Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (II)
Série: “Anglicanismo: Identidade, Relevância, Desafios” (II)

Primeiro Capítulo: Uma História em Comum – Parte A
INTRODUÇÃO
A origem da Igreja está na pessoa histórica de Jesus Cristo, o Messias prometido a Israel para as nações. A base fundacional da Igreja está na “pedra” (afirmativa): “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16), expressada por Pedro, representando o pensamento coletivo do Colégio Apostólico. Sobre essa “pedra” (afirmativa) Ele edificaria a Sua Igreja: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” (Mt 16:18). Após a sua vitoriosa ressurreição, Ele soprou sobre os discípulos, dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20:22). Esse Consolador prometido – Terceira Pessoa da Santíssima Trindade – seria derramado sobre os discípulos atemorizados no Dia do Pentecostes, dando início à Igreja. Cristo é o fundamento, e os Apóstolos os seus instrumentos de expansão, desde Jerusalém até “os confins da terra” (At 1:8). Os Apóstolos conviveram com o Senhor por três anos, foram testemunhas da Ressurreição (Lc 24:48; At 2:32), e receberam a tarefa de dar continuidade à obra do Senhor (Mt 10:5-14; Mt 28:18-20; Lc 9:1-6).
Os Apóstolos se espalharam por diversas regiões, estabeleceram centros de irradiação do Evangelho em cidades-chaves, as Sés, ou sedes, lugar das cátedras, do ensino: as Catedrais. São Marcos, por exemplo, inicia a Igreja de Alexandria, no Egito, de onde descende hoje a Igreja Copta, e as Igrejas da Etiópia e da Eritréia, no Leste da África. São Tomé evangeliza em Antioquia, e, segundo a tradição, chega à Índia. Dele descende hoje as Igrejas Ortodoxas Antioquinas, Sirianas e Mar Thoma. A primeira fase de expansão foi no Oriente. As Igrejas Orientais são as primeiras, as mais antigas. Não havia uma autoridade central, mas a instituição se baseava na colegialidade dos bispos, metropolitas ou arcebispos (cidades principais) e patriarcas, reunidos em Concílio, os chamados “Concílios da Igreja Indivisa”.
Os discípulos dos Apóstolos foram chamados de Pais Apostólicos, e os discípulos destes de Pais da Igreja. Muitos foram Mestres e muitos foram Mártires. Essa Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica estabeleceu o Cânon (lista oficial) do Novo Testamento, as doutrinas nucleares, nos Credos Apostólico e Niceno, o reconhecimento dos dois Sacramentos instituídos pelo próprio Cristo: o Batismo e a Eucaristia, os primeiros ritos e o estabelecimento universal do Episcopado como forma de governo eclesiástico, com os Bispos sucedendo os apóstolos, ao lado das ordens dos Presbíteros e dos Diáconos. Os Bispos ou eram missionários pioneiros ou eram superintendentes de uma região (Diocese). Os Presbíteros pastoreavam as comunidades locais (Paróquias), sob a autoridade do Bispo, e auxiliados pelos Diáconos (estes voltados prioritariamente para o serviço).
Diferenças culturais, e de aspectos secundários da doutrina, dividiram os cristãos do Oriente em:
a) Bizantinos (a maioria) sob a liderança espiritual do Patriarca de Constantinopla (hoje Istambul, na Turquia);
b)Os Pré-Efesianos, ou Nestorianos, que chegaram junto até o Concílio de Éfeso (431): Igreja Assíria do Leste, que, em seu apogeu, teve 400 Dioceses;
c) Os Pré-Calcedônicos, que não incorporaram as decisões do Concílio de Calcedônia (realizado entre 8 de Outubro e 1 de Novembro de 451): Igrejas Siriana, Armênia, Copta, Etíope, Mar Thoma (da Índia). Algumas outras Igrejas orientais, como a Maronita, a Melquita e a Caldéia, séculos depois, se uniriam à Igreja de Roma, mantendo a sua autonomia, e são denominadas de “Uniatas”.
Uma rivalidade maior se estabeleceu entre as Igrejas das duas capitais imperiais: Constantinopla (depois chamada de Bizâncio), capital do Império Romano do Oriente, e Roma, capital do Império Romano do Ocidente, a primeira de cultura grega e a segunda de cultura latina. O Império Romano do Ocidente foi destruído pelos povos ditos “bárbaros” no século V, concorrendo para o fortalecimento da Igreja de Roma como força cultural, moral e espiritual re-aglutinadora, do que seria depois (com hegemonia germânica) denominado de Sacro-Império Germânico Romano, dando lugar ao papado como poder político. O Império Romano do Oriente subsistiu por mais mil anos, até o século XV, com os imperadores mais fortes que os patriarcas, em um sistema conhecido como césaro-papismo.
Um conflito entre o Ocidente e o Oriente se deu em razão da “cláusula filioque” no Credo.
No Oriente, a versão original dizia que o Espírito Santo procede do Pai. No Ocidente, posteriormente, foi acrescentado “e do Filho” (filioque). O Bispo de Roma nunca foi aceito como chefe pelos bispos e patriarcas de todas as Igrejas orientais por muitos séculos, mas recebia honorificamente um “primado de honra”, por ser o Bispo da antiga capital. Seu papel não era maior do que o do Arcebispo de Cantuária hoje, entre os Anglicanos.
A história difundida no Ocidente até os nossos dias, de que a Igreja de Roma é a Igreja Original, fundada por Cristo em Pedro, e que todas as outras se separaram dela, não se sustenta pelas evidências históricas científicas, e nunca foi aceita pelas Igrejas do Oriente.
Para os historiadores das Igrejas orientais, o Bispo de Roma, Patriarca do Ocidente, é que se separou dos seus irmãos, não apenas por razões culturais ou doutrinárias menores, mas por sua pretensão de ser “a” Igreja e ele “o” “Vigário de Cristo”. Lamentamos que a História da Igreja sob uma perspectiva dos seus ramos orientais tão antigos seja, em geral, desconhecida no Ocidente, e que seminários reformados continuem ensinando a mais do que questionável versão romana.
Em resumo: a Igreja é fundada por Jesus Cristo, sobre o seu messiado, pelo poder do Espírito Santo, sob a autoridade dos Apóstolos, e dos seus sucessores, os Bispos, com a doutrina definida nos Credos deliberados pelos Concílios da Igreja Indivisa.
OS ANGLICANOS
Os Anglicanos formam o ramo do Cristianismo Histórico que têm suas raízes na Grã-Bretanha, onde se situa a Inglaterra, cuja região central é denominada de Anglia, a terra dos anglos. A Grã-Bretanha também inclui a Escócia, Gales, Irlanda e a Ilha de Man. A Inglaterra (terra dos anglos) foi conquistada pelo imperador Júlio César no ano 55 a.C., mas Roma levou um século para dominar toda a Grã-Bretanha, com suas colônias, estabelecimentos militares e entrepostos militares, em uma era de prosperidade, que durou três séculos. A Irlanda, a Escócia, Gales, a Ilha de Man e o norte da Inglaterra passaram a ser habitados, permanentemente, pelo povo Celta, originário da Bulgária, no leste, e que se expandiu por toda a Europa, fincando raízes nas Gálias (França), Península Ibérica e Ilhas Britânicas. O sul da Inglaterra conheceu sucessivas levas de invasores.
Podemos dividir a História da Igreja na Ilhas Britânicas em três fases:
1. A Fase Celta;
2. A Fase Católico-Romana;
3. A Fase Reformada.
A FASE CELTA (Séculos I ao VII)
Não houve nenhum esforço missionário formal, nem das Igrejas do Oriente, nem da Igreja do Ocidente, para evangelizar as Ilhas Britânicas. Ela foi o resultado do esforço dos leigos. Soldados, funcionários civis e comerciantes cristãos romanos levaram o Evangelho para aquelas ilhas. Também, no ano 70 d.C., dentre os escravos perseguidos nas Gálias (França) que fugiram para o litoral inglês, estavam grupos de cristãos. Uma tradição atribui à presença de José de Arimatéia, no primeiro século. Há sítios arqueológicos desse período, como uma Capela em Kent, uma Igreja em Silchester e a presença, em vários lugares, de símbolos cristãos, como o XP. Tertuliano afirma a existência da comunidade cristã britânica no ano 200. Três bispos ingleses estiveram presentes ao Concílio de Arles, no sul da França, em 314. Não se sabe se estiveram no Concílio de Nicéia (325), mas Atanásio informa que a Igreja inglesa se submeteu às suas deliberações.
A realidade é que o povo Celta se converteu ao Cristianismo, e teve o seu primeiro mártir na pessoa de Santo Albano, sacerdote morto durante a perseguição do imperador Diocleciano (305). A Irlanda foi marcada pelo ministério de Patrício e Paládio, a Escócia pelo ministério de Nínian e Columba, e Gales pelo ministério de Davi.
A Igreja Celta tinha um forte acento místico, ascético e missionário, sendo influenciado pela contemplação da Igreja Oriental, inclusive pela adoção da sua versão do Credo. Essa contemplação litúrgica, esse sentir da fé, essa valorização da natureza, a diferenciava da visão jurídica, filosófica e institucional da Cristandade euro-ocidental sob Roma. Sua unidade básica era o mosteiro, com uma área de influência, sob a autoridade de um Abade. Alguns abades eram bispos, mas a maioria dos bispos era missionária. Com essas regiões abaciais, eles não conheceram a figura da Diocese, no modelo romano.
A Igreja Celta funcionou até o século VII como um ramo autônomo do Cristianismo, se comportando como parte da Igreja Católica (universal), mas sem vínculos formais ou subordinação à Igreja de Roma.
A partir do século V as regiões sul e centro da Inglaterra foram invadidas por anglos, saxões e jutos, que a descristianizaram ou re-paganizaram. Foi por isso que o Papa Gregório Magno, decidiu enviar uma força missionária para aquelas regiões, formada por 40 monges beneditinos, sob a liderança de Agostinho, que se estabeleceram na cidade de Cantuária (Canterbury) perto do litoral. Além do objetivo de re-cristianizar a Inglaterra, aqueles monges deveriam tentar levar a Igreja Celta a se vincular a Roma, respeitando, tanto quanto o possível, os seus costumes.
Agostinho foi feito Bispo, bem como o seu companheiro Paulinus, responsável pelo batismo do rei Dewin, da Nortúmbia, e pela “conversão” da nação. Nessa época é estabelecido um importante centro monástico na ilha de Iona, sob a liderança de Santo Aidan.
O período da Igreja Celta autônoma chegou ao fim com a convocação, pelo rei Oswy, da Nortúmbia, de delegados celtas e romanos, para um Concílio na cidade de Whitby, em 664, quando os celtas aceitaram a data da Páscoa romana e se submeteram à autoridade papal, apesar de resistências de vários líderes, como São Cutberto, Bispo de Lindisfarne (uma histórica Sé celta). O Papa cria o Arcebispado de York, segundo em honra ao Arcebispado de Cantuária, e símbolo da herança celta. Não houve uma continuidade de sucessão apostólica dos bispos celtas. O Episcopado Histórico Anglicano tem início com Agostinho.
(Continua Capítulo I)
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