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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

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Home Biblioteca Doutrina Anglicana Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (IX)

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (IX)

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (IX)

 

 

QUINTO CAPÍTULO: OS MINISTÉRIOS – PARTE A

 

INTRODUÇÃO

Recém empossado como Bispo Diocesano, fui a uma confraternização evangélica em uma capital do Nordeste. Aproximou-se um jovem universitário evangélico que me interpelou: “Eu tenho dificuldade de entender esse negócio de Bispo. O senhor é Bispo como Dom Amaral (o Arcebispo Católico Romano daquela cidade) ou como o Bispo Macedo?”. Ao que respondi: “Nenhum dos dois!”. O que não ajudou muito, pois o mesmo (como a grande maioria dos brasileiros) não conhecia senão aqueles dois modelos. Isso não teria acontecido nos muitos países onde a maioria das Igrejas é de governo Episcopal, mas em nosso País, onde fora o Episcopado monárquico e distante da Igreja de Roma (o Episcopado Ortodoxo Oriental é de pouca expressão, localizado e étnico), durante muito tempo apenas tínhamos os Bispos Anglicanos (Episcopado histórico) na região sul, ou os Bispos Metodistas (Episcopado administrativo) no sul e sudeste.

 

Houve, durante século e meio desde os seus primórdios, uma clara predominância no Protestantismo Brasileiro – “tradicional” e “renovado” – de Igrejas de governo congregacional e presbiteriano, embora tenha havido, também, algumas expressões de um “episkopé sem episkopos” (Episcopado sem bispos), como na Assembléia de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja Luterana etc., com seus pastores-presidentes, superintendentes, pastores sinodais ou pastores distritais exercendo funções típicas de um Bispo, porém sem o título ou a legitimação do ministério. Um dado novo é que hoje, com o questionável (em sua identidade protestante) neo/pos/iso/pseudo-pentecostalismo, se adiciona novas formas de Episcopado monárquico “de facto”, com “bispos”, “missionários”, e, até, “apóstolos”, auto-nomeados.

 

Como Anglicanos, nos deparamos, quase sempre, com um misto de desinformação histórica e preconceito eclesiológico, não somente de parte dos de fora, mas, inclusive dos de dentro dos nossos arraiais (inclusive ministros) que trazem o “ranço” das suas antigas denominações, ou são influenciados pela literatura e pela mídia de outras correntes. O individualismo secular, o egocentrismo pós-moderno e o estrelismo e caudilhismo religioso autocráticos são obstáculos adicionais para uma internalização e vivência funcionais da nossa teologia de ministério.

 

O irônico é que o modelo Episcopal e as três Ordens – Bispos, Presbíteros e Diáconos – estão aí por dois mil anos. O congregacionalismo e o presbiterianismo é que são frutos tardios de teóricos do século XVI, com leituras equivocadas da Igreja Primitiva, mil e seiscentos anos depois, e sob outra ótica cultural e de outro modo de produção.

 

O Episcopado Histórico participativo (colegial, conciliar, sinodal) da Comunhão Anglicana evita os extremos do clericalismo romano e do populismo ministerial do protestantismo posterior.

 

Vejamos uma breve retrospectiva histórica:

 

OS PAIS APOSTÓLICOS

Embora tenha sido um assunto presente em vários textos e escritores dos primórdios, três foram os autores principias, dentre os Pais Apostólicos, que se dedicaram ao tema do Episcopado: Inácio de Antioquia, Irineu de Lyon e Cipriano de Cartago.

 

Inácio de Antioquia – Como sabemos, a Igreja, nos finais do primeiro século, havia deslocado o seu centro irradiador de Jerusalém para Antioquia, e é um dos seus primeiros bispos, sucessor dos apóstolos, Inácio, que será o grande pioneiro na reflexão eclesiológica daquele período. Titular de um profícuo Episcopado, Inácio seria martirizado (entre os anos 107 e 110 ad). Antes, porém, escreveu sete Cartas: a Policarpo de Esmirna, aos Efésios, aos Magnesianos, aos Travelianos, aos Romanos, aos Filadelfenses, e aos Esmirnionitas, onde exorta as Igrejas à perseverança na doutrina apostólica, condenando as heresias nascentes, e que o compromisso com a verdade deveria se dar em unidade: unidade para com Deus em Jesus Cristo, unidade entre si como comunidade de fé, e unidade com os seus dirigentes – os Bispos, os Presbíteros e os Diáconos. Em seus textos já há um reconhecimento explícito das três Ordens.

 

Ensina Inácio:

...convém caminhar de acordo com o pensamento do vosso bispo, como já o fazeis. Vosso presbitério, de boa reputação, está unido ao bispo (aos Efésios 4.1).

 

...eu vos felicito por estardes unidos a ele, assim como a Igreja está unida em Jesus Cristo como o Pai (ibid, 5.1).

 

...devemos olhar ao bispo como ao próprio Senhor (ibid, 3.1).

 

....por isso vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo (ibid, 6.1).

 

...uma voz de Deus: permanecei unidos ao bispo, ao presbitério e aos diáconos (aos Filadelfenses 7.1).

 

E, ainda escreve:

...foi o Espírito que me anunciou dizendo: ...não façais nada sem o bispo, guardai os vossos corpos como templos de Deus, amai a união, fugi das divisões, sede imitadores de Jesus Cristo, como ele também o é o do seu Pai (ibid, 2.2).

 

...sem o bispo ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja (aos Esmirnionitas, 8.1).

 

...é bom reconhecer a Deus e ao bispo. Quem respeita o bispo é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo, serve ao diabo (ibid, 9.1).

 

Inácio de Antioquia põe particular ênfase na Eucaristia como celebração de unidade, e é o primeiro escritor cristão a usar a expressão “Igreja Católica”: “...onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica” (ibid, 8.2). Ele é também, enfático em afirmar que o modelo de governo episcopal não é algo peculiar à Antioquia, ou de algumas Igrejas, mas que era algo já estabelecido por toda a Igreja “até os confins da terra” (aos Efésios, 3.2).

 

Irineu de Lyon – Na geração seguinte, ainda no primeiro século, destaca-se a figura de Irineu, Bispo de Lyon, discípulo do mártir Policarpo, que, reafirmando o legado doutrinário dos apóstolos, elaborou um notável trabalho apologético contra as heresias dos gnósticos e dos montanistas, com uma mensagem cristocêntrica (com as duas naturezas), e o caráter canônico dos quatro evangelhos. Suas obras principais foram: “Contra os Hereges” e “Demonstração da Pregação Apostólica”.

 

Irineu elabora a compreensão da Tradição Apostólica:

...poderíamos enumerar aqui os bispos, que foram estabelecidos nas Igrejas pelos apóstolos, os seus sucessores até nós, e eles nunca ensinaram, nem conheceram nada, que se parecesse com o que essa gente está delirando... com efeito, queriam que os seus sucessores, os quais transmitiam a missão de ensinar... (Adversus Haereses, III, 3:1).

 

...os bem aventurados apóstolos que fundaram e edificaram a Igreja, transmitindo o governo episcopal a Lino (...) Lino teve como sucessor Anacleto. Depois dele, em terceiro lugar, depois dos apóstolos, coube o episcopado a Clemente, que tinha visto os próprios apóstolos e estivera em relação com eles, que ainda guardava viva em seus ouvidos a pregação deles e diante dos olhos a tradição (...) A este Clemente sucedeu Evaristo, Alexandre; em seguida, sexto depois dos apóstolos foi Sisto; depois dele, Telésforo, que fechou a vida com glorioso martírio; em seguida Higino, depois Pio, depois dele Anicleto. A Anicleto sucedeu Sóter, e, presentemente, Eleutério, em décimo segundo lugar na sucessão apostólica... com esta ordem e sucessão chegou até nós, na Igreja, a tradição apostólica e a pregação da verdade. Esta é uma demonstração mais plena de que uma e idêntica fé vivificante que, fielmente, foi conservada e transmitida, na Igreja desde os apóstolos (ibid, 3.3.).

 

Irineu enfatiza a ligação entre a sucessão apostólica nos bispos e a sucessão da doutrina dos apóstolos, e a importância das Sés Episcopais (Igrejas-Mães, onde o Bispo tem assento, ou Cátedra = Catedrais).

 

Por desconhecimento, ou preconceito, há quem pense que o Episcopado foi uma construção muito posterior, medieval, e não algo estabelecido já no final do primeiro século e início do segundo século, na transição entre os Apóstolos e os Pais Apostólicos; ou que o Episcopado era uma das formas de governo encontradas naquela época, e não a única forma, como podemos ver, pois não há nenhum trabalho, de nenhum pensador, defendendo outra forma; ou que o Episcopado era algo localizado, e não algo universalmente aceito, adotado e ensinado, pela Cristandade do Ocidente e do Oriente.

 

Cipriano de Cartago – O terceiro grande sistematizador da eclesiologia Episcopal foi Cipriano de Cartago, em meados do terceiro século. Cipriano (Thascius Caecilius Cyprianus), convertido do paganismo com paixão pelo Senhor e por sua Palavra, em apenas dois anos após o seu batismo, era eleito Bispo de Cartago, a potência do norte da África que rivalizava com Roma, e de que seria, posteriormente, derrotada nas “Guerras Púnicas”. Foi ele quem convocou dois importantes Concílios de Bispos daquela região. Escreveu 81 epístolas e 11 monografias, destacando-se: “A Unidade da Igreja Católica” (De Catholicae Ecclesiae Unitate), onde defende a unidade, a verdade e a santidade como marcas da Igreja. Foi martirizado (degolado), em 14.09.249 ad, durante a perseguição do imperador Valeriano.

 

A Igreja de Cristo – a Igreja Católica – para Cipriano, deve ser uma, e é uma, pois procede de Cristo e de um só núcleo, confessando a ortodoxia herdada dos apóstolos, e sob a autoridade da sua liderança: os Bispos. O Episcopado seria uma providência divina para preservar a unidade da Igreja. Os apóstolos foram escolhidos por Cristo, e os Bispos estão no lugar dos apóstolos, como seus sucessores, e ocupam esse lugar por decisão de Deus:

 

...ao largo dos tempos, vai-se continuando a sucessão dos Bispos e a administração da Igreja, de sorte que a Igreja sempre esteve estabelecida sobre os bispos, e todo ato da Igreja era dirigido por estes propósitos (De Unitate, 23.4).

 

Para Cipriano, os Bispos presidem as suas Dioceses e se mantêm em comunhão com outros Bispos, como uma só Ordem, preservando a unidade. Sendo o Bispo símbolo da unidade e guardião da fé, se requer do clero e dos fiéis, submissão à sua autoridade. São dele as conhecidas frases: “Não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe”, e “Ninguém se salva fora da Igreja”.

 

Ele não somente reafirma a existência de três Ordens de ministros na Igreja: os Bispos, os Presbíteros e os Diáconos, mas compreende essas Ordens como cumulativas. Identifica os Bispos como os apóstolos (apóstolos, it est episcopos), e se preocupou com a seriedade, inclusive do processo de Sagração Episcopal, que deveria se dar.

 

...com toda diligência; é preciso guardar a tradição divina e as práticas apostólicas, e é preciso atentar para o que se faz entre nós, que é o que se faz em quase todas as Províncias do mundo, a saber, que para haver uma ordenação bem feita, os bispos mais próximos da mesma Província se reúnam com o povo a frente de estar o bispo ordenado (Epístola 67.5).

 

A referência ao termo Igreja é sempre em seu sentido geral: a Igreja Católica. Os conceitos de “Igreja Particular” ou “Província”, para suas expressões regionais mais amplas, e de Diocese, para suas expressões regionais mais restritas ou locais, já era de uso corrente.

 

Estávamos, então, no terceiro século de existência da Igreja, e a compreensão e a prática do governo episcopal estava estabelecida e consolidada em todo o mundo. Não seria mais uma preocupação, nem dos Concílios, nem da terceira geração, dos Pais da Igreja, nem das gerações posteriores. Estávamos diante de uma clara percepção da “mente da Igreja”, do “consenso dos fiéis”, percebida como uma resposta iluminada pelo Espírito Santo, como a velha fórmula “pareceu-nos bem ao Espírito Santo e a nós”. Esse sistema estava mencionado no mais antigo texto de instrução da Igreja: o Didaké, e registrado nos mais antigos dos seus historiadores, como Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica), e tomado por sentado pelos Pais da Igreja.

 

Em meados do segundo século, todos os centros de liderança do Cristianismo apareciam com os seus próprios bispos, e, desde então, até a Reforma, o Cristianismo em toda a parte estava organizado sob uma base episcopal (The Oxford Dictionary of the Christian Church).

 

(Continua)

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Última atualização (Sex, 04 de Fevereiro de 2011 10:29)

 


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