O Sexo no Brasil
Série: Textos do Bispo (VI)
O Sexo no Brasil
A Carta de Caminha
"...Eram ali dezoito ou vinte homens pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas...", escrevia Pero Vaz de Caminha em sua famosa carta a EI-Rei de Portugal, relatando o primeiro encontro da frota cabralina com os nativos de Vera Cruz. Para dar a Sua Majestade uma idéia do tipo físico dos habitantes da nova terra, afirmava: "A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos, andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma coisa cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e estão cerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto..." Impressionado particularmente com as representantes do sexo oposto, Caminha dizia: "Entre todos estes, que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa; à qual deram um pano, com que se cobrisse, e puseram-lho ao redor de si; porém ao sentar não fazia memória de o muito estender para se cobrir, assim, Senhor, que a inocência desta gente é tal, que a Adão não seria mais quanto em vergonha..."1.
Essa carta encerra um profundo simbolismo, no encontro das duas culturas iniciais de nossa formação. De um lado os indígenas animistas, sem o conhecimento do Evangelho, mas desprovidos de conceitos negativos no tocante ao corpo e à vida sexual; do outro, os portugueses, espantados com a nudez, associando os órgãos genitais com a vergonha e a atitude dos silvícolas com a inocência. Como demonstração de sua ação civilizatória, celebraram uma missa, deram objetos de técnicas mais avançadas e... um pano para cobrir a nudez. Vemos que a doação do pano não tinha um sentido estético, de colocar os índios em dia com a alta costura européia, nem prático, de proteção contra as intempéries tropicais, mas ético e teológico, no esconder dos órgãos sexuais. O mais importante é que o pudor maior deveria ser o feminino, já que deram o pano unicamente para a moça, deixando nus os mancebos.
Não se pode, porém, negar a relativa boa intenção dos lusitanos na forma de expansão da Fé e do Império, da Igreja de Roma e do Reino de Portugal, pois eram homens de sua época e, como tais, haviam aprendido que as coisas deveriam ser desse modo.
A certa altura da carta, lemos: "Parece-me gente de tal inocência que se os homens os entendessem e eles a nós, que seriam logo cristãos; porque eles não têm nem entendem nenhuma crença, segundo parece e, portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar, aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido, segundo a santa intenção de Vossa Alteza fazerem-se cristãos e crerem na nossa santa fé, à qual preza a Nosso Senhor que os traga, porque certo esta gente é boa e de boa simplicidade, e imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que Ihes quiserem dar; e logo que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, e eles, que nos por aqui trouxe, creio que não foi sem causa. E, portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar na santa fé católica, deve entender em sua salvação, e prazer a Deus, que com pouco trabalho será assim".
De certo modo observa-se a presença entre os portugueses do mito do selvagem bom, o que implica, logicamente na corrupção do homem pela sociedade. O sentido cristianizador e civilizatório estão inseparáveis, daí a "facilidade" em cristianizá-los. A cristandade da época era entendida pelo estar dentro das fronteiras de um país cristão e da Igreja Romana, pelo batismo. Surpreendente é a sugestão de por os famosos degredados (responsáveis por delitos políticos e comuns) como "missionários".
Colonização Sexocêntrica
É verdade que nem todos os degregados eram gente da pior espécie; mas que davam para missionários, é outra história. Duarte Coelho – ainda nos primórdios da colonização – pedia ao Rei que não os mandasse, pois eram "piores que peçonha". O degredo para o Brasil era uma forma de punição para inúmeros delitos, desde os de natureza religiosa até o homicídio. Estes, os aventureiros, os náufragos e mercadores, possuíam uma coisa em comum: a ausência de mulheres. Uns eram solteiros, e os que eram casados deixavam as mulheres na Metrópole esperando pelo seu futuro regresso (o que quase nunca ocorria) ou para que mandassem buscá-las assim que fosse possível (quer dizer, nunca). Aqui chegando, encontravam as índias e, posteriormente, as negras, submissas, inferiorizadas, prontas para qualquer ação libidinosa, livremente, sem compromissos e responsabilidades. O tipo de relacionamento sexual era o mais primário possível, ao nível animal, ausente de sentimentos e emoções mais profundas. Sem mulher, sogra ou cunhado para servir de freio, sem uma sociedade com costumes morais suficientemente fortes para pressioná-lo, sem vínculos matrimoniais eclesiásticos ou seculares, o nosso colono vivia a plena liberdade sexual. Não é exagero se afirmar que nos primeiros séculos da história brasileira não se pode falar na existência de famílias propriamente ditas. Não se pode falar nem em poligamia. O que havia era a pluralidade ilimitada de uniões irresponsáveis, mera satisfação de instintos e fonte de reprodução da raça, aquilo que Caio Prado chama de "indisciplina sexual"2 e que Gilberto Freyre denomina de "intoxicação sexual”3.
Com toda essa liberdade, ainda havia lugar para a prostituição. Em cada cidade, vila ou povoado haveria a presença obrigatória de casas ditas de tolerância. Muito pesava a causa econômica. Mulheres que não casavam por serem de raça "inferior", que não eram amparadas por um branco, que não conseguiam um emprego, terminavam por enveredar nessa trilha. A sífilis não tardaria a se proliferar, permanecendo até o século XX, disseminada em todas as raças e classes sociais, mutilando gerações.
Quando ocorria o desejo de alguém querer se casar, vinha a dificuldade para arranjar um padre; as taxas e emolumentos eram exorbitantes, e o preconceito, forte demais. A sociedade, que aprovava qualquer tipo de união com índias e negras, não tolerava que os brancos com elas contraíssem casamento regular. Em algumas irmandades leigas rezavam os estatutos que seriam punidos com a expulsão os membros que se unissem em tais núpcias4.
A Igreja Romana não pode mudar a situação. Com poucos sacerdotes, sem uma mensagem de transformação, sem uma simbologia viril, conseguiu ficar apenas na superfície, no cerimonial, nas festas, nas expressões de religiosidade coletiva, sem penetrar nas consciências, sem influir nos costumes. Vianna Moog é mais duro em seu julgamento, quando diz que, enquanto lavra a imoralidade, "os próprios padres vivem amancebados com mulatas e caboclas, cercados de curumins mestiços, a que dão o nome de afilhados, os célebres afilhados de padre do Brasil bandeirante e patriarcal"5.
Brancos, Índios E Negros
Nos antecedentes mais remotos do colonizador português, em termos de influências, vamos encontrar: a presença, durante séculos, dos muçulmanos invasores, com a instituição da poligamia, que dava inveja aos "cristãos" locais; a idealização da mulher morena (a moura); e a tolerância para os diversos tipos de uniões sexuais, já que se fazia necessário povoar o Reino, invocando as bênçãos fecundadoras de santos e santas padroeiras, desde Santo Antônio a Nossa Senhora do Bom Parto.
Entre os índios, encontrava-se, além da poligamia, a facilidade e fragilidade dos vínculos conjugais e a posição central do jogo sexual em suas vidas parcialmente ociosas. Se o português vinha predisposto, as índias se jogavam a seus pés em troca de qualquer quinquilharia, buscando a união com essa raça superior, essa raça de deuses. Atritos ocorreram, porque as índias deixavam seus homens pelos portugueses, considerados por elas como mais dispostos e dotados de imaginação.
O relacionamento entre negros, ou entre estes e os brancos, constitui-se em capítulo à parte. A escravidão representou brutal rompimento do africano com sua cultura e suas instituições sociais. Se muitos desses povos africanos eram polígamos, o eram de modo estável, dentro dos costumes locais, dentro de um espírito de sentimento e responsabilidade. Aqui, jogados na senzala, aos montes, como gado, vendidos, trocados ou transferidos quando menos esperavam, viam desaparecerem suas instituições familiares, substituídas pelas uniões fortuitas e irregulares, em condições humilhantes. As jovens donzelas estavam submissas ao senhor branco, e aos "sinhozinhos", para qualquer tipo de intercurso, inclusive, com certa freqüência, do tipo sado-masoquista. Foi dessa espécie de união que surgiu o mestiço brasileiro, o mulato complexado, sem identidade, cheio de conflitos interiores.
"Abandonado, esquecido ou renegado pelo pai, criado à tanga ou à saia da mãe, na senzala, na maloca ou no mocambo, onde vai concentrar-se toda a sua vida afetiva, o mulato estaria de antemão condenado a desenvolver, com revolta contra o pai e as fixações maternas, a base de futuras neuroses”6.
Nesse festival de sexualidade, ilimitado e irregular, família é uma exceção. É tão exceção que se faz distinção entre pessoas que são e que não são "de família", o que pareceria absurdo para outros povos. Aos poucos, porém, ela vai aparecendo, com a vinda de mulheres brancas para a colônia, onde vão se casar com os brancos ricos, ficando no topo da pirâmide social, constituindo uma nova elite, por sua vez cheia de problemas. Não conseguirão restaurar os costumes das famílias portuguesas. Depois de tanto tempo, e tanta liberdade, mesmo entre os brancos, encontraremos reflexos da situação social geral.
Como as mulheres brancas eram poucas e as famílias (no sentido acima descrito) igualmente poucas, freqüentes eram os casamentos entre parentes. Casar fora da família deveria ser com pessoa igualmente "de família", para a manutenção do status e soma das fortunas. Nas regiões onde não ocorreram novas correntes migratórias – nacionais ou estrangeiras – os integrantes das elites são todos mutuamente aparentados. Esses casamentos eram arranjados entre os chefes de família, com quase nenhuma participação dos futuros nubentes. As donzelas, em geral muito moças, iam para o altar entre os doze e os quinze anos. Em alguns casos o noivo tinha o dobro da idade da noiva.
É na família branca que o duplo padrão de comportamento e moralidade para homens e mulheres aparece mais nítido e desigual. Enquanto os homens eram livres sexualmente, antes e depois do casamento, iniciados tenramente no jogo erótico com escravas e livres, as mulheres eram severamente vigiadas em seus movimentos virgens e castos. O homem mandava; a mulher obedecia. O homem se instruía; a mulher deveria ficar ignorante "para não pensar besteira". O homem se divertia; a mulher procriava, cuidava da casa e descarregava os recalques nos escravos. Ai da moça que olhasse com desejos para um negro, ou com ele tivesse alguma coisa! Casavam-na apressadamente com qualquer primo e o escravo era morto ou castrado. Já o rapaz era, por todos os meios, estimulado a uma precoce atividade sexual. Tinha que mostrar que era homem, ou melhor, macho.
"Nenhuma casa-grande do tempo da escravidão quis para si a glória de conservar filhos maricas ou donzelões. O folclore da nossa antiga zona de engenhos de cana e de fazendas de café quando se refere ao rapaz donzelo é sempre em tom de debique: para levar o maricas ao ridículo. O que sempre se apreciou foi o menino que cedo estivesse metido com raparigas. Raparigueiro, como ainda hoje se diz. Femeiro. Deflorador de mocinhas. E que não tardasse e emprenhar negras, aumentando o rebanho e o capital paternos”7.
É o fenômeno sociológico do machismo. Não cultivando as outras dimensões do ser homem, o brasileiro se afirmava ao nível animal do apenas macho. Afirmação sem mérito, pois machos são encontrados naturalmente em qualquer espécie, e ser homem se faz ao nível de sentimento e razão, do além animal. Mas aqui temos a nítida distinção entre o masculino e o feminino, em termos de cores, modos, atividades, moralidade, costumes, idéias e direitos. Seja o branco rico para continuar a tradição, ou o negro pobre para se afirmar posteriormente; todos livres, comportam-se de igual modo. São todos "conquistadores", "caçadores de fêmeas". O protótipo do relacionamento sexual do Brasil – o homem como sujeito e a mulher como objeto – tem raízes profundas e antigas, difíceis de alterar.
O Brasil, pelo menos, é um país onde as aventuras e excessos das novas gerações não são "sinais de tempos", e onde os antigos e as tradições são de pouco mérito em invocação de exemplos. Coisas que perturbem os povos de hoje tiveram entre nós inegável e indiscutível pioneirismo...
A Reação Repressiva
Se a corrente hedonista foi a dominante nos costumes brasileiros, o moralismo repressivo cedo apareceu e foi, pouco a pouco, se firmando. Hoje, ambas as tendências de ver o corpo e o sexo convivem lado a lado. Dependendo da região, sexo, classe ou religião, pesa mais uma ou outra. O surpreendente – mas compreensível – é que ambas podem subsistir dentro da mesma pessoa. O ser hedonista ou moralista não depende da pessoa que fala, mas da pessoa com que se fala, ou onde e quando se fala.
Em fins do século XVIII e começos do XIX cresceu sobremodo a influência da Igreja Romana. Orações, procissões, benzeduras. Altares, imagens e rezas em cada casa. Terços, rosários e novenas. A teologia católica aguçou a consciência adormecida dos luso-tropicais, e, se não conseguiu mudar-Ihes os hábitos, incutiu-Ihes a culpa. As mulheres, os velhos e as crianças, assim como os escravos, foram os mais influenciados. A mulher branca, especialmente, que sempre tinha recebido uma educação moralizante. O homem branco tirou uma média: aceitava a moral para a sua família, sua mulher, suas filhas, fechava os olhos para os filhos, e se comportava diferentemente nos negócios e nos tratos com as coisas e pessoas alheias. O pior é que essa idéia de culpa associou pecado e ato sexual, corpo e imoralidade. Corre nos círculos populares a noção de que o pecado original foi o ato sexual, e que a "maçã"(?) que Eva ofereceu a Adão foi bem outra...*
Influenciada pela cultura francesa e inglesa, a família brasileira passou a vestir-se à européia: panos grossos da cabeça aos pés, em total inadequação às condições climáticas. Fraques, casacas, colarinhos duros, chapéus, longos vestidos. Cores escuras – de preferência o preto – davam a impressão de um grande velório. As crianças, coitadas, muito cedo eram obrigadas a semelhante suplício, abafadas, suadas, sem liberdade de movimento.
Olhando-se para velhas fotografias – já nas primeiras décadas deste século – pode-se verificar o tipo de roupa usada, inclusive as esportivas e as de banho. Toda a preocupação era a "elegância", dentro dos padrões estéticos importados, e a "decência", dentro de padrões morais extremados. Quanto mais roupa e menos parte do corpo descoberta, mais decência; quanto menos roupa e mais parte do corpo à mostra, mais indecência. A ênfase era inteiramente exterior.
Conversando com um velho morador do Rio de Janeiro, ouvi um vivo relato de quem presenciou o episódio da Revolta da Vacina Obrigatória8. Uma das causas (nunca mencionada nos livros de História) era o ultraje sentido pelas famílias com a absurda pretensão do governo de obrigar todas as pessoas – inclusive moças e senhoras decentes – a tomar a dita vacina na face da coxa. Numa época em que não havia bermudas ou "shorts", e os trajes de banho desciam até os tornozelos, as vítimas tinham que levantar as saias, que desciam, igualmente, até os pés. Vacina aplicada por homens (naquele tempo medicina e enfermagem não eram lugar para mulher). Em nome do pudor, antes a morte ou a revolta. Não sei se é também por pudor que os historiadores não falam desse detalhe em seus livros...
Adaptados aos tempos, vemos ainda componentes dessa abordagem repressiva na "moralidade média" das famílias brasileiras, principalmente nas zonas rurais e suburbanas. Os trajes foram – lentamente até a década de 50 – tornando-se mais leves, mais adaptados ao clima e menos compridos, até que, a partir dos centros urbanos mais cosmopolitas, na década de 60, presenciou-se uma mudança mais brusca nos costumes e nos trajes, com repercussões em todo o País.
Formação em um Passado Recente
O jovem brasileiro – até bem pouco tempo atrás – nada recebia de educação sexual no lar durante a infância. Qualquer conversa ou pergunta nessa área era considerada indiscreta e "coisa feia". A partir daí o menino não perguntaria mais nada, por temor da reação. Alguns, por possuírem animais domésticos, podiam observar certos ensinamentos "práticos", com um ar de surpresa e malícia. O resto se aprendia na rodinha de amigos, nos folguedos de rua e na escola, em uma atmosfera de mistério e de quem entra na área do proibido, de quem infringe uma norma e, por isso, sente-se culpado. Esse tipo de aprendizagem era uma fonte geradora de preconceitos, informações incorretas e visão negativa, com marcas para o resto da vida. Muito cedo o rapaz passava a gostar do humor negro e dos comentários sobre os "casos" célebres de anomalias sexuais da cidade ou bairro. (O humor nacional é basicamente determinado por essa formação. Se a anedota não tiver esses ingredientes, não tem graça.) Gostar dessas piadas, frequentar essas rodinhas, era um orgulhoso sinal de masculinidade. Uma bebidazinha, um cigarrinho e um joguinho de azar completavam a iniciação do jovem guerreiro nas asperezas da vida.
Contudo, a cerimônia mais importante para essa "iniciação" era o glorioso, temido e esperado dia da primeira visita ao prostíbulo, aí pelos treze ou quatorze anos, levado pela mão de um amigo ou parente próximo mais velho, que o apresentava, com "recomendações", a uma experimentada profissional. No dia seguinte, o prestígio do rapaz aumentava entre seus pares, saudado como herói voltando vitorioso dos campos de batalha. O genitor, sabedor do feito, orgulhava-se mais ainda de seu filho homem, passando a comentar o ocorrido com os amigos. O apanhar uma doença venérea, antes que um embaraço, era um insofismável sinal da veracidade da "iniciação", verdadeiros ferimentos de luta. Outros se iniciavam com empregadas domésticas. Esse tipo de relacionamento é tão presente em nossa história que deu lugar a um conhecido dito: "Quem não ama Ama não ama". Na verdade é um resquício dos tempos da escravidão, pois em geral essas empregadas eram pretas ou mulatas. Falando das diversas influências que recebemos dos africanos, o mestre de Apipucos menciona a mulata "...que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem"9.
Ai do jovem que não passasse logo por esse processo! Seria visto como um doente, um anormal; poriam em dúvida sua masculinidade e seus colegas não iriam querer se identificar com ele. As irmãs dos colegas não iriam querer namorá-lo. No mínimo diriam que ele se auto-satisfazia por meio de masturbação, prática que poderia levá-lo à loucura ou à tuberculose. Se não praticasse isso, nem se pudesse provar suas tendências homossexuais, seria considerado um abestalhado, um bobão, um coitado. Uma estória corrente entre adolescentes de uma região do país narrava que os espermatozóides acumulados subiriam para a cabeça, formando um queijo interior, responsável pelo abobalhamento do caráter. Queijudo, termo empregado para identificar os portadores desse suposto mal, ainda hoje é um pejorativo.
Uma dupla vida sexual era assumida desde tenra idade: a irmã do amigo, "moça de família", era para namorar, para ir ao baile, para se ter "boas intenções"; a empregada doméstica ou as moças de origem mais humilde eram para finalidades mais práticas e menos dignas.
A jovem moça, por sua vez, tinha uma educação bem diferente. A atmosfera de tabu no lar era a mesma. A mãe apenas lhe ensinaria (se o fizesse) os rudimentos dos rudimentos, como a menstruação e o cuidado com os rapazes, pois "com homem não se brinca". Os papos com as colegas eram igualmente limitados em termos de informação. O pai e os irmãos não conversavam com ela sobre esses assuntos. Se começava a namorar, era vigiada pelos pais, pelos irmãos, pelos parentes, pela família do namorado, pela vizinhança. Se saía das normas pré-estabelecidas, tornava-se uma moça "falada", para vergonha da família. Em tal caso, os rapazes não mais iriam querer namorá-Ia, e alguns pretenderiam se aproveitar para óbvios fins. No colégio, tinha à sua disposição uma literatura romanceada e as famosas fotonovelas, de cunho irrealista e alienante, com uma visão cor-de-rosa do amor, nada preparando-a para a vida real. E por falar em educação escolar, não é bom esquecer que até a década passada a educação secundária, em sua maioria, era separada por sexos: colégios de rapazes e colégios de moças – os famosos colégios de freiras – onde o tabu imperava, com lições tais como: "não se deve trocar de roupa na frente do outro" (ensinava-se a trocar de roupa debaixo de um lençol), "não se deve tomar banho com outros" (alguns prescreviam, inclusive, roupas de banho para chuveiro individual), e por aí adiante. Educação integrada na adolescência era um perigo...
Em chegando a época do matrimônio, verificava-se o inegável despreparo. Mesmo os que atingiam um nível maior de instrução pouco leriam sobre a vida sexual de um prisma científico. Durante o noivado falava-se de tudo, menos disso. Quando muito, observava-se um certo "empirismo" ou prática de "atos preparatórios".
Se os tempos são outros, não se pode negar fortes resquícios dessa educação, ainda hoje, nas zonas rurais e suburbanas, e entre as populações menos letradas e de renda mais baixa, assim como entre os fiéis de alguns grupos religiosos mais tradicionais.
Os Novos Tempos
Algumas modificações vêm ocorrendo nos últimos anos: um contingente cada vez maior de moças vai à Universidade, consegue um emprego, diminui a dependência em relação à família, tem acesso a melhores fontes de informação; os rapazes usam mais as moças de programa e as "bocas de luxo", em vez dos prostíbulos tradicionais. A vigilância e o controle social são menores nas grandes cidades. A literatura sobre sexualidade já é abundante (embora nem sempre lida). Determinação do Conselho Federal de Educação manda incluir matéria sobre sexo nos currículos das escolas de 1.° e 2.° graus, o que tem provocado reações, como a de um Secretário de Educação que declarou que "não aprova o uso imediato da palavra sexo, pois ele desperta em demasia a atenção das crianças para o problema"10.
Se a literatura sexual é vasta, maior ainda é a literatura de cunho pornográfico, que se encontra às dezenas em qualquer banca de revistas. Sintomaticamente, esta é muito mais procurada e lida do que a de natureza científica. Em vez de se reeducar, o jovem alimenta, em outros níveis, as deturpações que já possui, talvez pelo temor de que essa reeducação o leve a romper com a maneira de pensar e agir de seu meio. Outras revistas, que não podem ser classificadas de pornográficas, pela seriedade de informações contidas, pecam pela opção a uma filosofia naturalista, amoral, quase hedonista.
As idéias igualitárias quanto aos sexos – sopradas de além-mar e de além Canal do Panamá – são igualmente responsáveis por mudanças. Infelizmente, é um igualitarismo nivelador para baixo. Em vez de elevar o homem, rebaixa a mulher. Esta passa a beber e a fumar como símbolo de afirmação de sua liberdade. Ao homem não se exige a castidade, mas a mulher procura abdicar da sua. É o "embalo" da permissividade presente outra vez, principalmente nos estratos sociais ditos superiores.
A bem da verdade, deve-se ressaltar o pluralismo de situações no Brasil, a quase impossibilidade de se analisar uma situação "média" ou "típica". Ao que parece, os extremos repressivos e permissivos são minoritários. A maioria da população fica em posição mais ao centro, recebendo ambas as influências. Uma transição se verifica, com valores em crise. Refletindo a situação mundial, os reprimidos buscam a liberdade e os que a tiveram em demasia buscam valores. O problema vai deixando de ser de informação sexual, para ser de educação sexual. É uma visão adequada que falta.
Matrimônio à Brasileira
Depois de uma vida de conquistas, casos e aventuras, eis que chega o dia do machão se casar. Para começar, ele dificilmente confessa a espontaneidade do ato como resultado de um sentimento de amor, de um desejo de constituir família. Ele vai ser casado. "Vou me amarrar", é o grito desesperado, mesmo quando o coração diz o contrário. É a sociedade, a igreja, as famílias, em terrível complô. Antes, há uma "despedida de solteiro", alcoólica comemoração de quem parte da "vida boa" para os pesados encargos do casamento.
Para ela, ao contrário, é o esperado, ansiado e desejado dia. Educada para ser dona de casa, estimulada pelas amigas, com a cabeça cheia de romances, telenovelas, radionovelas e fotonovelas, a heroína vai viver, afinal, a sua novela. Nesse entusiasmo colorido, chega a esquecer (ou procura fazê-lo) a vida real de seus pais e de casais amigos. Para ela o importante é a casa, o enxoval, a festa, e o cobiçado troféu: o marido.
À porta da igreja – reza a tradição – as amigas dela dizem excitadas: "Aí vem ela!"; e os amigos dele proferem uma sentença: "Lá vai ele..."
Breve ele voltará às rodinhas de "chopp", ao convívio dos amigos e às fortuitas – e mais cuidadosas conquistas. Para não se cansar de fazer referências a minha senhora e aos meus filhos, pois afinal todo cidadão respeitável faz assim, pelo menos nas reuniões do clube de serviço. O resto é trabalhar, ganhar dinheiro, cuidar da carreira. Uma vez ou outra, veste-se uma roupa nova e se sai com a mulher, como manda a etiqueta, para as festinhas familiares de batizado, casamento ou missa de sétimo dia.
Ela logo descobre que a lua-de-mel foi mais rápida do que esperava. Agora espera é menino, como deverá fazer com freqüência nos próximos anos, a não ser que apele para a pílula. O cuidado com as crianças, com as empregadas, com a vida social, a visita aos parentes, enchem a vida. Uma vez ou outra uma briga, uma cena de ciúme, uma irritação, uma tristeza. Vai falar com a mãe e esta pede paciência, e diz que é preciso aprender a viver, que isso passa, e que homem é assim mesmo. E, pelo menos por aqui, é mesmo. Se não trabalha fora, logo descuida-se do vestir e da aparência pessoal, engordando ou emagrecendo. Uma ocasião ou outra, aquele pensamento: "Ah! se eu soubesse!" Se soubesse teria casado de qualquer maneira, porque na maioria das vezes sabia e não queria saber.
Mulher trabalhar fora, ou estudar, nunca é bem visto pela maioria dos maridos. Muitas vezes se proíbe desde o noivado. Inseguro, o homem brasileiro sempre apela para uma mulher inferior a ele em todos os sentidos. Dependente, a mulher busca um superior. Se ela brilha em sua carreira ou profissão, ele entra em pânico, se revolta. O preconceito, trazido de gerações, não permite uma reação equilibrada diante das mudanças impostas pelo tempo. Muitos se acomodam exteriormente pela necessidade financeira decorrente da vida nas grandes cidades.
No relacionamento sexual, o homem deseja a esposa para a satisfação própria e para fazer menino. Mulheres há – e a incidência é alta – que atravessam a vida sem conseguir o tipo ideal de relação com prazer. Cansada dos afazeres domésticos, com a mente cheia de inibições, com um marido egoísta, ela vai para a cama cumprir – quase que literalmente – um doloroso dever. Esse egoísmo masculino é resultante do tipo de relacionamento pré-matrimonial que teve com prostitutas ou afins, quando não havia sentimento e se buscava a satisfação pessoal imediata. O sexo para ele já está identificado com algo imoral. Se sua esposa "passa dos limites de uma senhora decente" (como o foi sua santa genitora), ele fica desconfiado.
Comumente forma-se a divisão clássica: a esposa (dona de casa, minha senhora, a mãe dos meus filhos, a quem tanto quero etc.) versus a outra, para a satisfação sexual e, às vezes, para um sentimento mais profundo. É que, sendo o sexo algo impuro, não entra na cabeça dele perturbar a pureza da mulher, deixando essas coisas para a outra, a impura. Essa dicotomia acarreta sérios prejuízos para a saúde mental. A reação da mulher nem sempre é das mais violentas, pois seu pai e seus irmãos fazem o mesmo, vindo, então, a racionalização clássica: "Não me importo com a vida dele. Só quero que me respeite e a meus filhos, e que cumpra seus deveres de esposo e pai de família". Nessa marcha, ao atingirem o início da velhice resta só um companheirismo, nem sempre fraterno. A menopausa é vista como um símbolo de libertação pelas mulheres insatisfeitas. Se ela tinha relações para procriar, e agora não pode mais fazê-lo, não há porque ter relações. Velho deve é se aquietar e brincar com os netos.
Para os mais temperamentais, inconformados ou "esclarecidos", o remédio é o desquite, ou a "apartação de cacos" pura e simples. O número de desquites, especialmente nas grandes cidades, não pára de crescer. No Rio de Janeiro, no ano de 1973, para 30.617 casamentos, tivemos 4.440 desquites e anulações, sendo 3.080 desquites amigáveis e 1.360 litiginosos e anulações. Nos cinco anos anteriores, igualmente, a taxa manteve-se sempre superior aos 10%. Como sinal de "educação", e pelo fato de o processo ser mais rápido, preferem-se agora os desquites amigáveis. Em algumas varas é o dobro, ou mais, da década anterior11.
Não existindo o divórcio, apela-se para o concubinato, agora já com uma série de amparos legais para os casamentos em consulados e em certas seitas religiosas. Para o homem, essa situação vem sendo aceita em maior grau, dentro de um esquema de "respeitabilidade". Para a mulher a coisa é mais difícil. Estigmatizada, não mais portadora da virgindade, ela é, à semelhança das jovens viúvas, alvo de olhares malévolos, de comentários grosseiros e de propostas pouco matrimoniais.
No meio desse cipoal de desquites e de "coexistências pacíficas", salva-se, qual milagre, uma ou outra família ajustada que, no dizer popular, é uma exceção que confirma a regra.
Perturbados, temerosos ou revoltados, os jovens mais conscientes temem o casamento e defendem um relacionamento "mais livre", mais espontâneo e mais autêntico (sonho que alguns não concretizam, ou, os que o tentam, descobrem outro tipo de pesadelo).
Em recente entrevista, o Prof. Richard Barthol, Ph.D., da Universidade da Califórnia, declarou, a certa altura:
“No Brasil, os casais geralmente aceitam a idéia de que a atividade sexual é mais apropriada ao homem, e que a função da mulher é conceber filhos e dar satisfação ao parceiro. Há uma grande ênfase no machismo, que leva o homem a ter intensa atividade sexual, inclusive extraconjugal, para impressionar os amigos. As gerações mais novas estão mudando esta atitude tradicional, mas a sociedade como um todo ainda não foi atingida pela transformação"12.
As observações do professor norte-americano, que corrobora com outros estudiosos, nos chamam a atenção para o problema do machismo, que para alguns latino-americanos tem sido exagerado pelos de fora, não se levando em conta as transformações profundas geradas pela urbanização, industrialização e educação, e que, na realidade, em nosso continente convivem, surpreendentemente, o machismo e o matriarcado. Este último, comum nas famílias muito numerosas, em que a mãe, por manipulação e chantagem emocional, coloca os filhos a seu lado, transformando o machão-pai em figura decorativa no lar.
Outra ressalva que deve ser feita é quanto à culpabilidade da mulher pelo fracasso do casamento, em desleixo com a aparência, em desinteresse pelo marido, em gênio irascível ou em pouco empenho de imaginação criadora na sexualidade ("já agarrei o besta, e pronto..."). Os casos de infidelidade conjugal, ou o prazer de matronas e mocinhas com anedotas picantes, são indicadores de convicções morais. Muitas não o fazem (pressão social), mas vontade não falta. É importante esse reparo para evitar a falsa idéia de que os homens são mais pecadores, ou coisas do gênero. Com a toda problemática do fundo histórico de dominação masculina, em modelos mais islâmicos que cristãos, os que estudam o problema do fracasso do casamento dificilmente encontram um caso em que haja culpa apenas de um lado.
Uma Ambigüidade Simbólica
Pode-se verificar que um dos problemas centrais, no que toca ao assunto, em nossa cultura, é a dicotomia sexo versus virtude. Os dois conceitos parecem antagônicos, conflitivos e nunca integrados na mente das pessoas. Daniel S. Schipani, psicólogo evangélico argentino, aponta para uma fonte de ambigüidade simbólica, de raízes nitidamente teológicas: as figuras de Eva e de Maria, a primeira "como o modelo de sedutora que conduz o homem à ruína" e a segunda como "o ideal inalcançável de combinar a virgindade com a maternidade, com a docilidade frente à vontade masculina”13. Eva seria a outra, a má, a que os homens devotam desprezo e desejo, a erótica, o objeto sexual, passível de paixão; Maria seria alvo de veneração, respeito e ternura.
Desde criança que meninos e meninas têm incutidos esses símbolos. A sociedade feminina é dividida pelos homens – e por elas mesmas – nesses dois tipos. O homem que lê com avidez as revistas pornográficas e solta gracejos na calçada do bar para as mulheres (Evas) é o mesmo que compra lindos presentes no Dia das Mães para sua genitora, sua sogra, sua irmã viúva (Marias). As próprias mulheres optam por um dos papéis: a virtude ou a sensualidade, pois não conseguem aceitar – tampouco os homens – uma síntese ou integração14.
Aos jovens evangélicos, novas criaturas vivendo em sociedade, recebendo, consciente ou inconscientemente, do meio cultural, o problema dessa ambigüidade, está reservada a difícil, meritória e desafiante tarefa de alteração simbólica – influenciando a cultura – para o bem de sua vida emocional, de sua saúde mental e da causa do Evangelho, fazendo da sexualidade uma virtude15.
(Uma Bênção Chamada Sexo, GW Editora, Rio de Janeiro, 1992, 10ª. Edição, pp.29-51).
1 CASTRO, Therezinha de. História documental do Brasil. Rio/São Paulo, Record. p.18-26.
2 PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo, Brasiliense, 192. p.353.
3 FREYRE,Gilberto. Casa grande e Senzala. José Olímpio Ed., 1954. v.I, p.219.
4 PRADO JÚNIOR, Caio. Op. cito p. 352.
5 MOOG, Viana. Bandeirantes e pioneiros. Rio/Porto Alegre, Globo, 1961. p.110.
6 IDEM. Ibidem. p.221.
7 FREYRE. Gilberto. Op. cit.. V.II. p. 518.
* v. "o que Deus achou bom" - p.52.
8 Durante o governo Rodrigues Alves (1902-1906), o sanitarista Osvaldo Cruz procurou erradicar a febre amarela por meio da vacinação, tornada obrigatória para vencer a resistência popular. Os revoltosos provocaram vários motins e distúrbios de ruas, fazendo-se necessária a ação militar.
9 FREYRE, Gilberto. Op. cit., V.II, p.395.
10 Secretário da Educação do Rio Grande do Sul. O Globo. Rio, 16/08/74. p.14.
11 "Descansar, Um verbo para todos os gostos". Jornal do Brasil. Rio. 11/08/74. Caderno B, p.9.
12 O Globo. Rio. 2118/74. p.7.
13 SCHIPANI S., Daniel La iglesia y Ia "liberación feminina". Quito, FTL, 1974. p. 3-5.
14 Para os interessados em se aprofundar no estudo do pensamento e atitudes da nova geração, recomendamos, embora não endossemos todas as conclusões, a pesquisa comentada A juventude diante do sexo, do Dr. José A. Gaiarsa, Ed. Brasiliense. A análise dessas atitudes transcenderia os objetivos do nosso presente trabalho.
15 Uso as expressões segundo uma compreensão bíblica, e não hedonista.
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Última atualização (Sex, 22 de Janeiro de 2010 17:58)
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