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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

1ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

SOMOS PARTE DA COMUNHÃO ANGLICANA

 

 

SOMOS PARTE DO GAFCON

 

 

SOMOS FILIADOS À FELLOWSHIP OF CONFESSING ANGLICANS (FCA)

 

 

SOMOS CONVENIADOS À IGREJA ANGLICANA DA AMÉRICA DO NORTE (ACNA)

 

SOMOS MEMBROS-FUNDADORES DA ALIANÇA EVANGÉLICA

 

 

SOMOS MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO PRÓ-CAPELANIA MILITAR EVANGÉLICA DO BRASIL (ACMEB)

 

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Home Biblioteca Doutrina Anglicana Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXII) - PARTE B

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXII) - PARTE B

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXII)

 

 

DÉCIMO-PRIMEIRO CAPÍTULO: A CRISE – PARTE B

 

AS DUAS RELIGIÕES

A Comunhão Anglicana, em nossos dias, pode ser representada por uma mansão, que, olhada de fora parece ser apenas uma grande casa, mas que dentro há dois apartamentos separados por paredes, onde os dois setores da família habitam cada um em seu espaço, com seus próprios costumes e amizades. 90% em um apartamento e 10% no outro, sendo que esse setor minoritário tem maior poder aquisitivo e insiste em ocupar o andar de cima...

 

Podemos, então, verificar contrastes marcantes entre o que a Bíblia ensina e o que afirmam os liberais Pós-modernos, como bem destacou Moheb Ghalil.

01.   É Jesus o Único Caminho?

“Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14:6); Pedro: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12). Paulo afirma que “toda língua confessará a Jesus Cristo como Senhor” (Fl 2:9-11). Para o ex-deão da Catedral de São Francisco, na Califórnia, a afirmativa de João 14:6 é “infeliz, imperialista e politicamente incorreta” e foi, lamentavelmente, colocada na boca de Jesus pelo evangelista. Para a Bispa Presidente da Igreja Episcopal dos EUA (TEC): “Essa é uma construção estreita, que tende a eliminar outras possibilidades”. Para ela os Mulçumanos, os Sikhs ou os Jainistas chegam a Deus “de um modo radicalmente diferente”. E o Dr. Marcus Borg, da Catedral de Portland, afirmou: “Eu não penso que Deus se importa se somos cristãos, judeus, mulçumanos, budistas ou o que seja. O que importa é uma relação profunda com Deus”.

02.   A Ressurreição

Jesus afirmou que ressuscitaria no terceiro dia (Mt 20:18-19). Pedro testemunhou o fato da ressurreição (At 2:23-25), e para Paulo: “...se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e nós estamos ainda em nossos pecados” (1 Co 15:17). Para o Bispo da Diocese de Washington: “A estória da ressurreição corporal de Jesus é, no melhor, uma conjectura, os relatos da ressurreição nos Evangelhos são contraditórios e confusos... o significado da Páscoa não é que Jesus realmente retornou à vida, mas que mesmo a morte não pode encerrar o poder de sua presença em suas vidas”.

 

03.   A Bíblia

Para Jesus, suas palavras não haveriam de passar (Lc 21:33); para Paulo, toda Escritura é inspirada por Deus (2 Tm 3:16-17); e para Pedro, elas não tiveram origem humana, mas homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo (2 Pd 1:20-21).

 

Documento da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil considera a Bíblia como um livro religioso útil para a devoção privada e para a liturgia, e não se pode nela buscar base para doutrinas ou normas de comportamento. Outro documento da mesma IEAB nega a existência de uma verdade, afirma várias verdades, e que as afirmações dos autores bíblicos foram para o seu contexto, e não para hoje, inclusive quando trata de homossexualismo. A Bispa Presidente da TEC afirmou não achar que os escritores das Escrituras tivessem qualquer noção do que fosse o homossexualismo. O Bispo da Pensilvânia disse: “Nós escrevemos a Bíblia, nós podemos reescrever a Bíblia” e que “A sua interpretação varia de acordo com as necessidades dos ouvintes”. 

 

04.   A Salvação

Jesus afirmou ser a porta, e que os que por ela entram são salvos (Jo 10:9), e essa unicidade de Cristo como Salvador é afirmada por Paulo (Rm 10:9-13) e por Pedro (At 4:12). Para a Bispa Presidente da TEC, a salvação é sair dos interesses próprios e ajudar a necessidade das outras pessoas.

 

05.   Evangelismo

Jesus mandou fazer discípulos de todas as nações (Mt 28:19-20), tarefa que foi enfatizada por Paulo (2 Tm 4:2) e por Pedro (At 10:42-43), enquanto isso a Diocese Episcopal de Los Angeles pediu desculpas a hindus de todo o mundo pelas tentativas dos cristãos em convertê-los. Isso foi dito pelo Bispo J. J. Bruno em cerimônia “macro-ecumênica” com 100 (cem) líderes hindus, que incluiu os seus cânticos sagrados. No Brasil, tais cerimônias incluem pais ou mães-de-santo.

 

06.   A Igreja

Para o apóstolo Paulo, a Igreja é o Corpo de Cristo, do qual ele é o Salvador (Ef 5:23; Cl 1:18). Para a teóloga liberal Sally McFague, o Corpo de Cristo é toda a Criação. Para a IEAB a Igreja é um ente social, cultural, religioso, afetivo e litúrgico, onde não há lugar para doutrinas ou normas comportamentais, ou seja, uma inclusividade ilimitada, onde cabem todas as crenças e todas as formas de comportamento.

 

07.   Os Credos

Para o Cristianismo Histórico, os Credos contém explicitações de suas doutrinas centrais, que devem ser cridas e confessadas. Os liberais os vêem, apenas, como “documentos históricos”, pois como afirmou a Bispa Schori: “Você não tem que professar exatamente o mesmo entendimento sobre o conteúdo central da fé... o importante é a adoração em conjunto”.

 

08.   O Casamento

A Bíblia tem afirmado a origem divina e a santidade do matrimônio heterossexual (Mc 10:6-9; 1 Tm 3:2-3; Hb 13:4), mas a Diocese de Olympia, em sua 96ª Convenção deliberou afirmar: “a plena inclusão em todas as áreas da vida da Igreja Episcopal de todos os nossos qualificados irmãos e irmãs que são solteiros ou parceiros heterossexuais, as pessoas gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, e aqueles heterossexuais não-celibatários, e aqueles divorciados, bem como a sua plena inclusão na vida plena da Igreja Episcopal e da Comunhão Anglicana”.

 

Documento da IEAB recomenda que as instâncias diocesanas não perguntem da preferência sexual dos candidatos ao ministério. 56 (cinqüenta e seis) Dioceses dos EUA rejeitaram em seus Concílios a Resolução 1.10 da Conferência de Lambeth, 1998, que afirma a normatividade da heterossexualidade, e que considerou, por mais de 80% dos Bispos presentes, ser a prática homossexual “incompatível com as Sagradas Escrituras”.

 

O Primaz do Cone Sul, Revmo. Gregory J. Venables, tem afirmado que está sendo pregado na Comunhão Anglicana dois Evangelhos.

 

A questão central não é de ética sexual. Essa é a ponta de um iceberg, e, apenas uma expressão de algo mais profundo, relacionado à unicidade de Jesus Cristo como Senhor e Salvador, a unicidade da Igreja como agência da salvação e a autoridade e normatividade das Sagradas Escrituras.

 

INTOLERÂNCIA

McGrath se refere ao núcleo do Secularismo e do Liberalismo como “pluralismo prescritivo”, ou seja, “diversidade na marra”, e pergunta se o mesmo “está preparado para permitir que o Cristianismo seja Cristianismo, e não forçá-lo a ser a manifestação de uma realidade desconhecida e desconhecível, mas, mesmo assim, totalizante, universal”.

 

Para aquele teólogo anglicano, o Modernismo e o Pós-Modernismo são satélites intelectuais do Iluminismo, ligados a agendas totalizantes e hegemonizadoras. Para essa ideologia impositiva:

Todas as religiões devem ser vistas da perspectiva pluralista, a única que permite que sejam observadas em sua luz apropriada. É onde acontece o fato de religiões não se coadunarem com os pressupostos deste paradigma em particular, elas são forçadas a se conformar a eles – no caso o Cristianismo, é colocado sob pressão para abandonar suas crenças tradicionais, as que o definem, crenças na ressurreição e divindade de Jesus Cristo, e a doutrina da Trindade. Isso é o mesmo que stalinismo intelectual. Em fazer essa asserção, estou deliberadamente apontando a agenda e raízes modernistas comuns que estão por trás do pluralismo prescritivo, do nazismo e do stalinismo. Todos três são colônias intelectuais do modernismo, governados pelas mesmas regras e arrogâncias, ainda que possam variar em relação a questões de detalhe local.

 

No lado de fora, o Secularismo agressivo pressiona a agenda do “politicamente correto”, procurando erradicar os símbolos religiosos e deslegitimar o discurso religioso na esfera pública, especialmente do Cristianismo. Particularmente na Europa Ocidental e na América já se vive em um novo ciclo de perseguição religiosa, que, em breve, poderá chegar aos países periféricos. No lado de dentro, o Pós-Modernismo Liberal igualmente agressivo, procura controlar as instituições religiosas e redigir as suas normas institucionais. No caso do Anglicanismo, enquanto as Sagradas Escrituras são desqualificadas, se presencia um fundamentalismo dos Cânones e das fronteiras geográficas.

 

Os defensores da fé bíblica e histórica vão sendo espremidos, tratados como cidadãos de segunda classe, levados na conversa de que é preciso “diálogo”, “escuta”, “discernimento”, para serem vencidos pelo cansaço, como uma espécie em extinção. Promove-se uma “limpeza teológica”, como as “limpezas étnicas” dos Bálcãs. A “sacralidade” das fronteiras geográficas das Dioceses e Províncias vai se transformando em “campos de concentração religiosos”. “Você será aceito por todos se aceitar a todos e a tudo”, é o novo dogma.

 

É um momento muito sério da História da Igreja com esses “Cavalos de Tróia”. Por isso, o Primaz do Cone Sul, Revmo. Gregory J. Venables, expressa sua acurada análise da situação:

 

Eu creio que a divisão do momento presente é sobre como definir o Cristianismo: que Deus falou; que a Bíblia é a Palavra de Deus; que Jesus é a Palavra de Deus Encarnada; e que Ele é o único meio de reconciliação com Deus. Isso marca a verdade fundacional do verdadeiro Cristianismo.

 

O que devemos sempre enfatizar, no caso de Anglicanismo, é que a mais ampla maioria pensa exatamente como o Primaz Gregory; está cansada de uma “década perdida” desde a Conferência de Lambeth, 1998, não pretende permitir ser tiranizada pela minoria organizada e rica dos países centrais, começa a se mexer e a esboçar reações, procurando compreender mais profundamente as raízes da crise e a buscar saídas que preservem a fé uma vez entregue aos santos.

 

MODELOS

A Comunhão Anglicana tem instituições internacionais historicamente recentes. Apenas o Arcebispo de Cantuária tem sido um símbolo e uma autoridade moral por mais tempo. A Conferência de Lambeth é da segunda metade do século XIX, enquanto o Conselho Consultivo Anglicano e o Encontro dos Primazes são da segunda metade do século passado. Eles não são Sagrados, nem imutáveis, e devem se adequar à nova conjuntura, pois parecem não estar respondendo adequadamente a presente crise.

O Bispo David Anderson (CANA) presidente do Conselho Anglicano Americano fez recente estudo estatístico sobre o número de membros da Comunhão Anglicana, que é oficialmente de 77 milhões. Acontece que dos 25 milhões de batizados na Igreja da Inglaterra, apenas um (1) milhão e seiscentos (600) mil são comungantes regulares, e dos dois (2) milhões e quatrocentos (400) mil batizados da Igreja Episcopal (EUA), que já teve três (3) milhões e meio há quarenta anos, também cerca de um (1) milhão e seiscentos (600) mil freqüentam suas Paróquias e Missões. Realisticamente, isso reduz o total de membros, ao nível mundial, para cinqüenta e cinco (55) milhões e oitocentos (800) mil. Destes, cerca de 70% estão na Nigéria, em Uganda e em Quênia. 80% integram o Movimento Ortodoxo Sul-Global. Enquanto isso, as antigas e ricas Províncias euro-ocidentais são diminutas em número de membros.

Em suma, as Províncias antigas e ricas, com pouca gente, são dominadas pelo Liberalismo, enquanto a maioria das Províncias, novas e pobres, está cheia de gente e são ortodoxas. Por razões históricas aquelas Províncias euro-ocidentais dominavam a máquina administrativa da Comunhão Anglicana e ditavam a ideologia, a agenda e os espaços para as maiorias. Estas cansaram, e estão partindo para estabelecer a própria agenda e espaço. A Conferência sobre o Futuro Global do Anglicanismo (Jerusalém, junho de 2008), convocada por líderes do Sul-Global é um passo nessa direção.

Ao desrespeitar e rejeitar a Resolução 1.10 sobre Sexualidade Humana, de 1998, os liberais fragilizaram a legitimidade da Conferência de Lambeth, fato agravado pela recusa de Bispos a ela comparecer, por não haver espaço para deliberações, além de que o Arcebispo convidou as Províncias do Canadá e dos Estados Unidos sem arrependimento, e deixou de convidar bispos ortodoxos (considerados “válidos, porém irregulares?”).

 

Todas as decisões de reafirmação da autoridade das Escrituras e toda condenação a Ordenação de clérigos homossexuais praticantes e a benção sobre uniões do mesmo sexo, feitas, reiteradamente pelo Encontro dos Primazes e apoiadas pelo Conselho Consultivo Anglicano, na última década, tem caído no vazio, bem como não funcionou o Painel de Referência como instância arbitral. O Relatório de Windsor não tem sido levado adequadamente a sério, e sua proposta sobre um Pacto Anglicano corre o risco de esvaziamento com a segunda redação mais vaga e a dilatação do possível prazo para a sua conclusão. O Arcebispo de Cantuária apresentou, inicialmente, um comportamento de isenção, depois tirou uma licença e agora parece mais comprometido com o modelo Cânones + Fronteiras Geográficas vs. Bíblia e Tradição.

Como falei para o Arcebispo de Cantuária, quando o mesmo me recebeu no Palácio de Lambeth, após sermos desvinculados da IEAB, o precedente das exceções de modelos organizacionais que sempre tivemos na Comunhão Anglicana pode ser um ponto de partida válido para um redesenho que preserve a unidade sem a custa da verdade. Mas, hoje, me pergunto se isso ainda é possível, humanamente falando.

A crise quase não tem chegado a 150 dos 164 países onde o Anglicanismo se faz presente, mas esse não é o caso do Brasil, em razão de a IEAB ser caudatária do liberalismo norte-americano, e cuja direção atual tem um discurso mais claro e mais extremado do que sua matriz norte-americana.

 

A Diocese do Recife, nesse rincão periférico do mundo, tem involuntariamente estado no epicentro da crise, em virtude de sua fidelidade à Palavra de Deus, ao Anglicanismo Histórico e à memória dos pais fundadores em nosso país.

Nossa Diocese não age, nem reage isoladamente, mas, comprometida e integrada à Igreja Anglicana do Cone Sul da América e ao majoritário Movimento Ortodoxo do Sul-Global, vai analisando a crise, procurando entender as suas causas e as suas possíveis soluções, em conjunto, e buscando o discernimento do Espírito Santo.

Como essa não é a primeira, nem será a última crise na Igreja até à volta de Jesus, e como temos exemplos na História, e cremos na Providência, haveremos de superá-la, com decisões firmes, construindo novos modelos que preservem a herança e o conteúdo, para a glória de Deus.

Fixação de aprendizagem:

 

  1. Por que a Civilização Ocidental está em crise?
  2. Por que o Cristianismo Ocidental foi atingido por essa crise?
  3. O que há de peculiar com a crise da Comunhão Anglicana?
  4. Como reagir proativamente aos desafios desse tempo de transição?

 

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Última atualização (Sex, 18 de Fevereiro de 2011 23:15)

 


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