Resgatando Nossa História V
Resgatando Nossa História V
| Diocese do Recife: 30 Anos - O Período Robinson (2002-2004) |
No Concílio Diocesano de 2001, em primeiro escrutínio, a DAR elegeu como Bispo Sufragâneo (auxiliar, sem direito à sucessão) o Rev. Filadelfo Oliveira Neto, ex-Pároco, ex-Arcediago, e ex-Secretário Administrativo Diocesano, com um discurso de fidelidade e apoio às posições e propostas de Igreja do Bispo Diocesano. No primeiro semestre de 2003 – um período aparentemente tranqüilo na vida interna da Diocese – a Comunhão Anglicana foi surpreendida com a decisão de Diocese de New Westminster, no Canadá, de ordenar clérigos homossexuais praticantes e de realizar “bênçãos” em união entre pessoas do mesmo sexo, e da Diocese de New Hampshire, nos EUA, de eleger como seu Bispo o Rev. Gene Robinson, um ex-casado e pai de duas filhas, que havia optado pelo homossexualismo, vivendo abertamente com o seu parceiro. Os Bispos e o Conselho Diocesano da DAR, em junho daquele ano, emitiram um documento “A Afirmação do Recife”, condenando aqueles fatos e reiterando seu apoio à Resolução 1.10 da Conferência de Lambeth, e 1998, texto que teve ampla publicidade, e que foi ratificado por quase todo clero reunido para tratar do assunto. Em julho, o Bispo Diocesano, juntamente com uma delegação, esteve presente à Consulta Internacional da EFAC – Fraternidade dos Evangélicos na Comunhão Anglicana, em Nairobi, Quênia. No Recife, dois textos indicavam a articulação do setor minoritário interno: o do Ministro Leigo Jardson Gregório , intitulado “Nunca Tive Tanta Vontade de Ser Gay” , e o do leigo Joanildo Burity , denominado de “Uma Voz Discordante na DAR” . No segundo semestre o Bispo Diocesano descobre que, entre reverendos, seminaristas e leigos, havia um núcleo, “meio no armário, meio saindo do armário”, de homossexuais e bissexuais, e de heterossexuais articulando a sua defesa, ou “o direito à dúvida”. Um Presbítero e um Diácono procuraram o Bispo Diocesano para abjurar do Cânon adotado pela DAR sobre a Sexualidade Humana. O Bispo trata da questão pastoralmente, não abre processo disciplinar e apenas os coloca em Disponibilidade (licença de funções mantido o status), com toda discrição, enquanto se buscaria um encaminhamento que respeitasse a norma diocesana e a dignidade dos envolvidos. Ao fato foi dada ampla publicidade pelo lobby pró-gay da Província, procurando caracterizar o Bispo Diocesano – um histórico defensor dos Direitos Humanos – como perseguidor e homofóbico. No Concílio Diocesano de dezembro de 2003, em João Pessoa-PB, foi aprovado um dispositivo canônico que estabeleceu que a DAR apenas manteria relacionamento institucional com Províncias, Dioceses, Paróquias e entidades Anglicanas que mantivessem as doutrinas e a ética bíblicas e a tradição apostólica, e subscrevessem os princípios contidos na Resolução 1.10 da Conferência de Lambeth, de 2008. A minoria, mais articulada, promoveu forte confrontação, seguida de quase um terço dos votantes. Em Janeiro de 2004 foi realizado no Rio de Janeiro, com patrocínio da IEAB a II Consulta sobre Sexualidade Humana. A primeira, no ano anterior, tivera o apoio da ALGA (Anglican Lesbian and Gay Association) e esta da “Integrity”, a maior ONG pró-gay do mundo anglicano, onde, no documento final, se advogou que as comissões de exame nos candidatos ao ministério não deveriam ser perguntados sobre sua (particular) “orientação sexual”. No primeiro semestre de 2004, após a Convenção Geral da Igreja Episcopal dos EUA ter homologado a eleição de Gene Robinson, seguindo-se da sua Sagração como Bispo da Diocese de New Hampshire, o Bispo-Primaz da IEAB, emitiu, em nome da Província (sem consulta ou autorização do Sínodo Geral, do Conselho Executivo ou da Câmara dos Bispos) Carta-Aberta ao Bispo Presidente da ECUSA, apoiando, com base nos Cânones e na Cultura, aquela decisão. Em reunião regular, a Câmara dos Bispos da IEAB debate o tema: todos os Bispos Anglicanos do Brasil, menos os dois do Recife, se expressaram em favor da normalidade das uniões homoeróticas, ou da normalidade de quaisquer relacionamentos sexuais entre adultos por mútuo consentimento, e, alguns deles falando que não realizavam “bênçãos” de uniões entre pessoas do mesmo sexo “porque o nosso povo não está ainda preparado”, que os textos bíblicos referentes “são para aquela época, e não são válidos para hoje”, e que “devemos promover programas de releitura bíblica para reeducar o povo” . Enquanto isso, o Bispo Diocesano do Recife, a convite de pais e avós de confirmandos de quatro Paróquias e uma Missão da Diocese de Ohio, EUA, juntou-se a um grupo de Bispos Aposentados daquele país, para realizar uma cerimônia pública e coletiva de Confirmação de 111 pessoas, no recinto do auditório da Igreja Ortodoxa Romena, na cidade de Akkron, em virtude daquelas famílias não aceitarem a confirmação pelas mãos do Bispo Diocesano local, que havia votado favoravelmente e participado da Sagração do Bispo Gene Robinson. O ato de solidariedade a uma minoria oprimida, teve ampla repercussão e suscitou a ira dos setores liberais da Comunhão, particularmente na ECUSA e na IEAB, onde, na ocasião, se tentou enquadrar o Bispo do Recife como infrator dos Cânones, o que não ocorreu, segundo palavras do Primaz, por não haver Cânones que o mesmo estivesse infringindo. Em julho, uma Consulta Teológica patrocinada pelo CEA – Centro de Estudos Anglicanos da IEAB, onde o Bispo Diocesano do Recife foi aberta e duramente criticado por três oradores (na presença passiva de 10 representantes da DAR, inclusive o seu Bispo Sufragâneo), chegou-se a uma definição de Igreja, que seria depois também adotada pela Comissão Especial que assessorou o Primaz do Brasil na análise da conjuntura da Comunhão Anglicana (e que dedicou o maior espaço para criticar o posicionamento da DAR e do seu Bispo), em que esta é definida – à semelhança dos suas congêneres liberais pós-modernos do Primeiro Mundo – como um ente social, cultural, litúrgico e afetivo, onde não há lugar para se definir doutrina ou padrões de conduta. Em setembro, aproveitando uma viagem do Bispo do Recife para a Malásia, onde participou do Encontro da Comissão de Evangelismo e Missão da Comunhão Anglicana, sem ouvir as Assembléias ou Juntas Paroquiais, baseado em um boato de que o Bispo, por Portaria, iria exonerar 14 clérigos, sem que houvesse qualquer norma constitucional ou canônica, ou deliberação do Sínodo Geral que amparasse tal decisão – ilegal e ilegítima – a Câmara dos Bispos da IEAB, interviu na DAR, colocando alguns clérigos, Paróquias e Missões sob a autoridade de um pretenso “Supervisor Episcopal Especial”, o Bispo de Brasília, em um ato de violência institucional sem precedentes da Comunhão Anglicana, onde apenas 4 Províncias prevêem tais situações, com procedimentos específicos, em comum acordo com o Bispo Diocesano e mantido em funcionamento os organismos canônicos diocesanos. Organiza-se na DAR uma articulação de “evangélicos opinionistas”: não defendem os princípios evangélicos como doutrinas, mas como “opiniões”, dentre outras, aceitando viver em uma instituição de pluralismo ilimitado e em uma Pós-Modernidade sem verdade. Esse grupo publica textos onde, usando formalmente uma linguagem evangélica, expressam pensamentos liberais, diversos das posições históricas da DAR e do seu Bispo, fecham-se a um debate com posterior deliberação coletiva sobre o futuro da Comunhão Anglicana e um possível realinhamento, optando por permanecer a qualquer custo na IEAB (documento “Não Sairemos”). Esse grupo consegue que a Província cesse de repassar verbas para o Centro Diocesano, cria um outro “Escritório Diocesano” (“Governo de Vichy”), no bairro do Parnamirim – Recife-PE, para onde levam, nas caladas da noite, o acervo do Seminário (SAET), inclusive 200 livros colocados em sua Biblioteca pelo Bispo Diocesano em comodato. Sob a “Supervisão Episcopal Especial” do Bispo de Brasília, tendo como seu auxiliar o próprio Bispo Sufragâneo da DAR, cria-se, de fato, um “cisma interno” , com um grupo minoritário de clérigos e comunidades rompendo a comunhão com seus colegas, com os organismos e com o Bispo Diocesano, realizando-se instituições de Ministros Leigos e Ordenações ao Diaconato e ao Presbiterado ao arrepio dos Cânones, em flagrante irregularidade e ilegalidade. Enquanto isso, uma insidiosa campanha de difamação e injúria é deflagrada pela Internet contra o Bispo Diocesano e outras lideranças da DAR por clérigos e seminaristas, algo sem precedentes na História da Igreja no Brasil. O Primaz não acata a recomendação do Arcebispo de Cantuária para evitar palavras ou gestos que agravassem o conflito. Os Bispos Diocesanos de São Paulo e Curitiba, mais dois clérigos e dois leigos “opinionistas” da DAR entram com um pedido de abertura de Processo Disciplinar contra o Bispo Diocesano da DAR, pleno de erros formais, com vagas e genéricas acusações, carentes de provas. A tática da Província e da “dissidência interna” da DAR era promover atos ilegais que fossem asfixiando a nossa autonomia, e, se reagíssemos, seríamos acusados de “rebeldia” e de “descumprimento dos votos de Ordenação” , o que seria pretexto para novas investidas ilegais. A cada ataque, a liderança diocesana se reunia, protestava e reafirmava suas convicções. Por fim, 48 horas antes do seu início, com todas as despesas feitas, o XXIV Concílio Diocesano, convocado publicamente um ano antes, foi “suspenso” por um Decreto do Primaz, outra vez sem qualquer respaldo constitucional ou canônico. A dissidência boicotou o Concílio, mas os presentes, maioria absoluta dos delegados clericais e leigos, votou, depois de acurado estudo e debate, por unanimidade, instalar e realizar suas sessões, onde incluiu nos Cânones Diocesanos um artigo sobre o seu conteúdo doutrinário, emitiu uma Carta-Aberta ao Arcebispo de Cantuária e aos Primazes da Comunhão Anglicana, denunciando as arbitrariedades e requerendo, como medida emergencial urgente, uma “Supervisão Primacial Adequada Alternativa com Jurisdição”, e, em um clima de unidade no meio do sofrimento, concluindo seus trabalhos com o Cântico do Hino que diz: “Ninguém Detém, é Obra Santa; Essa causa é do Senhor!” . (continua). (Compilação Histórica: Revmo. Dom Robinson Cavalcanti )
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