Carta Aberta aos Primazes da Comunhão Anglicana
Carta Aberta aos Primazes da Comunhão Anglicana
| Revd Robinson Cavalcanti |
Recife, 23 de Maio de 2003.
Caros Irmãos, Nós gostaríamos de dar as boas-vindas a vocês e agradecer a atenção e a oportunidade de compartilhar com vocês alguns dos nossos problemas e sonhos. Quando eu digo “nós”, eu estou me referindo a Diocese Anglicana do Recife, com jurisdição sobre a Região Nordeste do Brasil, com seus nove Estados. Ela é a mais antiga e ao mesmo tempo a mais pobre região brasileira, com um grande número de pessoas desempregadas, analfabetas, e um nível de qualidade de vida muito baixo. Os pobres dessa Região vivem nas terras secas da zona rural e também nas favelas urbanas. No ano passado, em setembro, a nossa Diocese sofreu a triste tragédia de um cisma: o então Deão da Igreja Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, com um pequeno grupo de líderes, liderou o rebanho para fora Comunhão Anglicana. A Catedral, uma antiga capela britânica do século XIX, com mais de dois mil membros comungantes, era a maior congregação anglicana na América Latina. Os cismáticos permaneceram com as propriedades com uma decisão judicial provisória, baseada em alegações e documentos falsos. Para a imprensa e a opinião pública, o ex-Deão dizia que estava deixando a Comunhão Anglicana por causa da nomeação do Arcebispo de Cantuária, uma frouxa atitude anglicana em questões sobre sexualidade, e devido às divergências litúrgicas e disciplinares com o bispo diocesano. Todo esse discurso foi apenas uma cortina de fumaça e uma estratégia difamatória. A realidade foi que por muitos anos o ex-Deão tinha uma personalidade charmosa, narcisista e individualista, mas tinha dificuldade em se submeter às leis canônicas da Igreja e à autoridade episcopal. Por outro lado, por muitos anos nem o bispo nem o Conselho Diocesano receberam do Deão relatórios financeiros, o que se constituía uma falta de transparência e de prestação de contas. O ex-Deão e seus seguidores se juntaram à chamada “Igreja Episcopal Carismática”, com sede em San Clemente, Califórnia, USA. Ele será sagrado bispo no dia 08 de setembro de 2003. O fato é que o remanescente de aproximadamente 10% da congregação (200 pessoas), líderes chaves, liderados pelo Ministro Coadjutor, o Rev. Sérgio Andrade, permaneceram leais à Igreja Anglicana, como a verdadeira congregação da Catedral, com determinação e entusiasmo. Essa congregação está comprometida em continuar como Anglicana, com uma abordagem holística da tarefa missionária, com a posição normal de nossa política diocesana: forte em evangelismo, estudo bíblico, responsabilidade social e comprometida com um papel profético em nossa sociedade. A Catedral é formada por pessoas de classe média, localizada em uma área de classe média, apoiando projetos sociais e testemunhando o Evangelho às pessoas que são formadoras de opinião em nosso Estado e sociedade. Por um período, a congregação esteve usando o prédio de outra Paróquia, em outra área, alternando os horários de cultos com os da congregação local. Agora ela está alugando um espaço na área anterior. A congregação também sabe como a justiça do nosso país é devagar e politicamente influenciável. A decisão final da justiça sobre as propriedades da Catedral pode levar um tempo muito longo, e infelizmente cheio de incertezas. Sentimos orgulho dos nossos remanescentes. Essas pessoas estão pagando um alto preço pela fidelidade delas - tanto moral quanto materialmente - mas elas estão unidas. Em meio a esse drama, elas estão crescendo com visão e maturidade. Agora elas têm um sonho: reconstruir e rededicar um novo espaço como Igreja Catedral com uma renovada visão e objetivos renovados. Essas visões e objetivos expressam a realidade dinâmica da nossa vida diocesana: a mais jovem área e a de crescimento mais rápido, abrindo duas ou três novas congregações a cada semestre. Nos últimos seis anos, nós crescemos de 10 para mais de 40 Paróquias, Missões e Pontos Missionários, com a ordenação de quarenta sacerdotes e a instituição de cinqüenta pessoas ao ministério leigo. Nosso seminário teológico está constantemente recebendo novas vocações, com mais de oitenta estudantes, a maioria deles são profissionais graduados. A realidade é que nós não temos os recursos financeiros e de pessoal para responder aos muitos convites para abrir novas missões em muitos outros lugares. A maior parte das nossas congregações tem um projeto social e a Diocese Anglicana do Recife é muito respeitada por sua posição quanto aos direitos humanos. Brasil - como em toda a América Latina - é um imenso campo missionário. De um lado nós vemos injustiça, pobreza, corrupção, e violência; por outro, existem necessidades espirituais a serem satisfeitas. A Igreja Católica Romana, com suas raízes coloniais vem perdendo 600 mil membros a cada ano, e isso por muitos anos. Apenas 10% dos seus membros vão regularmente a missa, 50% freqüentam algum culto ou religião do tipo Vodu, e 70% dos que vão a igreja não acreditam na ressurreição, mas em reencarnação. O número de membros da Igreja Protestante cresceu muito rapidamente e hoje inclui 16% da população total do país. Religião neste país está se tornando agora muito pluralista. É neste cenário que o Anglicanismo, quando orientado pela missão, torna-se uma realidade - por sua identidade única como Católico e Protestante - assim como também tendo juntas a tradição e a moderação. A maioria de nossos novos membros vêm do secularismo, Cristianismo nominal, e cultos africanos. Da Igreja Católica Apostólica Romana, vêm pessoas da ala da Teologia da Libertação, procurando pela dimensão mística do Cristianismo. Da ala carismática da Igreja Católica, vêm pessoas procurando por uma abordagem que tenha um foco na responsabilidade social com uma voz profética na sociedade. Das Igrejas Protestantes vêm pessoas procurando por uma visão de missão holística, e ao mesmo tempo, fugindo do legalismo religioso. Nós acreditamos firmemente que o Anglicanismo tem um lugar neste País, e que este é um kairós para nós. Neste momento da vida da nossa Igreja, nós precisamos da vossa comunhão e apoio. Nós não podemos permitir que este cisma e campanha de difamação se tornem um obstáculo para a nossa vida e ministério. Reconstruir a Igreja Catedral da Santíssima Trindade, para nós, tem um forte significado. Ouçamos a voz de Deus e a voz do povo da Igreja. Que Deus abençoe vocês.
Vosso irmão em Cristo,
The Rt. Revd Robinson Cavalcanti Diocesan Bishop Recife - PE - Brasil |
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