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Corpo, Sexo e Pecado PDF Imprimir E-mail
Seg, 25 de Janeiro de 2010 01:09

Série: Textos do Bispo (IX)

 

 

Corpo, Sexo e Pecado

O Templo Do Espírito

O corpo não é um trapo imundo, incômodo, fonte de pecado, a atrapalhar transitoriamente a vida do cristão, até que um dia sua alma liberta possa viver com Deus. O corpo é criação de Deus, como parte integrante de todo o homem. A própria ideia de separar corpo, intelecto e alma ou espírito é estranha ao pensamento hebraico. No Velho Testamento vemos sempre o homem como um todo integral. Nada nele é melhor ou pior. O bem ou o mal é praticado pelo homem todo.

 

O homem – esse homem integral – foi criado à imagem e semelhança de Deus, para ter um senhorio sobre a criação animada e inanimada e, no dizer do salmista, coroado de glória e de honra. Ele foi criado do pó da terra, e na verdade seu corpo detém os componentes nela encontrados. Interessante notar que Deus fez primeiro o corpo do homem, para, a seguir, lhe soprar o fôlego da vida, "e o homem passou a ser alma vivente"1. A Bíblia não diz que ele passou a ter uma alma vivente, mas passou a ser alma vivente. O homem viveria em uma totalidade existencial, indissociavelmente corpórea. A ideia de uma pré-existência da alma, como entidade independente, cai por terra. Apenas os anjos – outro tipo de criatura – é que possuem uma vida não corpórea, pelos desígnios de Deus.

 

O homem foi destinado a uma ação no mundo, a ser continuador da obra da criação, na sujeição e domínio da terra, no seu cultivo e guarda, no mantimento e na alimentação. Esse homem foi feito para a vida eterna, para não conhecer a morte. No plano original de Deus temos um homem imortal com corpo imortal. O corpo foi criado para permanecer. Não há sombra de transitoriedade. O destino da habitação eterna do homem não foi o céu ou o paraíso – como os anjos – mas a terra.

 

Pelo pecado, pela desobediência voluntária do homem, pelo dar as costas a Deus e querer seguir seu próprio caminho, veio a queda, a corrupção e a morte. A queda produziu a corrupção da terra, que se tornou "espinhosa". O homem e o resto da criação se alienaram. O corpo do homem conheceu a doença, a velhice e a morte. Do homem, passou a suceder semelhantemente aos animais – ambos morrem: "Todos vão para um mesmo lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão"2. É nessa nova realidade que se dá o fenômeno da separação, do material e do imaterial do homem. "E o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu"3. O pecado transformou o homem no seu ser, no seu querer e no seu agir. O homem é todo pecador. O pecado é uma realidade existencial e não uma bactéria portada pelo corpo.

 

As Escrituras nos relatam os feitos desse homem caído com total realismo. A História é a marcha desse homem caído nessa terra caída. É, igualmente, a marcha da Providência, da misericórdia do Senhor, de seu plano de restauração. A separação do material e do não-material do homem seria uma realidade transitória. No final eles haveriam de se unir, para que o homem total, perfeito, voltasse a viver para sempre. Mais de quatro séculos antes de Cristo, o Senhor inspirou a boca de seu servo Jó com palavras proféticas da esperança dessa restauração: "Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus. Ve-Io-ei por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros, o verão..."4. Heavenor comenta que a consciência de Jó é que "ele estará presente, em plena posse da sua inteligência, a sua personalidade intacta, após ter descido à sepultura"5. Essa esperança reside em um Redentor.

 

Aproximando-se o fim de seu ministério terreno, Jesus, por várias vezes, previu a sua morte e sua ressurreição no terceiro dia. "É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, e seja rejeitado dos anciãos e dos escribas, e seja morto, e ressuscite ao terceiro dia"6. Quando, após a purificação do templo, os judeus pediram um sinal de seu messiado, Jesus falou que, se eles derribassem seu templo, em três dias ele o levantaria. Os judeus não compreenderam e pensaram tratar-se do templo como edifício: "Mas falava do templo de seu corpo"7. Isso teria um efeito importante na vida dos discípulos: "Quando, pois, ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se de que lhes dissera isto, e creram nas Escrituras, e na palavra que Jesus tinha dito"8. Depois de ressuscitado, Jesus apareceu, em diversas ocasiões, a seus discípulos. Em uma delas, vemos que os discípulos estavam espantados e atemorizados, julgando tratar-se de um espírito. Ele os repreendeu e disse: "Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne, nem ossos, como vedes que eu tenho”9. A seguir, comeu um peixe assado e um favo de mel; ensinou-Ihes isso como cumprimento das Escrituras, e mandou-os anunciar o evangelho de arrependimento e remissão dos pecados a todas as nações.

 

Vencendo a morte, Cristo nos dá a vida eterna. Ressuscitando, ele nos ressuscitará, para com ele vivermos. "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá"10. Todo o Novo Testamento aponta para essa esperança, sem a qual seria vã a nossa fé. Paulo resume essa doutrina: “Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. Porque, assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo"11. A promessa final fala da transformação, de um novo céu, de uma nova terra, morada para sempre dos herdeiros: ”E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas"12.

Devemos rejeitar toda ideia errônea e negativa a respeito do corpo, que porventura nos tenha sido transmitida pela herança cultural. Durante esta vida, mesmo antes do novo corpo, neste mesmo corpo há um valor, um desígnio do Senhor, um propósito. Regenerados, temos o Espírito Santo habitando em nós, em nosso corpo. "Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito, Santo...?"13.

Agradeçamos a Deus por nosso ser integral. Aliviemos nossas mentes de falsas culpas e preconceitos, e oremos:

Obrigado, Senhor, por nosso corpo!

 

O Que Deus Achou Bom

Agora, que já integramos nosso ser no corpo, temos que integrar nossa sexualidade no corpo e no ser. O homem foi criado por Deus – à sua imagem e semelhança – com a sexualidade, e nesta os órgãos genitais. Inconscientemente, muitos querem que o corpo da criação tenha sido assexuado, que os órgãos genitais tenham nascido após a queda, e as relações sexuais surgissem com o pecado – ou até fossem o próprio.

 

A Bíblia nos ensina de modo diferente. Na origem temos: "E criou Deus o homem... macho e fêmea os criou”14. Tendo criado primeiro o homem, criou depois a mulher, abençoando-os e mandando-os que fossem fecundos e se multiplicassem pela união sexual, quando se tornariam "uma só carne"15. Essas coisas ocorreram antes da queda. A sexualidade estava nos planos de Deus e é instrumento seu para a humanidade. O ato sexual, em seu aspecto procriativo, é um ato de colaboração com Deus e obediência a ele. E é, além disso, sinal da mais profunda união, pois, para o homem, a mulher é "osso dos meus ossos e carne de minha carne"16. É interessante notar que, após concluída sua maravilhosa criação, "viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom"17.

 

Muita gente possui uma ideia de Deus como um Supremo-Desmancha-Prazeres, o que é muito errôneo; Deus nos deu prazeres. Cristo nos mandou alegrarmo-nos e disse que veio para nos dar vida em abundância. Não se pode imaginar Deus criando o sexo como um tipo de doloroso dever. Tudo que o homem faz em harmonia com os propósitos da criação lhe traz prazer genuíno. Assim também na vida sexual. Abraão tinha muita consciência do aspecto estético de Sara: "Ora bem sei que és mulher formosa à vista"18. No amor de Jacó por Raquel, não há lugar para um platonismo, ou "amor espiritual" (que seria, em última análise, um casamento entre fantasmas), mas em seu amor entrava, mais que naturalmente, o físico e o sexo, pois "Raquel era de semblante formoso e formosa à vista"19.

 

Embora o livro de Cantares tenha tido uma interpretação espiritualizada, como alegoria de Jeová e Israel, ou de Cristo e a Igreja, não deixa de ser, objetivamente, uma maneira poética de descrever o amor entre um homem e uma mulher, em que se descreve a beleza física, com um destaque inegavelmente erótico. Se a interpretação é literal, destaca o valor físico e do sexo; se é alegórica, mostra que Deus representa seu amor por seu povo de uma maneira que ele considera de digna intimidade. Aos que seguem mais o pensamento repressivo do que a Bíblia, pode parecer escandaloso que um dos livros sagrados, considerado inspirado, tenha em seu começo um versículo do tipo: "Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque é seu amor melhor do que o vinho"20. Poemas com essa temática, esses tipos de imagens e comparações, se lidos hoje em uniões de mocidade, nas igrejas, se não resultassem em suspensão de comunhão, teria o seu ator de receber uma advertência por mundanismo e carnalidade...

 

Cristo realizou seu primeiro milagre quando se encontrava, juntamente com seus discípulos, em uma festa de casamento. O leito sem mácula é considerado abençoado, Jesus usou a imagem do noivo e noiva em uma de suas parábolas. Semelhante imagem é usada, no Apocalipse, para descrever o encontro de Cristo com a Igreja: "E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada, como uma esposa ataviada para o seu marido"21. Esse tipo de símbolo era corrente entre o povo de Israel. O próprio João Batista, quando afirmava não ser o Cristo, mas seu precursor, empregou a comparação: "O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve, muito se regozija por causa da voz do noivo"22.

 

Scorer sintetiza o modo das Escrituras encararem o sexo:

 

“Todas as evidências indiretas que há na Bíblia parecem sugerir que o relacionamento estabelecido entre os sexos era considerado correto e natural. Era um importante aspecto da vida pessoal de homens e mulheres..."23.

 

Não foi acidentalmente que fomos criados homens e mulheres. Somos machos ou fêmeas toda a nossa vida, e sexual é todo o relacionamento humano. A união física é apenas um tipo – o mais pleno – de relacionamento sexual. Da conformação do nosso físico às reações de nossa mente, somos homens ou mulheres, e não se pode abstrair tais características em nossos contatos sociais. No convívio do mesmo sexo prevalece o princípio da identidade, e afirmamos nossas características; com os de outro sexo, nos completamos. O valor da Bíblia está em regulamentar os diversos níveis e tipos de relacionamento, sem repressões ou exageros.

 

Você já se aceitou como um ser integral, com corpo. Aceite-se agora como um ser sexual, e ore:

Obrigado, Senhor, pelo sexo!

Desfazendo Exageros

No dia-a-dia das igrejas cristãs e de comunidades seculares, encontramos uma série de normas e sanções com respeito ao sexo, que o colocam como responsável pelos maiores pecados, pelos pecados principais e, muitas vezes, únicos. Esse tipo de tratamento, dominado pela tradição, foge das Escrituras, embora esta esteja, até inconscientemente, manipulada nas justificativas. Somos advertidos a nada acrescentar ou omitir em relação à Palavra. Já conhecemos o exemplo dos fariseus com seus acréscimos de leis. Já lemos a carta aos Gálatas, com sua tônica na graça de Deus. E mesmo assim incorremos nesses erros!

 

Em sua tese Forma e Liberdade na Igreja, apresentada no Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, Suíça, o Dr. Francis Schaeffer advertia para o perigo de os evangélicos tentarem criar novos absolutos, especialmente na área dos costumes, elevando-os ao mesmo nível de outros pontos claros da Palavra de Deus. Essa atitude é pecaminosa e diminui o valor da Bíblia aos olhos do mundo. Muitos gostariam de reescrever a Bíblia para amoldá-Ia a seus esquemas; ou, para "provar" suas posições, torcem o texto, omitem outros ou citam-nos fora do contexto, à semelhança de certas seitas heréticas.

 

O pecado é, primeiramente, e acima de tudo, uma condição existencial, uma condição do homem após a queda e antes da restauração. No novo nascimento somos, pelo Espírito, mediante o sacrifício da cruz, libertados das consequências do pecado e do seu poder, embora não de sua presença. O que comumente chamamos de "pecado", na base de "isso é pecado", "aquilo é pecado", "aquilo não é", significa sintomas, manifestações visíveis e particulares do pecado existencial. Diante de Deus o que voga é o pecado. O julgamento e a graça de Deus se referem ao todo. Não há lugar na Bíblia para pecados "veniais" e "mortais", pecados maiores ou menores. Há um todo. Pessoas expressam essa condição de maneira mais grosseira em sintomas exteriores; outras, por um verniz civilizatório ou constituição psicológica, cultivam os pecados subjetivos. Facilmente enquadramos os primeiros. E os outros? Pecamos por pensamentos, palavras e atos. Os atos são fáceis de julgar, as palavras são sujeitas à compreensão. E os pensamentos? O julgamento de quem é ou não é pecador incorre, quase sempre, em injustiças.

 

Igrejas colocam os erros sexuais como pecados mais importantes. Julgam pelas ações, apenas. E colocam, ao lado das normas absolutas da Bíblia, princípios costumeiros de determinada cultura. E aí simplesmente pecam.

 

Vejamos o decálogo:

01. Não ter outros deuses diante do Senhor;

02. Não fazer e adorar imagens;

03. Não tomar o nome do Senhor em vão;

04. Santificar o sétimo dia;

05. Honrar os pais;

06. Não matar;

07. Não adulterar;

08. Não furtar;

09. Não dizer falso testemunho;

10. Não cobiçar os pertences do próximo.

 

Primeiramente vemos os pecados contra Deus. O relacionamento correto com Deus precede – e é causa – do relacionamento correto consigo mesmo e com o próximo. Deve-se considerar, no contexto atual, quais são os outros deuses e os ídolos para os homens, inclusive na igreja. E como o nome do Senhor é tomado em vão.

 

O quarto mandamento refere-se ao repouso do homem e ao culto a Deus. Ambos importantes. Não podemos cansar o homem sob o pretexto do culto a Deus, no multiativismo eclesiástico.

 

Segue-se a honra devida aos pais, como o único com promessa. Em famílias desajustadas, quando cristãos se queixam de falta de bênçãos, não estará esse mandamento sendo infringido?

 

Os outros cincos são contra o próximo, na cobiça de seus pertences, na violação de sua honra conjugal, no atentado contra a sua vida, no tomar indevidamente o que é seu, e no ludibriá-Io com a palavra falsa. Quantos cristãos têm o "olhão" no que é do próximo? Quantos não furtam sutil e "legalmente"? Quantos não mentem?

 

Em apenas dois mandamentos encontramos infrações no campo sexual. O sétimo o é basicamente, e o décimo o pode ser. Em ambos os casos há um prejuízo para o próximo.

Mas, diríamos, não estamos mais debaixo da Lei. O que importa, agora, é cultivarmos o fruto do Espírito e não darmos lugar às obras da carne. Está bem. Vamos a eles.

 

Em Gálatas, capítulo 15, Paulo enumera como obras da carne: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizade, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e cousas semelhantes. Em Efésios, capítulo 4, o mesmo apóstolo condena: a mentira, a ira, o dar lugar ao diabo, o furto, a palavra torpe, a amargura, a cólera, a gritaria, a blasfêmia e a malícia. Alguns conceitos são idênticos, mudando apenas o vocábulo; alguns estão repetidos. Mas se somarmos os dois textos, contaremos vinte e cinco delitos, ou menção deles. Apenas quatro envolvem sexo; alguns não sempre, ou necessariamente, como a malícia.

 

Se observarmos, a maioria diz respeito às más relações para com o próximo, delitos de natureza religiosa e trato errado para com o próprio corpo. Paulo não procurou dar uma lista interminável de erros sexuais, nem os considerou majoritários ou mais importantes. Se olharmos para muitas comunidades cristãs, iremos encontrar, com muita frequência, vários desses delitos "tolerados", porque se fosse apertar a disciplina não ficaria ninguém. "Democraticamente", o grupo que comete a maioria dos pecados pune os praticantes da minoria, considerando-os mais pecadores. Seria isso correto? A desigualdade de tratamento é tamanha que temos igrejas que disciplinam membros por ingerirem qualquer tipo de bebida alcoólica e em qualquer quantidade, e não dizem uma palavra contra o irmão que come em excesso, estourando o peso e a taxa de colesterol, danificando o templo do Espírito devido à sua indisciplina alimentícia. Seria isso justo?

 

O que ocorre, em geral, é a presença de um dos mais perigosos desvios em matéria de ética cristã: o legalismo.

 

"Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio"24.

 

Também aqui a ênfase é no caráter, no interior, na atitude para com Deus e com o próximo. Se estamos no Espírito e cultivamos isso, diminuímos todas as obras da carne. Paulo deixa o domínio próprio (temperança, autocontrole), onde entra o assunto de castidade, para o fim da lista.

 

Muitos encaram o Senhor Jesus Cristo e seus apóstolos como chefes de uma cruzada de moralismo sexual. Ledo engano. Parem um pouco e olhem para os quatro evangelhos em seus 89 capítulos. Em todo o ministério de Jesus, ele se preocupou em dar apenas um pronunciamento de iniciativa própria sobre algo relacionado com o tema: a questão do adultério, no Sermão do Monte, no capítulo cinco de Mateus. Dois outros problemas lhe foram trazidos pelos fariseus: 1) A questão do divórcio, que é o único assunto na área registrado por Marcos e Lucas, sendo que este último o faz em um versículo. Imaginem, um Evangelho inteiro, de 24 capítulos, com um versículo no campo! 2) A mulher adúltera, ocasião em que o Senhor pediu aos que não tivessem pecado que atirassem a primeira pedra. No final, já que ninguém a condenou, ele a mandou ir embora para uma nova vida (capítulo 8 de João). No diálogo com a mulher samaritana – quando ele vai de encontro a dois preconceitos: conversar com samaritanos e conversar a sós com uma mulher, e mulher de situação irregular – Jesus revela a mensagem evangélica sem uma palavra de condenação. E é só. Nos demais, há inúmeros preceitos éticos nos Evangelhos sobre várias áreas da vida. Voltemos às percentagens bíblicas.

 

Não vamos cair na permissividade. Os absolutos preceitos bíblicos quanto ao assunto devem ser enunciados e comentados; não poderia, contudo, fazê-lo sem antes ressaltar o desequilíbrio como a coisa é tratada em nossos dias. Temos que buscar a justiça.

 

Há três saídas:

1.   Elevar a exigência atualmente dada aos delitos sexuais a todas as obras da carne, o que resultaria em uma tensão insuportável dentro das igrejas.

2.   Baixar os delitos sexuais ao mesmo tipo de tratamento recebido pelas outras obras da carne, o que iria resultar em um generalizado afrouxamento de costumes.

3.   Buscar um ponto de equilíbrio e justo tratamento a todos os delitos, condenados em igual medida, com um sentido antes pastoral que policial. Um exercício recomendado – e interessante – é: antes de condenar o culpado do delito sexual (fora o fato de ver se é delito mesmo), verificar se há na comunidade pessoas que estejam incorrendo nos outros delitos.

 

Não é incomum ouvirmos que "nossa igreja não vai para a frente porque tolera gente que caiu em pecado". Cremos que os cristãos, individualmente e em comunidade, devem se arrepender, buscar perdão e poder, mas... todos os membros e de todos os pecados! Quando alguém refere que "fulano caiu em pecado" quer dizer que ele cometeu um delito envolvendo o sexo. Os outros que erraram em outras áreas, não caíram em pecado. Como é que pode?

 

A Questão Da Carnalidade

Há pouco falamos de obras da carne. E Paulo se refere à luta entre a carne e o espírito. Muito erro se tem cometido por não interpretar corretamente esses vocábulos. Para muitos, carne é identificado com corpo e pecado, e o espírito com a bondade e a sintonia com o Espírito Santo. Estaria dentro de nós uma guerra: o espírito lutando contra a carne. No falar em "salvação da alma”, antes que salvação do homem, corre-se o risco de, refletindo interpretações pagãs, cair no erro do dualismo helênico hoje.

 

Carne e corpo são expressões distintas no Novo Testamento. Já vimos o alto conceito de corpo como templo do Espírito Santo. A carne significa a natureza pecaminosa do homem, a natureza não regenerada, o homem caído, o velho homem, a natureza não santificada. As obras da carne não são as obras do corpo, como pareceriam à primeira vista. Na carta aos Romanos temos um esclarecimento para qualquer dúvida nesse sentido: "Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões, nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como instrumentos de justiça".25 O corpo, em si, é neutro: tanto pode ser empregado em uma direção quanto em outra, tanto pode viver na velha natureza como na nova. Um crente carnal seria aquele que, mesmo regenerado, está preso à velha natureza e suas inclinações pecaminosas. Se somos um ser integral, podemos ter "espírito carnal" e "corpo espiritual", se andarmos, ou não, em novidade de vida.

 

Infelizmente, certas passagens foram interpretadas segundo o pensamento grego e até hoje se sofre pelas distorções. Lutero, o reformador, ocupou-se do assunto, como expressa Babbage:

 

“Como bem assinala Lutero, Nosso Senhor foi sem pecado ainda que tivesse um corpo e o diabo é pecaminoso ainda que não tenha um corpo. Agrega Lutero que foi o diabo quem corrompeu o formoso instinto sexual que Deus havia feito, de modo que o amor puro se trocou em concupiscência, o nascimento se tomou algo doloroso e a nudez veio a associar-se com a vergonha".26

 

O diabo tem sempre uma culpa indireta pela tentação original e pela tentação de hoje; mas, grande parte das opções são nossas, na antiga natureza. Pelo Espírito somos vitoriosos.

 

Em comunhão com Deus, vivamos em plena satisfação com nosso corpo e nosso sexo. Que o Espírito nos convença de pecado quando os homens nos inocentarem, e nos dê certeza de inocência quando Satanás ou os homens nos acusarem indevidamente. Que a culpa, condenação e perdão nos venham dele, por ele e sua Palavra, antes que pelos homens, sociedade ou instituições. Nunca achemos bom o que Deus julga mau, nem achemos mau o que Deus julga bom.

 

E assim poderemos orar:

Obrigado. Senhor, por toda a tua criação!

 

(Uma Bênção Chamada Sexo, GW Editora, Rio de Janeiro, 2005, 10ª. Edição, pp.65-80).



1 Gênesis 2:7

2 Eclesiastes 3:20

3 Eclesiastes 12:7

4 Jó 19:25-27

5 E.P. Heavenor, in Novo Comentário da Bíblia. São Paulo, Vida Nova, 1972. V.II, p.479.

6 Lucas 9:22. Ver também Mateus 12:21, 17:22, 23.

7 João 2:21

8 João 2:22

9 Lucas 24:39

10 João 11:25. 26

11 I Coríntios 15:20-22

12 Apocalipse 21:4

13 I Coríntios 6: 19

14 Gênesis 1:27

15 Gênesis 2:24

16 Gênesis 2:23

17 Gênesis 1:31

18 Gênesis 12:11

19 Gênesis 29:17

20 Cantares 1:2

21 Apocalipse 21.2

22 João 3.29

23 SCORER, C. G. The Biblie and sex ethics today. Chicago, Inter-Varsity Press, 1966, p.22.

 

24 Gálatas 5:22,23.

25 Romanos 6.12,13

26 BABBAGE, op. cit. PP.13,14.

Comentários
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sivaldo e creuza   |Registered |2010-01-26 10:36:27
avatar sexo e benção do SENHOR DEUS,o pecado vem do diabo q criou a masturbação
como valvula de escape. e errar o alvo e o q todos vem fazendo atualmente.o
cristão lavado e remido no sangue de jesus e previlegiado,porem e bom saber
administrar sua a vida pela palavra de DEUS q e a busola q nos cunduz a
salvação.
creuza sampaio.
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Última atualização em Sex, 29 de Janeiro de 2010 11:11
 


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