Afirmando a Disciplina
Reflexão Quaresmal

Afirmando a Disciplina
Em um sentido geral, entende-se disciplina como a vivência sistemática de princípios e normas. Em sendo assim, as pessoas estabelecem hora para acordar, fazer higiene pessoal, se alimentar, trabalhar, usufruir do lazer, participar da vida social ou dormir. Cada uma dessas áreas tem o seu modo de ser e de fazer. Os Estados estabelecem normas em suas Constituições e Códigos, com caráter pedagógico e coercibilidade, às quais se espera o exercício da disciplina da cidadania. Cada empresa, repartição, clube, igreja ou quadrilha tem seus próprios princípios e normas, nas quais se exerce a disciplina dos seus integrantes. Há situações, como nos quartéis e prisões onde não há alternativas pelo caráter compulsório da presença, enquanto nas demais instituições há uma opção de se manter, ou não, como integrante, mas, em optando por ser, se opta pelo cumprimento sistemático do que de cada um se requer.
A disciplina decorre da natural socialização desde a infância na família, vizinhança, escola e cultura, onde princípios e normas são transmitidos pela convivência, pela tradição oral e pelo ensino sistemático, e que, internalizados, marcam a personalidade de cada participante. Esses princípios e normas devem não só ter o amparo da legalidade, mas também da legitimidade (ética+pacto social) para que tenham autoridade moral.
A indisciplina, ou ruptura com princípios e normas, se estabelece nas crises políticas mais graves, como a guerra, as revoluções e os golpes de Estado, pela delinquência penal de cidadãos criminosos, ou pela inadequação dos participantes de qualquer instituição ou grupo social, que poderá acarretar na demissão ou expulsão.
A disciplina – em seu conjunto – é, pois, um processo permanente e dinâmico, para cada momento e contexto.
O Cristianismo anuncia a conversão, como profundo processo de mudança de vida, e a santificação, como superação do pecado e crescimento na graça, em direção da maturidade de se modelar na pessoa de Cristo. A disciplina cristã procede do alto, do poder do Espírito Santo, e age a partir de dentro, embora toda a Palavra seja docente, particularmente a Lei e os Estatutos revelados. A disciplina cristã é o andar em novidade de vida pelas novas criaturas. Os princípios e normas cristãs, depreendidos desse trinômio: Lei-Palavra-Espírito, foi interpretado e atualizado pelo consenso dos fiéis, manifestado, particularmente pelos Concílios da Igreja Indivisa, e pela convergência dos Pais Apostólicos, dos Pais da Igreja e dos Reformadores.
Os primeiros Reformadores apontaram um povo permanentemente reunido em culto, com celebração da Palavra e Sacramentos como marcas da Igreja, posteriormente se adicionando a disciplina, ou seja, governo, princípios, ideias e normas. O Espírito disciplina o fiel pela Palavra e pelos Sacramentos, na convivência de uma comunidade de fé, sob uma autoridade constituída.
O Pecado, a natureza caída, concorre para conteúdos antiéticos e destrutivos nas disciplinas pessoais (um assaltante pode ser uma pessoa altamente disciplinada em seu bando), ou para a indisciplina, pois a rebeldia está no coração de satanás, foi absorvido pelo casal original da Queda, se manifesta em momentos da história da salvação, como a rebelião de Coré e as sedições eclesiásticas e heresias de todas as épocas.
A disciplina é grandemente afetada nos momentos de crise da civilização, de crise nacional, de crise institucional e de crise pessoal, quando um quadro de princípios, valores e normas, é questionado e deslegitimado, e outro (ou outros) ainda não se estabeleceu, ou o antigo não se restabeleceu. É o que acontece nesse momento na civilização euro-ocidental (com rebatimentos no Brasil) e no interior da Igreja de Jesus Cristo.
O clima é de indisciplina no interior das famílias, nas escolas e nas instituições, na esteira da revolução cultural dos anos 1960, onde "é proibido proibir", e onde "o único pecado é se dizer que há pecado".
Se, como já se disse, no século, a velha imoralidade é afirmada como "nova moralidade", na igreja, a descrença, o descompromisso, as heresias, os cismas, vão dilacerando o seu tecido, agravado pela falta de um estudo e de um ensino sério da própria eclesiologia. Em decorrência, a maldade (e "denominações", "ministérios" ou "jurisdições") se multiplicou, ocupar uma função de mando se tornou em um estado de humilhação permanente, com a indisciplina do "self-service" individualista quanto aos princípios, crenças e normas.
Quando há mais indisciplina do que disciplina, se vive um momento de patologia social.
Os exercícios espirituais elaborados por heróis da fé e por comunidades de fé, ao longo da História da Igreja, são ferramentas importantes na construção da disciplina cristã.
Que nesse Tempo de Quaresma, resistido ao espírito do século, avaliemos esse quadro, façamos um exame de consciência, exercitemos o arrependimento e a mudança de vida, meditando dia e noite, com prazer na Lei do Senhor, vivendo a harmonia do corpo, a vivência dos princípios, crenças e normas, e a obediência ao conjunto de legislações adotadas por nossa expressão do Corpo, honrando aqueles que o Senhor outorgou autoridade para zelar pelas mesmas para a saúde espiritual do rebanho de Cristo.
Paripueira (AL), 18 de março de 2010,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Ter, 23 de Março de 2010 10:33)
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