O Brasil e o Protestantismo Neoanabatista - Reflexão Episcopal
Reflexão Episcopal
O Brasil e o Protestantismo Neoanabatista
~ Algumas Reflexões Sobre o Pretensamente “Novo”
Como Apenas Desdobramento do “Velho” ~
Há algumas décadas, o pensador peruano Samuel Escobar, um dos fundadores da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), escreveu sobre o fenômeno da anabatistização do Protestantismo do nosso continente, não importando qual seja a denominação. Não é somente o fato de que algumas igrejas evangélicas apenas aqui rebatizam católicos romanos e ortodoxos orientais, contrariando o ensino dos reformadores e as suas práticas em outros continentes, mas se trata do Anabatismo como uma ideologia que se forma a partir da Reforma Radical, com seus desdobramentos históricos até os nossos dias. Vejamos algumas marcas:
1. Apostasia da Igreja como leitura histórica. Da morte do apóstolo João ao nascimento de Lutero, tudo que a Igreja fez foi errado, se afastando da sua “pureza” original. Isso se chocava com os pensadores da Primeira (Lutero, Cranmer) e da Segunda (Calvino) Reformas, que consideravam os velhos corpos cristãos não-reformados, a despeito dos seus “erros, desvios e superstições”, como autênticas expressões do Corpo de Cristo. A ideologia anabatista desqualifica quinze (hoje vinte) séculos de História, e dela retira a presença do Espírito Santo derramado no Pentecostes;
2. Restauracionismo como princípio re-fundante. Se todo o passado foi de erros, agora, o novo grupo vai “restaurar” a pureza da Igreja, segundo o mesmo entende (séculos depois) que era a Igreja Primitiva. Desde então, temos tido ciclos de expressões restauracionistas, ora dentro do espectro da Igreja, ora na fronteira (Adventismo), ora fora dela (Testemunhas de Jeová);
3. Presentismo, para usar de uma denúncia de C.S. Lewis contra as gerações movidas de um sentimento anti-histórico, que não leva em conta a Tradição Apostólica nem o Consenso dos Fiéis, mas, sem umbigo, pretendem, em uma tábula rasa, inventar a roda outra vez, sendo apenas superficiais;
4. Eclesiologia Dualista e Minimalista. Estabelece-se um dualismo neo-platônico entre o organismo (= bom, de Deus) e a instituição (= má, dos homens), entre a igreja invisível’ e a “igreja visível”, que, em uma concepção minimalista é a “igreja local” (congregação) crendo que a Igreja de Jerusalém era regida pelas regras parlamentares de Westminster... Um conjunto qualquer dessas “igrejas locais”, com suas peculiaridades, forma uma “denominação” (um conceito novo e extra-bíblico), com a satanização das organizações históricas, a negação dos sacramentos e o desprezo pela hierarquia ministerial;
5. Iconoclastia. Rejeição de toda a arte sacra: arquitetura, escultura, pintura, vitrais, símbolos, vestes, ritos. O feio é o belo. O inestético é o espiritual. A informalidade é a recuperação da pureza do Cristianismo. Aqui, entra uma dimensão que a Psicanálise tem estudado entre neuroses e rejeição à arte por repressão ao prazer. O “teológico” pode ser apenas uma fachada para o psicológico.
A ideologia anabatista perpassou vários momentos e movimentos na história da Igreja no Ocidente, desde os “entusiastas”, antecessores do pentecostalismo, encontrados (e combatidos) no Luteranismo e no Anglicanismo do século XVI, ao menonismo de vários matizes (Amish, Huteritas), o Pietismo, os Quackers, posteriormente os Irmãos Livres (Irmãos de Plymouth), a Igreja Apostólica e a Igreja Nova Apostólica, o “Pequeno Rebanho” (Watchman Nee/Witness Lee) e suas “igrejas locais”, “igrejas sem nome”, “comunidades evangélicas”, o movimento mais recente das “igrejas nos lares” (House Church), e, por fim, as Igrejas Emergentes e as Novas Iniciativas.
Hoje algumas dessas expressões se pretendem pós-denominacionais ou não-denominacionais (e se você for chegar perto são apenas variações de igrejas batistas e/ou pentecostais) sem usar esse título; outras mantêm vínculos mínimos ou estão hospedadas nas igrejas históricas ligadas a movimentos ou redes de ideologia de fundo anabatista (com as 5 características apontadas acima), que poderíamos denominar, mais adequadamente, de neoanabatismo. Algumas mantêm uma ênfase nas doutrinas históricas, outras afirmam que “as pessoas querem saber de vida e não de doutrinas”, havendo até quem negue o apóstolo Paulo e se resuma a pretensa radicalidade do Reino, aos ensinos de Jesus.
É interessante que uma das marcas do neoanabatismo contemporâneo foi herdada do Liberalismo teológico do século XIX: tornar o Evangelho palatável para o homem pós-moderno, como aqueles o pretendiam fazer para o homem moderno. O século termina por dar a agenda da igreja, primeiro na linguagem, métodos e abordagens, por fim no seu próprio conteúdo. “O homem pós-moderno não aceita essas coisas. Isso não faz sentido para ele”.
Um setor tem a preocupação em estabelecer “igrejas locais” moldadas para as novas tribos urbanas, particularmente de jovens. Cessa a riqueza da diversidade e da complementariedade, e se cai em algo padronizante. Não uma área da igreja, ou um ministério da igreja para os diversos grupos, mas uma igreja mesmo. E quando esses jovens envelhecerem, ficarão como aqueles curiosos anciãos hippies de um bairro de San Francisco, na Califórnia? E se esses jovens amadurecerem e rejeitarem o pitoresco do passado? E se virarem executivos e “empreendedores”?
Ouvi do velho Billy Graham, que, sem menosprezar a importância da comunicação transcultural, não devemos exagerar nesse ponto, porque atrás de qualquer “casca” está apenas um pecador que necessita se arrepender e depositar a sua fé em Jesus Cristo, e que para todas as culturas há um velho e eterno evangelho a ser anunciado.
Será que o Brasil será sempre um país religiosamente azarado, em que os mais refinados, os mais artisticamente sensíveis, terão que ficar presos aos extremos da idolatria e da iconoclastia, sem lugar para uma igreja reformada valorizadora da história, do consenso dos fiéis, bem como da reverência e da beleza na adoração, incluindo os símbolos e a liturgia? Quem rejeitar a idolatria está condenado ao empobrecimento estético, à iconoclastia do presentismo informalista?
O pretensamento “novo” é apenas um remake de velhas iniciativas, que respeitamos, desde que não se pretenda a verdadeira, e que não pretenda desqualificar as outras expressões da fé reformada.
O irônico é que o fenômeno que já vinha acontecendo nas últimas décadas no Primeiro Mundo, quando filhos e netos de antigas tradições anabatistas terminavam na Igreja Romana, em Igrejas Orientais, ou como Anglo-Católicos no Anglicanismo, famintos de mística, de reverência, de símbolos e de estética, agora também começa a se registrar nos filhos e netos das Igrejas Emergentes e das Novas Iniciativas... Em alguns países da América Latina a saturação do neoanabatismo já começa a produzir efeitos semelhantes em jovens protestantes.
A “atração fatal” do neoanabatismo, pentecostal ou não, para setores das igrejas históricas no Brasil, tem concorrido para uma baixa auto-estima e estima de identidade, como, por exemplo, temos conhecido “anglicanos” sui-gêneris: anti-Cânones, anti-Livro de Oração Comum e anti-Episcopado...
O neoanabatismo é um fenômeno enraizado, crescente, forte, que atinge a todas as denominações, como um grande rolo compressor em nosso continente e em nosso País..
Em coerência com a nossa identidade, em honra aos nossos antepassados na fé, em consideração a uma parcela da população brasileira que tem o direito de conhecer uma alternativa ao dualismo idolatria vs. iconoclastia, é que nós, setores das Igrejas Históricas, teimamos em ser o que somos, sem pedir licença ou desculpas, antes exigindo sermos respeitados e escutados, pois o futuro, cremos, se baseia no passado enraizado no eterno.
Ser ou não ser, é a velha (e atual) questão!
Paripueira (AL), 01 de setembro de 2010,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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Última atualização (Qui, 02 de Setembro de 2010 00:24)
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