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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

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Home Biblioteca Doutrina Anglicana Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XIV) - PARTE B

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XIV) - PARTE B

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (XIV)

 

 

 

SÉTIMO CAPÍTULO: A ESTÉTICA – PARTE B

 

IGREJA

Em seus primórdios, a Igreja, formada por judeus e prosélitos, manteve vínculos com o Templo (até a sua destruição e a diáspora) e com as sinagogas, tanto na Palestina, quanto nas localidades com colônias judaicas no Império Romano. Os convertidos gentios, por sua vez, abandonam os templos pagãos, e não foram encorajados a se vincular às sinagogas. O próximo passo foi procurar lugares estáveis para suas reuniões e cultos, tantas vezes sob a perseguição imperial. As reuniões nos lares, às margens dos rios, ou nas catacumbas, não foi uma opção (muito menos opção definitiva), mas uma resposta contingencial e emergencial, e não podem ser tomadas por norma ou paradigma.

 

O peixe, o alfa e o ômega, e outros símbolos passaram a ser usados, e a grande revolução cultural foi a transformação da Cruz, de símbolo de execução criminal (como a forca) em sua maior identificação, e de toda uma civilização que seria erigida com a mesma no topo dos templos, que passaram a ser construídos, no Oriente e no Ocidente, nos tempos de liberdade. Nos diversos ramos da Cristandade e nos diversos locais e culturas, foram surgindo estilos arquitetônicos e escolas de arte sacra na decoração, e nos utensílios dos mesmos: vitrais, azulejos, ícones, altares, púlpitos, batistérios etc. As Catedrais, em sua grandeza e beleza, foram monumentos à fé, ou como já se afirmou “Orações em forma de pedra e cal”. Por sua vez, fórmulas, como os ritos do Batismo e da Eucaristia foram elaborados muito cedo, sendo o primeiro atribuído a Tiago, o irmão do Senhor, e, até hoje, base da liturgia siriana.

 

Se fizermos uma “viagem” no tempo e no espaço, dos sirianos de Kerala, na Índia, aos nestorianos, na Pérsia (Ásia) aos caldeus, no Iraque, aos coptas, no Egito e na Etiópia (África), à mui antiga Igreja Armênia, ao amplo espaço bizantino, ou às diversas regiões européias sob a Igreja de Roma, o que vamos constatar é uma variedade de estilos arquitetônicos, musicais, litúrgicos, de decoração ou de vestes, mas nunca a sua ausência.

 

A História da Igreja Cristã, por dois mil anos, é, simultaneamente, a História da Arte Sacra Cristã, a História da Liturgia Cristã, enfim, a História da Estética Cristã, pois os cristãos celebram a beleza do Deus da Criação e da Criação de Deus e, no exercício do seu mandato cultural, procuram expressar esse sentimento e essa sensibilidade ao belo, exceto episódios localizados de fanatismo iconoclasta.

 

Essa unanimidade de atitude se rompe quando da Reforma Protestante do Século XVI. Na Primeira Reforma, os Luteranos combateram vigorosamente os desvios das indulgências, da superstição e da idolatria; foram igualmente firmes em manter o legado estético da Cristandade, e acrescentar seus próprios estilos, na Alemanha, Escandinávia e no Báltico. Uma ruptura e uma desvalorização da Arte já é, porém, evidente com a Segunda Reforma, o Calvinismo, e ela se aprofunda com a Terceira Reforma, Anabatista, com a leitura do passado como uma “apostasia geral da Igreja”, uma identificação da Arte como sendo sempre idolatria, e uma rejeição aos artistas como “preguiçosos” ou “perigosos”, e a predominância do princípio extremista do templo e do culto como: “Quatro Paredes Caiadas e Um Sermão”.

 

Para Lutero, como os protestantes estavam reformando a mesma e única Igreja de Cristo, assistida pelo Espírito Santo em séculos de cultura, deveriam preservar todo esse rico legado, menos seus aspectos ou expressões que se chocassem com as Sagradas Escrituras. Conforme, ensinava Melanchton, há aspectos da cultura que não são nem revelação, nem pecado, mas adiáforas, ou seja, indiferentes ante o juízo de Deus. Enquanto isso, as expressões radicais da Reforma não trabalharam com o conceito de adiáfora e raciocinaram de forma inversa a Lutero: tudo aquilo que não estivesse prescrito pelas Sagradas Escrituras deveria ser eliminado. Os resultados foram trágicos para a Cultura, para a Arte e para a saúde espiritual da Igreja, além de ser a primeira porta aberta para o Secularismo que seguiria o Iluminismo.

 

O Anglicanismo, com sua herança celta e romana, e seu forte intercâmbio com os pensadores luteranos, apesar das marchas e contramarchas ocorridas entre Henrique VIII e a Revolução Gloriosa, sábia e sensatamente, optou por preservar e promover a estética do sagrado, sendo hoje uma das suas marcas mais evidentes, a despeito dos pequenos bolsões de herdeiros do Puritanismo, que permaneceram, tencionando, na periferia da instituição.

 

ANGLICANISMO

Quem visita as quarenta e quatro Catedrais inglesas, suas Abadias e as Capelas de suas Universidades, se depara com construções de rara beleza, onde, desde o estilo do edifício a cada detalhe da decoração, dos móveis e dos utensílios (o altar, o púlpito, o atril, o presbitério, a cátedra, as cores das estações, os instrumentos musicais, o espaço para os cantores etc.) formam uma harmonia, porque foram pensados como expressão do culto. O mesmo se pode dizer de templos de vários estilos, refletindo diversas épocas, estilos e culturas, da Catedral Nacional de Washington às Capelas no interior da África, da Ásia ou da Oceania. Essa harmonia estética, histórica e inculturada, revelam a piedade anglicana e sua seriedade e, especialmente, reverência diante de Deus. Os santuários são lugares separados (santos) para o serviço a Deus, desvinculados do uso comum, e devem criar uma atmosfera propícia ao recolhimento espiritual e à comunicação com o Senhor.

 

Não se pode negar, também, a beleza do processional e do recessional dos cultos, precedidos pelo cruciferários, seguindo-se o coro, os acólitos e outros ministérios instituídos (catequistas, evangelistas, ministros leigos/locais), membros de Ordens Religiosas, Diáconos, Presbítero e Bispos, com suas vestes (cassoques, sobrepeliz, alva, faixas, estolas, típete, capa etc.) respectivas e diferenciadoras, em um raro momento de polifonia e de policromia.

 

Salta aos olhos a estética dos paramentos do altar, com a Toalha Encerada, o Frontal, o Véu de Seda do Cálice, a Toalha de Linho Branco, a Bolsa, o Cálice, a Patena, as Galhetas, a Caixa de Obréias e o Lavabo, seus linhos, como o Corporal, a Pala, o Véu da Pós-Comunhão, o Purificador, o Manustérgio, a Toalha Batismal, bem como os seus ornamentos, como a Cruz, os Castiçais e a Salva, o Antepêndio do Púlpito, o Antepêndio do Atril, os Marcadores dos Livros, os Estandartes etc., (com maior ou menor ênfase entre as alas da “Igreja alta” e da “Igreja baixa”), variando com as cores litúrgicas das estações (Advento, Natal, Epifania, Quaresma, Pentecostes) e datas ou ocasiões especiais: o Roxo: penitência, recolhimento; o Verde: esperança, regeneração, imortalidade; o Vermelho: Espírito Santo, martírio, amor de Deus, e o Branco: pureza, perfeição.

 

Quanto à Liturgia, devemos diferenciar os Símbolos (objetos), as Cerimônias (gestos) e os Ritos (palavras). Na lícita diversidade anglicana (inclusividade limitada), tem sempre havido lugar para diferenciação e criatividade quanto aos Símbolos e Cerimônias, preservando-se, contudo, o Rito. Este não é estático, e o Culto não tem que se limitar unicamente ao que prescreve o Livro de Oração Comum (LOC), mas, por outro lado, não se deve omitir do texto, que não foi escrito pelo Arcebispo Cranmer, mas compilado e sistematizado por ele, de uma rica tradição de séculos. O correto é manter todo o texto e intercalá-lo com orações e falas improvisadas, músicas instrumentais e/ou vocais, danças etc., harmonizando-se, assim, a história e a universalidade, com a localidade e a atualidade. O importante é que cada fiel possa seguir um Culto Anglicano onde estiver, em qualquer parte do mundo, e que os Ministros, em idênticas circunstâncias, estejam em condição para celebrá-lo.

 

Quanto aos Ritos: Batismo, Confirmação, Orações Matutinas, Vespertinas, Completas, Eucaristia (Ceia do Senhor), Matrimônio, e outros, a História da Igreja Cristã registra uma longa e diversa elaboração, desde o primeiro e o segundo século (Carta de Clemente Romano aos Coríntios, 96 d.C.; Carta de Plínio ao Imperador Trajano, 112, d.C.; Didaquê, 110-140 d.C.; Relato de Justino, o Mártir, 150 d.C.), e, no terceiro século, partes da Liturgia, como o “Corações ao Alto” (Sursum Corda), a Instituição, a Anamnese, a Epiclese, estão registradas em obras como A Tradição Apostólica de Hipólito e as Catequeses Mistagógicas de Cirilo.

 

Vai-se dando somatórios, sínteses, criatividade, das diversas fontes, tanto orientais: São Tiago, São João Crisóstomo; quanto ocidentais: Romana, Ambrosiana, Hispânica, Celta e Galicana; e, no caso inglês, mais tarde, o Rito de Sarum (da Catedral de Salisbury, no século XI). Na época que antecede a Reforma Inglesa, vários Ritos eram usados nas ilhas britânicas e na língua latina. Cranmer os unifica, os simplifica e os reforma, particularmente sob a influência dos liturgistas luteranos. A semelhança litúrgica entre o Luteranismo e o Anglicanismo permanece até hoje.

 

Esses Ritos, comunitários, com sua seqüência, sua “lógica”, preservam a tradição e se centram na Bíblia, levando os fiéis à adoração, ao louvor, à contrição, ao arrependimento, à edificação para a vida, pela leitura e exposição da Palavra e pela ministração dos Sacramentos e Ritos Sacramentais, acordes com a Palavra, superando o mágico medieval sem cair no mero discursivo centrado na figura do pastor, típicos das manifestações extremadas posteriores do Protestantismo.

 

Sabemos que não há Igreja sem Liturgia, e que o Anglicanismo se caracteriza pelo caráter bíblico, histórico, sistemático e estético da sua Liturgia.

 

OBSTÁCULOS

Todas as outras manifestações religiosas diversas da Igreja de Roma no Brasil foram duramente perseguidas no período Colonial, inclusive com a Inquisição. Com a vinda da Família Real e o Reino Unido (1808), e posteriormente, com a Constituição Imperial (1824), mantida as discriminações legais, foi promovida uma política de “tolerância” (não de liberdade religiosa), com os outros cultos a terem lugar em espaços privados, ou que não tivessem sinais exteriores de templo, mesmo aqueles permitidos aos súditos de Sua Majestade Britânica (Anglicanos), em língua inglesa e aos imigrantes luteranos, em alemão. Essas restrições permaneceram até a Proclamação da República e a Constituição de 1891.

 

Missionários protestantes que aqui chegaram tinham receio de afrontar a Lei, “perturbar a ordem pública”, podendo ser expulsos do País, fazendo o seu trabalho evangelístico de forma discreta, inclusive construindo os templos sem cara de templo.

 

Grande parte das novas comunidades protestantes era formada por gente simples, carente de maiores recursos, realizando os seus cultos nos lares, em salões alugados ou em construções rústicas.

 

Missionários estrangeiros e pastores nacionais integravam, em sua maioria, instituições herdeiras da Segunda e da Terceira Reforma e – salvo exceções – eram defensores de um radicalismo litúrgico anti-tradição e anti-símbolos.

 

A identidade protestante no Brasil (e na maior parte da América Latina) foi construída não pela afirmação dos seus próprios princípios, mas pela negação de qualquer marca associada à Igreja de Roma, desvalorizadas todas, preliminarmente.

 

O resultado dessa polarização e imaturidade foi a ausência de uma arquitetura protestante, ou de expressões de arte plástica na decoração e utensílios dos templos, nas vestes dos Ministros, ou na elaboração da Liturgia. Houve uma ruptura absoluta com a História da Arte Cristã, um bloqueio à criatividade, um empobrecimento estético evidente, quando se confundiu o legado “católico” (patrimônio comum) com o apenas “romano”.

 

Com a República, tanto as Capelanias Consulares no Brasil construíram os seus templos, como réplicas inglesas, como as colônias anglicanas de imigrantes japoneses e a Missão Episcopal de origem norte-americana (bispos Kinsolving e Thomas) foram responsáveis pelos primeiros templos protestantes com cara (e interior) de templos no Brasil (bem como as colônias rurais luteranas alemães e suíças), principalmente nas regiões sul e sudeste.

 

Foi na região Nordeste, porém, onde a polarização (e a perseguição) entre católicos romanos e protestantes encontrou suas expressões mais extremadas, com danos à estética religiosa evangélica que persistem até o presente, e que, lamentavelmente, tem afetado a consolidação do anglicanismo na região.

 

CONCLUSÕES

A cura emocional e espiritual do Protestantismo brasileiro passa pela re-inclusão da estética no sagrado, com a apropriação do legado artístico histórico e a liberdade para a criação autóctone, liberto do medo de se parecer “católico” (ou, mais exatamente, “romano”). O uso de símbolos (como a cruz de pescoço ou lapela, ou o colarinho eclesiástico) são elementos facilitadores à missão, pela explicitação do seu conteúdo e estabelecimento de diálogos. O Anglicanismo, ortodoxo, da Diocese do Recife, deve dar exemplo dessa libertação de preconceitos, para o bem do Reino de Deus, como uma alternativa compatibilizadora entre o Bem (a Sã Doutrina) e o Belo (a Arte Sacra, a Liturgia), que uma parcela crescente da população brasileira, insatisfeita com as expressões polares encontradas, está (ainda que inconscientemente) a buscar.

 

Por último, vale a pena chamar a atenção para a agressividade da ideologia Secularista, que quer eliminar todos os símbolos e valores religiosos do espaço público, encetando, na realidade, um novo ciclo de perseguição religiosa no Ocidente. Nesse conflito de propostas que se expressa em símbolos, que o preconceito, as neuroses ou a estreiteza mental de cristãos evangélicos (Anglicanos, inclusive) não termine por colaborar com o inimigo.

 

Resgatemos a Beleza!

 

Fixação de aprendizagem:

 

1.     O que você entende por: Estética, Arte Religiosa, Arte Sacra e Liturgia?

2.     Que lições você tira da Bíblia para a Arte Sacra?

3.     Por que se diz que a Igreja Anglicana é uma Igreja litúrgica? As outras Igrejas também não são?

4.     Por que há barreiras à Arte Sacra e à Liturgia no Protestantismo Brasileiro?

 

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Última atualização (Qui, 10 de Fevereiro de 2011 23:29)

 


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