Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (IV)
Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (IV)

Segundo Capítulo: Da Igreja da Inglaterra à Comunhão Anglicana – Parte A
INTRODUÇÃO
Terminamos o século XVII com a Reforma Inglesa consolidada, juntamente com um país independente e a monarquia parlamentarista. A velha Igreja dos Celtas, que passara por Roma, se reformara, era outra, e era a mesma, pois não houve uma ruptura ou uma refundação, mas uma Reforma. Ficaria essa experiência restrita apenas à Inglaterra? Acontece que a Inglaterra iniciava uma caminhada na direção de se transformar no maior império da História, em termos de território e de população, atingindo o seu apogeu em meados do século XIX com a rainha Vitória. Fiéis Anglicanos – funcionários civis e militares, comerciantes – iriam se fazer presente em todo o Império e em países fora do Império, onde a presença inglesa seria marcante. E Capelanias Anglicanas iriam se estabelecer nos quatro cantos do mundo, com o envio de clérigos, de início somente para atender os expatriados.
Dois episódios, contudo, seriam ainda mais marcantes para transformar uma experiência localizada em um ramo mundial do Cristianismo: a Igreja Escocesa e as Sociedades Missionárias.
ANGLICANISMO NÃO-INGLÊS
Com a independência do Reino Unido do Sacro-Império Germânico Romano, e do poder temporal do Papa, o novo país incluía a Inglaterra, Escócia, Irlanda, Gales, a Ilha de Man e as Ilhas do Canal, também chamadas de Ilhas Normandas: Jersey e Guernesey. Mas, a Igreja da Inglaterra era apenas a Igreja da Inglaterra e não a Igreja da Grã-Bretanha, porque a Igreja da Escócia (sob a influência de John Knox), como Igreja oficial, tinha optado pelo Presbiterianismo, formando com a Holanda e a Suíça, o trio de países calvinistas. Algumas Paróquias de ingleses na Escócia foram formadas sob a autoridade da Igreja da Inglaterra, mas os escoceses de origem Celta, que apoiaram a reforma inglesa, organizaram o que viria a ser a primeira Província Anglicana fora da Inglaterra: a Igreja Episcopal da Escócia, com sete Dioceses, cerca de 5% da população, com seus próprios Cânones, sob a presidência de um Primus (Arcebispo Primaz) e seu próprio Livro de Oração Comum (LOC).
Os reis ingleses seriam os reis da Escócia, do ponto de vista político, mas não seriam “Governadores e Cabeça” da Igreja Episcopal da Escócia, totalmente Anglicana e totalmente independente, reconhecendo apenas a autoridade histórica e moral do Arcebispo de Cantuária. A segunda Província também surgiria de circunstâncias históricas: os Estados Unidos da América.
O Anglicanismo estava presente naquela região desde o final do século XVI, e era oficial em várias das 13 colônias. Tivemos a Guerra pela Independência, dois séculos depois, com a derrota dos ingleses. Os norte-americanos leais à Coroa (cerca de 50 mil) se mudaram para New Brunswich, no Canadá, para continuarem como súditos britânicos. E agora, o que fazer com os Anglicanos, pois os Bispos e o Clero não mais poderiam, no Rito de suas Ordenações, jurar lealdade ao rei e às leis inglesas? Uma assembléia de Anglicanos na América elegeu o reverendo Samuel Seabury para ser o seu primeiro Bispo, fato recusado pelos bispos ingleses. A solução foi apelar para a Igreja Episcopal da Escócia. Em 14 de novembro de 1784, três bispos escoceses Sagraram Samuel Seabury como primeiro Bispo da nova Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América (PCUSA), como seria denominada a segunda Província Anglicana não-inglesa.
A Coroa inglesa havia imposto o Anglicanismo como Igreja Nacional tanto na Irlanda quanto em Gales. Acontece que na Irlanda os Anglicanos nunca passaram de 10% da população, com um norte de maioria presbiteriana e um sul de maioria católica romana. O sul se tornaria, na primeira metade do século XX, um país independente: a República da Irlanda (Eire) e o norte (Ulster) uma região autônoma do Reino Unido. Isso levou a revogação do Anglicanismo como religião oficial e a criação de uma Província Anglicana única para todo o país: a Igreja da Irlanda, sob a Sé primacial de Armagh. Em Gales, como a Escócia e Irlanda, culturalmente de origem Celta, com o avivamento Metodista, primeiro, e o secularismo, em seguida, os Anglicanos ficaram com cerca de 4% da população, renunciaram ao status de religião oficial e se organizaram em uma Província: a Igreja de Gales, com seis Dioceses.
A Igreja da Inglaterra seria a religião nacional da Inglaterra, Man, Jersey e Guernesey, e responsável pelos Capelães espalhados pelo mundo, dentro e fora do Império. A Escócia, os Estados Unidos, a Irlanda e Gales seriam Províncias Anglicanas, mas não-inglesas, com sua autonomia.
A Igreja da Inglaterra nunca organizou uma Junta de Missões Estrangeiras, para alcançar os nativos sob império ou sob outras bandeiras, e, muitas vezes, a autoridade imperial proibiu a evangelização de algumas áreas. A expansão missionária foi resultado do esforço voluntário de agências missionárias, organizadas por clérigos e leigos, porém, sob a chancela da Igreja (hoje são 14), principalmente no século XIX, sendo a mais antiga a SPG (Sociedade para a Propagação do Evangelho), depois USPG, anglo-católica, seguida da CMS (Sociedade Missionária da Igreja), e da SIM (Missão ao Interior do Sudão), evangélicas, e tantas outras, que escreveram páginas heróicas na África, Ásia, Oceania e Caribe, inclusive em áreas sob colonização francesa, belga e portuguesa, ou em países independentes, como a China.
CRIANDO UMA COMUNHÃO: A EXPANSÃO MUNDIAL
O Anglicanismo, de forma paradoxal, é antigo e muito novo. É antigo porque é herdeiro de dois mil anos do Cristianismo Celta nas Ilhas Britânicas. É novo porque sua organização internacional tem pouco mais de um século.
Do século XVI ao século XIX havia a – reformada e estatal – Igreja da Inglaterra, a Igreja Episcopal da Escócia e a Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos, cada um vivendo a sua vida, centrada nas suas Dioceses, com seus Bispos, seus Livros de Oração Comum (LOC), seus Cânones, seu Clero, suas Paróquias e seus fiéis. O Episcopado era quase-monárquico e os Sínodos compostos apenas pelos Bispos. Com a Convenção Geral da PCUSA e o Sínodo Geral da Escócia, se vai introduzindo a representação do clero e do laicato, na direção da sinodalidade, segundo as heranças das Igrejas do Oriente e dos outros ramos reformados.
O Arcebispo de Cantuária presidia a província interna (com p minúsculo) de Cantuária (sul e centro da Inglaterra), enquanto o Arcebispo de York presidia a província de York (região norte da Inglaterra), ambos – juntamente com os titulares das Sés mais antigas – integrando a Câmara dos Lordes. Apenas no século XX foi criado um Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra, para ambas as províncias internas, com o Arcebispo de Cantuária como presidente e o Arcebispo de York como vice-presidente. Enquanto isso, os Capelães no exterior se subordinavam ao Bispo de Londres (terceira figura na hierarquia anglicana). Ser Anglicano, então, era partilhar de uma herança e reconhecer o Arcebispo de Cantuária como representante simbólico de unidade e identidade.
O termo “Comunhão Anglicana” somente passou a ser usado a partir de 1850.
Um conflito entre Bispos na África do Sul (então colônia inglesa) convenceu o Arcebispo de Cantuária de então, Charles Longley, de convidar os demais Bispos do mundo Anglicano (que não eram muitos) para uma consulta no Palácio de Lambeth, sua residência oficial (que não fica em Cantuária, condado de Kent, onde ele tem um apartamento no "Palácio Velho”, mas em Londres), quando poderiam trocar informações e idéias sobre aquela situação e sobre o panorama geral da Igreja. Isso veio a ocorrer em 1867, com a presença de apenas 76 bispos, a ausência do Arcebispo de York, e a crítica impiedosa da imprensa inglesa, que achava ser aquela reunião uma perda de tempo, um “chá de bispos...”.
Novas reuniões se repetiram a partir de 1878, a cada década, nos anos terminados em 8, e sempre a convite do Arcebispo de Cantuária, agindo como um “primus inter pares”, com uma adesão cada vez maior de Bispos, que perceberam a sua importância, passando a ser denominadas de “Conferências de Lambeth”, tida, com o lado do Arcebispo de Cantuária, como mais um Instrumento de Unidade da nascente Comunhão Anglicana.
As Conferências de Lambeth nunca foram consideradas um Sínodo ou um Concílio, com poder para emitir decretos, pelo fato de a Comunhão Anglicana não ter jurisdição sobre as Províncias e Dioceses, autônomas e interdependentes, mas, como fórum maior e principal as suas Resoluções passaram a ter um grande peso moral, e dar as coordenadas da vida da instituição, além do valor dos textos teológicos e éticos por elas produzidos, que constituem em um acervo docente de inestimável valor no conjunto da Cristandade.
Nas primeiras décadas do século XX, vários dos antigos “Domínios” britânicos se tornaram países independentes, e as suas Igrejas Anglicanas se reuniram em novas Províncias: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul. Depois da Segunda Guerra Mundial, o processo de descolonização foi estendido aos países da África, Ásia, Oceania e Caribe, multiplicando-se o número de Dioceses e surgindo novas (e, inicialmente, imensas) Províncias. Depois da descolonização, com um clero nativo e um forte processo de inculturação, se verificou uma verdadeira “explosão” no crescimento Anglicano, particularmente na África, sendo hoje a Nigéria a maior Província em número de membros.
A consciência de ser minoria divididas e fragilizadas em países solidamente hinduístas, budistas ou islâmicos, e a influência do Movimento Ecumênico, levou denominações asiáticas a um busca orgânica e institucional pela unidade. Anglicanos, Metodistas, Presbiterianos e Congregacionais se fundiram nas Igrejas Unidas: Sul da Índia, Paquistão e Bangladesh. Somem-se, também, Luteranos, Batistas e Irmãos Livres na Igreja Unida do Norte da Índia. Todas adotaram o Episcopado Histórico, e, uma vez consolidadas, se filiaram à Comunhão Anglicana. Os seus Primazes são chamados de Moderadores (tradição presbiteriana).
Na China, com a Revolução Comunista, em 1948, todas as denominações protestantes foram forçadas a se integrarem em uma única Igreja pós-denominacional: O Conselho Cristão/Movimento Patriótico dos Três Autos (auto-governo, auto-sustento, auto-propagação), os bispos, clero, fiéis e instituições da então Igreja Anglicana deram uma grande contribuição para a nova entidade. Continua a haver a Diocese Anglicana em Taiwan (ligada à TEC), enquanto Hong Kong (com Macau) formam a mais nova Província da Comunhão Anglicana.
Dois outros países, com história própria, que vieram a se integrar ao Anglicanismo foram: Portugal e Espanha. Ali, depois do Concílio Vaticano I (1870) da Igreja de Roma, e o decreto da infalibilidade papal, em movimento simultâneo aos Vétero-Católicos, sacerdotes e leigos procuram criar uma Igreja Católica, reformada e nacional, resgatando as tradições autonomistas celtas havidas séculos antes (o “rito mossáribe”, na Espanha; o Concílio de Elvira, em Portugal). O resultado foi a fundação da Igreja Episcopal Reformada Espanhola e da Igreja Lusitana – Católica, Apostólica, Evangélica, que não receberam apoio da Inglaterra, tiveram seus primeiros bispos, finalmente, Sagrados pelo Episcopado da Igreja da Irlanda, sendo aceitos, na segunda metade do século XX, como Dioceses Extra-Territoriais à Sé de Cantuária.
A América Latina, embora tendo Capelanias em quase todos os países, desde o início do século XIX (a maioria sob a autoridade do Bispo das Malvinas/Falkland), foi o continente onde a evangelização anglicana foi mais tardia e mais débil. Em parte isso se deve à decisão da primeira Conferência Missionária, realizada em Edimburgo, na Escócia, que exclui nosso continente, considerado já um “continente cristão” (desconhecendo o caráter nominal e/ou sincrético de nossas massas). Uma minoria inconformada foi responsável pelo Congresso do Panamá, de 1916. No caso do Anglicanismo, este somente deveria existir para servir cidadãos estrangeiros ou, como aconteceu, posteriormente (Argentina, Chile, Paraguai etc.) para a evangelização de tribos ameríndias. O quadro começou a mudar mais significativamente na segunda metade do século XX, e hoje já temos (mesmo numericamente pouco expressivas) Dioceses Anglicanas em todos os países da América Latina.
(Continua Capítulo 2)
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Última atualização (Sáb, 29 de Janeiro de 2011 08:29)
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