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Os Donos do Poder

Reflexão Cidadã

 

 

Os Donos do Poder

 

Uma obra clássica de interpretação da realidade política brasileira, desde a nossa colonização portuguesa, sob um prisma weberiano, foi Os Donos do Poder, do saudoso Raymundo Faoro, onde expõe a formação de um estamento burocrático de controle do poder político em associação com o poder econômico, em um fenômeno denominado de “patrimonialismo” em que a coisa pública é operada como se patrimônio privado fosse. E aí entram tanto os laços familiares do nepotismo, como os laços associativos do compadrio, e a máxima: “Para os amigos e parentes: tudo; para os inimigos: a Lei”. Esse modelo sempre se antecipou às mudanças pressionadas pelas bases sociais, controlando-as, cooptando atores emergentes, com mudanças feitas sempre “pelo alto”, sem riscos para os privilégios.

 

Esses donos do poder nunca tiveram dificuldade em reprimir com violência e muito sangue as inúmeras revoltas ocorridas no Brasil, desmentindo o mito do “homem cordial”.

 

Registre-se o mito do sebastianismo, enraizado no imaginário português, com rebatimento no Brasil: a derrota de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África, fez Portugal perder a sua independência. O povo traumatizado passou a defender a sua mítica volta das águas para libertá-lo. O sebastianismo é uma forma de messianismo: o povo não crê em si mesmo, não reinvidica, não se mobiliza, não constrói, mas espera, milagrosamente, o salvador, “o homem” (“o cara”) que vem salvá-lo. Collor foi assim visto em sua época, inclusive em igrejas evangélicas.

 

Os donos do poder, com a democracia formal, criaram os currais eleitorais, à base de favores (empregos, dentaduras, roupa, remédio), e continua a comprar votos até os nossos dias, com um povo carente e despolitizado vendendo os seus votos, e muito barato.

 

A ocupação dos cargos no Legislativo e no Executivo no Brasil não reflete a sua base social, mas a cúpula social, em um país onde a concentração de poder político reflete a concentração da propriedade, da renda e do saber. Grileiros ricos que invadiram propriedades públicas e falsificaram escrituras com conivência dos donos de cartório, esperneiam e esbravejam contra a “violência” do MST... Hilário, se não fosse trágico, quando a reforma agrária não tem nada de comunismo ou socialismo, mais foi feita muito cedo dos Estados Unidos, e foram os norte-americanos que forçaram a reforma agrária no Japão e em Taiwan.

 

Hoje cacete de polícia ou um exterminiozinho por parte de matadores de aluguel é coisa extrema, nada que uma imprensa desonesta e manipuladora não resolva “pacificando” os de baixo com circo, enquanto as elites vão distribuindo pão e miçangas.

 

Em número recente de uma conhecida revista de circulação nacional, o empresário Oded Grajew com todas as letras fala do controle dos empresários e da mídia privada sobre o Brasil, e faz um apelo para ética e sensibilidade social por parte dos mesmos, não somente como um gesto de bondade para com os de baixo, mas como uma estratégia inteligente de benefício próprio.

 

Diante dos setores mais obtusos dos donos do poder, e diante da legislação trabalhista (em que se concedem alguns anéis de bijuteria para se preservar os dedos gordos) dizia Vargas: “Essa gente é burra; não entende que o que faço os beneficia”. Pois todas as leis trabalhistas no Brasil, desde a pioneira Lei Heloy Chaves, sofreu violenta resistência das elites. Quando criaram as férias, um conhecido jornal paulista escreveu em seu editorial que o povo brasileiro não estava preparado para ter férias, e que ia deixar os ambientes sadios das fábricas pelos botequins. Na minha juventude os profetas do absurdo preconizaram o fim do mundo e a quebra do país quando foi criado o 13º mês de salário.

 

Em um imaginário de privilégios tidos como naturais, inevitáveis e necessários, os de baixo não almejam uma sociedade justa, mas a continuidade da injustiça com a esperança que um dia ele, e os seus, possa também passar para o andar de cima e gozar de privilégios.

 

Para isso, nada como a sorte, uma botija, um tesouro, um golpe do baú, uma loteria, um pistolão, uma malandragem, pois como dizia um advogado alagoano: “quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro”.

 

E os cristãos evangélicos chegaram aqui questionando esse estado de coisas, mas com o tempo, a memória, como a carne, é fraca, e a gente vai aderindo ao mundo, pois, afinal, ninguém é de ferro, desde que se mantenha a castidade e se dê o dízimo...

 

A gente vai conversando!

Paripueira (AL), 02 de março de 2010,

 Anno Domini.

+Dom Robinson Cavalcanti, ose

Bispo Diocesano

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Última atualização (Sex, 05 de Março de 2010 11:16)

 


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