pessoas divorciadas e/ou em segundas núpcias.

 

A Constituição Federal de 1988 e o novo Código Civil trouxeram profundas alterações no Direito de Família, como o pleno reconhecimento das uniões de fato, e a igualdade de todas as crianças, geradas quaisquer que sejam as circunstâncias.

 

As diversas denominações evangélicas elaboraram as suas próprias respostas a essas mudanças culturais e legais. No geral, porém, a reflexão sobre Teologia da Sexualidade e sobre Ética Sexual continua limitada e débil, o mesmo se diga do campo da Pastoral.

 

Nessa caminhada, fui taxado de “Liberal” pelos Fundamentalistas e de “Fundamentalista” pelos Liberais, quando o meu compromisso como Evangélico sempre foi com as Sagradas Escrituras, buscando obediência ao seu sentido original, e não às Tradições e às Traduções, quando pretendemos domesticá-las para que “apoiem” as nossas crenças. O Pré-Conceito termina por ser mais forte do que o Conceito e o Preceito.

 

Creio na grande importância da História da Igreja, particularmente da História do Pensamento Cristão. Devemos sempre nos perguntar se a nossa visão de um determinado tema, particularmente na área afetivo-sexual é a única, ou se em outras épocas e lugares cristãos convertidos, sinceros e estudiosos têm tido outras percepções, notadamente os Reformadores Protestantes do Século XVI. Há uma tensão constante entre Evangelho e Cultura. Conservadores têm sido caudatários das culturas tradicionais, e Liberais, agora, querem levar a Igreja a reboque da cultura ocidental cosmopolita Pós-Moderna. Resistir o atrelamento ou a justificativa das culturas é ato profético, e sempre resulta em tensões.

 

No Brasil, a grande novidade negativa das últimas décadas tem sido o silêncio teórico e a conivência prática com os “casamentos mistos”, biblicamente condenados, mas tidos como “necessários” do ponto de vista da realidade demográfica em que vivemos, com um maior número de mulheres do que homens no país, e, particularmente, na Igreja, e diante dos tabus de outras alternativas não-ideais.

 

A realidade biológica e o direito natural de toda pessoa humana ao prazer e a reprodução (e dos cristãos, “no Senhor”) continua a ser um desafio para as igrejas, que muito se beneficiariam se permitissem a Bíblia e os escritores bíblicos falar, e tomássemos consciência de que todos usamos “óculos” na leitura do texto sagrado. Por outro lado, com discernimento, é importante combater o antiintelectualismo e nos dispormos a escutar as contribuições científicas, pois, afinal de contas, Teologia, Filosofia e Ciência são apenas abordagens de uma mesma realidade criada por Deus.

 

Vale ressaltar que vivemos hoje uma globalização sob o Império norte-americano, o modo de produção capitalista e a ideologia Pós-Moderna, relativista, negadora de toda verdade objetiva, tendo adentrado as igrejas no campo doutrinário e ético, e cuja ponta visível do iceberg tem sido a “revisão” do homoerotismo, com a busca da sua legitimidade, das ordenações de ministros praticantes e da “bênção” de suas uniões. Essa corrente está negando, também, o caráter único da Igreja como Povo da Nova Aliança e de Jesus Cristo como único Senhor e Salvador. Uma crise de Verdade é uma crise da Civilização. Resta-nos o desafio da acolhida compassiva a todos os pecadores, sem distinção, e por outro lado, a corajosa afirmação dos valores e princípios da Revelação.

 

Gilberto Freyre já nos ensinava que nunca deveríamos reescrever um livro, mas, quando necessário, escrever outro. Cada livro deve ser lido tal como foi pensado em sua época. Cabe a cada leitor fazer a sua “ponte” no tempo.

 

Alegro-me com esta edição comemorativa do pioneiro “Uma Bênção Chamada Sexo”, que continua tão contemporâneo. O Sexo continua a ser uma Bênção criada por Deus. Desejamos também essa Bênção para todos os leitores.

 

Recife (PE), 01 de agosto de 2005.

 

Robinson Cavalcanti

Bispo Anglicano

 

(Uma Bênção Chamada Sexo, GW Editora, Rio de Janeiro, 2005, 10ª. Edição, pp.07-11,

DISPONÍVEL no link: Bispo " Livros on line " download, na página: www.dar.org.br).

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Última atualização (Ter, 23 de Março de 2010 10:31)

 


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