Uma Estrela Desbotada: 30 Anos do Partido dos Trabalhadores
Reflexão Cidadã

Uma Estrela Desbotada:
30 Anos do Partido dos Trabalhadores
Um Estado Democrático de Direito pressupõe a realização de eleições livres e pluripartidárias. O pluripartidarismo se fortalece com agremiações que tenham clareza ideológica e programática, forme quadros dirigentes e represente setores da sociedade, sem perder de vista o bem comum. Esse não tem sido exatamente o caso brasileiro. Tem havido uma descontinuidade na vida dos nossos partidos, a cada episódio marcante da vida nacional (República, Revolução de 30, Redemocratização de 45, Golpe de 64, Nova República), com eternos recomeços, sem deitar raízes.
O nosso modelo foram os partidos criados de cima para baixo, em torno de personalidades, débeis em ideologia e programa, excluída a maioria da população. Partidos ideológicos, como o Comunista e o Integralista, e depois, o Socialista e o Democrata-Cristão, ou foram reprimidos (Estado Novo) ou tiveram bons quadros e pouca massa.
A honestidade intelectual nos exige reconhecer a singularidade do Partido dos Trabalhadores (PT), nascido dos sonhos de sindicalistas, intelectuais, artistas, ativistas eclesiásticos, ONGs e movimentos sociais, conseguindo, pela primeira vez entre nós, ser um partido de quadros e de massa, com uma democracia interna representada por seus núcleos, uma ênfase na necessidade da ética na política e a busca da construção gradual de um socialismo democrático com raízes nacionais.
Muitos marginalizados e excluídos tiveram vez e voz no seu espaço. Com o tempo o partido foi se burocratizando, os gabinetes dos parlamentares se fortalecendo, os núcleos sumindo. De uma estreiteza na política de alianças, se foi ao outro extremo, sem limites, e mandando a ética para o espaço.
O Lulismo (com semelhanças com o modelo Vargas) se tornou mais forte que o petismo. Como bem analisou Frei Beto, em seu livro A Mosca Azul, tendo como base analítica a Teoria das Elites, de Mosca e Pareto, a liderança sindical quando encastelada no aparelho de Estado se torna conservadora. A CUT foi atrelada, os movimentos sociais neutralizados, e o projeto político foi substituído pelo projeto de poder. O gato do capitalismo financeiro foi engordado, no novo pacto pluriclassista, e aos petistas foi dado cargos periféricos para apenas polir as unhas do gato.
Da proposta original apenas resta hoje uma estrela desbotada. E para a sucessão de Lula não há nenhum debate e deliberação pela base, mas a imposição de uma candidata egressa do PDT e que nunca disputou eleição nem para síndica de prédio. E o partido enquadrado. Em um país sério, o partido maior, o PMDB, teria o seu candidato presidencial, mas isso não acontece, porque ele se transformou em mera federação de chefes regionais e locais, sem projeto nacional.
O DEM, ex-PFL, ex-PDS, ex-Arena, está indo pelo ralo. O PSDB é a cara da paulisteia perfumada, o PC do B e o PSB cheio de ex-direitistas.
O PV com poucos verdes e muitos “maduros”. A maioria dos demais é sigla fisiológica, a exceção do PSOL e PSTU, ideologicamente mais autênticos, mas que ainda não decolaram. No conjunto, cadê as alternativas ao continuísmo?
E quanto à agenda dos fundamentalistas, iluministas, secularistas, politicamente corretos e pró-agenda gay, eles estão em todos os partidos, e a luta histórica é cultural e nos espaços de poder e não por opções partidárias.
E quanto à Igreja como “consciência moral” da nação? Com um programa de carimbos em passaporte para o céu, alienação, conchavos e oração pela propina, esse negócio de sal da terra e luz do mundo parece não ter muito futuro por aqui...
Vigiemos! Oremos! Abramos os olhos!
Vamos conversando.
Olinda (PE), 24 de fevereiro de 2010,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Seg, 01 de Março de 2010 09:33)
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