Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (X)
Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (X)

QUINTO CAPÍTULO: OS MINISTÉRIOS – PARTE B
OS ANGLICANOS
Desde a sua primeira edição inglesa, até as edições mais recentes de outras Províncias, o Livro de Oração Comum (LOC) tem uma de suas secções denominadas de Ordinal, com os Ritos Sacramentais de Ordenação às três Ordens históricas: Bispos, Presbíteros e Diáconos. Sempre temos sido, tanto nos períodos Celta e Católico Romano quanto no atual período Reformado, uma Igreja Episcopal. No início dos Ritos de Ordenação é lido um Prefácio, também denominado de “Prefação”, onde se encontra uma síntese da nossa visão do ministério:
As Sagradas Escrituras e os antigos escritores cristãos expressam com clareza, que, desde os tempos do Novo Testamento, têm existido diversos ministérios na Igreja. A Igreja Cristã tem sido caracterizada por apresentar três ordens distintas de ministérios ordenados: a Ordem do Episcopado, a Ordem do Presbiterado e a Ordem do Diaconato. Os Bispos continuam a obra apostólica de dirigir, supervisionar e unir a Igreja. Os Presbíteros e os Diáconos, juntos com os Bispos, participam do governo da Igreja, em seu trabalho missionário e pastoral, e na pregação da Palavra de Deus. Aos Presbíteros cabe a função de ministrar os Santos Sacramentos e liderar as congregações locais em seu crescimento espiritual e na realização da Missão. Aos Diáconos cabem: a função litúrgica de assistir aos Bispos e Presbíteros na ministração dos Sacramentos; a função de liderar o povo nas orações e na leitura da Palavra de Deus; e a função de buscar compreender e interpretar os anseios e necessidades do povo em seu contexto, levando essas necessidades ao Bispo e à Igreja, e liderando a Igreja na resposta a essas necessidades. É responsabilidade especial dos Diáconos ministrar, em nome de Cristo, às pessoas pobres, excluídas, enfermas, às que sofrem e às abandonadas. As pessoas escolhidas e reconhecidas pela Igreja como chamadas por Deus ao Ministério Ordenado são admitidas a estas Sagradas Ordens por meio da oração solene e imposição de mãos do Bispo. Tem sido, e é intenção e propósito desta Igreja, manter e continuar essas Ordens e, para isso, os Ritos de Ordenação e Sagração são estabelecidos. A nenhuma pessoa é permitido o exercício das funções de Bispo, Presbítero e Diácono nesta Igreja a menos que tenha sido Ordenado com imposição de mãos de Bispos devidamente qualificados. É também reconhecido e afirmado que estes ministérios não são propriedades exclusivas deste ramo católico e reformado da Igreja de Cristo, mas Dom de Deus para o crescimento do Seu povo e proclamação do Seu Evangelho por todos os lugares. Conseqüentemente, o modo de Ordenar nesta Igreja há de ser, como tem sido, reconhecido por todo povo cristão como adequado para conferir as Sagradas Ordens do Episcopado, do Presbiterado e do Diaconato.
O “Quadrilátero de Lambeth”, depois de afirmar as Sagradas Escrituras, os Credos e os Sacramentos, conclui com seu quarto item:
O Episcopado Histórico localmente adotado nos métodos de sua administração, para as variadas necessidades das nações e dos povos chamados por Deus para a unidade da sua Igreja.
Várias Conferências de Lambeth têm-se ocupado de tratar o tema do Episcopado como pastor chefe, superintendente, administrador dos Sacramentos, mestre, defensor da fé, guardião dos Cânones e da liturgia, e missionário. O Episcopado Histórico é o termo Anglicano para indicar um Episcopado com Sucessão Apostólica ininterrupta. A Conferência de Lambeth de 1988 se expressa a respeito do bispo como:
Símbolo da unidade da Igreja em sua missão; mestre e defensor da fé; pastor dos pastores e do laicato; capacitador da pregação da Palavra e da ministração dos Sacramentos; líder na missão e iniciador da mesma no mundo em que a Igreja se encontra; médico a que as feridas da sociedade são trazidas; voz da consciência da sociedade em que a Igreja Local se situa; profeta que proclama a justiça de Deus no contexto do Evangelho da redenção; o cabeça da família como um todo, em sua miséria e alegria.
Como afirmou o Primaz de Uganda, Arcebispo Henry Orombi:
Na Igreja de Uganda, o Anglicanismo tem sido construído sobre três pilares: os mártires, o avivamento e o Episcopado. E cada um deles se refere à Palavra de Deus, a base sobre a qual nos edificamos.
É sabido que com a Reforma Protestante do Século XVI, e a fragmentação da Cristandade Ocidental tivemos a manutenção do Episcopado Histórico por Anglicanos e Luteranos Escandinavos e Bálticos; a criação do Episcopado Administrativo (sem Sucessão Apostólica) por Luteranos Germânicos e pelos Moravianos (posteriormente adotado na dissidência Metodista); e a criação pela Segunda Reforma (Calvinista) do governo presbiteriano, aplicando à Igreja a democracia indireta de Genebra, com a hegemonia da nova classe burguesa e o individualismo no modo de produção capitalista e, na Terceira Reforma (Anabatistas, Batistas, Congregacionais) do governo congregacionalista, atribuindo idealisticamente à Igreja Primitiva as regras do Parlamento de Westminster. No primeiro, o poder está nas mãos dos Conselhos de Presbíteros Regentes (o pastor é um Presbítero Docente), e nas unidades regionais, ou Presbitérios; e, no segundo, o poder reside nas assembléias das comunidades locais independentes.
Como um ser em evolução tem três estágios distintos: embrião, feto e nascituro, assim, também, as instituições em suas origens (inclusive a Igreja Antiga). No breve período de institucionalização, deslocando-se do mundo judaico para o mundo greco-romano, com seus modelos de organização, houve um processo, denominado por um teólogo de “cristalização” dos papéis dos Bispos, dos Presbíteros e dos Diáconos, já claramente definido, em todo o mundo cristão, no final do século II (e, assim, permanecendo até o século XVI). O equívoco dos congregacionais foi tomar como paradigma o ainda embrião; o equívoco dos presbiterianos foi se fixar no ainda transitório feto. Os Anglicanos esperaram o nascimento do novo ser...
OS MINISTÉRIOS
Como Igreja Reformada, afirmamos e encorajamos o “sacerdócio universal de todos os crentes”, com o Espírito Santo derramando os seus dons sobre todos os convertidos, para a edificação conjunta do Corpo. Como Igreja Católica, afirmamos o papel especial de coordenação, ministração e manutenção da unidade e da verdade que é confiado ao ministério Ordenado, como tem sido por vinte séculos: os Bispos, os Presbíteros e os Diáconos, vocacionados, reconhecidos e selados, indelevelmente, pelo Rito Sacramental.
Dentre os fiéis, temos, ainda, além dos Ministérios Ordenados, os chamados Ministérios Instituídos, não sacramentais nem permanentes: os Ministros Locais (Ministros Leigos/Leitores), os Evangelistas, os Catequistas e os Acólitos (que servem ao altar), além das funções ministeriais específicas: louvor, juventude, visitação, serviço etc.
O laicato anglicano também é mobilizado em Sodalícios: movimentos de homens, mulheres e juventude, movimentos culturais, evangelísticos e de serviço e em atividades de Capelania (hospitalar, prisional etc.), bem como nas Juntas Paroquiais/Conselho de Missões, e outras Juntas ou Comissões Paroquiais, Diocesanas ou Provinciais, em instituições mantidas pela Igreja, como creches, escolas, ambulatórios, e em movimentos ligados a organizações ligadas às diversas correntes internas do Anglicanismo (anglo-católicos, anglo-evangélicos, anglo-carismáticos etc.) ou a entidades ecumênicas.
Um outro espaço para o desenvolvimento da espiritualidade e desenvolvimento dos dons são as Ordens Religiosas, residenciais ou dispersas, por gênero ou mistas, contemplativas e/ou missionárias. Na Conferência de Lambeth, de 1998, tínhamos cerca de 100 Ordens Religiosas na Comunhão Anglicana, todas registradas em uma Diocese-sede e sob Autoridade Episcopal.
O alvo do Anglicanismo sempre foi “o ministério de todos os cristãos”, com criatividade e flexibilidade, ao mesmo tempo mantendo a ordem bíblica e histórica.
CONCLUSÕES
Somos um ramo da Igreja de Jesus Cristo com dois mil anos de História, quando nos identificamos com a concepção e as expressões do ministério estabelecidas nos primórdios, mantida por um milênio e meio, e ainda amplamente majoritária no conjunto da Cristandade até os nossos dias. Sob a iluminação do Espírito Santo, e respondendo aos tempos e lugares, temos feito ajustes e aperfeiçoamentos nesse modelo, sem descaracterizá-lo. A trágica fragmentação denominacionalista sofrida pelo Cristianismo Ocidental, desde, principalmente, o século XVIII, e atingindo uma situação dilacerante em nossos dias, teve origem, maiormente, em espaços de governo congregacionalista, e, em grau mais reduzido nos espaços de governo presbiteriano.
O “ranço” da origem denominacional da maioria dos anglicanos brasileiros de primeira geração, deve ser assumido para ser superado por um convencimento profundo do que somos e do que cremos. Isso nos possibilitará um olhar crítico, e “anticorpos” diante do diverso e do exótico representado na literatura e na mídia que nos cercam. O individualismo moderno, o egocentrismo pós-moderno, com sua rejeição às instituições e às autoridades constituídas, são marcas do pecado que se expressam no “espírito do século”, e devem ser vencidos em nossas lutas espirituais, pela Palavra e pelos Sacramentos, para a harmonia do Corpo, a disciplina, e a construção do Anglicanismo como uma opção de maturidade para o confuso quadro da Cristandade na Terra da Santa Cruz.
Um corpo de fiéis mobilizados, sob a autoridade do seu Bispo, e dos seus representantes: os Presbíteros e os Diáconos, integrados à Diocese como Igreja-local, vivenciando as suas expressões localizadas: Paróquias, Missões Pontos Missionários, eis o modo de vida eclesiástica, segundo a Tradição Histórica e o ensino dos órgãos oficiais da Comunhão Anglicana.
Fixação de aprendizagem:
- Diferencie as formas de governo eclesiástico: Episcopal, Presbiteriano e Congregacional.
- Por que o Anglicanismo manteve a forma de governo Episcopal?
- Qual a função dos Bispos, dos Presbíteros e dos Diáconos?
- Como compatibilizar os Ministérios Ordenados e os Ministérios Instituídos com o sacerdócio universal de todos os crentes? Como o laicato pode exercitar os seus dons?
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Última atualização (Dom, 06 de Fevereiro de 2011 00:07)
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