A Crise atual na Comunhão Anglicana - O Documento de Oxford
A Crise atual na Comunhão Anglicana - O Documento de Oxford
| Quais são as Questões Eclesiásticas Envolvidas? |
Em um texto clássico de eclesiologia anglicana, O Evangelho e a Igreja Católica, o ex-Arcebispo de Cantuária, Michael Ramsey, enfatiza que a maneira como a Igreja cristã é organizada é teologicamente significativa, porque ela é a expressão visível do Evangelho. Em suas palavras: “A organização visível da Igreja, portanto, não é um assunto indiferente, antes pelo contrário, é algo de suprema importância, porque ela se relaciona com o significado mais profundo do Evangelho e do próprio Deus. Porque as Boas Novas que Deus nos tem visitado, e redimido o seu Povo, inclui a redenção do conhecimento do homem sobre a morte e a ressurreição, por meio do seu lugar em uma sociedade visível, e pela morte do eu, que cada membro do grupo tem experimentado. E, ao falarmos sobre uma sociedade visível, a organização visível da Igreja, sem dúvida, ela nos fala do Evangelho. Porque cada parte da verdadeira organização da Igreja nos traz o testemunho da família universal de Deus, e nos aponta para o evento histórico da Palavra-feito-carne. Assim, somos batizados na morte e ressurreição de Cristo, e no seu Corpo (Rm.6:3, 1 Co.12:13); a Eucaristia, semelhantemente, é um compartilhar na morte de Cristo e a integração do indivíduo no Corpo (1 Co.11:26, 1 Co.10:27); e os Apóstolos são tanto um elo com o Jesus histórico, quanto com os outros oficiais da ecclesia una, dos quais cada comunidade local depende. Por conseguinte, toda estrutura da Igreja nos fala do Evangelho; não somente por seus meios de graça e virtudes, mas também pelo fato de que ela é um organismo que proclama a verdade. Um batismo, um culto eucarístico, um apóstolo, em si mesmos, nos falam da morte e da ressurreição e do Corpo que é uno”.[i]
Desde o final do primeiro século se destaca a dupla função dos Apóstolos – as quais o Arcebispo Ramsey se refere em sua citação – que vieram a ser exercidas pelos bispos. Era a responsabilidade dos bispos a manutenção do elo com o Jesus histórico pelo assegurar que o testemunho apostólico a respeito d’Ele fosse transmitido intacto, de uma geração à próxima geração da Igreja. Esse foi um aspecto enfatizado por Irineu e Tertuliano no contexto do conflito da Igreja com o Gnosticismo. Eles apelavam para a contínua sucessão dos bispos, originada com os próprios Apóstolos, e garantida pela ortodoxia católica, antes do que pelo Gnosticismo, e que representava a forma autêntica da fé cristã.[ii] Era, também, responsabilidade dos bispos manter a unidade da Igreja. Isso significava não somente agir como foco de unidade em suas próprias igrejas (um aspecto referido repetidamente nas cartas de Inácio no segundo século)[iii], mas também, nas palavras de Ramsey, pelo agir como oficiais da ecclesia una, pelo agir como elo entre as igrejas, construindo e mantendo a unidade da Igreja Católica como um todo. O papel do bispo a esse respeito assim é explanado no relatório Bispos em Comunhão, produzido pela Câmara dos Bispos da Igreja da Inglaterra: “Em mantendo contato e comunicação com os líderes de outras comunidades de adoração, em nome do seu povo, o bispo tem sido a pessoa, em cada época, que mantém a comunidade local unida a outras comunidades cristãs. Particularmente, por meio da ordenação de diáconos e de presbíteros na ordem católica, e, especialmente, por meio da sagração de bispos. As comunidades cristãs permaneciam constantemente em contato umas com as outras por toda a Igreja. Assim, os bispos mantinham a unidade da igreja local (NT=Diocese) com todas as outras igrejas locais com as quais se mantinha em comunhão”.[iv]
Para que pudesse funcionar dessa maneira, o bispo tinha que ser aceito como um bispo da Igreja Católica pelos outros bispos. No período Patrístico esse reconhecimento tomou a forma dos outros bispos ou comparecendo pessoalmente a sagração de um novo bispo, ou expressando o seu consentimento de que ela deveria se proceder, e a ratificação da designação do bispo era feita pelo Metropolita de uma respectiva Província eclesiástica. Por exemplo, o Cânon IV do Concílio de Nicéia, em 325, declara: “É de todo modo apropriado que um bispo deva ser designado por todos os bispos da Província; mas se isso for difícil, seja por necessidade urgente ou distância, pelo menos três devem se reunir, e o sufrágio dos (bispos) ausentes também devem ser dados e comunicados por escrito, para que se proceda a ordenação. Mas, em cada Província, a ratificação do que tinha sido feito ficava a cargo do Metropolita”.[v]
Na época da Reforma, a Igreja da Inglaterra reformada, insistiu que suas ordens de ministério permanecessem aquelas que tinham existido na Igreja Católica desde o tempo dos Apóstolos. Nas famosas palavras do Prefácio ao Ordinal, a Igreja da Inglaterra cria que: “É evidente para todos os homens que lêem diligentemente as Escrituras e os autores antigos, que desde o tempo dos apóstolos tem existido essas Ordens de Ministros na Igreja de Cristo: os Bispos, os Presbíteros e os Diáconos”.
E sua intenção era que: ”...essas Ordens devem ser contínua e reverentemente usadas e estimadas”. No caso dos bispos, o que isso significava era que a Igreja da Inglaterra pretendia que os seus bispos deveriam ser bispos da Igreja Católica (“um Bispo na Igreja de Deus”, como o Ordinal no Livro de Oração Comum aponta), e no sentido de significar que isso fosse uma adesão escrupulosa aos padrões de sagração de bispos estabelecidos pelo Cânon de Nicéia. Desse modo Matthew Parker foi sagrado como o primeiro Arcebispo de Cantuária no reinado de Elizabeth I, em 17 de dezembro de 1559, por quatro bispos, e todas as sagrações subseqüentes envolveram pelo menos três bispos e o consentimento do Arcebispo de Cantuária ou de York, como Metropolitas das respectivas Províncias. A decisão da Igreja da Inglaterra do século XVI de aderir ao padrão Niceno estabeleceu um precedente que continuou a ser seguido pelas igrejas da Comunhão Anglicana. Por exemplo, o Cânon C2 dos Cânones da Igreja da Inglaterra “Da Sagração dos Bispos”, estabelece: “Nenhuma pessoa pode ser sagrada para o ofício de bispo por menos do que três bispos presentes conjuntamente e reunidos no ato de sagração, um dos quais deve ser o Arcebispo da Província ou um bispo por ele designado para representá-lo”.
Cânones semelhantes existem nas outras Províncias da Comunhão Anglicana, e a expressiva ênfase sobre a sua existência não é simplesmente uma forma arbitrária de conservadorismo eclesiológico. Precisamente, a semelhança da Reforma Inglesa, elas são uma expressão da crença que os bispos anglicanos não são apenas bispos das igrejas anglicanas locais as quais pertencem, mas bispos de toda Igreja de Deus. No atual estado de divisão da Igreja Cristã é impossível que os bispos anglicanos recebam um reconhecimento ecumênico universal (as ordens anglicanas não são reconhecidas pela Igreja Católica Romana, por exemplo), mas a maneira pelas quais os bispos anglicanos são sagrados significa assegurar que eles receberão reconhecimento das outras igrejas da Comunhão, e das outras igrejas com as quais mantêm comunhão, tais quais as Igrejas Vétero-Católicas da União de Utrech, a Igreja Independente Filipina, a Igreja Siriana Mar Thoma de Malabar, e as Igrejas Luteranas do acordo de Porvoo. Quando alguém é sagrado um bispo duas coisas têm de ocorrer para que uma sagração válida venha a ser reconhecida. Deve haver uma apropriada forma exterior. Isso quer dizer, tem que haver a imposição de mãos com a oração pelos bispos sagrantes. Deve também haver a intenção apropriada. Isso quer dizer, deverá haver a intenção de se sagrar um bispo da Igreja Católica. Isso significa que a pessoa que está sendo sagrada deva ser alguém que irá manter o ensino apostólico, agir como um foco para a unidade dentro da igreja local, e vincular a igreja local com a Igreja como um todo, da qual ela é integrante. Se for conhecido antecipadamente que alguém será incapaz de preencher esses critérios, então será impossível para aqueles que participam da sagração agirem com a intenção que isso venha a ocorrer. Em conseqüência, a sagração será inválida, devido ao que é conhecido como um “defeito de intenção”, e a pessoa que recebeu a sagração não poderá ser tida como um bispo. Por exemplo, será impossível validar a ordem de alguém que seja conhecido como um ateu, porque esses sagrantes não poderiam estar agindo com a intenção de que essa pessoa, uma vez recebendo a sagração, viesse a guardar a fé apostólica e ensiná-la assim aos outros. No caso da sagração do Cônego Gene Robinson como bispo coadjutor de New Hampshire, em 02 de novembro de 2003, pode-se argüir que havia um defeito de intenção, e que o resultado da sagração é inválido, e que Robinson não pode ser considerado um bispo. Para que se compreenda que tal é o caso, é necessário atentar para a Declaração dos Primazes da Comunhão Anglicana – incluindo o Bispo Presidente da ECUSA – Arcebispo Frank Griswold, em 16 de outubro de 2003. Eles estabeleceram que se a sagração de Gene Robinson viesse a acontecer: “...o ministério desse bispo não será reconhecido pela maioria do mundo anglicano, e muitas Províncias irão se considerar sem comunhão com a Igreja Episcopal (EUA). Isso irá esgarçar o tecido da nossa Comunhão ao seu nível mais profundo, e poderá concorrer para futuras divisões sobre esse tema e levar as Províncias a decidir, em conseqüência, se elas devam ou não permanecer em comunhão com Províncias que escolham não suspender a comunhão com a Igreja Episcopal (EUA)”.[vi]
Essa afirmação pode ser lida como uma afirmação declarativa (“o que acontecerá”) ou como uma afirmação previsiva (“o que provavelmente acontecerá”). Em qualquer dos casos, fica claro que aqueles que sagraram Gene Robinson – incluindo o Arcebispo Griswold – devem estar conscientes de que eles estavam sagrando alguém que certamente, ou muito provavelmente, seria incapaz de exercer o ministério de um bispo, por ligar a Diocese de New Hampshire e a Igreja Episcopal (EUA) com a mais ampla Comunhão Anglicana. Ao contrário, seria certo, ou muito provável, que essa sagração concorreria para romper os elos que já existiam. O que se conclui é que embora a forma da sagração de Gene Robinson fosse canônica, desde que foi designado de acordo com a Constituição da Igreja Episcopal (EUA), e sagrado por três bispos, com o consentimento do Metropolita, houve defeito de intenção, em virtude do fato de que aqueles que o sagraram não estavam agindo com expectativa razoável de que eles estivessem sagrando alguém que pudesse agir como um bispo da Igreja Católica. Daí se conclui que a sagração deve ser tida como inválida, e a Sé de New Hampshire deve ser tida como vacante. O reconhecimento de que Gene Robinson nunca foi apropriadamente sagrado sugere uma possível saída para a atual crise porque atravessa a Comunhão Anglicana, em razão das ações da Igreja Episcopal (EUA). Primeiro de tudo, isso significa que Gene Robinson não deve ser convidado para Conferência de Lambeth em 2008, desde que ele não é um bispo, e isso poderia evitar os problemas que um convite ao mesmo trariam. Em segundo lugar, com a concordância dos outros Primazes da Comunhão Anglicana, a Igreja Episcopal (EUA) poderia ser convidada pelo Arcebispo de Cantuária a preencher a Sé de New Hampshire com um bispo aceitável, e censurar aqueles bispos que estiveram envolvidos em sua sagração, sob o argumento de que eles tomaram parte em uma sagração que deveriam saber ser inválida. A falha em tomar essa ação, dentro de um tempo acordado, poderia significar um sinal de que a Igreja Episcopal (EUA) não mais se consideraria como parte da Comunhão Anglicana. As razões poderiam ser que a Igreja Episcopal tenha tomado uma ação que ela sabia que poderia levar a uma quebra de comunhão com outras igrejas da Comunhão, e teria se recusado a retificar essa situação quando lhe foi dada a oportunidade para fazê-lo, e que ela se recusou a levar em consideração as decisões acordadas coletivamente pelos bispos da Comunhão, tanto na Conferência de Lambeth de 1998 quanto nos subseqüentes Encontros dos Primazes. Como declara a Resolução 49 da Conferência de Lambeth de 1930, a Comunhão Anglicana é uma fraternidade de igrejas que: “...são mantidas juntas não por uma autoridade central legislativa e executiva, mas por mútua lealdade sustentada pelo conselho comum dos seus bispos em conferência”.[vii]
Se uma igreja decide rejeitar o conselho comum dos bispos em conferência, se depreende que ela tenha decidido agir de uma maneira que é incompatível com a lealdade mútua referida por aquela resolução. Pondo o mesmo fato em termos mais teológicos, é que a igreja se recusou a agir como uma igreja que vive de acordo com o padrão da morte e ressurreição mencionado por Ramsey, no qual cada cristão, individualmente, e cada igreja local, coletivamente, morre para os seus próprios desejos e preferências, e entra em uma nova vida que é desenhada pelas demandas próprias a um membro do Corpo de Cristo como um todo. Nessa nova maneira de vida, a independência é substituída pela interdependência[viii], e é dentro desse contexto que a questão da autonomia provincial necessita ser considerada. É verdade que a tradição anglicana tem enfatizado a importância do conceito de autonomia provincial, em resposta ao que tem sido a abordagem centralizadora da Igreja Católica Romana. Contudo, a aceitação da autonomia provincial nunca foi algo ilimitado. Por exemplo, a Resolução 48 da Conferência de Lambeth de 1930 declara que: “A Conferência afirma que a verdadeira constituição da Igreja Católica envolve o princípio da autonomia das igrejas particulares baseada em uma fé e ordem em comum”.[ix]
O que vemos nessa citação é que a afirmação da autonomia provincial é contrabalançada pelo fato de que essa autonomia tem sido a autonomia de igrejas que compartilham uma fé e uma ordem em comum. Essa fé e essa ordem em comum limitam a autonomia que essas igrejas possuem. Assim, em termos de teologia anglicana, uma Província não é livre para rejeitar a autoridade da Bíblia, ou dispensar os sacramentos dominicais, os credos católicos ou o episcopado histórico. Se assim o fizesse seria repudiar sua identidade como parte da Comunhão Anglicana. Entendimento semelhante se poderia argüir que a autonomia de uma Província anglicana não chega a ponto de tomar um curso de ação, como a sagração de um bispo abertamente homossexual, o que já tinha sido rejeitado pela Comunhão Anglicana como um todo. Assim é, porque tal ação, como já afirmamos, significaria uma recusa implícita de viver como parte da Comunhão, e, como tal, seria um exemplo do tipo de abuso de liberdade às expensas da unidade da Igreja, criticada por Paulo em várias de suas cartas.[x] Foi considerado que a Igreja Episcopal (EUA) tem repudiado sua identidade anglicana, o que permitiria à Comunhão, por meio do Encontro dos Primazes, pedir ao Arcebispo de Cantuária para que re-estabeleça a Igreja Anglicana dos Estados Unidos designando bispos para formar o núcleo de uma nova igreja que seja parte da Comunhão. Há três respostas que são comumente feitas ao tipo de crítica das ações da Igreja Episcopal (EUA) conforme delineada acima: A primeira resposta é dizer que a ameaça a unidade não foi causada pela ação da Igreja Episcopal, mas pelas outras Províncias da Comunhão, que têm sido refratárias a aceitar o que a Igreja Episcopal fez. O problema com esse argumento é que ele ignora o princípio estabelecido por Paulo, de que um cristão não é livre para encetar o curso de uma ação que julga permissível, se o curso dessa ação se tornar uma pedra de tropeço para um outro cristão.[xi] Como o professor Anthony Thiselton comentou, de acordo com Paulo: “Antes do que buscar demonstrar alguma afirmação individualista da verdade, ou mesmo da vitória, o amor busca o bem estar do outro. Assim, se ‘o forte’ expressa amor, ele demonstrará séria preocupação que ‘o fraco’ não seja precipitado em uma situação de má consciência, remorso, desconforto, ou obstáculo... Antes aquele que ama o outro irá considerar os efeitos de suas atitudes ou ações sobre os irmãos e irmãs ‘fracos’”.[xii]
O que isso significa é que o peso da responsabilidade pertence ao “forte”, e não ao “fraco”. Na presente circunstância isso significa que, mesmo que a Igreja Episcopal (EUA) acreditasse que a sagração de um homossexual praticante fosse um passo tomado teologicamente legítimo, as demandas do amor cristão significam que ela deveria se conter em fazê-lo em respeito às consciências daqueles anglicanos que não podem aceitar tal ação. A segunda resposta é dizer que é uma necessidade missiológica para a Igreja Episcopal (EUA) apoiar o ministério de homossexuais praticantes, porque somente assim agindo pode continuar a se engajar em uma efetiva ação missionária às pessoas gays e lésbicas. Há, porém, dois problemas com essa resposta: (a) Esse argumento de uma necessidade missiológica foi apresentado tanto à Conferência de Lambeth de 1998, quanto ao Encontro dos Primazes de 2003. Em ambas ocasiões a vasta maioria dos bispos presentes não achou esse argumento convincente, e, em assim sendo, seria a vez da Igreja Episcopal aceitar a decisão coletiva dos bispos a respeito do assunto, e não proceder com a sagração do Cônego Robinson. (b) Qualquer ganho missiológico nos Estados Unidos teria que ser contrabalançado pelos problemas missiológicos causados pelas ações da Igreja Episcopal na África e no Sudeste da Ásia, onde a insinuação de que os cristãos anglicanos aceitam o homossexualismo tem causado seriíssimos problemas em relação ao Islã. A responsabilidade mútua dos membros do Corpo de Cristo significa que não é legítimo buscar obter vantagens missiológicas para si mesmo às custas da missão dos cristãos no resto do mundo. A terceira resposta é dizer que, na época da Reforma, os Reformadores ingleses agiram unilateralmente na busca do que eles consideravam correto, mesmo que isso causasse danos a unidade da Igreja. Era correto para eles agir assim, do mesmo modo que seria também correto para os anglicanos de hoje seguir o seu exemplo. O problema com esse argumento é que ele passa ao largo de três pontos chaves, destacados, por exemplo, pelo bispo John Jewel em seu clássico Apologia pela Igreja da Inglaterra. O primeiro ponto que Jewel destaca é que Roma tinha quebrado a unidade da Igreja com suas inovações doutrinárias e eclesiológicas, e que a Igreja da Inglaterra tinha que restaurar a unidade com a Igreja antiga e indivisa dos primeiros séculos, livrando-se dessas inovações. O segundo ponto que Jewel destaca é que a Igreja da Inglaterra tinha que agir porque a questão central que dizia respeito a Reforma era a salvação humana, e não se podia hesitar nesse questão. O ponto final que ele faz é que não havia perspectiva realística de um Concílio da Igreja, no qual os pontos de vistas Protestantes pudessem ter uma escuta honesta, e onde uma ação unilateral fosse inevitável. No caso presente, não se aplica nenhum desses três pontos. Ninguém pode razoavelmente argüir que a posição tradicional sobre a sexualidade humana seja uma inovação que marca um desvio dos ensinamentos da Igreja indivisa. Ninguém pode pretender que a sagração de Gene Robinson seja uma matéria de salvação. Nenhuma alma estaria em perigo se ele não fosse sagrado. Finalmente, ninguém poderia pretender que os apoiadores da ordenação de clérigos gays e lésbicas não tenham tido a oportunidade de fazer sua causa ouvida nos Concílios da Comunhão Anglicana. Seus argumentos tiveram uma escuta adequada, mas foram rejeitados. Isso significa que não se pode dizer que seja uma boa analogia as ações da Igreja Episcopal (EUA) com aquelas dos Reformadores ingleses. Dado que essas respostas são inconvincentes pelas razões já expostas, o caso contra as ações da Igreja Episcopal (EUA), destacados no início deste trabalho, permanecem sólidos. Ademais, esse caso também se aplica mutatis mutandi a proposta ante o Sínodo Geral da Igreja Anglicana do Canadá, em autorizar as suas Dioceses a introduzir a benção de relacionamentos do mesmo sexo, se assim o desejarem. Tendo advertido sobre as conseqüências da sagração de Gene Robinson, o Encontro dos Primazes, reunido em outubro de 2003, destacou que “Semelhantes considerações se aplicam à presente situação pertinente a Diocese de New Westminster”.[xiii] O que isso significa é que os Primazes consideraram a decisão pela Diocese canadense de New Westminster em autorizar a benção de relacionamentos de lésbicas e de gays como representando uma ameaça semelhante a unidade da Comunhão Anglicana. Em sendo assim, qualquer decisão do Sínodo Geral canadense de autorizar bênçãos sobre uniões do mesmo sexo, lato senso, também seria uma decisão de ignorar as advertências dos Primazes, e o caráter danoso que tal decisão acarretaria. Tal decisão poderia ser constitucionalmente válida, mas nunca seria teologicamente válida, porque, como na decisão de sagrar o Cônego Robinson, seria privilegiar o exercício da autonomia sobre a manutenção da comunhão. Significaria uma recusa em morrer para o eu para viver como parte da Igreja como um todo. Caso venha o Sínodo Geral da Igreja Anglicana do Canadá decidir tomar tal ação anticatólica, seria de se requerer a sua reconsideração dentro de um período específico de tempo. Se houver recusa em assim proceder, tal seria interpretado como um sinal de que a Igreja do Canadá tem decidido se colocar fora da Comunhão Anglicana. Como sugerimos no caso da Igreja Episcopal (EUA), do Arcebispo de Cantuária poderia, então, ser requerido tomar as medidas necessárias para assegurar que a vida da Igreja Anglicana do Canadá continue, pela designação de bispos que possam formar a base de uma igreja que permaneça parte da Comunhão Anglicana.
[i] Ramsey, M, The Gospel and the Catholic Church, 2ed, London, SPCK, 1990, p.50. [ii] Irineu, Contra as Heresias III:1-4; Tertuliano, Sobre as Prescrições contra os Hereges XXXII. [iii] Inácio, Epístola aos Efésios 4-6 e Epístola aos Magnesianos 4-7. [iv] Bispos em Comunhão, London, CHP 2000, p.12. [v] Nicene and Post-Nicene Fathers 2nd série Volume XIV, Edinburgh & Grand Rapids, T&T Clarck/Eedermans, 1997, p.11. [vi] A Statement by the Primates of the Anglican Communion meeting in Lambeth Palace ACNS 3633, 16 october 2003, p.2. [vii] Coleman, R(eds) Resolutions of the Lambeth Conferences 1867-1988, Toronto, Anglican Book Centre, 1992, p.84. [viii] 1 Co 12:12-26. [ix] Ibid, p.83. [x] Rm.15:1-6, 1 Co.1:10-17, 8:1-14:38, Ef.2:1-11. [xi] Rm.14:1-15:6, 1 Co.8:1-13. [xii] Thiselton, A C, The First Epistle to the Corinthians, Gran Rapids & Carlisle, Eedermans/Paternoster 2000, pp.622-3. [xiii] A Statement of the Primates of the Anglican Communion meeting in Lambeth Palace, p.2. Equipe de Pensadores do “Anglican Mainstream”, Oxford, UK, abril de 2004. (Encaminhado à Comissão de Lambeth) (Tradução: Dom Robinson Cavalcanti) |
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