Apostolicae curae
Apostolicae curae
| Leão XIII |
[Em 1894, por causa, em grande parte, dos esforços de Lorde Halifax, Leão XIII nomeou uma comissão para investigar as ordens anglicanas. Alguns membros da comissão estavam convencidos de sua validade, mas uma ulterior comissão de cardeais expressou a idéia que o papa tornou pública nesta carta.]
[...] No rito da execução e administração de qualquer sacramento corretamente distinguimos entre parte cerimonial e a parte essencial, que são usualmente chamadas matéria e forma. E todos sabem que os sacramentos da nova lei, sendo sinais sensíveis e eficazes da graça invisível, devem tanto significar a graça que produzem como o efeito da graça que significam. ...Ora, as palavras que até a última geração estavam universalmente em uso pelos anglicanos, a fim de serem a forma propriamente dita da ordenação ao sacerdócio, a saber, Recebe o Espírito Santo, estão certamente longe da significação precisa da ordem do presbiterato, ou de sua graça e poder, que é especialmente o poder de consagrar e oferecer o verdadeiro corpo e sangue do Senhor naquele sacrifício que não é mera comemoração do sacrifico cumprido na cruz. Essa forma foi, é verdade, posteriormente acrescida das palavras para o ofício e a obra de um sacerdote, mas isso antes prova que os anglicanos estavam conscientes de que as primeiras palavras eram defeituosas e inadequadas. E a adição, mesmo que fosse capaz de dar a necessária significação à forma, foi introduzida muito tarde, porque um século já se escoara desde a aceitação do "Edwardian Ordinal": a hierarquia tinha terminado e já não restava nenhum poder para ordenar. Assim também no caso da consagração episcopal. Pois à fórmula Recebe o Espírito Santo as palavras para o ofício e a obra de um bispo não só foram acrescentadas muito tarde, como logo notaremos, mas uma interpretação diferente deve ser-lhes dada daquela do rito católico... Assim se chega ao resultado que, visto que o sacramento da ordenação e o verdadeiro sacerdócio cristão foram totalmente eliminados do rito anglicano e visto que na consagração dos bispos daquele rito não é conferido o sacerdócio, não pode ser conferido um verdadeiro episcopado... Com esse profundo defeito na forma coexiste um defeito de intenção, a qual também é necessária para a execução de um sacramento[i]... E assim... pronunciamos e declaramos que as ordenações feitas segundo o rito anglicanos são totalmente inválidas e inteiramente vãs.
[i] Intenção, segundo Tomás de Aquino (Summa Theologica, III,LXIV.8.10), significa que a ação de um ministro no sacramento deve estar dirigida para a produção deste sacramento; este requisito é cumprido quando ele profere as palavras que exprimem a intenção da Igreja, a não ser que abertamente queira agir jocosamente. Segundo o Concílio de Trento (sessão VII, cânon II), o requisito mínimo é que o ministro "queira fazer o que faz a Igreja". A extensão da doutrina tal como é usada na Apostolicae curae faria a "reta intenção" inclur uma fé verdadeira a respeito do sacramento, tendo assim o sabor da teoria donatista, e não encontra apoio na teologia romana anterior ao século XIX. Fonte: Documentos da Igreja, Bettenson - ASTE. Veja também: Responsio dos Arcebispos anglicanos |
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