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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

1ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

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Home Biblioteca Doutrina Anglicana Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (VIII)

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (VIII)

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (VIII)

 

 

 

QUARTO CAPÍTULO: A VIDA

 

INTRODUÇÃO

A experiência religiosa abrange três áreas principais: a Mística, a Dogmática e a Ética, ou seja, a relação com o Sagrado, a reflexão sobre o Sagrado, e a vivência a partir dessa relação e dessa reflexão. E isso não se restringe ao Cristianismo. Ninguém pode negar que há uma Mística no Bramanismo, uma Dogmática no Mormonismo, e uma Ética no Espiritismo. Por outro lado, no Cristianismo, nem sempre essas três dimensões funcionam adequadamente, harmonicamente ou corretamente, gerando unilateralismos, distorções e danos à experiência da fé. Em muitos capítulos da História da Igreja, encontramos místicos que foram hereges e corruptos, ou pensadores da Dogmática (doutrina), que eram áridos em sua espiritualidade e não-conseqüentes em sua vida cotidiana, ou, ainda, militantes carentes de uma vida devocional regular e de um conhecimento e adequação à Sã Doutrina. A Pré-Modernidade medieval foi cheia de ênfases místicas, enquanto a Cristandade, em geral, professava uma dogmática distante das doutrinas originais e a falta de ética era generalizada, tanto na hierarquia quanto no povo.

 

A Modernidade, com seu racionalismo, desprezou os aspectos místicos, retirou da Dogmática, a Revelação e o Mistério, com a negação dos milagres, e a afirmativa que a razão humana era o único caminho para se chegar à verdade, e os seus teóricos, encastelados em torres de marfim, terminaram por trazer danos à Missão da Igreja. “Um Deus sem ira, um Cristo sem Cruz e um Homem sem Pecado”, foi o cerne de uma mensagem deficiente, cujo resultado concreto são os templos esvaziados de uma Civilização Euro-Ocidental em crise de descristianização, depois dos fracassos desumanizantes dos projetos utópicos.

 

Na Pós-Modernidade que ora estamos atravessando, juntamente com a Globalização assimétrica, um conhecido líder pentecostal brasileiro afirmou, recentemente, que as pessoas não estão interessadas em doutrinas, mas na vida demonstrada pelos religiosos.

 

Depois da derrocada das propostas materialistas, o retorno do sagrado ou “reencantamento do mundo” pós-moderno tem apelado para todo tipo de mística, da oriental à sincrética, passando pela auto-ajuda, descolado das instituições e doutrinas históricas e sem propostas para a História senão a competição do mercado, em um darwinismo social.

 

Mulheres seminaristas anglicanas nos Estados Unidos são também sacerdotisas do culto Wicca, da religião celta pagã. Uma pastora se disse cristã e muçulmana ao mesmo tempo. Um culto conjunto foi celebrado por um ministro episcopal e um sacerdote bramânico. Um bispo teve um pagé indígena entre os que impuseram as mãos em sua Sagração. Advoga-se a participação na Ceia do Senhor de pessoas não-batizadas, enquanto o Batismo não deveria invocar a Santíssima Trindade. Um deão de Catedral afirmou ter sido um grande equívoco dos discípulos colocar nos lábios de Jesus a expressão: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vem ao Pai senão por mim”, tida como politicamente incorreta, imperialista, arrogante e ofensiva aos de outra fé ou aos sem fé. Aquela Província, já há décadas, afirmou em um Tribunal Eclesiástico ser uma Igreja “sem Doutrinas”, e os Credos, ou os XXXIX Artigos de Religião são considerados, apenas “documentos históricos”.

 

Com a Igreja considerada apenas um ente social e cultural, onde não deve haver lugar para se definir doutrinas nem normas de comportamento, a Bíblia sendo considerada apenas uma literatura religiosa de origem judaica útil para a devoção particular e para a liturgia pública, de onde não se deve buscar doutrina, nem normas de comportamento, pois todos os ensinos éticos eram apenas expressões culturais do contexto dos seus autores, a celebração da liturgia se reduz a um teatro, onde não se crê no que se recita, nem se vive o que se recita.

 

A ética se torna “situacional”, sem normas gerais, dependendo de cada caso, baseada na subjetividade dos sentimentos e “no mútuo consentimento entre adultos que não cause danos a terceiros”. Como não crêem no Pecado Original, e que a salvação, universalista em seus efeitos, veio na Encarnação e não na Cruz, afirmam que “Deus nos criou como nós somos”, não havendo necessidade de mudança de vida, de transformação, de santidade, mas, apenas da afirmação de direitos humanos, sem os deveres humanos e os direitos de Deus. O único absoluto é a afirmação de que “tudo é relativo”.

 

Enquanto isso, a construção do novo homem em Cristo, tem sofrido sob o peso ora da repressão ora da permissividade, uma reagindo à outra, se indo de um pólo ao outro, com multidões de “desviados” em nosso País, vítimas de “disciplinas” mais policiais do que pastorais, enquanto o liberalismo vai introduzindo o pólo do “vale tudo”.

 

Ao longo da sua trajetória, o Anglicanismo tem buscado afirmar uma Espiritualidade Integral e uma Missão Integral. E onde tem ele buscado a fonte para essa construção?

 

 

A PALAVRA

O deserto, o batismo, a transfiguração, o Getsêmane, foram momentos de intensa experiência mística para Jesus. Mas, ao reafirmar as Escrituras da Primeira Aliança, ensinar a oração do Pai Nosso, proferir o Sermão do Monte e a Oração Sacerdotal – e nos diálogos com os seus discípulos – Jesus foi alguém que reflexionou profundamente sobre a doutrina, como pedra angular da Dogmática da Igreja. Sua vida, percorrendo as cidades e aldeias, indo ao encontro dos necessitados – a partir do seu esvaziamento e da sua encarnação – foi um exemplo de engajamento conseqüente no projeto do Reino do seu Pai.

 

Os Evangelhos nos dizem que Jesus pregou, ensinou, curou e expulsou demônios. Ele passava horas em oração. Ainda menino discutiu os textos sagrados com os doutores no templo, citava seguidamente as Escrituras, a lia na sinagoga, e o seu messiado assume a realização do “Dia do Senhor”, tanto em seu aspecto de antecipação escatológica, do grande dia final, como de realização histórica do que tinha sido ensaiado no Ano Sabático e no Ano do Jubileu, pela promoção de uma paz que é fruto da justiça. O Espírito que ele envia não somente convence, converte e consola, mas conduz à verdade e à transformação existencial.

 

Dentro das comunidades de fé os convertidos descobriam e exercitavam os seus dons, para o crescimento mútuo; viam a “obra da carne” (marcas da natureza caída) ser substituída pelo “fruto do Espírito”; em termos de temperamento e comportamento, seus talentos naturais eram purificados e redirecionados pelo compromisso com o Reino. Eles tinham os seus bens em comum, não os considerando como se seus fossem, mas apenas mordomos do que lhes foi confiado por Deus.

 

Os apóstolos exortavam para que não fossem enganados pelos falsos mestres, pelos falsos ensinos, mas que, conhecendo a Palavra, fossem firmes na verdade. Exortavam para que eles fossem praticantes, e não apenas ouvintes, que não eram salvos pelas obras, mas que eram salvos para elas, e que a fé sem obras era morta.

 

O exemplo e os ensinos de Jesus e dos apóstolos apontam para uma Espiritualidade Integral, onde a relação com Deus, a mística, não aliena nem isola, que, tendo a mente de Cristo, conhecemos a vontade de Deus “pela renovação do nosso entendimento”, sabendo “dar razão da fé que há em nós”. Jesus demonstrou o valor da experiência de subir ao monte, ser cercado pela nuvem, ouvir a voz de Deus, conviver com os trasladados, mas se recusou a ficar ali “acampado”, fugir das multidões carentes e evitar a cruz. Esse exemplo e esses ensinos também apontam para uma Missão integral, onde há lugar para o anúncio, o ensino, a comunhão, o serviço e a denúncia profética aos pecados sociais e estruturais.

 

CONSTRUÇÃO

O Livro de Oração Comum (LOC) se constitui, sem sombra de dúvidas, em um modelo de Espiritualidade Integral. Suas orações nos levam a Deus, seus ritos nos trazem Deus, seus ensinos equipam os fiéis para serem “fortes e corajosos” para viver o Evangelho no mundo, entre as pessoas. O LOC atesta a realidade das hostes espirituais da maldade nas regiões celestes, quando, na Confirmação, pede ao novo professo a renúncia a satanás e a todas as suas obras. Várias das orações tratam da ministração aos enfermos, da vida profissional, das autoridades civis, e da santidade como caminho para os justificados pela Graça mediante a fé, os salvos, os eleitos.

 

Os Artigos de Religião tratam tanto da dinâmica do pecado dos crentes, quanto da necessidade das boas obras como evidência da fé. Senão vejamos:

 

O Artigo XVI trata “Do Pecado Depois do Batismo”, e afirma:

 

Nem todo pecado mortal, voluntariamente cometido depois do Batismo é contra o Espírito Santo, e irremissível. Pelo que não se deve negar a graça do arrependimento aos que tiverem caído em pecado depois do batismo. Depois de termos recebido o Espírito Santo, podemos nos apartar da graça concedida, e cair em pecado, e, pela Graça de Deus, nos levantar de novo, e corrigir nossa vida. Devem, portanto, ser condenados os que dizem que já não podem pecar mais, enquanto aqui vivem, ou os que negam a oportunidade de perdão às pessoas verdadeiramente arrependidas.

 

Enquanto isso, o Artigo XII trata “Das Boas Obras”, e ensina:

 

Ainda que as boas obras, que são fruto da fé, e seguem a Justificação, não possam expiar os nossos pecados, nem suportar a severidade do juízo de Deus, são, todavia, agradáveis e aceitáveis a Deus em Cristo, e brotam, necessariamente, de uma verdadeira e viva fé, tanto que por elas se pode conhecer tão evidentemente uma fé viva como uma árvore se julga pelo fruto.

 

A Espiritualidade Integral, que procura conhecer a realidade, discernindo-a, intercedendo por ela e nela intervindo, tornando cada um agente da concretude da oração “seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu”, se relaciona com uma visão também integral da Missão, conforme definida pela Conferência de Lambeth, de 1988, como constando das seguintes dimensões:

 

a) Proclamar as Boas Novas do Reino de Deus; b) Ensinar, Batizar e Instruir os novos crentes; c) Responder às necessidades humanas por serviço em amor; d) Procurar transformar as estruturas injustas da sociedade; e) Defender a vida e a integridade da criação.

 

As próprias Conferências de Lambeth são microcosmos dessa Espiritualidade Integral e dessa Missão Integral, com seus Cultos (Orações Matutinas e Vespertinas e Eucaristias), seus estudos bíblicos, seus grupos de compartilhar e orar, seus grupos de estudos temáticos, e suas resoluções sobre os temas que desafiam os cristãos em cada geração e conjuntura (da guerra à eutanásia, do meio ambiente à sexualidade), em um total de 94 na última Conferência, de 1998, trazendo subsídios e orientações valorosas para a espiritualidade da nossa comunidade mundial.

 

O Anglicanismo tem profundo interesse com os temas da Ética, da Santidade e da Disciplina, conforme veremos no documento elaborado por este autor, e aperfeiçoado por debates em sala de aula e em plenário de Concílio, hoje um dos documentos doutrinários oficiais de nossa Diocese, e que incorporamos a presente aula.

 

CONCLUSÕES

Ao longo da sua História, o Anglicanismo tem procurado conciliar Ortodoxia com Ortopraxia. A Ortodoxia tanto significa a adoração correta (ao Deus Triuno, em espírito e verdade) quanto a elaboração correta (Sã Doutrina); e a Ortodoxia pode ser entendida como a vivência coerente da adoração e da elaboração.

 

Lembramo-nos do século XVII, após a Reforma Protestante, que foi denominado de o século da “Ortodoxia Fria”, pois a vida cristã se centrava no conhecer e no concordar, intelectualmente, com as doutrinas contidas nas “Confissões de Fé”. O Pietismo reagiu corretamente, enfatizando uma “religião do coração”, que incluísse a devoção, as emoções e a santidade. Mas, ao desvalorizar a doutrina, concorreu para abrir caminho para o Liberalismo, pois (apenas para citar um exemplo) foram os Quackers liberais que trouxeram a Teosofia para o Ocidente.

 

Quando o pensador pentecostal citado no início desta aula, diz que o homem pós-moderno não está interessado em doutrinas, mas na vida coerente, nos perguntamos: coerente com o que? Por outro lado, outro pensador pentecostal afirmou que seja a pré-modernidade, a modernidade ou a pós-modernidade – ou outra coisa que vier – elas são “o espírito do século”, e deve ter dos cristãos uma atitude crítica e não uma adesão acrítica.

 

Fala-se muito em “diálogo”, “conciliação”, “amor”, e muito pouco sobre a verdade e a santidade, quando, o que aconteceu foi que a adoração foi sincretizada (“macro-ecumenismo”), a doutrina desvalorizada e a ética relativizada. Os documentos das Conferências de Lambeth, e da grande maioria de Províncias e Dioceses Anglicanas estão cheios de referência ao compromisso e à coerência, com o Senhor da Igreja e com a Igreja do Senhor. O mesmo se diga dos nossos autores, que têm edificado o conjunto de toda a Igreja: John Stott, C.S. Lewis, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, e tantos outros.

 

Por fim, não posso deixar de citar Stott, em seu devocionário: “A Bíblia Toda, o Ano Todo” (Ed. Ultimato, Viçosa, MG), quando, escrevendo sobre “Marcas de Uma Igreja Viva”, afirma que elas são:

 

a) ”...seus membros estão comprometidos com o ensino dos apóstolos, e se submetem a ele”; b) ”...manter comunhão... Amavam uns aos outros... é interessada em pessoas”; c) “...é uma igreja adoradora”; d) “...é uma igreja evangelizadora”.

 

No mesmo livro, ele afirma, muito apropriadamente, sobre a Igreja Primitiva como paradigma:

 

Observe que esses novos convertidos, cheios do Espírito Santo, não desfrutaram de uma experiência mística que os levou a negligenciar o intelecto, desprezar a teologia, ou parar de pensar. Ao contrário, eles se dedicaram ao ensino dos apóstolos. Não hesito em afirmar que anti-intelectualismo e plenitude do Espírito Santo são mutuamente incompatíveis, pois, que é o Espírito? Jesus o chama de “o Espírito da Verdade”, pois onde quer que ele atue, a verdade prevalece.

 

Fixação de aprendizagem:

 

1.     Você prefere uma santidade passiva ou uma santidade ativa, como caminho para o crescimento espiritual, aliando a ortodoxia com a ortopraxia?

2.     O que difere a Disciplina Anglicana das disciplinas de outras denominações?

3.     O Conselho de Missão/Junta Paroquial tem autoridade para disciplinar um membro?

4.     Você é favorável ou contrário à suspensão da participação eucarística como forma de disciplina? Justifique.

 

 

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Última atualização (Qui, 03 de Fevereiro de 2011 10:32)

 


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