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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

1ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

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Home Biblioteca Doutrina Anglicana Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (VI)

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (VI)

Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (VI)

 

 

TERCEIRO CAPÍTULO: A DOUTRINA – PARTE A

INTRODUÇÃO

Define um dicionário o conceito de Doutrina como: “Conjunto de princípios em que se baseia um sistema religioso, político ou filosófico”. Na realidade, toda instituição possui uma doutrina, seja escrita, seja costumeira, elas se constituem e operam a partir de um núcleo de idéias compartilhadas por seus membros. Sem doutrinas não haveria identidade, organização ou propósitos. Não haveria a instituição. Há, nessa construção (no caso religioso) um elemento subjetivo racional: o pensamento elaborado; um elemento subjetivo místico: a fé, a crença; e um elemento objetivo sistematizado: os textos dos Credos, das Confissões, dos Catecismos e outros. Pensa-se o que se crê, e se crê no que se pensa. Na Idade Média tivemos a controvérsia entre Anselmo e Abelardo sobre o que viria primeiro: o entendimento ou a crença. As fórmulas seriam: “Creio porque entendo”, ou “Entendo porque creio”. Na realidade, vive-se uma permanente dinâmica no processo de crença e de compreensão da fé.

 

Embora, como cristãos, creiamos que a mente humana é finita para apreender toda a compreensão sobre o Sagrado, e a partir do Sagrado sobre a Criação, cremos, também, que a imago dei (imagem de Deus) nos dotou de razão para apreender o suficiente. Se a mente caída gera reflexões distorcidas, ou falsas, a mente iluminada readquire possibilidades de verdade, pois, como nos diz o apóstolo Paulo “temos a mente de Cristo”.

 

Sendo o Anglicanismo um ramo histórico da Igreja de Jesus Cristo, nossa doutrina é, em muito, compartilhada com os demais ramos. Sendo o Anglicanismo, também, uma Igreja Reformada, nossa doutrina é, em muito, compartilhada com outras Igrejas Reformadas. Mais ainda, sendo a Igreja Cristã, por seu fundamento Jesus Cristo, a culminação das profecias messiânicas e povo da Nova Aliança, do segundo e Novo Testamento, não começamos o nosso corpo doutrinário do zero, mas somos herdeiros de conceitos elaborados pelo povo da Antiga Aliança, do Antigo Testamento, os hebreus.

 

Há, no cenário religioso, doutrinas de negação, como o ateísmo; doutrinas de indiferença, como o agnosticismo; e doutrinas de outras matrizes, como o politeísmo, o panteísmo ou o animismo. Em nosso caso, somos uma religião de revelação: Deus se comunica com o seu povo, se ex-vela, se re-vela, transmite, explica, preceitua, exorta. Essa tradição semítica é conhecida como “o Povo do Livro”.

 

Não sendo apenas um apêndice ou uma seita judaica, mas se vendo como um desdobramento peculiar, o Cristianismo elabora novas doutrinas, a partir das velhas doutrinas. Ao interagir com o mundo exo-romano, entra em contato com outras formas de pensar e outros conceitos, não mais apenas o que chamaríamos de Teologia, mas da Filosofia. Eles foram úteis para a sistematização doutrinária e para a sua explicação, defesa e contra-ataque em relação ao paganismo, aos cultos de mistério e às seitas heréticas, na tarefa conhecida como Apologética.

 

Quando um Diácono, Presbítero ou Bispo vai ser Ordenado ou Sagrado, e um Conselho de Missão ou Junta Paroquial empossada, há o compromisso, dentre outros de “conformação à Doutrina” da Diocese, Província ou da Comunhão Anglicana. Esse ato, que é falado e subscrito, pressupõe duas coisas: 1. Que o Anglicanismo tem uma Doutrina; 2. Que a pessoa a conhece e está sendo sincera em expressar o seu compromisso de conformação, de adequação, de crer, viver e promover a Doutrina.

 

Em que consistiria a Doutrina Anglicana?

 

O LIVRO

Somos herdeiros do Antigo Testamento. Sendo ele uma revelação – conquanto de destinação universal – entregue ao povo hebreu, a Igreja sempre acreditou que o Cânon, ou conjunto de livros do Primeiro Testamento deveria ser definido pelas lideranças religiosas do povo hebreu, a partir da vivência histórica da sua fé. Assim, aceitamos as decisões do Concílio de Jamnia, ano 70 d.C., no estabelecimento, pelos hebreus, desse Cânon de 39 Livros, incluindo a Lei (Torah), ou livros históricos, os livros proféticos e a literatura sapiencial. Muito da literatura religiosa judaica foi então descartada, e outros livros reconhecidos apenas como úteis para a instrução e a devoção, mas sem o mesmo status dos demais. Esses Livros foram incluídos no Cânon da Igreja de Roma, no século XVI, pelo Concílio de Trento (1546).

 

Essa posição, sustentada, inclusive por Jerônimo, o tradutor da Vulgata (Bíblia em Latim), foi mantida pelas Igrejas da Primeira Reforma (Anglicanos e Luteranos): “a Igreja os lê para exemplo de vida e instrução de costumes, mas não os aplica para estabelecer doutrinas” (VI Artigo de Religião). Algumas Províncias da Comunhão Anglicana os põe no Lecionário, mas, após a leitura em público não se diz: “Palavra do Senhor”, mas, “Aqui termina a Lição” ou “Aqui termina a Leitura”.

 

A Igreja, iluminada pelo Espírito Santo, e tomando decisões baseadas em critérios, como antiguidade, coerência e consenso, estabeleceu o Cânon do Novo Testamento, de 27 Livros, acatados por toda a Cristandade: Oriental, Ocidental e Reformada.

 

Em seu Rito de Ordenação, o Anglicanismo requer dos seus ministros a crença nas Escrituras Canônicas do Antigo e do Novo Testamento como a Palavra de Deus, e que nelas se contêm todas as coisas necessárias para a salvação.

 

A Bíblia, apesar de escassa e em língua latina (com um povo de maioria analfabeta) esteve presente e foi reverenciada nos períodos Celta e Católico Romano do Cristianismo nas Ilhas Britânicas; foi defendida, traduzida e distribuída na Pré-Reforma do século XIV por John Wycliffe e os Lolardos; e seria popularizada no vernáculo, ocupando um lugar central, a partir da Reforma do Século XVI.

 

O VI dos XXXIX Artigos de Religião expõe a posição que o Anglicanismo mantém até hoje: “As Escrituras Sagradas contêm todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar não deve ser exigido de pessoa alguma que seja crido como artigo de Fé ou julgado como exigido ou necessário para a salvação. Pelo nome de Escrituras Sagradas entendemos os Livros canônicos do Antigo e do Novo Testamentos, de cuja autoridade jamais houve qualquer dúvida na Igreja”. 

 

Esse artigo de fé é central para caracterizar o caráter também Reformado ou Protestante do Anglicanismo: a centralidade e a supremacia da Bíblia como fonte de Revelação e regra de fé e de vida.

 

Contemporaneamente, o documento conhecido como o “Quadrilátero de Lambeth”, deliberado pela Conferência de Lambeth de 1888, tem como seu item primeiro: “As Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento como contendo todas as coisas necessárias para a salvação, e como sendo a regra e o padrão último de fé”. O Arcebispo de Cantuária, Donald Coggan, afirmou: “a Bíblia é o livro através do qual, e através de nenhum outro, o Espírito de Deus fala ao homem”.

 

O Relatório da Virgínia nos diz que: “Os Anglicanos afirmam a autoridade soberana das Sagradas Escrituras como o meio através do qual Deus, pelo Espírito Santo, comunica a sua palavra à Igreja, e, conseqüentemente, capacita as pessoas a responder com compreensão e fé. As Escrituras são testemunho singularmente inspirado da revelação divina... (e) norma fundamental de fé e de vida”. Essa autoridade das Escrituras e o seu lugar singular na Doutrina Anglicana foi reafirmada por várias Conferências de Lambeth, inclusive pela última, de 1998 (Resolução III.1) e pelo Relatório de Windsor, de 2005.

 

Apesar de históricas divergências entre correntes internas do Anglicanismo sobre regras de interpretação, e da negação da visão histórica por pensadores dentro e fora do Anglicanismo, essa é a nossa posição oficial e amplamente majoritária. Concordamos com o Rev. Aquino, em sua obra Anglicanismo: Uma Introdução, quando sustenta que: “...a credenda da Igreja, o que ela crê, e a agenda da Igreja, o que ela faz, precisam basear-se na Bíblia, sob pena de transformar-se apenas em pios e infrutíferos  clubes religiosos”.

 

A Igreja Anglicana é uma Igreja Bíblica!

 

CREDOS E CONFISSÕES

Herdamos da revelação hebraica – o Antigo Testamento – a crença monoteísta, ou seja, em um só Deus, criador de todas as coisas, soberano, que se comunica, que intervém na História dos povos e dos indivíduos, que prometeu um Messias, que requer louvor e adoração, que responde às orações e que tem a proposta de um Reino.

 

Tendo que enfrentar as correntes judaizantes, a influência pagã que a cercava, e as seitas e heresias que surgiam periodicamente, com as crenças as mais exóticas, aprouve à Igreja dos primeiros séculos, reunida em Concílios e buscando a iluminação do Espírito Santo, definir o núcleo central da Doutrina cristã em documentos como o Credo Apostólico e o Credo Niceno, adotados, por séculos (salvo a cláusula filioque) por todos os ramos históricos da Cristandade, antes e depois da Reforma.

 

O segundo item do “Quadrilátero de Lambeth” afirma: “O Credo Apostólico como símbolo batismal e o Credo Niceno como declaração suficiente da fé cristã”.

 

E que doutrinas estão contidas nesses Credos?

 

O Credo Apostólico, com início no século II, e redação final no século IV, à base do sagrado depósito da fé dos Apóstolos e dos Pais Apostólicos, afirma:

  1. O monoteísmo, de um Deus criador e Todo-poderoso;
  2. O trinitarismo, do Pai, do Filho e do Espírito Santo;
  3. A encarnação e o nascimento virginal do Jesus Cristo histórico, sua crucificação, morte e sepultura sob Pôncio Pilatos (pró-consul romano na Palestina);
  4. A ressurreição e a ascensão de Jesus Cristo ao Céu;
  5. O retorno de Jesus Cristo para julgar os vivos e os mortos;
  6. A Igreja, como comunhão dos santos;
  7. A remissão dos pecados;
  8. A ressurreição do corpo;
  9. A vida eterna.

 

O Credo Niceno foi aprovado pelo Concílio de Nicéia, em 325 d.C., e revisado pelo Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., daí ser chamado de Credo Niceno-Constantinopolitano; aprofunda as doutrinas do Credo Apostólico, especialmente as duas naturezas (divina e humana) de Jesus Cristo e o papel do Espírito Santo. A expressão “e do filho” (cláusula filioque) somente foi introduzida pelo Concílio de Toledo, na Espanha, em 589 d.C., sendo uma das causas da divisão entre o Oriente e o Ocidente, e a expressão “Reconheço um só batismo para remissão de pecados” tem sido entendida como o “batismo com o Espírito Santo” que ocorre na conversão de todos os fiéis.

 

Um outro documento importante, que tem sua redação inicial no século IV e sua redação final no início do século VI foi o Credo Atanasiano, reforçando a cristologia da trindade e das duas naturezas, contra as heresias dos sabelianos, dos apolinarianos e dos arianos. Esse Credo foi estudado ao longo dos séculos, e consta como autoritativo, por quase todas as Confissões de Fé da Reforma, com exceção da Confissão de Westminster.

 

Os Credos foram usados para definir as doutrinas e para ensinar os fiéis, especialmente na preparação para o Batismo e para a Confirmação (Crisma, Profissão de Fé). Eles eram a base para os Catecismos, textos simplificados, em forma de perguntas e respostas, como instrumentos de popularização dos ensinos cristãos.

 

Os séculos XVI e XVII, com o surgimento do Protestantismo, foram marcados por um confessionalismo, a redação de Confissões de Fé, tanto por Luteranos quanto por Calvinistas (Westminster, Augsburgo, Helvética etc.), aprofundando e atualizando os Credos, com ênfases maiores na autoridade das Sagradas Escrituras e na Salvação pela Graça mediante a fé em Jesus Cristo. O Anglicanismo optou por uma Confissão mais concisa – os XXXIX Artigos de Religião – o suficiente para afirmar o seu caráter católico e reformado, o diferenciando da Igreja de Roma, dos Luteranos, dos Calvinistas e dos Anabatistas, evitando definir aspectos da fé tidos como mistério (como o significado da “presença real” de Cristo na Eucaristia).

 

Os XXXIX Artigos de Religião, de 1562, tratam, dentre outros, dos seguintes temas: Da Fé na Santíssima Trindade, da Descida de Cristo ao Hades, da Ressurreição de Cristo, do Espírito Santo, da Suficiência das Escrituras Sagradas para a Salvação, dos Credos, do Pecado Original, do Livre Arbítrio, da Justificação do Homem, das Boas Obras, das Obras de Superrogação, de Cristo único sem Pecado, do Pecado depois do Batismo, da Predestinação e Eleição, da Obtenção da Salvação Eterna Unicamente Pelo Nome de Cristo, da Igreja, da Autoridade da Igreja, da Autoridade dos Concílios Gerais, da Ministração na Igreja, da Língua Vernácula no Culto, dos Sacramentos, do Batismo, da Ceia do Senhor, da Única Oblação de Cristo Consumada na Cruz, do Casamento dos Ministros, das Tradições da Igreja, das Homilias, da Consagração de Bispos e Ministros, do Juramento de Um Cristão.

 

Embora nem todas as Províncias da Comunhão Anglicana requeiram a subscrição dos XXXIX Artigos de Religião, este se constitui no mais importante documento doutrinário do Anglicanismo, todos os documentos posteriores têm se harmonizado com ele, e sua influência se projeta no conjunto do Cristianismo: um exemplo – as Bases de Fé da maior denominação protestante do Chile, a Igreja Metodista Pentecostal, formada por 20 dos nossos 39 Artigos.

 

No campo doutrinário um lugar central é ocupado pelo Livro de Oração Comum (LOC), cuja primeira edição, compilada pelo Arcebispo de Cantuária e mártir Thomas Cranmer, é de 1552, no reinado de Eduardo VI, com revisões posteriores e, em nossos tempos, com edições próprias de cada Província. O LOC não apenas significou colocar uma liturgia simplificada e no vernáculo à disposição dos fiéis, mas representou uma peculiaridade Anglicana, que, no lugar de longas e detalhadas Confissões de Fé, como aconteceu com os outros ramos do Protestantismo, optou pelo que foi conhecido como “ex orandi, ex credendi”, ou seja: “cremos no que oramos”.

 

O Livro de Oração Comum (LOC), todo harmonizado com a Bíblia, além dos Ritos e dos 39 Artigos, contém: Orações, o Saltério, o Lecionário, o Ordinal e um Catecismo da Doutrina Cristã, extremamente didático em suas perguntas e respostas, usado para a instrução básica dos neófitos, centrado nos temas do Batismo, do Credo Apostólico, do Decálogo, da Oração do Senhor, dos Sacramentos e do Rito de Confirmação. A solidez ou a fragilidade doutrinária dos espaços anglicanos sempre esteve relacionada com a popularização ou não do uso do Livro de Oração Comum (LOC).

 

Desde o final do século XIX, a síntese doutrinária mais usada na Comunhão Anglicana tem sido o Quadrilátero de Lambeth (Bíblia, Credos, Sacramentos, Episcopado), embora a preocupação com a continuidade, a compreensão, a atualização e a vivência doutrinária tenha sempre estado presente nas Conferências de Lambeth, e em documentos dos outros Instrumentos de Comunhão (Arcebispo de Cantuária, Conselho Consultivo Anglicano e Encontro dos Primazes). Nas últimas décadas ressaltamos o valor e o conteúdo do Relatório da Virgínia e do Relatório de Windsor, com sua proposta da adoção de um Pacto Anglicano, reafirmador das doutrinas bíblicas e históricas.

 

(Continua)

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Última atualização (Seg, 31 de Janeiro de 2011 22:43)

 


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