Doutrina Anglicana V - Os Anglicanos e o Episcopado
Doutrina Anglicana V
| Os Anglicanos e o Episcopado |
A Prefação do Ordinal (Ritos de Ordenação de Ministros) do Livro de Oração Comum original já defendia que “desde os tempos dos apóstolos, com seus bispos, presbíteros e diáconos” , e “...quão necessária é essa ordem na Igreja de Cristo” . Por Episcopado, entenda-se a forma de governo da Igreja liderada por um Bispo ( episkopos = superintendente). O Episcopado é a mais antiga das formas de administração eclesiástica, estabelecida no segundo século, após a morte dos Apóstolos, pelos Pais Apostólicos (seus discípulos), para manter a coesão e a ordem nas comunidades, coordenar e supervisionar as suas ações, preservar a doutrina original e combater as heresias, manter, em colegialidade, a unidade entre as várias comunidades locais, empreender esforços missionários, preparar e ordenar presbíteros e diáconos para os seus ministérios. O Episcopado consolidou-se e expandiu-se como a única forma conhecida de governo da Igreja de Cristo, tanto no Oriente (Bizantinos, Pré-Calcedônios e Nestorianos), quanto no Ocidente (Igreja de Roma) até o Século XVI e a Reforma Protestante. A Primeira Reforma (Anglicanos e Luteranos), bem como outros grupos reformados mantiveram o Episcopado. Hoje, entre Romanos, Ortodoxos e Protestantes, 90% da Cristandade é episcopal. Por Episcopado Histórico, entenda-se o Episcopado quem tem sido mantido por ordenações sucessivas por quem já possuía essa ordenação, através dos séculos (o Bispo da DAR tem comprovada essa sucessão, retroativamente, até o século VIII). Algumas Igrejas, como a Luterana da Alemanha e dos EUA, e setores da Metodista, possuem o Episcopado Não-Histórico, os seus bispos possuem a autoridade, mas não a tradição da Ordenação com sucessão, e outras mantêm o sistema episcopal de governo, dando, porém, aos seus dirigentes, outros títulos ( pastor presidente : Assembléia de Deus; pastor-sinodal ou pastor-distrital , Igreja Luterana (IECLB, IELB); superintendente : Igreja do Nazareno etc.). Entre as correntes internas do Anglicanismo, há, entre setores anglo-católicos, quem defenda que o Episcopado é do “esse” (essência) da Igreja, e que sem bispo não há verdadeiramente uma Igreja, mas uma comunidade eclesiástica (posição da Igreja Romana e das Igrejas Orientais); enquanto setores anglo-evangélicos se dividem entre os que consideram o Episcopado um “bene esse” (benefício) para a Igreja, uma marca que a torna melhor. Setores dos anglo-católicos e dos anglo-evangélicos consideram o Episcopado uma “plena esse” (plenitude), as igrejas não-episcopais surgidas apenas com setores da Reforma Protestante do Século XVI (governo presbiterial e governo congregacional) são Igrejas, mas são limitadas em sua plenitude pela ausência do Bispo, embora todas elas tenham autoridades que desempenham “de fato” tarefas típicas de um Bispo. Embora as igrejas de governo presbiterial e congregacional (presbiterianos, batistas etc.) sejam apenas 10% da Cristandade, são responsáveis por 90% dos cismas e fragmentações institucionais ocorridas nos últimos 500 anos, que é um dado a se considerar. Na Idade Antiga e na Idade Média encontramos os bispos-missionários, que lideravam, apostolicamente, equipes de presbíteros, diáconos e leigos para implantar o Evangelho em novas regiões ainda não cristianizadas, e os bispos-diocesanos, titulares de uma região eclesiástica dada. Nas igrejas episcopais o termo Diocese , algumas vezes, é substituído por região eclesiástica, área, distrito, ou outro , mas com o mesmo significado de uma região com um conjunto de congregações e seus dirigentes, sob a autoridade de um Bispo. Para a Doutrina Anglicana o termo “igreja local” é usado para Diocese, e “comunidades locais” para as Paróquias, Missões e Pontos Missionários. Os fiéis são membros da Diocese, arrolados em uma Paróquia ou Missão. Os Párocos ou Ministros Encarregados não são “pastores de uma igreja local” , mas dirigentes e representantes do Bispo. No Brasil, dentre os protestantes, Igrejas como a Metodista (bispos) e Assembléia de Deus (pastor-presidente) possuem um sistema episcopal de governo solidamente estabelecido. Os Bispos Anglicanos são os “Pais em Deus” da família da fé, Pastores dos pastores e dos fiéis, Mestres e defensores da fé, Líderes da missão e titulares da administração. De acordo com os Cânones (normas eclesiásticas), presidem os Concílios Diocesanos, representam a Diocese perante as Províncias, a Comunhão Anglicana, o Estado e as Relações Ecumênicas ou Inter-Confessionais, são membros “ex-ofício” do Conselho Diocesano e de todas as Juntas e Comissões, supervisionam a formação do Clero, detêm o jus liturgicum (autorizar a Liturgia), e são responsáveis pela ministração dos Ritos Sacramentais da Confirmação (dos novos fiéis professos) e da Ordem (Ordenação de presbíteros e diáconos), e designação de ministérios instituídos (Ministros Leigos e Evangelistas). No conjunto da Igreja Universal, da Comunhão Anglicana e das Províncias Anglicanas, os Bispos, em conjunto, exercitam o princípio da Colegialidade. No interior das Províncias, e na própria Diocese, em conjunto com os presbíteros, diáconos e leigos, exercitam o princípio da sinodalidade e conciliaridade. O Episcopado Anglicano não é, pois, monárquico, mas participativo. Um Bispo é eleito pelo Clero e Leigos de uma Diocese, em Concílio Extraordinário (ou pelos Sínodos das Províncias quando se tratar de Dioceses Missionárias), devem ter a sua eleição homologada pela maioria dos Bispos e Concílios Diocesanos de sua Província (ou pelo Primaz, quando se tratar de Diocese Extra-Provincial), e são Sagrados em rito próprio, pelo menos por outros três Bispos de Episcopado Histórico. No Anglicanismo temos os Bispos Diocesanos (titulares de uma Diocese), Bispos Coadjutores (auxiliares com direito à sucessão) e Bispos Sufragâneos (auxiliares sem direito à sucessão). Os Bispos Resignatários são os que renunciaram a titularidade de sua Diocese antes da idade canônica de aposentadoria, e que continuam a prestar outros serviços à Igreja. Os Bispos Aposentados , também chamados de Bispos Eméritos , mantêm até a morte o seu título, exercendo tarefas delegadas pelos Diocesanos, conforme a sua disponibilidade e possibilidade. Um Bispo Anglicano (como os presbíteros e diáconos) não são sagrados para a sua “denominação”, mas para a Igreja de Cristo, podendo trabalhar em toda a Comunhão Anglicana, ou ser cedido para prestar serviços a outras confissões cristãs ou movimentos inter-denominacionais. Cada Província estabelece uma idade mínima (30 ou 35 anos) e uma idade máxima (65, 68, 70 anos) para o exercício do Episcopado, bem como uma idade mínima para a aposentadoria voluntária (em média, a partir de 60 anos). Cerca de metade das Províncias da Comunhão Anglicana não admitem o episcopado para as mulheres (embora algumas delas admitam a ordenação diaconal e/ou presbiteral). O uso do termo Episcopado Histórico é o adotado na Comunhão Anglicana, no lugar de “com sucessão apostólica” (adotado em outras Igrejas ), subentendendo-se que a sucessão apostólica é não somente pessoal e sacramental (Rito de Sagração), mas também comunitária e doutrinária (O Bispo, seu Clero e seu Povo mantendo o Sagrado Depósito da Fé Apostólica). O desconhecimento histórico e doutrinário, experiências denominacionais não-episcopais (presbiterais ou congregacionais) passadas ou suas influências presentes, e o espírito do século Pós-Moderno: individualista, localista e refratário à tradição e à autoridade, tem trazido obstáculos ao pleno exercício do Episcopado em Dioceses Anglicanas , embora o Quadrilátero de Lambeth advogue uma flexibilidade de métodos de administração para as diversas culturas. Agostinho de Hipona afirmou ser o Episcopado formado por “pouca honra e muito martírio” . O Episcopado, segundo o apóstolo Paulo, pode ser licitamente aspirado (embora ele nunca tenha sido Bispo), não como busca de status ou honraria, mas como uma forma sacrificial de serviço a Cristo e a sua Igreja.
(Compilação: Revmo. Dom Robinson Cavalcanti )
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