Doutrina Anglicana III - Os Anglicanos e os Credos
Doutrina Anglicana III
| Os Anglicanos e os Credos |
O segundo princípio adotado pelo “Quadrilátero de Lambeth” , que, entre nossas doutrinas centrais estão: “O Credo dos Apóstolos como Símbolo Batismal; e o Credo Niceno, como a declaração suficiente da Fé Cristã” .A palavra Credo, no seu original no Latim, significa “Eu Creio” . Diante das heresias, concepções falsas e inadequadas quanto ao seu conteúdo doutrinário, a Igreja, desde os seus primórdios, tem procurado definir suas crenças essenciais. A mente humana não pode entender e explicitar a totalidade da verdade, mas pode fazê-lo quanto ao necessário. O mais antigo dos Credos é o denominado “Credo Apostólico” , que não foi redigido diretamente pelos apóstolos, mas pelos Pais Apostólicos (os discípulos dos apóstolos), procurando ser fiéis ao que aprenderam e estavam transmitindo. O seu uso, como profissão de fé dos batizandos, já era comum ao final do segundo século. Esse Credo afirma a doutrina da Trindade, a morte vicária e a ressurreição de Cristo, o Juízo Final e a Ressurreição, a Igreja e a Comunhão dos Santos: “1. Creio em Deus Pai Todo-Poderoso , Criador do Céu e da Terra; 2. Em Jesus Cristo , seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao Hades, ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao Céu, e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos; 3. Creio no Espírito Santo; 4. Na Santa Igreja Católica; 5. Na Comunhão dos Santos; 6. Na Remissão dos Pecados; 7. Na Ressurreição do corpo; 8. E na Vida Eterna. Amém”. Vale ressaltar que (vencendo desinformações e preconceitos), a expressão “Igreja Católica” não se refere à Igreja Romana, mas à Igreja Histórica, Universal, Una, Santa e Apostólica de Cristo (integrada, posteriormente, por diversos ramos, com suas divisões). O texto do Credo não poderia estar se referindo à Igreja Católica Apostólica Romana, porque, àquela época, ela sequer existia. Catolicidade, como universalidade, é apenas um contraste com particularidade, ou sectarismo (das heresias). Quanto à expressão “Comunhão dos Santos” não se refere aos “santos” dos altares da Igreja de Roma ou outra, mas aos remidos, os salvos. Comunhão dos Santos é sinônimo de Corpo Místico, a união-mistério de todos os salvos em todas as épocas e lugares: a Igreja Triunfante (que já está na glória) + a Igreja Militante (ainda na terra). O segundo Credo referido é o “Credo Niceno” , elaborado pelo Concílio de Nicéia, e consolidado pelo Concílio de Calcedônia, no ano 451 (V século), em uma época de intensas controvérsias sobre a Santíssima Trindade e a natureza de Cristo, e o enfrentamento a diversas e fortes heresias. Enquanto o Credo dos Apóstolos era recitado individualmente por cada batizando, “Eu Creio” , o Credo Niceno é uma reafirmação de fé de toda a comunidade, “Cremos” ; e deve ser usado nas Ordenações, Sagrações, Concílios e outros momentos importantes. O Credo Niceno é uma ampliação e aprofundamento do Credo Apostólico. E o que nele afirmamos? “1.Cremos em um Deus , Pai, Onipotente, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; 2. E em um só Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado do Seu Pai antes de todos os mundos, Deus de Deus, Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, gerado, não feito, Consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e pela nossa salvação desceu do Céu e encarnou por obra do Espírito Santo, da virgem Maria, e foi feito homem, foi também crucificado por nós, sob o poder de Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado, e ao terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras, e subiu ao céu, e está sentado a direita do Pai, e virá outra vez, com glória, a julgar os vivos e os mortos, e o seu Reino não terá fim; 3. E cremos no Espírito Santo, Senhor, Doador da Vida, procedente do Pai (e do Filho), o qual com o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado, o qual falou pelos Profetas; 4. E cremos na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica; 5. Reconhecemos um só Batismo para a remissão dos pecados; 6. E esperamos a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo vindouro. Amém”. O Credo Niceno , mais abrangente, é uma forte afirmação trinitária, e, particularmente, desenvolve uma sólida Cristologia. Posteriormente uma de suas afirmações veio a ser um dos motivos de divisão entre as Igrejas do Oriente e as Igrejas do Ocidente: se o Espírito Santo é somente procedente do Pai (redação oriental), ou do Pai e do Filho (redação ocidental). À semelhança do Credo Apostólico , o Credo Niceno (com uma ou outra versão) é adotado por todas as Igrejas Históricas. Um terceiro Credo, adotado por muitas Igrejas Históricas – inclusive Reformadas – e por algumas de nossas Províncias, é o Credo Atanasiano , atribuído ao Bispo Atanásio, grande apologeta e combatente contra as heresias, com sua redação final em torno do ano 500. É um Credo mais longo, e tem como premissa que quem abraça a fé católica da Igreja deve confessá-lo, e quem não crê firmemente nessas doutrinas não poderá se salvar. Esse Credo tem um grande valor didático em nossa compreensão da natureza de Deus. Vale a pena transcrevê-lo: “Todo aquele que quer ser salvo, antes de tudo é necessário que abrace a fé católica. O que não guardar esta fé íntegra e pura, sem dúvida perecerá para sempre. E a fé católica é esta: Que adoramos um só Deus em Trindade, e a Trindade em Unidade, sem confundir as pessoas nem dividir as substâncias, porque é uma a pessoa do Pai, outra a do Filho e outra a do Espírito Santo, mas a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma, igual a glória e co-eterna a majestade. Assim como é o Pai, assim é o Filho, assim o Espírito Santo. Incriado é o Pai, incriado o Filho e incriado o Espírito Santo. Incompreensível é o Pai, incompreensível é o Filho, incompreensível o Espírito Santo. Eterno é o Pai, eterno o Filho, eterno o Espírito Santo. E, no entanto, não são três eternos, mas um só eterno; como também não são três incompreensíveis, nem três incriados, mas um só incriado e um só incompreensível. Assim, onipotente é o Pai, onipotente é o Filho, onipotente é o Espírito Santo, e, no entanto, não são três onipotentes, mas um só onipotente. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. E, no entanto, não são três deuses, mas um só Deus. Assim também, o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, o Espírito Santo é Senhor. E, no entanto, não são três Senhores, mas um só Senhor; porque assim como a verdade cristã nos obriga a reconhecer que cada uma das pessoas de per si é Deus e Senhor, assim a religião católica nos proíbe dizer que há três deuses ou três Senhores. O Pai de nada é feito, nem criado, nem engendrado. O Filho é só do Pai, não feito, nem criado, nem engendrado. O Espírito Santo é do Pai e do Filho, não feito, nem criado, nem engendrado. Há, pois, um Pai, não três Pais; um Filho, não três Filhos; um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. E nessa Trindade ninguém é primeiro nem posterior, ninguém é maior nem menor; mas todas as três pessoas são coeternas juntamente e coiguais. De maneira que em tudo, como foi dito, devemos adorar a unidade na trindade, e a trindade na unidade. Portanto, o que quiser se salvar deve pensar assim na trindade. Além do mais, é necessário para a salvação eterna que também creia corretamente na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. Porque a fé verdadeira que cremos e confessamos, é que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus é Deus e Homem; Deus da substância do Pai, gerado antes de todos os séculos; e Homem, da substância de sua mãe, nascido no mundo; Perfeito Deus e Perfeito Homem, subsistente de alma racional e de carne humana; igual ao Pai em sua divindade; inferior ao Pai segundo a sua humanidade. Que, embora seja Deus e Homem, contudo não são dois, mas um só Cristo; Um, não pela conversão da divindade em carne, mas pela assunção da Humanidade em Deus; Um totalmente, não por confusão de Substância, mas por unidade de Pessoa. Pois como a alma racional e a carne são um só homem, assim Deus e Homem é um só Cristo. O que padeceu por nossa salvação, desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia dentre os mortos. Subiu aos céus, está sentado à destra do Pai, Deus Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Em cuja vinda todos os homens ressuscitarão com seus corpos e darão conta de suas próprias obras. E os que tiverem feito o bem irão para a vida eterna; e os que tiverem feito o mal, ao fogo eterno. Esta é a Fé Católica, e quem nela não crê firmemente, não poderá se salvar”. Durante a Reforma Protestante do Século XVI, Luteranos, Calvinistas, Anabatistas e Anglicanos (XXXI Artigos de Religião), com suas semelhanças e diferenças, elaboraram suas Confissões de Fé baseadas nos Credos, porém com uma ênfase particular na salvação pela Graça mediante a Fé, e na autoridade das Sagradas Escrituras. Na Idade Contemporânea tivemos novos documentos doutrinários, à base dos Credos e das Confissões da Reforma, sendo o mais importante o Pacto de Lausanne, de 1974. Diante de ateus, agnósticos, politeístas, animistas e unitaristas, em nossos tempos, é importante estudarmos os Credos e reafirmarmos as suas doutrinas centrais. Os Anglicanos não “rezam” o Credo Apostólico ou o Credo Niceno , mas o recitam e confessam, segundo o preceito do apóstolo Pedro de “saber dar a razão da fé que há em nós” ; o Anglicanismo é uma expressão histórica e confessante da Igreja de Cristo, e, como tal, comprometido com a verdade da Sã Doutrina, com o legado apostólico. Confessemos, pois, com convicção a nossa fé!
(Compilação: Revmo. Dom Robinson Cavalcanti )
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