Alocução na Sessão Solene de Abertura Oficial do Ano Nacional (Centenário) de Joaquim Nabuco
Ato Interreligioso
Estiveram presentes o governador do Estado de Pernambuco, Eduardo Campos, e várias autoridades federais, estaduais e de municípios do grande Recife.
Centenário de Joaquim Nabuco
– Ato Interreligioso – 11.03.2010
Fundação Joaquim Nabuco – Recife – PE
Meus irmãos e minhas irmãs,
A Graça e a Paz do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo
Esteja com todos!
Gostaria de saudar aos promotores desse evento e a todos que aqui se fazem presentes, em meu nome pessoal e de todos que integram a Diocese do Recife-Comunhão Anglicana.
Meus amigos e minhas amigas,
Bem sabemos que os povos constroem e mantém a sua identidade pelo exercício da anamnese, ou se destroem pelo exercício da amnésia.
Quando lemos a narrativa do Antigo Testamento nos deparamos com um povo – o povo judeu – que está sempre promovendo a recordação da sua História, os feitos e os fatos de um Deus que se revela, que se comunica, que intervém, o Deus da Providência, e essa Providência se manifestando, em particular, por meio de um povo especial com um propósito determinado.
Deus não era uma abstração vaga e distante, mas era o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus que libertara o povo oprimido, escravizado, das mãos de Faraó, que o conduzira e sustentara no deserto, que o fizera passar a pé enxuto pelo Mar Vermelho e lhe assegurara a Terra Prometida. Era, também, o Deus das Tábuas da Lei, com seus mandamentos e estatutos, seus ritos e seus cultos, suas normas e seus valores.
Em todos os momentos de crise nacional, e na rotina dos ritos, como o da Páscoa, essa nação se mantinha, se construía e se reconstruía pela recordação do seu passado. Daí, já se disse que “um povo sem passado é um povo sem futuro”, e que “um povo sem História é um povo sem identidade”.
Quando lemos a narrativa do Novo Testamento, além da vida, palavras e milagres de Jesus de Nazaré, dos episódios iniciais da Igreja no livro dos Atos dos Apóstolos, verificamos que, como no discurso do apóstolo Pedro no Dia do Pentecostes, o Povo Universal da Nova Aliança, apela para as suas raízes históricas, na recordação dos fatos e personagens da Aliança Anterior, quando o anúncio das Boas Novas da Graça não se desvincula da memória da Lei.
E, assim, por dois mil anos, essa comunidade messiânica tem recordado seus mártires, seus santos, seus heróis da fé, em seu calendário, em seus ritos e em suas festas. A construção do nosso presente, e a esperança do nosso futuro, são alimentados pelo memorial do nosso passado, pelo exemplo dos que nos precederam, pela fé no Deus que fala, escuta e age.
A nossa atitude para com o passado, e para com aqueles que construíram o passado, não pode ser de amnésia, de esquecimento. Em assim fazendo, os primeiros prejudicados seremos nós próprios, desprovidos de raízes, de paradigmas, de sentido. Não podemos olhar para o passado apenas pelo suspiro saudosista imobilizante, como fez a mulher de Ló quando da destruição do Sodoma e Gomorra, vindo a falecer imobilizada, transformada em estátua de sal.
Algo muito peculiar quanto aos personagens bíblicos, é que eles não eram especiais como os heróis gregos, abaixo dos deuses, mas acima dos mortais comuns. Os personagens bíblicos eram pessoas humanas comuns, com seus valores e seus defeitos, a demonstrar que o valor não estava neles próprios, mas em serem instrumentos nas mãos de Deus, a quem cabe toda honra e toda glória.
Vivemos em um país que não tem preservado condignamente o seu legado cultural, que não tem valorizado a sua história, uma espécie de “país sem memória”, e quando o faz é de forma altamente seletiva, mitificante, e com um claro viés ideológico, a serviço de uma leitura elitista e desmobilizante. Esse descaso com a nossa História afeta a nossa esperança do que foi uma vez descrito como “o país do futuro”, e, mais grave ainda, nos faz mover hoje sem um projeto nacional, com a nação transformada em mercado, os cidadãos em consumidores, e o Estado em mero gerente regional de uma (Des)Ordem Internacional imperial, qual loja de artigos importados.
De grande importância esse ano comemorativo da vida e obra de Joaquim Nabuco, um dos construtores da nossa nacionalidade, quando a nossa juventude sem esperança, despolitizada, trocou a praça das manifestações pela praça da alimentação.
Em Joaquim Nabuco vemos a instrumentalidade da vida de um ser humano, com sua biografia e sua personalidade, com seus erros e seus acertos, nas mãos da Providência, a promover valores do Reino de Deus diante dos antivalores do principado das trevas: os valores da justiça e da dignidade da pessoa humana diante do antivalor da escravidão, que desumanizava os oprimidos e também desumanizava os opressores.
Em Joaquim Nabuco estava a lucidez de conhecer e discernir o seu tempo e a sua conjuntura, em identificar os seus males, em eleger a sua causa, em levantar uma bandeira, em dar sentido a sua vida por essa doação, em pagar um preço, e ter a graça de, ainda em vida, presenciar o triunfo do bem contra o mal, para o qual ele tinha decisivamente concorrido, e que no outono da existência soubera amadurecer a sua experiência de fé.
Em celebrando o seu centenário, em aprendendo com sua vida, exemplo e pensamentos, crescemos todos nós, cresce o país, e nos faz perguntar o que quer dizer tudo isso para nós hoje?
Todas as épocas possuem seus faraós e suas escravidões, carecem dos seus Moisés para liderar novos êxodos da opressão para a terra da liberdade, sob um Deus que providencia, que supre e que nos orienta com um conteúdo ético. Mais do que números na massa ou indivíduos isolados, somos chamados a uma vida como pessoa e como comunidade de pessoas, afirmativas da dignidade, da justiça, da paz e da solidariedade, não sem conscientização, não sem mobilização, não sem lutas, não sem sacrifícios.
Há opressões externas, mas há também opressões internas, há males na economia, na política, na organização social, na cultura, mas há males da alma, do caráter, do temperamento, dos sentimentos, e não iremos sarar a sociedade se não formos interiormente curados, por essa dimensão terapêutica da fé, quando a Lei é espelho da alma e alvo ético para todos. Esse centenário de Nabuco pode ensejar um grande exame de consciência nacional, uma consciência de erros e de necessidade de arrependimento e de busca de perdão, uma consciência de mudança, de conversão de caminho de santidade ativa quando podemos trazer algo da eternidade para o tempo, algo da História do Reino para o reino da história.
Concluo com uma prece do nosso anglicano Livro de Oração Comum:
“Senhor Deus, Criador e Pai de todos nós: Tu fizeste do mesmo sangue todas as raças e nações dos homens; aumenta entre nós o espírito de simpatia e de compreensão, de tolerância e de boa vontade; para que do nosso meio sejam erradicados os preconceitos, a arrogância e o orgulho, que provocam divisões entre pessoas de várias raças e cores, e todos os teus filhos vivam juntos, cooperando em paz. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém”.
+Dom Robinson Cavalcanti
Bispo Diocesano
Diocese do Recife – Comunhão Anglicana
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Última atualização (Sáb, 20 de Março de 2010 23:02)
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