Doutrina Anglicana X - O Anglicanismo e seus Desafios
Doutrina Anglicana X
| O Anglicanismo e seus Desafios |
• O Desafio do Liberalismo Moderno Na década de 1830 o chamado “consenso protestante” , que tinha marcado o Anglicanismo por duzentos anos, é afetado com o surgimento do Anglo-Catolicismo (pretendendo uma reação contra a então “morna” Igreja da Inglaterra), põe sua ênfase nos Ritos, nos Sacramentos e na Hierarquia. Um setor, liderado por J.H.Newman entra para a Igreja de Roma. Na década de 1890 se dá o “casamento” de setores Anglo-Católicos com o Liberalismo, surgindo o Liberal-Catolicismo (ritualismo sem ortodoxia), que vai lentamente ocupando espaço na Europa e nos Estados Unidos (lugares onde o Liberalismo já era hegemônico em setores de outras denominações: Luteranos, Metodistas, Congregacionais, Batistas etc.), com maior velocidade a partir da década de 1960. A leitura racionalista das Sagradas Escrituras, o universalismo quanto à salvação, e o relativismo quanto a ética, foram marcas centrais do Liberalismo Clássico ou Moderno, que pretendeu tornar o Cristianismo aceitável ao homem moderno, despojando-os dos seus “mitos” , anunciando, segundo um pensador, “Um Deus sem ira e um Cristo sem cruz a um homem sem pecado”. O resultado catastrófico foi o inexorável declínio da membresia e da vitalidade das Igrejas, o Secularismo, e a perda de relevância da proposta cristã. Salvo as honrosas exceções dos fiéis à Palavra, os templos europeus, e parte dos templos norte-americanos e australianos – das diversas denominações – que estão esvaziados, ouvindo uma mensagem débil de consistência e de poder. O Liberalismo causou menores estragos nos países periféricos, mas no caso do Brasil, lamentavelmente, terminou por se tornar hegemônico na Província Anglicana (IEAB), levando-a a uma situação de peculiar declínio no cenário cristão brasileiro. • O Desafio do Liberalismo Pós-Moderno Enquanto a Modernidade afirmava que conhecer a Verdade era possível, desde que unicamente pela Razão, e que valores poderiam ter validade universal, a Pós-Modernidade, mais ainda individualista e subjetivista, afirma que não se pode conhecer a Verdade por nenhuma via (inclusive a Razão), pois esta é a de cada um, em um radical relativismo ( “O Único Absoluto é o Relativo” ). Enquanto em nome de uma “diversidade” e de um “multi-culturalismo” se nega a validade de valores universais, o liberalismo Pós-Moderno (carente de utopias políticas) promove a intolerância do “politicamente correto” e a perseguição a quem defende verdades ou princípios absolutos ( “Intolerância dos Tolerantes” ). Nesse contexto vai-se redefinindo tudo. A Igreja, por exemplo, passa a ser: “Uma entidade social, cultural, litúrgica e afetiva, onde não há lugar para verdades doutrinárias ou paradigmas de comportamento” . A Bíblia, por sua vez, é entendida como: “Uma coletânea de livros religiosos da tradição judaica e cristã, útil para o uso devocional ou litúrgico, mas onde não se deve buscar doutrinas ou normas de comportamento” . É negada a unicidade de Cristo como Senhor e Salvador ( “equívoco” ou “arrogância imperialista” ), e a unicidade da Igreja como agência do Reino de Deus. Pretende-se a participação dos não-cristãos na Ceia do Senhor. ( “Um Deus que não fala a um homem que não escuta nem obedece” ). Afirmam que “se a Igreja escreveu a Bíblia, ela tem o direito de reescrevê-la” , e o Espírito Santo hoje fala pelas decisões dos Concílios (Convenções, Sínodos, Assembléias) mesmo que aparentemente contradiga os seus ensinos anteriores, válidos para os contextos do passado, mas não para hoje. Torna-se impossível, pois, compatibilizar essa abordagem com o nosso “Quadrilátero de Lambeth”. • O Desafio da (Des)Unidade Na década de 1980, o Anglicanismo, até então o ramo reformado que quase não conhecera cismas, se viu às voltas com a controvérsia sobre a Ordenação Feminina, defendida pelos Liberais sob argumentos jurídicos e sociológicos, oposta pelos anglo-católicos com argumentos tradicionais, e dividindo os evangélicos quanto a lacunas e exegese bíblica (sacerdócio vs. carismas). Essa controvérsia – principalmente nos Estados Unidos – resultou em um processo de fragmentação, com o surgimento de cerca de 50 pequenas jurisdições independentes, denominadas de “Igrejas Anglicanas Continuantes” , hoje chegando a outros países, inclusive o nosso. Nessa década surge, com toda a força, dentro de uma “revolução de costumes” ao nível mundial, a questão da licitude do homossexualismo, da ordenação de homossexuais praticantes e da bênção sobre uniões entre pessoas do mesmo sexo. Essa orquestrada “revolução de costumes” , apoiada por amplos setores da mídia, da academia, dos políticos e dos magistrados, tem resultado na criação do “casamento” ou “união civil” (já no Direito de Família, e não mais no Direito das Obrigações) em vários países, aceito pelas Igrejas dirigidas pelos Liberais, e tem encontrado resistência nas religiões orientais, no Islã, na maior parte do Judaísmo (exceção do “Movimento Reformista” ), na Igreja Romana, nas Igrejas Ortodoxas Orientais, no Pentecostalismo e no Evangelicalismo Conservador. A eleição, homologação e sagração do Bispo de New Hampshire, nos Estados Unidos, Gene Robinson , um homossexual praticante assumido, e a adoção da bênção sobre uniões entre pessoas do mesmo sexo, pelo Bispo Michael Ingham , de New Westminster no Canadá, tem resultado na maior crise na história da Comunhão Anglicana, de conseqüências imprevisíveis, com 22 das 38 Províncias condenando essas práticas e rompendo ou suspendendo suas relações com os EEUU e o Canadá, já suspenso de participar dos órgãos internacionais até a próxima Conferência de Lambeth, de 2008, e convocado a “se arrepender ou caminhar a parte” . Um importante documento de análise e propostas já foi elaborado, o “Relatório de Windsor” , e o Arcebispo de Cantuária, o Encontro dos Primazes e o Conselho Consultivo Anglicano (ACC) reafirmaram a validade da Resolução 1.10 sobre Sexualidade Humana ( “A prática do homossexualismo é incompatível com as Sagradas Escrituras” ). A Diocese do Recife, por suas posições firmes, tem sido vítima da violência dos liberais pós-modernos na Província. A Comunhão Anglicana está a beira de uma grande divisão ou de um grande realinhamento, mas, depois dessa crise, nunca mais ela será a mesma. Phillip Jenkins , em seu livro A Próxima Cristandade , prevê o deslocamento do Cristianismo do Hemisfério Norte, ferido de morte pelo Liberalismo Moderno e Pós-Moderno, para o Hemisfério Sul, mais fiel à herança bíblica e apostólica. Os Liberais afirmam que a Unidade é mais importante do que a Verdade, e os Ortodoxos afirmam que não pode haver Unidade à custa da Verdade; • O Desafio do Neo-Fundamentalismo Diante da incerteza do nada admirável mundo novo , muitos são tentados por uma hipotética “volta ao passado” , ou por reações agressivas, isolacionistas, sectárias, anti-intelectual, moralista, legalista, literalista. Em seu conjunto o que pode ser denominado de “espírito neo-fundamentalista” (para diferenciar do Fundamentalismo original). O resultado é sempre extremismo, radicalismo, dogmatismo, intolerância, fanatismo, enfermando o Corpo de Cristo, e, no nosso caso, com a perda do nosso ethos Anglicano de moderação, bom senso, equilíbrio e inclusividade quanto ao secundário, pela adoção de ensinos estranhos à nossa tradição, como a Teologia da Prosperidade, a Batalha Espiritual, e outras, pela perda da identidade, pela absorção de leituras de interpretações, propostas e métodos, os mais diversos, e de questionáveis valores, que atingem frontalmente, em particular, a nossa Eclesiologia e a nossa Liturgia. Com isso, cai-se na “geléia geral” de um pan-evangelicalismo superficial, amorfo e irrelevante, muitas vezes justificado pelo aparente êxito quantitativo. • O Desafio da (Falta de) Identidade Em seu livro O Choque das Civilizações , Samuel Huntington afirma que, com o ocaso das utopias modernas, os choques do futuro serão entre civilizações, que os indivíduos resistirão à padronização da globalização pela revalorização de suas culturas, e que no centro das culturas estão as religiões. Dentre estas crescerão em importância as que forem nítidas em seus ensinos, e que seus fiéis as conheçam e as sigam. Fortalecer a identidade é, pois, um serviço à pessoa e à Civilização, enquanto os grupos religiosos nominais e os grupos religiosos vagos ou superficiais, por maiores que eventualmente sejam, marcham, a médio e longo prazo, para a irrelevância, dentro do processo histórico. A Igreja Reformada sempre se Reforma. Há lugar para flexibilidade, diversidade e inculturação, mantido o conteúdo da Revelação, e as marcas da Identidade, construída pela História e pela Cultura. Na abertura do Concílio Diocesano de 1998, em nosso sermão de abertura, afirmamos: “Por vivermos no tempo, no espaço e na cultura, como cristãos, ou seremos anglicanos ou seremos outra coisa: romanos, batistas, presbiterianos, pentecostais etc.” . Com estes, temos amplos pontos de convergência e significativos pontos de divergência. Como afirmou um conhecido autor contemporâneo: “um anglo-católico não é um católico romano, um anglo-evangélico não é um batista, e um anglo-carismático não é um pentecostal” . Há uma história, um ethos e uma liturgia que nos diferenciam... Nunca advogamos o isolamento ou o sectarismo, mas é meu dever advertir para os riscos das importações indiscriminadas de idéias, mentalidades, ênfases, usos e costumes de nossas co-irmãs... Delas, das suas vozes mais lúcidas, ouvirmos o clamor para que preservemos e compartilhemos o nosso legado e a nossa identidade, como contribuição ao todo da Igreja no Brasil, que sofre, em nossos dias, a tragédia da superficialidade, do emocionalismo e do fanatismo. Deus continua sendo o Senhor da História e da Igreja, e o Espírito Santo continua a outorgar ao Povo de Deus o discernimento e o poder para enfrentar os dias maus, perseverar, compartilhar a Verdade e construir o novo possível, pela Fé que olha para a Esperança e vivencia o Amor. A Comunhão Anglicana está nas mãos de Deus. Façamos, porém, a nossa parte.
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