Libertos Para Viver
Série: Textos do Bispo (X)

Libertos Para Viver
Sexo e Fim de Mundo
Dentro da justa preocupação escatológica da comunidade cristã, tem sido os sintomas de mudança nos conceitos e no comportamento sexual dos últimos tempos apontados como sinais ou evidências do iminente retorno do Senhor Jesus. É comum a expressão "isso é um fim de mundo", para designar algo que choca ou escandaliza, no que diz respeito ao assunto.
Uma poderosa força política e ideológica domina, de modo totalitário, uma considerável parcela do globo terrestre e seus habitantes, impondo-Ihes um ateísmo militante. O racionalismo e o cientificismo falam cada dia pelos meios de comunicação social dos países do resto do globo. Regiões proíbem o culto ao Senhor; regiões permitem, mas poucos comparecem. A indiferença e a rejeição ao Cristianismo se fazem notar em multidões das mais variadas regiões da terra. Com toda a liberdade da Europa Ocidental, as igrejas são mais museus que templos de adoração. O ideal humanista e antropocêntrico da fraternidade universal é divulgado por governos, regimes, cátedras e púlpitos. Muitos sonham com um governo para toda a terra. Entidades internacionais acionam um poderoso dispositivo ecumênico inclusivista, relativista e sincrético,
almejando o surgimento de uma grande e única religião universal. Um só poder político e um só poder religioso, eis o sinal1. Falsas religiões, falsos mestres, ocultismo, religiões de mistério e filosofias do absurdo vendem seu produto nas escolas, livrarias e em cada porta.
E que dizer do sexo nessas situações anticristãs?
Em muitas persegue-se uma ética; em algumas pratica-se um rígido puritanismo. Aí está o perigo de se medir a autenticidade de algo pelos seus padrões de ética sexual. Há muita coisa por aí reconhecidamente herética e falsa, mas coberta com uma capa de moralismo sexual. Em alguns casos, o que há é um mero reflexo de crenças comuns de uma época e de uma cultura, que, infelizmente, une, no exterior, crentes e incrédulos. Os que supervalorizam o exterior correm o perigo de compactuar com o erro. Não se pode descartar a estratégia satânica de apresentar seus falsos profetas, que ensinam outro evangelho vestidos da mais pura e rígida ética sexual. É que o inimigo sabe atacar pelos pontos mais vulneráveis. Ele conhece a escala de valores das pessoas. Os Testemunhas de Jeová, os marxistas e os seguidores de certos cultos orientais primam por uma ética sexual quase monástica. Mas, e suas crenças? E seus ensinos? Não se trata de outro evangelho?
Os períodos históricos de transição, as mudanças de civilização, as decadências de culturas e povos, aparecem sempre ligados a uma época de mudança nos padrões morais, de crescente permissividade. Para os que estudam a História, a conclusão fácil pode aparecer: em muitas épocas do passado a depravação moral chegou a pontos muitíssimas vezes mais baixos do que a época presente. Atualmente verifica-se crescente depravação e crescente volta à rigidez moralista, paralelamente. Há, por outro lado, a busca de uma resposta bíblica, e não uma dependência aos padrões do passado. Os saudosistas olham sempre para o passado como uma época melhor; os otimistas acham que a idade de ouro vem pela frente; os cristãos esperam uma idade de ouro na Nova Jerusalém, mas reafirmam o pecado de cada geração e de cada tempo, pois o homem é sempre o mesmo, salvo as aparências. Uma coisa é o repúdio à infração de um padrão bíblico, outra é a defesa dos padrões do passado, pelo fato simples de serem do passado. Os padrões bíblicos são permanentes; os povos, os costumes, passam e continuam a passar. Não se pode parar o tempo nem sacralizar o efêmero, pois, embora pareça surpreendente, é uma terrível e condenável forma de mundanismo.
O escândalo é condenado biblicamente, mas escândalo é o rompimento de um padrão bíblico e não de um padrão do mundo. Cristo crucificado foi escândalo para os judeus2. Embora fale na multiplicação da iniquidade, Cristo, no Sermão Profético, diz que o dia de sua vinda será semelhante ao súbito dilúvio dos tempos de Noé, em que o povo, mesmo advertido, não se importou, até que veio repentina destruição. "Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca..."3. Por um lado, pode-se enfatizar a corrupção do gênero humano em todas as suas dimensões, especialmente a violência, existente nos dias de Noé; por outro, a indiferença diante de Deus, o apego às coisas materiais e a rotina daqueles dias. É a rotina, a vida correndo tranquila, que contrasta com o inesperado, a destruição repentina. Comer, beber, casar e dar-se em casamento não eram os erros em si, mas é que a vida pode ser reduzida a apenas isso – e aí está o pecado.
É necessário um olhar mais amplo para os textos proféticos e um olhar para o cenário de nossos dias à luz desses textos. Só então cada coisa ocupará o seu devido lugar. A multiplicação da iniquidade (permissividade e repressão são formas de iniquidade) deverá ser condenada, mas as bênçãos que o Senhor reservou para seus filhos deverá ser gozada em louvor e ações de graças.
Sexo e Culpa
Perguntado qual seria o ponto inicial de contato entre a psiquiatria e a religião, respondeu, sem hesitar, um psiquiatra cristão: — "A culpa". Em elementar esquema psicanalítico, verifica-se que a psique do homem é composta de três elementos: um ego, ou eu consciente; um id, ou força instintiva, impulsiva; e um superego, ou consciência moral inibidora. Um ego sadio implica um equilíbrio entre o id e o superego. A repressão aparece com a hipertrofia do superego e a atrofia do id (monasticismo, puritanismo, vitorianismo); e a permissividade, a depravação, quando ocorre o contrário. Se muitas vezes nos sentimos culpados de um ato lícito e inocentes de um ato ilícito, sobressai-se a necessidade de um esclarecimento da relação superego-culpa com a vida religiosa e os valores morais do indivíduo. No campo da sexualidade, é de vital importância.
O que alimenta a consciência inibidora? Há apenas uma ou várias fontes desse estímulo? Qual a contribuição da teologia aqui?
Teríamos como fontes de moral:
a) a consciência natural, também chamada de "mínimo ético universal", escrita por Deus no coração dos homens, presente em suas mentes, mesmo após a queda;
b) a herança moral, adquirida no processo de socialização pela educação e exemplos dos pais, familiares, grupos sociais, pátria, escola etc. Cada povo, nas diversas épocas, tem um conteúdo ético a ser afirmado, vivido e transmitido, sem o que não seria possível a vida em sociedade;
c) a ação sobrenatural, manifesta na Revelação escrita da Palavra de Deus, nos preceitos e estatutos manifestados por Deus a seu povo e pelo Espírito Santo, que veio, também, para convencer o homem do pecado4.
Há uma interrelação entre essas três fontes, mas não uma necessária correspondência ou equivalência, especialmente no tocante à fonte b, pois é tradição humana e, como tal, imperfeita pelo pecado. Nem tudo o que a herança cultural considera certo é certo pela Revelação, e nem tudo que ela considera errado é errado pela Revelação. Sendo o pecado fonte de imoralidade, a moralidade dos homens tem como fonte uma imoralidade. A herança cultural pode resultar confusa, imperfeita, inidônea e inadequada. Por essa razão, a consciência, só, é um padrão muito frágil para julgar o que é certo ou o que é errado, para nos absolver ou nos condenar. O Espírito nos dá discernimento pela Palavra.
Na questão da culpa há uma outra estranha "fonte de moral": Satanás. Ele quer perturbar, confundir e derrotar os servos de Deus. E para tanto serve-se de nossas mentes, de nossa consciência. Ele é "o grande acusador dos servos do Senhor". Lutero experimentou a acusação do inimigo, apontando-lhe os pecados, mostrando sua indignidade, desejando, desse modo, paralisar o trabalho do Reformador na tradução das Escrituras, que traria luz para os povos. O Herói da Fé do Século XVI repreendeu o inimigo com a citação da Palavra: "O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado"5.
O inimigo pretende paralisar o trabalho e o crescimento dos servos de Deus, hoje, acusando-os dos pecados que foram lavados na cruz.
O convencimento do pecado pelo Espírito se adequa às Escrituras e promove reconciliação e libertação. A acusação do inimigo é paralisante, procura afastar o homem de Deus, com a convicção de que é tão inimigo que Deus não quer saber dele, em detrimento da obra do Calvário.
Sente-se culpado? Sua culpa é de Deus, dos homens ou de Satanás?
Um problema pode ser encontrado em conversões, reconsagrações ou avivamentos, do ponto de vista psicológico e moral. Antes, o indivíduo estava com a consciência embrutecida, relativizando os padrões morais, considerando-se inocente do erro. O id estava hipertrofiado, o superego atrofiado. Na experiência mística o inverso pode se dar. A culpa aflora bem forte, mas pode ser, em alguns casos, que a culpa dos pecados venha atrelada à culpa pela herança cultural. O resultado se vê em algumas comunidades: a santificação interior acompanhada de uma onda nostálgica de reafirmação de antigos costumes. Outra vez é necessário discernimento, é necessário deixar a Palavra falar e silenciar as outras vozes, que podem ser de perturbação.
Na área sexual isso ocorre com muita frequência, com sérias e danosas consequências de falta de paz e de sono, de condenação e depressão, de medo de Deus, de fuga de Deus, de abandono de militância em suas hostes.
Os homens, ou Satanás, podem ser culpados de sua culpa.
A salvação e a santificação trazem saúde para o Espírito, para a mente e para o corpo, nunca enfermidade. E esse tipo de culpa é enfermiço e fonte de enfermidade.
Se você não rompeu um absoluto de Deus contido na Palavra (o único que o Espírito confirma), no tocante à vida sexual, então não há porque sentir-se culpado. E se você assim se sente, já sabe que a fonte não é de Deus, e que Deus lhe pode devolver a alegria de viver, a paz e a tranquilidade com o sexo que lhe deu.
Santidade e sexualidade sadia não são categorias que se excluem, mas que se integram e se complementam.
Fora da Palavra não há culpa.
Um Projeto De Vida Cristã
A busca de uma vida cristã autêntica deve ser o alvo de todo discípulo. Uma ortodoxia integral deve estar na mente de cada seguidor do Senhor Jesus. O erro do passado foi a ênfase em determinados aspectos em detrimento de outros. Algo abrangente deve ser buscado.
1. A Fonte Correta: Os meios de comunicação social, a literatura, as filosofias e ideologias, o ambiente social, terminam por influenciar o cristão em seu pensamento e suas atitudes. Embora nós, os protestantes, neguemos ter na Tradição uma fonte de Revelação, necessário é reconhecer que as tradições pesam nas igrejas mais do que deveriam. Mas a única fonte correta de fé e prática para nós é a Bíblia.
2. A Doutrina Correta: A Palavra como fonte e o Espírito que a inspirou nos levam a confessar corretamente nossa fé em proposições claras e definidas. Os Credos Históricos foram redigidos para definir o pensamento cristão diante dos falsos ensinos ou heresias. As confissões de Fé da Reforma tiveram propósito semelhante. Hoje, o subjetivismo, o emocionalismo e a tônica sentimental de um "amor" vago levam a uma minimização do aspecto confessional. O Espírito de Verdade nos conduz a toda a verdade.
3. Uma Vida Correta: Se parássemos apenas no item 2, teríamos uma ortodoxia fria, sem vida. E isso teve, no passado europeu, desastrosas consequências. Santo Agostinho afirmou: "As palavras comovem, mas os exemplos arrastam". A cultura grega dividia o aspecto intelectual do aspecto existencial; a prática hebraica sempre foi integrativa. Para o antigo povo de Deus seriam incompreensíveis expressões como "fulano é um cristão não praticante". Somos conhecidos pelos frutos:
a) No temperamento: o fruto do Espírito implica uma exteriorização de um temperamento transformado, uma mudança de dentro, atitudes, gestos e valores. O amor encabeça esse fruto. Se não há esse fruto no cristão e na comunidade, algo está errado. Muitos de nós temos pecado por descuidarmos desse aspecto vital.
b) Na evangelização: somos chamados para sermos enviados. A proclamação das Boas Novas de salvação não é algo opcional, nem privativo dos ministros, mas imperioso dever de todos os cristãos. Os mais diversos recursos devem ser empregados na consecução da Grande Comissão. O cristão que não evangeliza deve suspeitar de si mesmo.
c) No serviço: na época da Reforma a ênfase era dada à afirmação das Escrituras de que não somos salvos pelas boas obras, mas pela graça de Deus, mediante a fé. Essa ênfase deve continuar no que se refere ao não-convertido. Ao crente, contudo, deve-se enfatizar a continuação dos textos, quando se diz que somos salvos para as boas obras. Muitos espiritualizam essas boas obras, achando que o sumo bem é a pregação do Evangelho. Mas há uma dimensão bem material na Bíblia, não somente ajuda espiritual, psicológica e moral, mas do pão e dos peixes multiplicados pelo Senhor.
d) Na ética: padrões morais bíblicos devem reger nossa conduta. Uma ética pessoal e uma ética social são dimensões complementares de uma mesma convicção. Não somente deve o cristão buscar uma ética pessoal como exercício de santificação, como vivência de atitude diferente dos padrões impostos pelo mundo, mas no trato com os irmãos e com o mundo deve ser coerente com os mesmos padrões. Uma coisa triste em muitos círculos é a existência de cristãos que buscam um perfeccionismo individual, mas no trato social se comportam com a mesma falta de ética dos demais homens. Não fumar é certo, mas não ser desonesto é igualmente certo. A ética sexual é uma das inúmeras dimensões da ética cristã, sem maior ou menor importância que as outras.
Se olharmos para cima e verificarmos essa abrangência do cristianismo integral, poderemos colocar a ética sexual no seu devido lugar, na sua real proporção, sem supervalorização ou subvalorização. A supervalorização resulta na subvalorização de outras áreas.
Nos rios de algumas regiões do Brasil encontramos um peixe devorador chamado piranha. Para atravessar os rebanhos de uma margem para outra, faz-se necessário o sacrifício de uma rês, geralmente enferma ou magra. Enquanto as piranhas a devoram, a boiada passa tranquilamente, sem ser atacada. Essa rês é conhecida como boi de piranha. Ao observarmos a vida de muitos cristãos, não podemos deixar de fazer uma comparação com esse fato de nossa vida rural. A ética sexual é o boi de piranha de suas vidas, enquanto sua atenção e energia são quase que totalmente voltadas para esse setor, a "boiada" dos outros pecados e a ausência dos outros aspectos da vida cristã atravessam calmamente o rio de suas vidas. É uma triste realidade a ser combatida.
No plano ético geral, antes que um combate apenas ao que é errado, deve-se fazer o que é certo, pois enquanto estamos fazendo o que é certo não temos tempo de fazer o que é errado. Já se diz que "cachorro que late não morde" – ou pelo menos não pode morder enquanto está latindo. Se, em vez de fazer o que é correto, apenas lutamos contra o que é errado, nos cansamos, ficamos tensos e frustrados, e o que é errado pode terminar por vencer.
Vivendo Pela Graça
Muitos cristãos vivem em um legalismo, com um enumerado sem fim de normas, regras e estatutos a determinar suas condutas, detalhadamente, casuisticamente, rigidamente. A velha tradição farisaica não desapareceu, mas vive, pujantemente, agressivamente, nos arraiais do povo de Deus. Indivíduos tensos e amargurados, frustrados e condenadores, orgulhosos espirituais ou deprimidos espirituais, retratam esse sistema de vida. O mais perigoso, no legalismo é que ele procura uma resposta pronta e minuciosa para cada situação, fazendo desnecessário o pensamento e a oração. Há um "manual" pronto para qualquer eventualidade. "Não faça isso", "faça aquilo", e assim por diante. O herético em tudo isso é que se acrescentam prescrições e regras às Escrituras, prescrições humanas, que injustiçam as Escrituras; e incorre-se na condenação profética àqueles que acrescentam ou suprimem algo do Livro.
O Espírito Santo, o qual, pela Palavra, um dia nos convenceu "do pecado, da justiça e do juízo", que nos levou ao arrependimento e à fé no senhorio salvífico de Cristo crucificado, que nos levou à salvação e à regeneração, continua a atuar em nossas vidas, hoje, em transformação e santificação, em doutrinação e vida de serviço. É a esse Espírito que devemos recorrer para discernimento no campo da ética, inclusive ética sexual. Ele – e somente ele – pode nos ensinar. Seus ensinamentos nunca contradizem a Palavra, da qual é igualmente Autor.
Pessoalmente somos todos inaceitáveis diante de Deus. Ninguém poderia subsistir diante de seu julgamento. Todos – independentemente de quanto nos achássemos "santos" – estaríamos condenados. O Deus criador e sustentador, que se revelou e se encarnou, que irrompeu na História, é o Deus da Graça. E a Graça de Deus é a grande realidade que deve estar presente em nossos pensamentos. A Graça que estava em Cristo, a Graça que nos perdoa, a Graça que nos aceita, a Graça que vem até nós, a Graça que nos faz ir até ele. "A minha graça te basta", diz o Senhor, e nós queremos acrescentar algo a essa Graça.
Essa graça deve ser recebida pela fé. Pela fé aceitamos o sacrifício de Cristo, e isso redundou em diferença. Pela fé, também, aceitemos a afirmação de que já somos novas criaturas, de que Cristo vive em nós, de que podemos andar em novidade de vida. E isso produzirá, igualmente, diferenças. Pela fé sabemos que somos santos, que Cristo nos tornou santos, que nos separou para um propósito em seu reino. Pela fé somos seus discípulos e aceitamos seu senhorio. Pela fé aceitamos que o sexo é bênção de Deus para nós.
* * * * * * * * *
“A Igreja Reformada" – afirmou um herói da fé – “deve estar sempre se reformando". Não para fazer o jogo do mundo, mas para limpar os detritos do mundo que, com o tempo, sem percebermos, entram em nossa vida. Uma reforma nos conceitos e abordagens no campo sexual é um desafio para hoje. Cabe aqui, mais uma vez, citar José Grau:
A Igreja deve ser lugar de encontro com os jovens para elucidar seus problemas sexuais à luz da Palavra de Deus, segundo a mentalidade e o Espírito que exige a própria Palavra. Isso exigirá a “conversão" dos mais velhos, primeiro, aos postulados e orientações bíblicas. Terão que aprender a renunciar a grande número de conceitos herdados de irmãos queridos, mas que, hoje comprovamos, não se apóiam firmemente na Escritura nessa questão. Alguns livros e livretos deverão ser retirados de circulação. Será capaz a Igreja de compreender todas estas exigências?6.
Oremos ao Senhor!
Anexo I – Outras Considerações Sobre o Divórcio
Desde a publicação da primeira edição deste livro, o nosso país tem passado por significativas mudanças no campo da sexualidade, inclusive – embora de forma mais limitada e mais lenta – no âmbito das igrejas cristãs.
Em julho de 1977 uma emenda constitucional introduziu o divórcio entre nós. Os mais conservadores temiam a "destruição da família", algo que obviamente não aconteceu. A nossa legislação é das mais equilibradas e sensatas, pois no lugar de prescrever situações em que se pode ou não se pode divorciar, procura legalizar apenas as separações preexistentes: os já separados de fato há mais de cinco anos ou os já separados judicialmente (ex-desquite) há mais de três anos. Como as separações judiciais consensuais somente podem ocorrer após dois anos de casamento, fica-se, nesse caso, igualmente com um interregno de cinco anos.
Tivemos um número maior de divórcio nos primeiros anos de sua adoção (algo que ocorreu em todos os países em momentos idênticos) porque todos os que já estavam "na fila" (separados ao longo dos anos) procuraram legalizar suas situações. Hoje, porém, os números se estabilizaram e as separações judiciais continuam a se dar muito mais do que os divórcios, ou seja, nem todos os que se separam voltam logo a se casar outra vez. Todos procuram pensar duas vezes porque a legislação somente permite o divórcio uma vez.
A tendência do legislador, todavia, é a de eliminar essa cláusula, permitindo o divórcio mais de uma vez, cumpridos os prazos, que se reduziriam a dois anos de separados judicialmente ou quatro anos de separação de fato.
O que se pode concluir – e todos os estudos indicam nessa direção – é que a legislação nem estimulou, nem reduziu as separações, apenas legalizou situações de fato já existentes.
O fato social mais importante para os nossos tempos tem sido, isto sim, o vertiginoso crescimento das uniões de fato, de pessoas que se unem sem o vínculo formal do casamento, religioso ou civil, temporária ou permanentemente, com ampla aceitação social (especialmente nos centros urbanos), inclusive sem apelar sequer para os direitos previstos em nossa legislação do concubinato legal (após cinco anos da união de fato).
A disseminação das informações sobre o uso de anticoncepcionais, a maior liberdade de movimento das mulheres e sua inserção no mercado de trabalho e nas escolas nos vários níveis, os hotéis de alta rotatividade (motéis) têm concorrido para a generalizada prática de relações sexuais pré-conjugais, de modo comprometido ou não, recentemente repensada a partir do fantasma da AIDS.
Se, por um lado, a sociedade brasileira, notadamente a rural e a suburbana de classe média, permanece conservadora quanto aos costumes, nos centros urbanos crescem os núcleos de subcultura permissiva, principalmente entre os mais ricos e mais pobres, ou entre os intelectualmente mais articulados, como sinal de nosso cosmopolitismo urbano e industrial pluralista.
Quanto às igrejas cristãs, notamos uma grande insegurança quanto ao novo e uma tentativa de reafirmação do antigo. Há uma enorme dificuldade de compreensão do fenômeno das mudanças socioculturais e de trabalhar realística e relevantemente a situação. Muitas igrejas vivem uma dupla moralidade: a do discurso e a da prática, especialmente entre a sua juventude.
As igrejas cristãs brasileiras, em geral, e com o reforço da subcultura fundamentalista norte-americana, se encontram desaparelhadas, formal e emocionalmente, para a tarefa urgente de um repensar teológico, em que crenças tradicionais sejam separadas do núcleo do ensino bíblico e que a leitura da Bíblia seja feita sem os "óculos" da cristandade ocidental. Nessa situação, o conhecimento histórico e antropológico são imprescindíveis, bem como o crescente apelo ao auxílio da Psicologia e da Biologia.
Aqui e ali, porém, se percebe a presença de núcleos de reflexão teológica no campo da moral, ainda de caráter pioneiro e cercados de incompreensão, que procuram conduzir as comunidades cristãs a um compromisso tanto com os valores eternos quanto com a situação dos seres humanos em uma História dinâmica e em uma cultura em mudança. Do êxito dessa tarefa depende a saúde da igreja e o sucesso de nossa Missão Integral.
(Uma Bênção Chamada Sexo, GW Editora, Rio de Janeiro, 2005, 10ª. Edição, pp.193-210).
1 Advertência contida nos últimos trabalhos do Dr. Peter Beyerhaus, de Tubigen, especialmente em seu livro sobre a conferência sobre missões do CMI Bangcock 73.
2 1 Coríntios 1.23.
3 Mateus 24.38.
4 João 16.8.
5 1 João 1.7.
6 GRAU. José. op. cit. p.13.
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Última atualização (Seg, 01 de Fevereiro de 2010 09:03)
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