Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XVII) – PARTE A
Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XVII)

NONO CAPÍTULO: A PRESENÇA NO BRASIL – PARTE A
INTRODUÇÃO
A exceção das presenças francesa no Rio de Janeiro e no Maranhão, e do breve domínio holandês no Nordeste, as Igrejas reformadas estiveram ausentes do Brasil no período Colonial, inclusive a Igreja Anglicana. Tentativas infrutíferas de Missões Anglicanas ocorreram no século XIX, mesmo período em que aqui se estabeleceram as Capelanias Consulares inglesas. Nos primórdios do século XX tivemos a imigração de anglicanos japoneses. Mas a consolidação de uma presença permanente anglicana no Brasil somente se dará após 1890, com a chegada dos missionários norte-americanos no Rio Grande do Sul, oriundos do Seminário de Virgínia.
CAPELANIAS
A presença de navegadores e comerciantes ingleses no território do Reino de Portugal já era uma realidade no início do século XIX. Em 1800, um decreto real os proibiu de se reunirem para culto, bem como o direito de terem cemitérios próprios. A situação muda completamente com a vinda da Família Real para o Brasil, em 1808, fugindo do imperador francês Napoleão, e protegida pela armada britânica. Em 1810, foi assinado entre os dois países o Tratado de Comércio e Navegação, que incluía cláusulas que permitiam o Culto em língua inglesa e espaços que não tivessem formas exteriores de templo, o direito de residência e o direto de terem seus cemitérios e clubes.
Em 1819 teve início, na cidade do Rio de Janeiro, a construção do primeiro templo não Católico Romano em território brasileiro, denominado de Christ Church, tendo sua inauguração se dado em 26 de maio de 1822, sob o patrocínio do Cônsul britânico, sob proteção policial, e contando com a presença de diversas autoridades governamentais. Essas capelanias eram mantidas por sociedades civis registradas no país, estando, até 1869, sob a supervisão episcopal do Bispo de Londres, e, após essa data, do Bispo para as Ilhas Faklands (Malvinas) e América do Sul, com Catedral em Port Stanley, naquelas ilhas, mas residência em Buenos Aires. Antes da designação de Capelães para cada comunidade, os ofícios eram dirigidos pelos Capelães dos navios ingleses que aqui aportavam.
Capelanias foram instaladas, além do Rio de Janeiro, em Niterói, São Paulo, Santos, Nova Lima (MG), Recife e Salvador, e, posteriormente, em Belém (PA). Seus cultos, seguindo o BSB (Book of Common Prayer) da Igreja da Inglaterra não eram vedados aos raros brasileiros que falassem a língua inglesa, mas o tratado proibia a tentativa de sua conversão. Embora a presença de comunidades de língua inglesa no Brasil fosse crescente, com a propriedade de companhias de gás, trem, bondes, eletricidade, telegrafia, telefonia, siderurgia e comércio de exportação e importação, as Capelanias se mantiveram como clubes religiosos fechados, de impacto nulo sobre a realidade religiosa nacional.
Os ingleses resistiram quanto puderam a uma integração com o anglicanismo nacional, fruto dos missionários norte-americanos, somente ocorrendo, progressivamente, após longas e difíceis negociações, a partir de 1955, a exceção da Christ Church (que, em razão de reformas urbanas) seria transferida do Centro para o Botafogo), que não tem vínculos com a Província do Brasil (IEAB) até hoje, embora hospede, nos horários vagos, uma das suas comunidades, a Paróquia São Lucas.
No Recife, a Holy Trinity Church foi estabelecida em 1822, tendo o seu templo construído na então Rua Formosa, esquina com a Rua da Aurora (futuro local do Cinema São Luís), sendo transferida, na década de 1940 (com o alargamento da agora Avenida Conde da Boa Vista) para a Rua da Matinha (depois Carneiro Vilela), no Bairro dos Aflitos, e apenas se filiaria à Igreja Episcopal Brasileira em 1976, integrando a Diocese do Brasil Central, com sede no Rio de Janeiro, sob o Bispo Edmund Knox Sherrill. Em Salvador os cultos tiveram início em 1815, e o templo do Campo Grande foi inaugurado em 1853.
Com a nacionalização de várias empresas, após o vencimento dos períodos de concessão, com a hegemonia inglesas sendo substituída pela norte-americana, após a Segunda Guerra Mundial, como retorno crescente dos ingleses para o seu país, com os falecimentos, casamentos e adesão ao catolicismo romano por parte dos seus descendentes, as Capelanias foram entrando em declínio, apesar do compromisso da Província do Brasil em prover assistência espiritual e cultos em inglês para os remanescentes. Com exceção da Christ Church (que permanece autônoma) há, ainda hoje, cultos em inglês em São Paulo, Santos, Niterói e Brasília (comunidade de funcionários das Embaixadas).
Os pioneiros da evangelização protestante no Brasil sempre se queixaram da completa falta de apoio dos anglicanos aqui residentes, e diziam que os ingleses quando saíam de sua terra deixavam lá três coisas: seu clima, seu sobretudo e sua religião. O que parece dar razão ao Bispo da Igreja de Roma no Rio de Janeiro, Dom José Caetano da Silva Coutinho, que, defendendo, na época, o direito dos ingleses terem suas Capelanias (contra a opinião do Núncio Apostólico Lourenço Collepi), afirmava, então: “Os ingleses realmente não têm religião, mas são um povo orgulhoso e obstinado. Se houver oposição, eles persistirão e farão disso assunto de máxima importância; mas se atender seus desejos, a Capela será construída e ninguém chegará perto dela".
MIGRAÇÃO
Uma segunda experiência de presença anglicana no Brasil foi a imigração japonesa, um século após o início do estabelecimento das Capelanias inglesas, após a Primeira Guerra Mundial. Cerca de 200 mil nipônicos se mudaram para o nosso País naquela época, principalmente para os Estados de São Paulo, Paraná e Pará. Embora os cristãos, no conjunto de suas denominações, seja uma pequena minoria naquela nação asiática, o próprio governo, visando facilitar a integração dos imigrantes à sua nova terra, dava preferência a candidatos membros de Igrejas cristãs, inclusive da Igreja Anglicana (Santa Igreja Católica Japonesa), a segunda presença cristã mais antiga no país, e possuidora de uma rede de instituições sociais, inclusive de uma Universidade.
Um outro fato foi a abertura dos japoneses que aqui chegaram a tudo o que dizia respeito ao nosso modo de vida, inclusive à fé cristã. A Igreja Romana, e, depois, grupos como os Metodistas Livres e a Igreja Evangélica Holiness, trouxeram missionários do Japão, e terminaram por consolidar uma forte presença nas suas colônias.
A aglutinação dos japoneses anglicanos e a evangelização dos não-cristãos tiveram como grande apóstolo o Reverendo João Yasoji Ito, formado pelo Seminário Teológico de Tóquio, e que aqui começou a trabalhar, realizando o seu primeiro culto em 25 de novembro de 1923. Esse empreendimento missionário foi bem sucedido, com muitas conversões e o estabelecimento de inúmeros Pontos Missionários, principalmente no interior, e o despertamento de vocações, com um número crescente de Ordenações.
Ao contrário dos ingleses, além do fervor missionário, os japoneses trabalharam dentro das estruturas anglicanas nacionais, como a bênção e o apoio do primeiro Bispo Anglicano no Brasil, Lucien Lee Kinsolving. Com o passar dos anos, a maioria das Paróquias, Missões e Pontos Missionários Anglicanos em São Paulo e no Paraná era formada por japoneses e seus descendentes, com o seu próprio clero, inclusive deles saíram dois dos Bispos da Diocese de São Paulo (Sumio Takatso e Hiroshi Ito).
Como a maioria das comunidades era formada por agricultores e situada na zona rural, o fenômeno da migração cidade-campo e a industrialização, a busca por oportunidades de estudo e trabalho por parte das novas gerações provocou, nas últimas décadas do século XX, um crescente esvaziamento das Paróquias de origem japonesa, algumas hoje em processo de extinção. Além do mais havia nas comunidades uma resistência a ter os cultos em língua portuguesa para os filhos e netos, que manejavam cada vez menos o idioma dos seus antepassados, concorrendo para a perda das novas gerações. Apesar do estabelecimento de Paróquias nos centros urbanos, nem todos os migrantes do interior a elas se filiariam, optando por se integrar a outros ramos cristãos de sua vizinhança, ou dos seus cônjuges, buscar religiões orientais ou, simplesmente, se secularizar.
A experiência da evangelização anglicana japonesa no Brasil está cheia de belas páginas, de grandes feitos, com a vida sacrificial dos missionários adentrando os nossos grotões, mas se constitui hoje, cada vez mais, em um episódio histórico, embora com comunidades remanescentes.
TENTATIVAS
Além da Capelanias Inglesas e da Migração Japonesa, registramos intentos missionários anglicanos aos brasileiros não bem sucedidos, no século XIX.
O primeiro clérigo anglicano a por os pés em nosso solo, o fez de passagem para a Índia, para onde ia como missionário que foi Henry Martin, cujo navio passou quinze dias em Salvador, BA, em 1805. Como falava, também, francês e latim, manteve contato com autoridades locais e clero romano. Ao final do período, escreveu, profeticamente, em seu diário: “Quem será o ditoso missionário que irá trazer o nome de Cristo a esta região ocidental? Quando será este belo país libertado da idolatria e do cristianismo espúrio? Cruzes há em abundância, mas quando será aqui anunciada a doutrina da Cruz?”. Henry Martyn, um discípulo do Capelão evangélico da Universidade de Cambridge, Charles Simeon, foi evangelista da Índia e na Pérsia, morrendo aos 31 anos, após abrir Igrejas, fundar escolas e traduzir a Bíblia e o Livro de Oração Comum, em apenas sete anos.
Em 1853, a pedido dos anglicanos norte-americanos residentes no Rio de Janeiro, a Sociedade Missionária da Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América (PCUSA) enviou o primeiro missionário para o Brasil, na pessoa do Reverendo William Cooper. O seu navio naufragou, ele voltou aos Estados Unidos, e desistiu de ser missionário.
A Sociedade Missionária, posteriormente, enviou o Reverendo escocês de nascimento Richard Holden, que trabalhou aqui por doze anos (1860-1872), primeiro em Belém, PA, e depois em Salvador, BA, onde foi levado a travar fortes polêmicas com o clero da Igreja de Roma pela imprensa. Apesar de ter feito amizades com políticos e maçons (tendo participado, no início, da chamada “Questão Religiosa”), foi duramente perseguido em ambos os lugares. A Sociedade Missionária o desvinculou, e ele foi trabalhar no Rio de Janeiro com a Sociedade Bíblica, colaborando com a Igreja Evangélica Fluminense, liderada pelo pastor e médico congregacional escocês Robert R. Kalley. Ele faleceu em Lisboa, aos 58 anos, colaborando com os Irmãos Livres, deixando um legado e poesias, hinos (inclusive usado em hinários brasileiros), e, principalmente, a primeira tradução do Livro de Oração Comum (LOC) para a língua portuguesa.
MISSÃO (1890-1907)
Nas últimas décadas do século XIX o Seminário de Virgínia, da PCUSA, na cidade de Alexandria, era de linha evangélica, e entre os seus estudantes havia uma forte motivação para as missões nacionais e mundiais, inclusive com a criação de uma Associação Missionária. Dali saíram os primeiros missionários para a Grécia, a China, a África e o Japão.
Nas vizinhanças do Seminário vivia a filha de Ashbel G. Simonton, fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, e suas duas tias, cujo lar sempre recebia seminaristas, motivando-os sobre o campo brasileiro. Um grupo de recém-formados e recém-Ordenados, formado por James Watson Morris, Lucien Lee Kinsolving, John Gaw Meem e William Cabell Brown formou o núcleo dos primeiros missionários anglicanos no Brasil.
Kinsolving e Morris vieram na frente, chegando ao Rio de Janeiro em 1889, passaram alguns meses em São Paulo estudando a língua portuguesa com os presbiterianos, que apoiaram a sua ida para o Rio Grande do Sul, onde passariam, posteriormente, para os mesmos sua única congregação naquele Estado, e o seu seminarista Vicente Brade, que se tornaria o primeiro brasileiro a ser Ordenado como Ministro Anglicano.
Em 01 de junho de 1890, às 3h da tarde foi realizado, na cidade de Porto Alegre, o primeiro Culto em língua portuguesa, sendo criada a Igreja Protestante Episcopal no Sul dos Estados Unidos do Brasil. Logo os missionários estavam evangelizando em várias cidades, como Rio Grande, Santa Rita e Pelotas, sofrendo perseguições e agressões.
A estratégia dos missionários era sempre começar pela cidade pólo de cada região, alugando um imóvel em uma área central, de preferência em frente à Igreja Matriz romana. Organizavam grupos que visitavam a maioria de residências possíveis, onde oravam, liam a Bíblia, cantavam hinos e convidavam para o Culto de Inauguração, quando expunham a história e o caráter do Anglicanismo e pregavam um sermão evangelístico. Conferências evangelísticas e a Escola Bíblica Dominical para todas as idades, eram outros dos meios de evangelização.
Com fervor evangelísticos, os missionários foram sendo instrumentos de conversões cada vez em maior número, abrindo Pontos Missionários, um Seminário, um jornal e várias obras sociais. Como não se constituía uma Diocese, mas apenas uma Missão, não havia Concílios, mas Convocações regulares, a partir de 1892.
Estas sentiram a necessidade de se vincular a uma Província e a um Bispo. Em 1907 a Convenção Geral da PCUSA deliberou criar um Distrito Missionário no Brasil. Em 17 anos a Missão já constava com trabalhos organizados em 13 municípios, 25 Escolas Dominicais, com mais de mil alunos, 13 clérigos e 1366 membros comungantes.
(Continua)
| Comentários |
|
3.26 Copyright (C) 2008 Compojoom.com / Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."
Última atualização (Dom, 13 de Fevereiro de 2011 10:31)


























