Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXIV) - Parte B

DÉCIMO-SEGUNDO CAPÍTULO: PERSPECTIVA – PARTE B
REALINHAMENTO
Uma instituição com o caráter internacional (164 países) e com a longa história, como a Igreja Anglicana, tem o seu processo de mudanças, na presente crise, necessariamente lento, em uma velocidade muito menor do que gostaríamos. Mas são assim os processos históricos. Não dá para os conservadores simples deixarem a Comunhão Anglicana, por duas razões: a primeira é que nós somos os continuadores do que o Anglicanismo sempre representou; e, a segunda, é que nós somos a imensa maioria, e nunca maiorias deixam instituições. São as minorias que deixam, ou são deixadas, como aconteceu com as heresias dos primeiros séculos. Com a falta de poder jurisdicional por parte dos Instrumentos de Unidade/Instrumentos de Comunhão, e a autonomia de Províncias e Dioceses, o processo segue necessariamente lento, mas segue.
Não temos ainda uma clara opção de modelo institucional. O monárquico absoluto da Igreja de Roma não nos serve; tampouco os modelos de vínculos ainda mais frágeis e plurais das federações (como os Luteranos) ou das alianças (como os Metodistas, os Presbiterianos e os Batistas).
Talvez tenhamos mais o que aprender com as Igrejas Orientais. O Patriarca Ecumênico de Constantinopla (Istambul), como foco de história e símbolo de unidade, primeiro entre iguais, tem menos autoridade ainda que o Arcebispo de Cantuária, embora seja eleito pelo Santo Sínodo e não nomeado por indicação do Primeiro-Ministro, com um viés político. Mas, cada uma das Igrejas autocéfalas pode existir ao lado de outras. Nos Estados Unidos, Paróquias Ortodoxas ligadas ao Patriarcado de Moscou, da Romênia, da Bulgária ou da Sérvia podem coexistir na mesma cidade, todas prestando honra ao Patriarca Ecumênico, mas vinculadas ao seu próprio Patriarcado. Um Colégio de Bispos dos vários ramos dirige uma associação nacional que represente os interesses coletivos.
É isso que vai acontecendo com a Causa Comum norte-americana: temos a Convocação das Igrejas Anglicanas na América (CANA), ligada à Nigéria; a Missão Anglicana nas Américas (AMiA), ligada à Ruanda; os episcopados missionários vinculados ao Quênia e Uganda; as Paróquias e Missões ligadas ao Cone Sul; aquelas que ainda estão na Igreja Episcopal (Rede Anglicana) e algumas jurisdições Continuantes, como a Igreja Episcopal Reformada, apontando para Cantuária como foco histórico e simbólico, cada uma ligada ao seu “Patriarca”, mas formando uma nova jurisdição ortodoxa, sob o Moderador, Revmo. Robert Duncan, da Diocese de Pittisburg, que deixou a TEC.
No Canadá as Igrejas da Rede (Network) estão todas sob a autoridade do Cone Sul, e um outro grupo ortodoxo (ACiC) está sob a autoridade de Ruanda, mas com intercomunhão entre si.
Se olharmos mais de perto para o diagrama dos quatro círculos concêntricos representando o Anglicanismo, veremos que dentro do primeiro círculo há um número expressivo de Províncias que ou romperam ou suspenderam comunhão com a Província dos EUA, com a Diocese de Westminster ou com a própria Igreja do Canadá. Ou seja, estão no primeiro círculo, mas não se reconhecem, nem se relacionam. Enquanto isso, os ortodoxos do primeiro, do segundo e do terceiro círculo se reconhecem plenamente, não se importando em que círculo estão, e, ainda, respeitamos o quarto círculo. Quer dizer, as relações são mais pluricirculares do que intracirculares.
As fronteiras geográficas, que são, ao lado dos Cânones, as últimas trincheiras para o domínio liberal, são desconhecidas, cada vez mais, pela maioria ortodoxa, que vai firmando um novo tipo de fronteira: a fronteira ideológica. Como bem descreveu o Rev. John Sutton, da SAMS-UK, a Comunhão Anglicana vai se tornando, como uma empresa holding, uma rede de redes, ou como falei ao Congresso de Pittisburg, redes de assemelhados.
Enquanto a maioria das Províncias Asiáticas se isola do conflito e as Províncias da África vão consolidando uma entidade regional forte, ortodoxos de 17 Províncias promovem, em Jerusalém, a Conferência sobre o Futuro Global do Anglicanismo (GAFCON), simbolicamente em Jerusalém, para comunhão e apóio mútuo, avaliação da conjuntura, estabelecimento de metas de ação conjunta na missão. Alguns Bispos comparecendo, também, para “marcar presença” na Conferência de Lambeth; outros não. O importe é a não aceitação do fato de que a minoria liberal rica do primeiro mundo dite a agenda e o espaço. Usando a imagem, os ortodoxos estão tomando a brideira nos dentes...
Uma Conferência de Lambeth (2008), planejada para não ter sessões deliberativas se fragiliza e perde a antiga legitimidade como fórum mundial. A proposta da segunda versão do Pacto Anglicano (revisto e piorado) propõe maior autoridade ao Arcebispo de Cantuária, um fortalecimento do fórum onde os liberais têm maior presença: o Conselho Consultivo Anglicano (ACC), e esvazia o poder do Encontro dos Primazes, que, consultivamente, somente se reunirá quando convocado pelo Arcebispo de Cantuária, sem capacidade de auto-convocação. Na prática é o que já está acontecendo, quando o Arcebispo de Cantuária não convocou o Encontro dos Primazes para avaliar a resposta da Igreja Episcopal (EUA), em sua resposta ao que lhe foi exigido, antes convidado todos os seus Bispos para a Conferência de Lambeth. Os ortodoxos já estão cientes desses movimentos no jogo de xadrez e não pretendem ficar passivos, mas, reagir proativamente.
Por outro lado, uma é a figura simbólica permanente do Arcebispo de Cantuária; outra é a figura pessoal do Revmo. Rowan Williams, que é historicamente transitório.
Como se percebe, o processo de realinhamento não é algo para o futuro, mas já está acontecendo. O reconhecimento mútuo dos ortodoxos em qualquer dos círculos, e a criação de novos organismos vai consolidando o processo. Com o possível fracasso do Pacto Anglicano, uma arma importante proposta pelos ortodoxos é a redação de um novo Catecismo Anglicano, a ser confessado e ensinado pelos ortodoxos de todas as jurisdições, em escala mundial, como uma base de crença em comum.
Nesse momento, pode-se diferenciar a postura racionária dos liberais aferrados aos Cânones e às fronteiras geográficas (ironia = criadas no século IV para impedir a circulação de Bispos hereges), tentando manter o domínio pela rigidez institucional, sem levar em conta as Escrituras e o legado histórico da Igreja em termos de doutrina e de ética, e a postura dos ortodoxos em manter estas últimas, alterando o modelo institucional.
Estamos presenciando o parto de um novo modelo Anglicano, enquanto alguns autores vão mais além, crendo que a crise está provocando uma nova Reforma.
CONCLUSÃO
Um dado a ser levado em conta é a diversidade de situações dentro da Comunhão Anglicana.
Há as Províncias e Dioceses ortodoxas, ou de ínfima minoria liberal, que não se sentem diretamente atingidas pela crise, pois, no geral, continuam acreditando e fazendo o que sempre foi sua história, e tendem a se isolar, ou a não se envolver mais diretamente nos conflitos.
Há outras que, igualmente ortodoxas, são pobres, enfrentam grandes desafios para manter o seu evangelismo e a sua obra social, e terminam por ter que depender de verbas oriundas das Províncias e Dioceses liberais, o que, mesmo se mantendo fiéis à sã doutrina, as fazem optar pelo silêncio e pela omissão por força da necessidade de sobrevivência. A soma desses dois grupos resulta em algo bem expressivo.
Há, por outro lado, Províncias e Dioceses ortodoxas que estão sendo cobradas pelos seguidores do Islã, de outras religiões não-cristãs, e de outras denominações cristãs, se elas são iguais às suas co-irmãs do Ocidente em suas heresias e relativismo moral. A estas não resta outra opção do que uma clara afirmação de identidade e uma denúncia do caráter desviante daquelas suas co-irmãs.
Um terceiro grupo é formado pelas Províncias e Dioceses de maioria liberal, cuja escalada de discriminação e perseguição às minorias ortodoxas é cada vez mais crescente. Elas estão, principalmente, no mundo anglo-saxão, mas possuem seguidores nos países periféricos, como o Brasil.
Em todas elas se registra uma grande evasão de fiéis, e uma busca dos ortodoxos por uma proteção provisória por parte de outras Províncias, almejando o dia quando terão as suas próprias jurisdições, e as mesmas reconhecidas pelo conjunto do Anglicanismo.
Nesse conflito entram em jogo os conceitos de legalidade e de legitimidade. As instituições liberais passam a depor, cassar, excomungar, expulsar clérigos e comunidades, procurando desqualificá-los como Anglicanos. Quanto menos anglicanismo histórico elas professam e quanto maior for a escalada de atos repressivos, menos os mesmos terão algum efeito prático, pela erosão da legitimidade dos algozes.
O formalismo institucional vazio, ou negador do conteúdo, não pode suplantar a autoridade moral dos que preservam a herança bíblica e histórica, sendo reconhecidos pelo seu povo, pelas autoridades públicas, pela sociedade civil, pelas outras denominações, e, mais importante ainda, pelo conjunto do Anglicanismo.
O ciclo de afirmação de um fundamentalismo canônico é uma sacralidade das fronteiras territoriais, e a profusão de bulas punitivas vai se esgotando rapidamente, deixando as instituições liberais fortemente desgastadas. A deposição do ministério de J.I. Packer (considerado uma das cem personalidades mais importantes do cristianismo, e uma das 25 personalidades mais importantes do evangelicalismo no século XX) pela Diocese de New Westminster, no Canadá, não teve efeito prático algum, senão aumentar a revolta e o protesto contra tais atos inquisitoriais, até que o mesmo recebeu uma carta de reconhecimento de ordem e ministério do Primaz do Cone Sul, à semelhança do clero excomungado do Recife.
Esse modelo de cassação, iniciado no Brasil, e adotado hoje, principalmente nos Estados Unidos e no Canadá, vai caindo no vazio. Nos Estados Unidos, a Diocese de San Joaquin, ao trocar a Igreja Episcopal (EUA) pela Província do Cone Sul, teve o seu Bispo cassado e o seu clero deposto (o que deve acontecer em breve com outras Dioceses daquele país), em um filme que a Diocese do Recife dolorosamente já viu.
Por sua vez, o discurso revisionista liberal vai ficando cada vez mais claro, com a defesa do batismo sem invocar a Trindade, ou a oferta da Ceia do Senhor a não-cristãos, a Ordenação de homossexuais praticantes e a benção de uniões do mesmo sexo, o questionamento da autoridade das Escrituras e do papel singular da Igreja, mas, principalmente, e cada vez mais, a negação da unicidade de Jesus Cristo como Senhor e Salvador.
Por trás de velhos prédios, velhas vestes e velhas palavras, o que existe é um outro conteúdo. De fato, já existe, há muito tempo, uma denominação congregacional com essa proposta, e para onde esses pseudo-anglicanos deveriam se mudar; se não estivessem presos às benesses materiais de suas instituições: a Igreja Unitária-Universalista.
O Arcebispo de Cantuária insiste no Processo de Windsor e no Pacto Anglicano, quando a sua segunda versão não trouxe senão decepção e desesperança, e insiste em um interminável “diálogo”, onde todos sejam escutados e onde todos saiam satisfeitos, chegando-se a uma nova síntese ou a uma aceitação mútua das diferenças, na linha de uma inclusividade ilimitada e do pluralismo multicultural relativista.
Enquanto isso, muitos fiéis do espaço liberal vão “votando com os pés”, por não aceitarem aquelas heresias, ou por estarem impacientes com líderes ortodoxos acomodados, opinionistas ou tardios e lentos em se mover.
As fronteiras territoriais vão sendo entendidas como as das Províncias Anglicanas e não as dos Estados Nacionais onde elas se situam. Daí, quando um Primaz recebe Paróquias que saíram ou foram expulsas daquelas Províncias, embora situadas nos territórios daqueles países, eles não estão cruzando fronteiras territoriais provinciais, mas acolhendo seus ex-membros na continuidade dos vínculos com a Comunhão Anglicana. E isso vai acontecer, no futuro próximo, em uma incidência cada vez maior. Convocações serão criadas, Bispos Missionários enviados, Dioceses e Paróquias recebidas sob a Autoridade Primacial e/ou no interior das próprias Províncias e Dioceses ortodoxas, em caráter provisório ou definitivo.
A Diocese de Attabasca, no Canadá, por decisão conciliar reconheceu o caráter anglicano das Paróquias e clérigos expulsos por sua Província (Rede Anglicana), deliberando manter comunhão com os mesmos e com a Província do Cone Sul. A Diocese de Springfield, embora integrando a Igreja Episcopal (EUA) tem um status de Diocese Companheira com Recife, aprovada sucessivamente, por unanimidade, por três anos seguidos, pelo seu Concílio, com o seu Bispo vindo ao Recife e o Bispo do Recife indo ao seu Concílio. Várias Dioceses e um grande número de Paróquias nos Estados Unidos desconhecem as deposições e excomunhões perpetradas pela IEAB contra a Diocese do Recife, acolhendo plenamente o seu Bispo e os seus clérigos.
Ao lado disso, entidades como a CANA, a AMiA, as Missões de Quênia, Uganda e Cone Sul nos Estados Unidos são reconhecidas pelos ortodoxos que ainda têm estado no interior da Igreja Episcopal (EUA) e pelo conjunto de Províncias do Sul-Global, que totalizam mais de 80% dos fiéis da Comunhão Anglicana. O mesmo acontece com a Rede do Canadá e a Diocese do Recife, gênese de uma nova Província.
Enquanto as Províncias liberais são pequenas, e tendem a diminuir, uma Província como a Nigéria, com o programa evangelístico 1+1 = 3, caminha para ser 25% da população do país.
O eixo demográfico-eclesiástico já se deslocou do norte para o sul, e tende a continuar nesse processo durante o próximo período histórico. As redes de assemelhados estão se formando, se expandindo, se fortalecendo, e se reconhecendo mutuamente, a despeito dos atos de força das instituições dominadas pelos liberais e da omissão dos Instrumentos de Comunhão. Elas não vão mais aceitar passivamente que a minoria detentora de poder institucional imponha a sua agenda ou limite o seu espaço, mas prosseguirão na missão que o Senhor as confiou, confessando a sã doutrina, em um processo de renovação e unidade.
É possível que não tenhamos uma solução mais ampla e mais profunda nos próximos anos, e que tensões continuem entre as duas religiões que se abrigam no mesmo guarda-chuva. Mas, a visão dos ortodoxos é a de gastar o mínimo de tempo e de energia possível nesses conflitos, e, sim, trabalhar na missão e na construção de instituições meios, dentro dos laços de afeição, do reconhecimento e do apoio mútuo das diversas redes de assemelhados. O GAFCON, a Declaração de Jerusalém, o surgimento da Fraternidade de Anglicanos Confessantes (FCA) e o nascimento da nova e ortodoxa Igreja Anglicana na América do Norte (ACNA), são sinais de esperança na construção de um novo tempo.
Como afirmou, com autoridade, o Primaz das Índias Ocidentais (Caribe), Revmo. Drexel Gomez, um dos líderes do Movimento do Sul-Global: “No meio dessa crise o Anglicanismo nunca foi tão atual nem tão pujante”.
A fé na Providência do Senhor da Igreja conduz a maioria ortodoxa da Comunhão Anglicana à paz interior e à serenidade para enfrentar os desafios e o martírio, continuando o sagrado depósito da fé apostólica e promovendo a missão integral da Igreja, até que Ele venha.
Fixação de aprendizagem:
- Por que se diz que os atuais Instrumentos de Unidade/Comunhão estão superados em sua presente forma e atribuição?
- Quais as principais conclusões e sugestões do Relatório de Windsor?
- O que se entende por Realinhamento?
- Como você antevê o Anglicanismo no futuro?
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Última atualização (Dom, 20 de Fevereiro de 2011 11:12)

























