Panorama do Anglicanismo Mundial
Reflexão Episcopal

Panorama do Anglicanismo Mundial
Quando pensamos sobre o atual momento mundial do Anglicanismo, devemos encarar uma diversidade de aspectos: a) seu conteúdo; b) sua relevância; c) seus núcleos de problemas; a) a crise institucional. O conteúdo do Anglicanismo, desde o Século XVI, foi reafirmado em seu valor pelo Gafcon, centrado, como padrão, o Livro de Oração Comum (LOC) de 1662, particularmente os 39 Artigos de Religião e o Ordinal, por sua harmonia com as Sagradas Escrituras e com a fé histórica da Igreja, Una, Santa, Católica e Reformada, que tanto no passado, quanto no presente, continua a impactar, transformar e alimentar a vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Esse conteúdo deve ser mantido, reafirmado, defendido e vivenciado no permanente processo de atualização e inculturação. Somos portadores de uma abençoada proposta, e devemos estudá-la mais, levando-a a sério em nossas vidas individuais, na docência nas nossas comunidades e em nosso evangelismo e profetismo no mundo.
A sua relevância pode ser atestada por, praticamente, um século e meio, termos chegado a todos os continentes, totalizando 165 países, que continua a se expandir pela visão e esforço de missões mundiais pelas Províncias, Dioceses e Paróquias, e pelo crescimento quantitativo e qualitativo das mesmas. O hoje aposentado Primaz das Índias Ocidentais, Drexel Gomez, bem assinalou que vivemos um momento de peculiar vitalidade, e não é sem razão que o Primaz da ACNA, Robert Duncan, chama esse "o Século do Anglicanismo".
Os seus núcleos de problemas já são sobejamente conhecidos, formados pelos derrotados na votação da Resolução 1.10 sobre Sexualidade Humana, da Conferência de Lambeth de 1998, indisciplinados, rebelados, em seu Revisionismo (Liberalismo Pós-Moderno), a desafiar a tudo e a todos em sua arrogância iluminista de um “destino manifesto”, e estão presentes em 10% dos países que integram a Comunhão Anglicana, em sua maioria aqueles do centro do poder mundial (+ alguns satélites periféricos, como o Brasil). Esses núcleos de problemas estão situados nos mesmos espaços dos núcleos de problema de outras denominações, e os problemas são os mesmos problemas das outras denominações. Apesar do rebatimento pela mídia, devido a nossa visibilidade, nada temos de peculiar, mas se compartilha de uma crise da civilização e uma crise do protestantismo histórico do espaço euro-ocidental, em sua ruptura confessional e ética com o Cristianismo como até aqui entendido.
A crise institucional tem como epicentro a vinculação da Igreja com o Estado no Reino Unido, e a escolha do Arcebispo de Cantuária pela Rainha, por indicação do Primeiro-Ministro, segundo critérios também político-ideológicos. A Inglaterra vive, nesse início de século XXI, o centro da crise da Europa pós-cristã ou neo-pagã, com o secularismo, o multiculturalismo, o politicamente correto e a agenda GLSTB, com uma escalada de rejeição ao Cristianismo. O atual Arcebispo de Cantuária, o galês Rowan Williams, foi indicado pelo então Primeiro-Ministro Tony Blair, do "neo-trabalhismo" (que depois se tornaria católico romano), e, após um primeiro período de hesitação e de busca de equilíbrio, e de um período de crise, que o levou a tirar uma espécie de “licença sabática”, optou claramente por uma inclusividade ilimitada, que beneficia a proposta da minoria, de certa forma condizente com o movimento “Affirming Catholicism” (liberal-católico) que ele havia ajudado a fundar.
Ele decretou que a Província dos EE.UU. (TEC) tinha acatado as exigências dos Primazes, a convidando para participar da Conferência de Lambeth, vetando alguns nomes, e apenas convidando os Primazes a se reunir depois que a Conferência tinha acontecido, e, pela primeira vez na História, sem tomar qualquer deliberação, no processo interminável de escuta “Indaba”, que deve marcar a vida da Comunhão Anglicana daqui para frente, na perspectiva de um hegeliano. Em sua fala de abertura a ultima sessão do Sínodo da Igreja da Inglaterra defendeu que olhássemos a realidade com óculos de terceira dimensão (3-D), a insinuar várias “verdades”, e em encontro macro-ecumênico recente, questionou a singularidade de Jesus Cristo para a Salvação. Aposta tudo em um longo processo de adoção de um cada vez mais vago “Pacto Anglicano”, com níveis diferentes de adesão, mas cabendo todo mundo, enquanto vai cansando e “acostumando” a maioria ortodoxa à convivência com as heresias. Os Primazes (maioria ortodoxa) estão sendo esvaziados pela criação de uma nova Comissão Executiva da Comunhão Anglicana, presidida pelo Arcebispo de Cantuária, e formada por representantes do Encontro dos Primazes e do Conselho Consultivo Anglicano (ACC), cuja maioria representa a minoria, e a maioria da base é ali minoria, em um quadro de distorção.
A realidade é que – ao nível macro – não há qualquer perspectiva de solução para a presente crise da Comunhão Anglicana durante o presente Arcebispo de Cantuária (que acha que a solução é não ter solução), e ninguém garante que o próximo, escolhido por outro Primeiro-Ministro, venha a ser de alguma forma diferente. Enquanto isso, cada Província, que deveria ser interdependente, vem marcando a sua independência, quando os Instrumentos da Comunhão não possuem autoridade jurisdicional sobre as mesmas.
A reação, décadas passadas, das cismáticas jurisdições do movimento de convergência e do movimento continuante tem resultado em uma incessante fragmentação e irrelevância, com seus muitos bispos e pouco povo, com alguns indo para Roma ou para a Ortodoxia, outros (mais sensatos) batendo às portas do Anglicanismo Ortodoxo, enquanto alguns prosseguem isolados em seus pequenos feudos, a demonstrar que essa não é a alternativa.
Resta-nos o longo, penoso, mas inevitável processo de realinhamento, de criação de redes de assemelhados, ou de novos espaços institucionais, como a Igreja Anglicana na América do Norte (ACNA) fruto da brava resistência interna e do corajoso apoio externo de alguns Primazes.
Como somos a maioria de Províncias, de Dioceses, de Paróquias e de Membros na Comunhão Anglicana, não há por que dela sair (pois as maiorias não saem). O problema é que não há mecanismos legais ou institucionais nem para sair a minoria, nem para deliberar qualquer solução, ademais obstaculada pela burocracia central.
Devemos continuar na “santa rotina” do trabalho missionário. Devemos preservar o conteúdo e viver a relevância do Anglicanismo, nos mantendo atualizados sobre as ações dos seus núcleos de problemas sobre a sua crise institucional, por ela intercedendo e tomando ações com discernimento pelo Espírito Santo, que é espírito de verdade e de poder. Devemos ter a paciência e a perseverança que são frutos do Espírito Santo, com a maturidade para viver e construir a História, que nunca foi fácil ou ausente de obstáculos. É preciso visão e grandeza de estadistas do Reino de Deus, além dos nossos medos, das nossas ambições, dos nossos projetos pessoais.
Sejamos construtores do realinhamento da Comunhão Anglicana em nossa geração. Parafraseando Churchill: “o Anglicanismo é a pior das denominações, salvo todas as demais...”.
Que o Senhor nos abençoe e nos guarde, e nos conceda a paz!
Olinda (PE), 15 de março de 2009,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Ter, 23 de Março de 2010 10:30)
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