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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

1ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

SOMOS PARTE DA COMUNHÃO ANGLICANA

 

 

SOMOS PARTE DO GAFCON

 

 

SOMOS FILIADOS À FELLOWSHIP OF CONFESSING ANGLICANS (FCA)

 

 

SOMOS CONVENIADOS À IGREJA ANGLICANA DA AMÉRICA DO NORTE (ACNA)

 

SOMOS MEMBROS-FUNDADORES DA ALIANÇA EVANGÉLICA

 

 

SOMOS MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO PRÓ-CAPELANIA MILITAR EVANGÉLICA DO BRASIL (ACMEB)

 

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Home Biblioteca Doutrina Anglicana Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXIII) - Parte A

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXIII) - Parte A

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXIII)

 

 

DÉCIMO-SEGUNDO CAPÍTULO: PERSPECTIVA – PARTE A

 

INTRODUÇÃO

Temos estudado o Anglicanismo, como ramo histórico da Igreja de Cristo, sua longa história, seu conteúdo doutrinário, seus princípios éticos, sua abordagem pastoral, seu ministério, sua organização, sua identidade, e, por último, a crise que vem presentemente atravessando. Sabemos que as crises, por mais amplas, prolongadas e profundas que sejam, elas são transitórias. Um dia elas terminarão, para que viva um novo momento histórico, até que outras crises venham a surgir, e, assim, prossegue a história, conosco – a humanidade – em seu permanente processo de construção, como atores centrais desse drama, que teve início, e que, um dia, terá fim.

 

As crises são dolorosas, e é natural que se queira ver o seu final. Todos querem concorrer para o seu término, e, quanto seja possível, controlar o seu curso. Nessas circunstâncias se procura analisar as causas, os desdobramentos e as conseqüências. Mais importante ainda, se procura elaborar os cenários alternativos possíveis para o próximo estágio, e para o estágio final.

 

Que a Civilização Ocidental globalizada e pós-moderna está em crise já o sabemos, o sentimos, e o sofremos. Que essa crise tem afetado, de fora e de dentro a Cristandade, é também evidente. Que a crise atingiu o Anglicanismo, é uma realidade do nosso cotidiano. Estamos, nas palavras de Paulo ao Areópago, “tateando como se o pudéssemos achar”.

 

Como o sambista, nos perguntamos: “Como será o amanhã?”.

 

Há uma certeza cada vez mais forte de que um modelo (diga-se de passagem, historicamente recente) já se foi. Um outro modelo virá. Mas, qual? E quando?

 

A essa altura, além de acompanhar os acontecimentos, procurando nos manter bem informados e orar por eles, somos chamados pelo Senhor da História e Senhor da Igreja, a participar do processo, que é de desconstrução e de reconstrução. Isso requer discernimento, desprendimento, espírito de sacrifício, riscos de martírio, escolha correta dos companheiros de luta e de vinculação aos movimentos corretos.

 

É isso que a Diocese do Recife tem procurado fazer, em nossos encontros de lideranças, em nossos Concílios Ordinários e Extraordinários. Temos avaliado a conjuntura, temos intercedido, temos tomado posicionamentos. Nossa vinculação, cada vez mais estreita, e o breve caminho de um vínculo regular e institucional permanente com a Igreja Anglicana do Cone Sul da América, é parte importante dessa caminhada, bem como nossa participação no Movimento ortodoxo do Sul-Global.

 

Nossos relacionamentos com as Redes Anglicanas dos Estados Unidos e do Canadá; com o Movimento Parceiros Por uma Causa Comum; com o Anglican-Mainstream, no Reino Unido; com a Ekklesia, nos Estados Unidos, onde mantemos uma relação de Diocese Companheira com a Diocese de Springfield (ortodoxa, mas ainda integrando a Igreja Episcopal dos EUA), nossa amizade com bispos, professores, ministros, jornalistas, webmasters e leigos dos mais diversos países, indicam a ampla rede de relacionamentos sadios de nossa Diocese e a nossa decisão de caminharmos nessa crise, não isolados, mas no conjunto do que há de melhor entre o povo de Deus nesse ramo da Igreja.

 

Como Diocese, fizemos uma opção pela verdade, que é Jesus Cristo Encarnado, Crucificado e Ressurreto. Fizemos uma opção pela autoridade das Escrituras canônicas do Antigo e do Novo Testamento e pelos Credos, como expressão do núcleo central das doutrinas do legado apostólico. E fizemos a opção, igualmente, por estarmos ombreados com os que partilham dessas convicções e sofrem por elas.

 

Temos que depositar as nossas ansiedades na cruz. Não nos é digno o caminho da fuga, nem o caminho da adesão ao mal. A Sua Graça nos basta. No mais, é mantermos serenidade, maturidade, compromisso, trabalhar na “santa rotina” missionária, fazer o que está ao nosso alcance, e deixar que a cada dia baste o seu próprio mal.

 

Como costumava dizer meu avô: “Não há bem que sempre dure, nem mal que sempre perdure”.

 

MODELOS

Se tomarmos o Anglicanismo como o conjunto dos fiéis que se auto-identificam como tal, pelo apelo a uma herança histórica e um ethos em comum, poderemos, na atualidade, representá-lo por quatro círculos concêntricos:

 

O Primeiro Círculo é formado pelas Províncias e Dioceses Extra-Provinciais em plena comunhão com a Sé de Cantuária.

 

O Segundo Círculo inclui aquelas Dioceses, Convocações, Paróquias e Missões que estão sob a Autoridade Primacial ou como membros extraterritoriais de entidades do Primeiro Círculo: CANA, Amia, Rede Anglicana do Canadá, Conferência Internacional da Rede Anglicana dos EUA (Quênia, Uganda, Cone Sul), Diocese do Recife, Missão Episcopal na Itália etc., em número cada dia crescente.

 

O Terceiro Círculo é constituído pelas Jurisdições Continuantes, que fazem parte de Redes (Networks) Anglicanas e Causa Comum (EUA), juntamente com parceiros dos primeiro e segundo círculos. O próprio Arcebispo de Cantuária disse no III Encontro Sul-Sul, no Egito, em 2006, que as Redes são uma realidade nova que integram a Comunhão Anglicana.

 

Assim, o Primeiro Círculo tem um vínculo direto, e os Segundo e Terceiro Círculos vínculos indiretos com a Sé de Cantuária, todos dentro do guarda-chuva da Comunhão Anglicana.

 

O Quarto Círculo é integrado pelas Jurisdições Anglicanas Continuantes isoladas, que não fazem parte de Redes, ou, no caso dos EUA, da Causa Comum (que está lá mais formal do que meramente fraternal).

 

Diagrama de Alvo

Em um processo dinâmico, Dioceses, Paróquias e Jurisdições poderão mudar de Círculos, ou até, vermos criados novos Círculos, ou mecanismos de relacionamento entre os mesmos.

 

O Círculo Primeiro nunca foi absoluto no Anglicanismo, nem as tais “fronteiras geográficas” nunca se constituíram em dogmas. Por séculos, tivemos Paróquias da Igreja da Inglaterra dentro do território da Igreja da Escócia; a Convocação de Igrejas Norte-Americanas na Europa faz justaposição territorial sobre a Diocese da Europa (Igreja da Inglaterra) e sobre as Dioceses Extra-Territoriais de Portugal e da Espanha.

 

Além disso, há situações dentro das Províncias que também são atípicas: as províncias (internas) da Província da Austrália possuem ampla autonomia, e as Dioceses australianas têm poder de veto sobre decisões da Província dentro de sua área (uma resolução provincial só vale nas Dioceses se os respectivos Concílios Diocesanos aprovarem), e a Província da Nova Zelândia tem territórios diocesanos justapostos para as três etnias: européia, maori e polinésia, e um triunvirato de Primazes com um representante de cada uma delas.

 

Por isso, o Arcebispo de Cantuária – quando me recebeu no Palácio de Lambeth – disse que, naquela tarde, ele e os Bispos Diocesanos da Igreja da Inglaterra estavam justamente debatendo as exceções do passado ou ora existentes como precedentes para novos arranjos no futuro. Essa flexibilidade – denominada de redesenho – poderia ser o caminho para o futuro da Comunhão Anglicana.

 

Os liberais são contra, pois já que descartaram a Bíblia e a Tradição, só lhes resta a “sacralidade” dos Cânones e das fronteiras territoriais rígidas. Eles tentaram criar o mecanismo das Supervisões Episcopais Delegadas, com bispos ortodoxos supervisionando dentro de outras Dioceses que não a sua, mas isso requeria a concordância de um Bispo Visitador, a concordância do Bispo Local e a concordância das comunidades, o que terminou não funcionando nos uncionando nos EUAo Estados Unidos e no Canadá. Uma Supervisão Episcopal Alternativa funciona na Igreja da Inglaterra, com os chamados “Bispos Voadore”, que são quatro que cuidam das Paróquias que não aceitam a Ordenação feminina.

 

Quando o Encontro dos Primazes propôs Supervisores Primaciais Alternativos sobre Dioceses e Paróquias dos EUA, com a concordância da Primaz daquela Província, a proposta foi rejeitada pela Câmara dos Bispos, assim como pelos ortodoxos locais, que não confiaram em ninguém que fosse de confiança de sua Primaz ultra-liberal.

 

Houve exceções, há exceções e exceções estão sendo tentadas, estas nem sempre com êxito, diante dos impasses e das distintas correlações de força.

 

Como diria um ideólogo contemporâneo em seu livro-título: “O que fazer?”.

 

WINDSOR

As tensões começaram a aumentar na Comunhão Anglicana com a decisão da Diocese de New Westminster, Província de Columbia Britânica, no Canadá, com o apoio do seu Bispo, Michael Ingham, de autorizar o rito de benção de uniões entre pessoas do mesmo sexo. A seguir, a imprensa internacional noticia com grande destaque a eleição pela Diocese de New Hampshire, nos Estados Unidos, de um ex-casado e pai de duas filhas, que assumira a prática da sua homossexualidade publicamente, com o seu parceiro, o Rev. Vicky Gene Robinson. Essa eleição foi confirmada pela Convenção Geral da Igreja Episcopal (EUA), seguindo-se a Sagração com um número expressivo de bispos, aposentados e na ativa, apesar do apelo de várias Províncias de todo o mundo.

 

No Brasil, os Bispos – Diocesano e Sufragâneo – e o Conselho Diocesano da Diocese do Recife, publicaram a “Afirmação do Recife”, reiterando o apoio à Resolução 1.10 da Conferência de Lambeth, 1998, condenando a Sagração de Gene Robinson e suspendendo o seu relacionamento institucional com a Igreja Episcopal (EUA) e com a Diocese de New Westminster, no Canadá. O Primaz da IEAB emitiu nota de apoio à Sagração, tendo por base a autonomia provincial e a cultura, sem qualquer menção às Escrituras, em nome da Província, sem para isso ter recebido autorização seja da Câmara dos Bispos, seja do Conselho Executivo da Província.

 

O Arcebispo de Cantuária e o Encontro dos Primazes criaram uma comissão de alto nível, presidida pelo Primaz da Província das Índias Ocidentais (Caribe), Revmo. Drexel Gomez, para elaborar um documento analisando a conjuntura e fazendo sugestões de encaminhamento de soluções. Esse documento ficou conhecido como o Relatório de Windsor. O Bispo da Diocese do Recife foi convidado para a cerimônia da sua divulgação, dando entrevista em contraponto a uma reverenda lésbica à televisão pública inglesa BBC nas escadarias da Catedral de São Paulo, em Londres.

 

O Relatório reconhece a culpa das Igrejas do Canadá e dos Estados Unidos em caminharem descoladas do conjunto em seu vanguardismo, demanda um arrependimento e uma moratória nas Sagrações de homossexuais, reafirma o caráter ortodoxo e reformado da Comunhão Anglicana, e propõe a redação de um Pacto Anglicano com as doutrinas e padrões éticos que deveriam ser compartilhados por todos. O Arcebispo de Cantuária, em um primeiro momento, chegou a declarar que as Províncias que assinassem o Pacto seriam consideradas membros plenos da Comunhão Anglicana, e as que não o fizessem, teriam o status apenas de membros associados, posição que o mesmo, tempos depois, voltou atrás.

 

Uma primeira versão do Pacto foi encorajadora, mas a segunda versão, por pressão das Províncias liberais, significou um evidente recuo em seu caráter afirmativo, e a data para a conclusão do processo de redação e escuta às Províncias se pretende estender de 2010 para 2015, implicando no seu esvaziamento. A IEAB condenou a existência de qualquer Pacto, pois, os liberais que a dominam pretendem que a Comunhão Anglicana se dê apenas em laços afetivos, sem conteúdo ético ou doutrinário.

 

Um dado complicado nos Estados Unidos é que cada Diocese liberal tem uma minoria conservadora, e que cada Diocese conservadora tem uma minoria liberal, o mesmo acontecendo no interior da maioria das Paróquias e Missões. Muita gente saiu para outras denominações, para jurisdições anglicanas Continuantes ou para Paróquias sob a autoridade de outras Províncias, outras Dioceses e Paróquias estão em processo de saída, mas questões patrimoniais e salariais, bem como o tradicionalismo institucionalista concorrem para que ortodoxos permaneçam ainda no interior da Igreja Episcopal, adotando uma postura opinionista (“minha opinião é firme que Jesus ressuscitou, mas aceito conviver com quem duvida e quem negue” = inclusividade ilimitada).

 

Diante da perseguição a Paróquias ortodoxas no interior de Dioceses liberais, e o não funcionamento da chamada Supervisão Episcopal Delegada Alternativa (DEPO), o Arcebispo de Cantuária, acatando uma recomendação do Encontro dos Primazes, criou o Painel de Referência, como uma comissão internacional de arbitragem, para mediar e aliviar essas situações. Isso suscitou muitas esperanças, que terminaram por se frustrar, pois o Arcebispo de Cantuária teria o direito de determinar que processos seriam, ou não, encaminhados ao Painel, e acatar, ou não, as deliberações, que também seriam acatadas ou não pelas Dioceses perseguidoras. Foi mais um esforço em vão. A Diocese do Recife foi a primeira a encaminhar um processo, entregue na portaria do Palácio de Lambeth pelo secretário executivo do Anglican-Mainstream, e que foi indeferido, com a opção do Arcebispo por enviar diplomatas para se pronunciar sobre o contencioso.

 

Nem o Relatório de Windsor, nem o Painel de Referência, nem as Resoluções dos Encontros dos Primazes tiveram qualquer resultado prático em mudar o curso dos liberais, nem aliviar as perseguições aos ortodoxos. A Igreja Episcopal pediu desculpas porque suas atitudes causavam desconforto na Comunhão Anglicana, mas que não pretendia mudar de posição, por achar que as mesmas eram corretas. Com o veto à proposta de Supervisão Primacial Alternativa, feita pelo Encontro dos Primazes à Igreja Episcopal, e com o convite aos Bispos que apoiaram (e alguns sagraram) Gene Robinson, sem arrependimento, pelo Arcebispo de Cantuária, a Conferência de Lambeth, 2008, todos os esforços de uma década foram perdidos e voltaram à estaca zero, gerando uma descrença de que qualquer solução possa vir a ser encaminhada pelos Instrumentos de Unidade/Instrumentos de Comunhão, e que um realinhamento é inevitável, resultado de outras iniciativas.

 

Vale ressaltar que o Arcebispo de Cantuária ao não convidar o Bispo Gene Robinson; o Bispo de Harare, em Zimbábue; o Bispo do Recife e os Bispos da Amia e da CANA fez questão de esclarecer que um não-convite para Lambeth não significava que esses bispos não pertenciam à Comunhão Anglicana, mas que ou suas presenças causariam tensões, ou os mesmos se encontravam com ordens válidas, porém irregulares... Posteriormente ele oficialmente desconvidou o Bispo da Diocese de São Joaquim, na Califórnia, EUA, quando aquela Diocese se desvinculou da Igreja Episcopal para estar sob a autoridade da Província do Cone Sul.

 

Tendo em vista a experiência positiva do surgimento de fóruns regionais como a Conferência dos Bispos Anglicanos da África, que está encaminhando localmente questões daquele Continente, se tentou criar algo similar nas Américas, a CAPAC (Conferência de Províncias e Dioceses Anglicanas das Américas), mas a iniciativa não foi à frente por falta de apoio formal de algumas instâncias (a Diocese do Recife era uma das integrantes).

 

(Continua)

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Última atualização (Sáb, 19 de Fevereiro de 2011 23:04)

 


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