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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

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Home Biblioteca Doutrina Anglicana Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXI) – PARTE A

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXI) – PARTE A

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XXI)

 

 

 

DÉCIMO-PRIMEIRO CAPÍTULO: A CRISE – PARTE A

 

INTRODUÇÃO

Pode-se definir uma crise como um período prolongado de mudanças amplas e profundas. As crises acontecem nas vidas dos indivíduos e instituições, bem como das Civilizações. Com o ocaso da Modernidade e o advento, ainda errático, da chamada Pós-Modernidade, a Civilização Euro-Ocidental passa por uma crise. As crises trazem insegurança, porque antigos padrões parecem estar desaparecendo, e os novos padrões ainda não estão claros e cristalizados. As crises são momentos de dificuldades, mas, também, de oportunidades, e, o que vale salientar, não se pode fugir delas.

 

A presente crise tem um rebatimento no segmento religioso, a partir da Europa e Estados Unidos, impactando, de forma mais ou menos aguda, os povos periféricos. A Modernidade tinha visto surgir a ideologia do modernismo e a teologia do liberalismo. A Pós-Modernidade está vendo surgir a ideologia e a teologia do Pós-Modernismo. Ambas têm implicado em um fato singular na História, de uma religião “implodir” pela autonegação.

 

Não se pode dizer que o Anglicanismo, como um combinado de fatos históricos, convicções e práticas estejam, em seu conjunto, em crise. Ele está sólido e em expansão em mais de 150 países, pela sua riqueza intrínseca e por sua relevância. Em uma dúzia de países situados no epicentro da Civilização Euro-Ocidental ele vive a mesma crise da maioria dos outros segmentos do Cristianismo. Podemos falar, sim, em uma crise principal – que é decorrência da anterior – no aspecto institucional, organizacional da Comunhão Anglicana, quando o eixo se desloca do hemisfério norte para o hemisfério sul, e o norte liberal, até então hegemônico e no “centro do mundo”, não aceita esse deslocamento ideológico.

 

A grande questão central da crise no advento da Pós-Modernidade diz respeito à negação da Verdade, como possibilidade. È nessa questão central que o Cristianismo Histórico se choca com o Secularismo fora dos seus muros e com o Revisionismo dentre deles.

 

Tomar consciência e analisar a crise é o primeiro passo para podermos enfrentá-la sem maiores temores e com maiores possibilidades de êxito. Ela não é a primeira, nem será a última na História da Igreja, essa Igreja que o seu Criador e Senhor prometeu acompanhar e assistir até o final dos tempos.

 

ANTECEDENTES

Há duas décadas, no início do movimento Nova Era (“New Age”) li um folheto escrito por seus propagadores, onde dizia que as três frases que maiores danos causaram a humanidade foram: “Não terás outros deuses diante de mim”; “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vem ao Pai senão por mim”, e “Somente Alá é Deus, e Maomé o seu profeta”. O texto atacava o monoteísmo como a causa principal dos conflitos humanos, e mais ainda as pretensões de exclusividade no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo, expressões do monoteísmo semítico. Esse ataque inclui a denúncia contra a noção de Revelação, de um Deus que se comunica, se autodefine, define a vida e a história, e faz prescrições religiosas e morais.

 

Registramos uma Crise de Civilização com a transição do que poderíamos denominar de pré-modernidade (a última fase da Idade Média) para a modernidade (Idades Moderna e Contemporânea, na divisão clássica). A hegemonia política e intelectual da Europa sobre o mundo já tivera início com o Império Romano, suas instituições e o seu Direito, e a Grécia, com o seu pensamento filosófico (civilização greco-romana).

 

Essa hegemonia prossegue, posteriormente, com a consolidação do poder espiritual e temporal do papado e o Sacro Império Germânico-Romano, na Idade Média. A crise da Pré-modernidade e o advento da Modernidade provocaram profundas mudanças na Civilização, mas não alteraram – antes consolidaram a hegemonia européia (eurocentrismo).

 

Essa crise tem início na segunda metade do século XV e durante todo o século XVI. O nacionalismo europeu leva à derrocada do Sacro Império e o declínio do poder temporal do papado, bem como ao declínio do feudalismo, dando lugar aos Estados Nacionais soberanos. O modo de produção feudal dá lugar ao capitalismo mercantil. A aristocracia vai sendo substituída pela burguesia, como classe dominante. Com os Descobrimentos, o mundo se alarga sob o colonialismo europeu: Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda.

 

No campo religioso, aquela cosmovisão de um Cristo débil, demônios fortes, santos e anjos importantes, espiritual e emocionalmente opressiva, legitimadora do poder religioso e temporal da Igreja de Roma, foi confrontada pela Reforma Protestante, com sua ênfase na Palavra, na Graça, no livre exame e no sacerdócio universal dos crentes. A redescoberta dos Clássicos Gregos pelo Renascimento dá um novo ao saber humano.

 

A Modernidade vai se estabelecendo com a noção da autonomia do ser humano em relação a Deus e às instituições religiosas, uma primazia da razão, uma valorização primeiro da Filosofia e depois da Ciência, como ferramentas do saber ilimitado (com a desvalorização da Teologia), a crença na bondade natural do ser humano (erradicada a noção de pecado), a crença em uma história linear e ascendente. O bom ser humano, exercitando a sua razão, lançando mão das descobertas científicas ia construindo uma história em que cada momento seria melhor do que o outro (noção de “progresso”), em um profundo otimismo.

 

O estabelecimento do Estado de Direito e da Democracia Liberal, bem como a velocidade das grandes descobertas científicas e tecnológicas pareciam dar razão a essa maneira de pensar. Surgiram os grandes sistemas de pensamento, as chamadas meta-narrativas, as ideologias, com suas propostas de utopias globais. Dentre estas, o Liberalismo, o Nazismo e o Marxismo.

 

Pretendeu-se interpretações universais e valores universais, que, na realidade, eram interpretações e valores euro-ocidentais, universalizados, primeiro pelo Colonialismo, depois pelo Neo-Colonialismo (independência formal com dependência cultural e econômica), e, mais recentemente, pela sua terceira expressão, a Globalização ou mundialização do modo de vida norte-americano (agora mais forte do que o europeu, embora da mesma matriz).

 

O movimento cultural mais importante e impactante desse período foi o Iluminismo. O pretendido obscurantismo das eras religiosas estava por desaparecer. Chegara a libertação do ser humano do obscurantismo religioso. Chegara a “Era das Luzes”, a iluminação, com a autonomia do ser humano e sua capacidade, agora livre, de criar novas e melhores instituições e modos de vida.

 

Podemos, ainda, destacar a Revolução Industrial, a urbanização e a secularização (autonomia das esferas humanas, dissociadas do sagrado) como características da Modernidade.

 

É claro que nesse mesmo tempo milhões de seres humanos continuavam a viver como silvícolas ou como camponeses isolados, e que as velhas civilizações da Ásia e as suas religiões (Bramanismo, Budismo, Jainismo, Sikismo) não foram atingidas por essa Modernidade, ou o foram minimamente, com o Islã, a cristandade oriental e o judaísmo. A Modernidade e o Iluminismo tiveram algum impacto na Igreja de Roma, que reprimiu o “Modernismo” como heresia. Entre as Igrejas Protestantes Históricas, primeiro na Europa, e depois na América do Norte, a história seria outra. Elas seriam seriamente afetadas pelo que veio a ser conhecido como Liberalismo: uma religião que incorporava o que vinha de fora dela, se auto-negava, tentava ser relevante e, ao contrário, declinava.

 

O século XX ainda tivera início sob o signo do otimismo. A Igreja, com sua missão civilizatória, seria aliada das forças “esclarecidas” seculares. Aquele seria o “século cristão”.

 

Duas Guerras Mundiais, o Holocausto dos Judeus, os horrores do nazismo, do stalinismo e de outras ditaduras pretensamente libertárias, a fome, os refugiados, a bomba atômica, a proliferação da criminalidade e do consumo das drogas, a desagregação da família, a crise de valores. Algo havia dado errado com a Modernidade. Parecia que não se poderia negar a noção do mal. Como andava a Cristandade àquela altura?

 

CRISTIANISMO E MODERNIDADE

A Modernidade foi, no geral, um período fecundo para o Cristianismo, e podemos destacar alguns desses episódios marcantes para a sua História:

01.    A Reforma Protestante, como movimento religioso, mas muito mais do que isso, sua reflexão teológica, suas confissões de fé, seu impacto cultural, e seus movimentos internos, em desdobramento: Puritanismo, Pietismo, Metodismo, Avivalismo, Pentecostalismo, Ecumenismo. O Protestantismo teve nexo de causalidade com o Capitalismo e com a Democracia Liberal, bem como com movimentos por reformas sociais;

02.    A Expansão Missionária, começando com a Igreja de Roma, com os Descobrimentos, e prosseguindo com o Protestantismo. A Igreja sai da Europa e Oriente Médio para todos os continentes. As Igrejas Orientais, contudo, permaneceram mais restritas, em virtude das limitações impostas pelo poder político ou comunista, majoritários nas áreas onde se situam.

 

Como período cultural, podemos ver a Modernidade como interregno entre a queda de dois muros: o da Bastilha e o de Berlim.

 

Enquanto as missões consolidavam em todo o mundo a fé cristã histórica, tornando essa expressão bíblica e clássica majoritária até hoje, na Europa, primeiro, e na América do Norte, depois, ela sofreria o impacto do Iluminismo racionalista, e ora responderia se fechando e atacando (Integrismo Católico Romano, Fundamentalismo protestante), ora se abrindo demasiado, terminando por absorver o espírito do século, em perigoso processo de descaracterização: Liberalismo.

 

Se a intenção inicial do Liberalismo foi estabelecer um intercâmbio da Teologia com a Filosofia e a Ciência do seu tempo, procurando tornar a fé relevante para a nova situação cultural, a absorção dos paradigmas iluministas, porém, teve um efeito desastroso para a cristandade ocidental, com o esvaziamento das Igrejas.

 

Uma leitura racionalista das Sagradas Escrituras, uma soteriologia universalista e uma ética relativista minaram os alicerces da herança apostólica. Esse fenômeno se dá via luteranismo da Alemanha e Escandinávia; via presbiterianismo na Suíça, Holanda e Escócia; via batistismo e metodismo na Inglaterra e via congregacionalismo nos Estados Unidos.

 

No Anglicanismo o impacto foi menor e o avanço mais lento, em um desdobramento do latitudinarismo e da Igreja Larga, com o surgimento do Liberal Catolicismo e do Liberal Protestantismo no final do século XIX, e que vai ser tornar hegemônico primeiro nos Estados Unidos a partir dos anos 1960.

 

Com o Liberalismo Moderno teve início um processo de autonegação do Cristianismo, com fortes desdobramentos no período seguinte, sendo a raiz da crise que passamos hoje.

 

O Protestantismo, com sua ênfase inicial na soteriologia e na autoridade das Escrituras, se construiu frágil em Eclesiologia, não tendo criado mecanismos para salvaguardar a sã doutrina, e quando o seu paradigma maior – a Bíblia – foi frontalmente atacado pelo Liberalismo, o resultado foi dos mais desastrosos. O Episcopalismo Anglicano e o seu apego ao Livro de Oração Comum (LOC) permitiram uma maior resistência por mais tempo, e na maioria dos países, ao avanço do Liberalismo.

 

Seria a Pós-Modernidade uma ruptura com a Modernidade, ou o seu aprofundamento com outros paradigmas e outra linguagem?

 

CRISTIANISMO E PÓS-MODERNIDADE

A Pós-Modernidade chega como uma nova revolução cultural no Ocidente. No resto do mundo muita gente continua vivendo na Pré-Modernidade, na Modernidade ou em um pouco de tudo. Por um lado ruíram, rapidamente, os quatro mitos sustentadores da Modernidade: Bondade natural, Razão, Progresso e Utopias Globais, mas, fora do espaço euro-ocidental, a China e a Índia ressurgem como potências emergentes, e antigas propostas, como o Confucionismo e o Bramanismo exibem sinais de vitalidade, bem como o Budismo e outras religiões orientais. Com os petrodólares e a emigração para o Ocidente, e a alta taxa de natalidade, o Islã se apresenta como uma forte ameaça expansionista. Extremismos violentos se manifestam nas diversas religiões.

 

No interior do ocidente, porém, presenciamos um conflito entre o Cristianismo Histórico, um “retorno do sagrado” vago e, muitas vezes, esotérico, Estados agressivamente secularistas e teologias que absorvem algumas marcas negativas do novo momento ideológico: individualismo, subjetivismo, experiencialismo, consumismo neo-hedonista, dentre os quais se destaca a Teologia da Prosperidade.

 

O Secularismo como ideologia dos Estados Ocidentais representa não uma ruptura, mas uma exacerbação da herança iluminista, agressivamente anti-religiosa, especialmente no que diz respeito à expressão dos pontos de vista religiosos e participação no espaço público, cultural e político. A religião seria tolerada como algo apenas para a subjetividade, para o “recôndito da alma”, irrelevante. Tolera-se uma religiosidade, uma espiritualidade, no campo dos sentimentos e da mística. A religião, para o Secularismo, é associada ao atraso e à ameaça a liberdade.

 

O grande problema, porém, é o surgimento do Liberalismo Pós-Moderno, que, de dentro das Igrejas, adota os paradigmas e a agenda secularista.

 

Há um mal estar com o monoteísmo, uma negação da possibilidade de qualquer Revelação. Nada se pode saber sobre a Divindade, nem o que ela pensa sobre a Criação. Não há intervenção de Divindade na História, nem na vida das pessoas. Não há meta-narrativas válidas. Não se pode conhecer a verdade. Ela é apenas a provisória “verdade” de cada um. Em decorrência, a Bíblia perde todo e qualquer valor normativo (inclusive para a moralidade) a Igreja é uma instituição religiosa dentre tantas, e Jesus Cristo um caminho dentre todos; o dado objetivo da pluralidade é substituído pelo Pluralismo como ideologia (com um caráter “prescritivo”, segundo análise de Allister McGrath). Todo diálogo religioso se deve fazer com crença de que todas as propostas são não só de igual valor, mas, no fundo, de igual conteúdo.

 

Quem defende essa visão dentro das Igrejas – geralmente em cargos de mando – se vêm como portadores de uma mensagem civilizatória, e vêm aos que defendem as doutrinas e postulados éticos tradicionais do Cristianismo como inimigos da Civilização, a serem duramente denunciados e combatidos.

 

Essa é a raiz da crise da Comunhão Anglicana, conforme foi presenciada na Conferência de Lambeth de 1998, e que teve como momento mensurador a votação por uma amplíssima maioria da Resolução 1.10 sobre a Sexualidade Humana, e a reação posterior da minoria derrotada. Mais do que diferenças o que se foi evidenciando foi a existência de duas religiões inteiramente diferentes e conflitantes no interior da mesma instituição, e inadequação dos órgãos e mecanismos dessa instituição para dirimir o problema.

 

(Continua)

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Última atualização (Sex, 18 de Fevereiro de 2011 00:03)

 


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