A Variável Política da Crise do Anglicanismo - Reflexão Episcopal
Reflexão Episcopal
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A Variável Política da Crise do Anglicanismo
Com o ocaso da Idade Média, e o início da Idade Moderna, a unidade política da Europa, construída em torno do Sacro-Império Germânico-Romano, se desintegra, dando lugar aos Estados Nacionais soberanos. Com a Reforma, as monarquias protestantes rompem não somente com o Império, afirmando a sua independência, mas, também com o Papado. Em cada uma delas (Inglaterra, Suécia, Dinamarca, etc.) vai surgir uma Igreja Protestante Nacional, sob tutela real. Nos países que permanecem leais à Igreja Romana, os monarcas constroem os modelos do regalismo, ou padroado, com o direito de escolher os Bispos, e o Papa apenas oficializar a escolha (Portugal, Brasil, etc.). Esse modelo, que também foi adotado em monarquias ligadas as Igrejas Orientais (Rússia, p.ex.), persistiu do século XVI ao século XX, reduzida pelo avanço da separação entre Igreja e Estado, sendo a Inglaterra uma remanescente.
A Igreja da Inglaterra tem os seus Bispos e Abades nomeados pela rainha, por indicação do Primeiro-Ministro, em uma lista de nomes elaborada pela Comissão de Nomeação da Coroa, onde tem assento os Arcebispos de Cantuária e de York, eles mesmos igualmente nomeados por esse sistema. Aí se encontram as raízes de duas desfuncionalidades:
1. Um ramo de Cristianismo que se tornou mundial, presente em 165 países, a Comunhão Anglicana tem o seu titular designado não pela vontade do conjunto dos seus pares, mas pelo governo de um país estrangeiro;
2. Embora haja uma base social – de clérigos e leigos – com uma ou outra tendência teológica, o que prevalece é o acordo entre a cúpula da Igreja e o Governo então no poder (Primeiro-Ministro, partido). Tradicionalmente os Primeiros-Ministros promovem uma “alternância” de Arcebispos de Cantuária de tendências diversas, bem como tendem a indicar o primeiro da lista (uma exceção foi o Arcebispo George Carey, que era o segundo).
Na primeira metade do século XX os evangélicos se concentraram nas missões estrangeiras e nas suas “fortalezas” paroquiais, com débil participação nos Concílios e Sínodos, além de serem considerados culturalmente menos eruditos e menos flexíveis para o aspecto político do cargo, quando alguns dos Bispos, inclusive, têm assento na Câmara dos Lordes. A alternância entre anglo-católicos e liberais católicos foi interrompida com a designação de Donald Coggan, como Arcebispo de Cantuária nos anos 1970. Na segunda metade do século XX os evangélicos registraram 70% dos seminaristas, 55% dos clérigos, mas apenas 25% dos Bispos, muito pouco em relação ao total, mas um grande avanço em relação ao período histórico anterior.
Após o período do evangélico carismático George Carey, o Primeiro-Ministro Tony Blair foi o responsável pela escolha do atual titular Rowan Williams, da Igreja de Gales, preterindo um evangélico combativo (segundo na lista) o depois Bispo de Rochester Michael Nazir-Ali, nascido no Paquistão. Tony Blair e o seu “novo trabalhismo”, e o seu sucessor Gordon Brown, estavam comprometidos com a ideologia do multiculturalismo, do politicamente correto, do secularismo e dos direitos GLSTB. Acontece que o novo Primeiro-Ministro David Cameron, do Partido Conservador, está disposto a dar uma nova visão “arejada” do conservadorismo, e não difere dos seus adversários nesse item.
Enquanto o Arcebispo Rowan Williams vem travando o espaço dos ortodoxos na Comunhão Anglicana e, cada vez mais, deixando uma pretensa neutralidade por um apoio à ala liberal, na Igreja da Inglaterra está introduzindo o episcopado feminino e a sagração de bispo homossexual. As bases podem protestar, as divisões podem se acentuar, a crise vai se tornando aguda, mas o que continua é uma anacrônica relação entre Igreja e Estado, de caráter cesaropapista, mais uma vez com danos para a Igreja.
Enquanto Rowan Williams não se aposenta (falta tempo), a troca do Partido Trabalhista pelo Partido Conservador nada representou para os desafios que enfrentamos nesse doloroso processo de realinhamento da Comunhão Anglicana. A Sé de Cantuária é um símbolo de valor para todos nós, os seus ocupantes eventuais não necessariamente. O Senhor da Igreja é eterno, os eventuais Arcebispos de Cantuária e Primeiros-Ministros ingleses não.
Com convicção e serenidade, vamos respondendo aos desafios da nossa conjuntura.
Recife (PE), 07 de julho de 2010,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
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