Os Evangélicos e o Problema
Série: Textos do Bispo (VII)

Os Evangélicos e o Problema
A Presença Protestante
Quando, em meados do século XIX, aqui chegaram os protestantes, encontraram já uma cultura formada e os costumes e ideias no campo sexual suficientemente definidos e consagrados. Ingleses e alemães, como comunidades de imigrantes, fecharam-se em núcleos coloniais de máxima fidelidade à cultura de origem, com um mínimo de contato e de interinfluências com as gentes da nova pátria. Durante a maior parte de sua história – e até recentemente – essas comunidades isolacionistas quase nenhuma contribuição trouxeram para o todo nacional. Esse protestantismo sempre foi considerado algo estrangeiro, um corpo estranho ao País. Em matéria de costumes refletem a cultura europeia, mas não a de hoje, e, sim, a do século passado, quando de lá saíram os pioneiros.
O outro tipo de protestantismo foi fruto de missões aos brasileiros de origem. Embora viesse a formar uma comunidade de brasileiros, alcançando um grau de integração com o todo nacional, e sendo por este melhor aceito, não deixou de refletir a influência saxã dos missionários em usos, tradições e conceitos. É inegável a desnacionalização de comunidades protestantes. Empolgados com a proclamação do Evangelho, os missionários traziam, junto com este, o modo de vida de seu país de maioria nominalmente evangélica. Homens de seu tempo e de sua terra, não sabiam esses bravos servos de Deus separar o cerne da mensagem bíblica da roupagem com que o tempo e a cultura os haviam revestido. Esse o grande drama da história das missões modernas, com desentendimentos, frustrações e rebeliões nacionalistas. No campo da sexualidade, é bom lembrar que as missões se desenvolveram à sombra do período repressivo vitoriano, e esse modo de encarar foi sacralizado, identificado como a maneira evangélica de ver a coisa.
Reagindo contra o grassante hedonismo da sociedade brasileira, os evangélicos conseguiram estabelecer padrões bem mais altos de moralidade em suas comunidades e, quase sempre, se constituir em incômodo desafio à sociedade em sua volta. A instituição familiar adquiriu maior estabilidade e integração, em um tipo de relacionamento doméstico mais justo e humano, respeitando a dignidade de todos os membros. O culto doméstico simbolizava a igualdade de todos em comunhão diante do Senhor. A História ainda há de fazer justiça aos evangélicos como primeiros paladinos na elevação do status da mulher – no lar, na igreja e na comunidade. Contra uma visão negativa comum às pessoas religiosas de seu País, os evangélicos enfatizaram a ideia bíblica da licitude da vida sexual. A castidade dos padres era substituída pela prole do pastor. Em assunto de educação, as escolas evangélicas foram as primeiras no estabelecimento da educação integrada, para ambos os sexos.
A despeito disso, permanecem distorções de origem e outras absorvidas de setores do pensamento nacional:
a) A comunicação familiar sobre assuntos de natureza sexual sempre foi muito baixa, ou inexistente1;
b) A omissão das igrejas em informar, discutir e analisar o problema foi uma constante;
c) A literatura reduzida disponível vinha em forma de traduções, desvinculadas da problemática nacional, procurando universalizar soluções de outros lugares e outros tempos;
d) Discutíveis exegeses foram tomadas por sentado, intocáveis, não mais sujeitas a um repensar criativo e atualizado, em busca do sentido real do texto.
Em decorrência:
a) Os delitos sexuais passaram a ocupar um lugar primeiro em uma nova hierarquia de pecado (a divisão não-bíblica da Igreja de Roma – pecados mortais e pecados veniais – de fato foi adotada pelos protestantes):
b) A lista de delitos sexuais foi ampliada, acrescentando-se normas costumeiras nacionais ou estrangeiras "biblificadas";
c) A santificação passou a significar conformidade exterior a certos costumes;
d) O corpo como depositário do potencial de "carnalidade" dos crentes;
e) Um legalismo repressivo e punitivo foi consagrado, fazendo inveja às mais pias ordens monásticas.
A sombra missionária estrangeira, em recursos humanos e materiais, ainda se projeta fortemente sobre algumas denominações. Pastores nossos, por não serem oriundos das elites nacionais, ao fazerem sua ascensão intelectual realizam-no sob a égide de fontes estrangeiras, anulando, em parte, o esforço de nacionalização do protestantismo brasileiro. A necessidade de (para usar a expressão de Samuel Escobar) "desvestir o Evangelho de sua roupagem anglo-saxã" é uma tarefa imperiosa para que a comunidade evangélica atinja um maior nível de maturidade teológica e cultural.
O mais surpreendente, infelizmente, é que movimentos carismáticos ou pentecostais, assim como outros grupos autóctones, muito mais nacionalizados em outras áreas, tenham optado por uma maior rigidez e legalismo quanto à conduta sexual, em ortodoxa fidelidade ao velho vitorianismo.
E por esse Brasil a fora vamos encontrar igrejas com mulheres sentadas de um lado e os homens no outro, longos vestidos de cores sóbrias, silêncio em matéria de sexo, ou uma "convicção de pecado" na área, que é mais complexo de culpa mesmo; seminários ou institutos bíblicos com intermináveis regras de conduta para seus alunos quanto ao contato com o outro sexo, e por aí vai.
Um missionário, dos arejados e de grande senso de humor, perguntado por alguns irmãos sobre o tamanho ideal para a saia das mulheres, respondeu: "Irmãos, eu sou missionário, não sou alfaiate". Outra feita, a pergunta dizia respeito ao tamanho do cabelo das mulheres, ao que contestou: "Em minha igreja há mulheres com cabelo de um metro de comprimento... e língua de dois metros..." Oxalá tivéssemos mais missionários dessa estirpe!
Repressão E Libertação
Em clínica pastoral foi colhido o depoimento de uma jovem crente, de classe média urbana e cultura universitária, sobre sua formação sexual, seus conceitos e seu mundo interior, antes e depois de ela deixar que o Evangelho fosse Boa Nova de libertação para essa área também.
Primeiro depoimento:
“Para cada situação de envolvimento, aquele medo de deixar que a verdade aparecesse. E por quê? Primeiramente aquele ‘tabu’ todo em tomo do sexo, mais a ideia incutida de que eu era criança, cedo ainda para ‘estas coisas ‘; daí o sentir vergonha de que isso poderia acontecer comigo. Acrescida a isto, vinha mais uma leva de complexos e inseguranças (em outros sentidos), o que me levou a um relacionamento de limitação com o sexo oposto; sem conseguir admitir que na realidade pudesse ocorrer algo entre mim e este; então partia para a realização do desejado, todo em sonhos, e procurando encobrir qualquer sentimento, por insegurança. A mãe, o pessoal em casa: a vergonha”.
De pequenina o sexo veio aflorando normalmente, e eu o teria aceito bem, naturalmente, não fosse logo percebendo que era tido como alguma coisa 'feia', que os pais escondiam. Foi abafado, e ele existia dentro de mim; mas aquele senso de culpa e acima de tudo vergonha, dificuldade de encará-lo como normal, natural em mim como mulher: num rapaz, como homem.
Em alguma situação de envolvimento, em que, ajuntando insegurança (gerada por algum complexo, não em relação ao sexo) e mais vergonha do sexo, de princípio não considerando alguma possibilidade, era levada a não deixar fluir isto natural, realmente em mim, mas fazendo-o em 'sonhos', e neles me gastando, deixando fluir assim numa situação ideal, a ponto de já me sentir realizada. Vivê-lo novamente, na realidade? Por outras vezes o sentido de frustração quando deparando com o real, que diferia bastante do sonhado, pois que neste eu agia e 'vivia' bastante diferente.
Repressão por medo, vergonha; as sensações são reprimidas todas; medo de vivê-Ias realmente, tudo o que sempre vivi no irreal. Daí o aparentar assexuada, sempre como 'irmã' e 'amiga'".
Esse depoimento, autêntico, espontâneo, sem retoques, é um protótipo de muitos outros que aqui poderiam ser relatados. Deixaremos sua análise a cargo de cada leitor.
Em trabalho de clínica pastoral, a jovem reconstituiu sua vida, descobriu as origens do problema e, em termos espirituais, procurou a libertação em Cristo, entregando também essa área de sua vida ao Libertador e Médico dos Médicos. Não tardaram a acontecer coisas, em verdadeira novidade de vida.
Aqui, o segundo depoimento, poucos meses depois:
“E agora? Depois da conscientização destes aspectos, fui experimentando tentativas, chances dadas ao fator sexo em mim. Até mesmo ‘curiosidade’ pelo fato; mas isto depois de muita luta. De aceitação própria, primeiramente, para depois admitir o real. Nessa aceitação própria entraram vários fatores que não só o sexo. Depois dessa consciência de eu ser mulher para as pessoas que me cercam (rapazes...), e não apenas para mim mesma, dei chance, já consciente de que isto é parte integrante da pessoa em mim, que o Senhor fez e tem trabalhado para aperfeiçoar...
Então a transformação; para mim mesma tem sido bastante surpreendente; antes (?), aparentemente fechada, fria, sempre procurando aparentar que não havia interesse algum de mim neste aspecto em relação a qualquer rapaz; como para que ele não tivesse nada a temer desse relacionamento comigo; porque eu não me aceitava, daí o não admitir que seria aceita; e agora, depois desse processo de conscientização, passo a permitir ser explorada; e vem natural o me deixar conhecer como mulher – mas isto ainda em processo; deve haver muito a aprender, desenvolver. Que o Senhor complete a obra que ele mesmo iniciou. Para a glória dele! Amém!
Agora, o Senhor toma conta do sexo em mim, me fazendo louvá-lo por isso; por ele me ter feito íntegra, e assim, com tudo que ele me fez, é que ele quer que eu viva para me sentir completa; louvo-o pelo presente que ele me deu para provar tudo isso: o 'irmão'".
Em Cantares 5:1 o esposo trata a mulher de "minha irmã". É interessante o mesmo tratamento dado pela moça do depoimento ao namorado. Namorado esse que veio como resultado de uma entrega e uma espera em oração. Jovem consagrado, como ela, ao trabalho na causa do Evangelho. Namorado que veio como parte da terapia de Deus.
É verdade que nem todos os jovens crentes chegam ao extremo dessa moça. Há outros dois grupos: um que namora (às vezes até demais), que aparenta bastante liberdade no relacionamento com o outro sexo, mas que na realidade, lá dentro, em sua mente, os conceitos errados e a culpa são muito diversos; o outro grupo é dos que separam existencialmente a fé cristã da vida sexual, que se comportam "segundo o mundo", ou por não terem tido uma correta orientação, ou por pura e simples rejeição do que receberam. Mesmo aí, nos chamados "crentes pra frente", se encontram a culpa básica e o erro de visão quanto ao sexo.
Uma Hierarquia De Valores
Certa feita escutava um grupo de pastores falar sobre o evitar a "aparência do mal" e as precauções na luta "contra a carne". O "mal" e a "carne" foram logo personificados no sexo oposto, e o automóvel como palco de batalha. Os mais radicais disseram que não carregavam mulher alguma em seu carro. Outros disseram que levariam a mulher "se ela fosse sentada no banco traseiro, e ele à frente", qual motorista de táxi. Um, porém, afirmou que mulher só entra em seu carro se sua esposa estiver dentro. E narrou o episódio de uma senhora da igreja que, estando em dias de dar à luz, e residindo em local afastado, combinou que telefonaria para o pastor ao sentir as primeiras contrações, para que ele a transportasse para a maternidade. Dito e feito: no dia esperado avisou o pastor. E o que fez ele? Pegou o carro, foi ao local de trabalho da esposa, em outro bairro, e de lá seguiu para a casa da gestante, para então se deslocar para a maternidade. Por sorte a criança não tinha nascido em casa, com a espera. A explicação do pastor foi que, ficando a barriga da gestante encoberta pela porta do carro, e só a cabeça à mostra, ninguém ia saber a diferença e iriam pensar mal dele.
Outra feita, em uma festa de quinze anos, após os "parabéns pra você" e o corte do bolo, chegou a vez de todos, em fila, irem abraçar a aniversariante. Na vez do pastor este disse: "Vou pedir à minha esposa para abraçar a aniversariante, pois abraçar uma moça não fica bem para um pastor".
Essas coisas me fazem recordar uma longa conversa que tive com um presbítero de uma das grandes igrejas do País, em viagem rodoviária que, por coincidência, fizemos juntos. Falando sobre ética e ministério, o velho batalhador disse, a certa altura da conversa: "Você pode encontrar obreiro mentiroso, velhaco, enrolão, preguiçoso, irresponsável, e o que você imaginar. Pessoas reclamarão, mas haverá uma elástica tolerância. E ele vai levando a coisa. Você pode até encontrar obreiros com heresias confessas em suas crenças básicas e ensino. Serão tolerados. Mas ai, ai daquele que, possuidor de inúmeras virtudes, e de nenhum dos defeitos que mencionei, cometer qualquer coisa que seja considerada pela comunidade como deslize na ética sexual! Está arruinado para o resto da vida! Será aplastado impiedosamente!".
Há uma hierarquia de valores em cada sociedade e em cada cultura, com reflexos diretos nas normas jurídicas vigentes. Biblicamente, é difícil estabelecer pecados que são mais pecados que outros. A tradição católico-romana de pecados "mortais" e "veniais" está dentro das igrejas evangélicas. A hierarquia de valores da sociedade e da cultura (nossas e dos missionários) está dentro das igrejas (e das cabeças), sacralizadas devidamente. Em outra parte deste trabalho veremos o malefício de tal prática. E o velho sexo, para todos os efeitos, encabeça a lista dos pecados "mais pecados".
Uma Mudança Necessária
Estamos convencidos de que diversos problemas espirituais, especialmente da mocidade, têm na deformada visão dos assuntos sexuais a sua causa. O espiritual e o mental andam juntos. A mente e o corpo (vide medicina psicossomática) idem. O problema, em seus três aspectos, é de saúde. Saúde física, psíquica e espiritual dos crentes. A Igreja, quando vivendo a noção de um corpo de membros interligados, mutuamente dependentes e ao Cabeça, Cristo, o homem perfeito, é uma comunidade saudável. Crentes sadios, integrados e maduros poderão fazer mais pelo Reino de Deus.
A tensão e o choque de gerações se evidenciam na Igreja em épocas de crise e de transição. A crise e a transição não são males em si, mas sinais de vida. Quando significarem uma transição para melhor e uma crise de crescimento, não se devem temer. Se os séculos têm obscurecido parte da mensagem bíblica, épocas de reforma surgem para fazer brilhar a luz da Palavra. É nesse sentido que se critica a Igreja, construtivamente. Como já vimos, nossos heróis da fé de ontem, a quem tanto devemos, foram vítimas das ideias do mundo de seu tempo. Não estamos a recriminá-los. Mas, das lições do passado, partimos hoje para mais da Palavra e do Espírito que liberta e dá vida plena. Se novos problemas virão para a Igreja amanhã, pelo menos em uma área a tenhamos ajudado a crescer.
Mudemos nossa visão do sexo, das ideias do mundo, para as da Revelação de Deus. A repressão moralista e a permissividade irresponsável são ideias do mundo; segui-Ias é mundanismo. Não nos devemos conformar com este mundo.
(Uma Bênção Chamada Sexo, GW Editora, Rio de Janeiro, 2005, 10ª. Edição, pp.53-64).
1 Informações sobre a educação sexual nas antigas famílias protestantes podem ser colhidas no romance autobiográfico Filho de Pastor, do Rev. Josibias Fialho Marinho (Rio-GB, 1974), especialmente em seu capítulo oitavo.
| Comentários |
|
3.26 Copyright (C) 2008 Compojoom.com / Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."
Última atualização (Dom, 24 de Janeiro de 2010 09:43)
| Artigos Relacionados: |
|---|
|
| Powered By relatedArticle |












