Sermão de Encerramento do Ano Acadêmico do SAET
| M.L. Marcus Throup |
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Mateus 10:5-16
“São tempos como esses, nos quais nós aprendemos a viver novamente, São tempos como esses, nos quais nós aprendemos a amar novamente”.
Não é a letra de uma música cristã, mas a letra de uma música da banda norte-americana de rock “Foo Fighters”, letra muito apropriada para o doloroso kairós pelo qual, lamentavelmente, nós estamos passando. Antes de começar a dar essa palavra, que será uma palavra dura, (embora, eu acredite que necessária), eu queria enfatizar que essa mensagem é falada em amor; pois, agora, mais do que nunca, todos nós precisamos aprender a viver novamente no Espírito Santo, e precisamos aprender a amar o próximo e a Deus, como Jesus nos amou, nos ama e sempre nos amará. Abrindo as nossas Bíblias em Mateus, capítulo 10, nós vamos nos concentrar no versículo 16: “Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas”. A cena é bastante conhecida, Jesus enviando os 12 para o campo de missões, em antecipação à Grande Comissão do capítulo 28, o grande chamado missiológico que se estende a toda Igreja em todos os tempos, inclusive a nós. Nessa primeira ação missionária, nesse primeiro gesto “formalmente” missiológico, a primeira coisa que é preciso notar é o forte contraste entre os portadores do Evangelho (os 12) e os sujeitos do mundo. Há uma chocante distinção no texto, na qual os apóstolos são descritos como ovelhas, ovelhas entre lobos – vulneráveis, ameaçados, enfim, colocados numa posição de grande risco. Evidentemente, no entendimento de Jesus, há uma dicotomia fundamental entre os seus amigos mensageiros, e os que não O conhecem. Evangelismo não será nada fácil; pelo contrário, para aqueles que pretendem anunciar as Boas Novas do Reino de Deus, será necessário entrar como ovelhas no meio dos lobos. Portanto, a respeito da missão da igreja, a rejeição e a perseguição em certos cantos não serão meras possibilidades, mas realidades garantidas, como constata Mateus.10:14, 17-18 etc.. Teoricamente e na prática, ir para o campo de missões é ir para o campo de batalha... Mas surge a pergunta: Por que é assim? Por que essa linguagem de ovelhas e lobos, essa noção de conflito, previsto e inevitável? A resposta é simples: a mesma Palavra que salva, também desafia o coração duro do ser humano; e a resposta é também cristológica, pois, Jesus vem não apenas como soter (Salvador), mas também como kurios (Senhor), que exige uma resposta de fé, fé transformadora, fé que começa com sincero arrependimento (metanoia). É o Senhor Jesus que nos desafia (sempre em amor) – “se arrependa e creia”, ou em outras palavras, Jesus encontra com o pecador e diz “seja transformado!”. É assim que Jesus nos desafia, como, nas palavras conhecidas de C.S. Lewis, “aquele interferente transcendental”, ou como, nas palavras do apóstolo Paulo endereçadas aos judeus, “uma pedra de tropeço e rocha de escândalo” (Rom. 9:33). O coração arrogante, orgulhoso do ser humano, não quer ser obediente a outro mestre – o “ego” deseja supremacia. Portanto, os portadores do Evangelho, na medida em que eles desafiam o espírito rebelde do pecador com a verdade, ocupam uma posição de grande risco; ovelhas no meio de lobos. Falando em termos bem gerais da história cristã, sabemos que a Igreja Primitiva se arriscou para Cristo. Muitos foram desafiados pelo Evangelho e muitos responderam com fé. Contudo, onde o Evangelho foi pregado com fidelidade houve perseguições e matança dos crentes, pois, as autoridades humanas se levantaram contra a Palavra que para eles, tipicamente intransigentes, auto-obcecados, e caracterizados por uma dureza de coração, era inaceitável. Um Salvador – talvez; mas, um Senhor?... Conforme o texto bíblico acima, e conforme a experiência da Igreja primitiva, um grau de conflito entre a fé cristã e a sociedade secular é normal onde a Palavra de Deus é pregada com fidelidade (ref. Mateus.10:35 etc.). É quando não existe nenhuma tensão entre os dois que nós deveríamos estar seriamente preocupados, perguntando “por quê?”. Nesses últimos dias, meus irmãos e irmãs, nós estamos vendo uma Igreja que cedeu ao movimento implacável secularista. Ao invés de amar o mundo, de falar a verdade chocante do Evangelho – “se arrependa e creia”, temos esquecido o desafio do Evangelho – temos esquecido que Jesus é Senhor (e não apenas Salvador) – onde o conceito da salvação se torna como se fosse uma “carte blanche” num antinomismo não cristão, e anticristão: queixa minha que foi registrada também na conferência de EFAC, de Limuru, ano passado. Na luz (ou sombra) dessa queda, escutem, irmãos e irmãs, essas palavras de Paul Tillich: “amor sem justiça é mero sentimentalismo”. No século 21, a Igreja corre o risco de se conformar aos padrões do mundo, ovelhas tentando negociar com lobos – (dá para ver que não dá certo, não é?!). Mas, se o Evangelho não desafia, se o Evangelho jamais requer transformação no Espírito Santo, ele não é o Evangelho do nosso Senhor, amado e conservado por cristãos por séculos. O amor e a justiça andam de mãos dadas, senão o Evangelho está perdido no caminho. Quero falar um pouco sobre o conceito mui abusado da “inclusividade”. Em primeiro lugar, uma afirmação positiva e básica: isto é, que a inclusividade indica que o Evangelho é para todos, afirmação que é verdadeira e bíblica (João 3:16). Porém, como esse conceito está distorcido atualmente! Aqui vou citar, de forma resumida, apenas 2 exemplos de uma inclusividade autêntica ensinada por Jesus, e depois consideremos como o ensinamento é distorcido:
1) Lucas 19: O publicano Zaqueu – excluído pela sociedade – aceito por Jesus. Com seu maravilhoso amor, Jesus se aproxima do pecador, rejeitado por muitos, mas incluído por Ele. Contudo – em nenhum momento há uma afirmação do pecado de Zaqueu, pelo contrário – a graça encarnada em Jesus requer uma resposta, e Zaqueu respondeu certo, desafiado pela Palavra de Jesus ele se arrepende – passa por uma transformação – restituiu àqueles que enganou e seguiu Jesus.
2) João 8 Uma mulher com problemas sérios na área da ética sexual – uma adúltera. Mais uma vez a inclusividade de Jesus quebra barreiras culturais e tabus. O Senhor não a condena, mas ama e salva a mulher. Repito – o Senhor não a condena, mas a graça requer uma resposta, o justo juiz exige transformação – v.11 “vai e não peques mais”. Novamente, em nenhum momento há qualquer afirmação do pecado da mulher, pelo contrário, Jesus manda “não peques mais”. Meus irmãos, a inclusividade tem tudo a ver com amor, com a justiça e com a graça – mas, a inclusividade evangélica não deixa de desafiar: a nossa salvação custou caro, nada menos que o sangue de Jesus, devemos lembrar disso quando confrontados com, ou até atraídos por uma suposta inclusividade que justifica o pecado, abandona a necessidade de transformação no Espírito Santo, e efetivamente cospe em cima da graça divina, tratando-a como se fosse “barata”; isto não é o Evangelho ensinado por Jesus. Na crise atual, é claro que essa mensagem tem relevância. Mas, para ser lúcido, não estou me limitando aqui ao contexto da ética sexual. Agora, mais do que nunca, estou ciente de Mateus 7:3 – cada um de nós devemos nos examinar perante Deus – quais são as áreas nas quais tenho me conformado mais ao secularismo do que a Cristo? Qual será a trave em nossos próprios olhos? Para falar mais universalmente, quero dar três exemplos de uma inclusividade distorcida: a primeira política, a segunda sociológica e a terceira teológica:
1). Inclusividade Política – Uma inclusividade política distorcida é aquela que prega um Evangelho sem desafio, que permite pastores da Igreja nos Estados Unidos apoiar o seu governo numa guerra injusta e absurda; situação tendo paralelo sinistro na véspera da primeira guerra mundial – quando os 93 intelectuais assinaram o documento apoiando Kaiser Wilhelm II, muitos dos quais sendo teólogos e líderes da Igreja nacional da Alemanha. Onde está o amor e o desafio ao pecador? Onde está a rejeição do pecado? 2). Inclusividade Sociológica – Uma inclusividade sociológica distorcida é aquela que prega um Evangelho sem desafio, o que permitia (e ainda permite) a erosão de princípios cristãos no coração do país da Inglaterra (na legislação e no lar), uma Igreja obsequia, uma Igreja que se calou quando mais precisava falar em amor. Onde está o amor e o desafio ao pecador? Onde está a rejeição do pecado?
3). Inclusividade Teológica – Uma inclusividade teológica distorcida é aquela onde o amor perde a justiça no caminho e se torna mero sentimentalismo. É o que determina o universalismo teológico de John Hick e outras liberais fundamentalistas, compatível com a filosofia pós-moderna, sim; mas, o que acontece com Jesus Cristo, então? Ele se torna apenas uma possibilidade entre outras, um caminho para salvação entre outros, e assim, os liberais efetivamente cospem em cima da cruz, reduzindo o valor daquele sacrifício “uma vez por todos, o justo pelos injustos” (1 Pedro.3:18). Onde está o amor e desafio ao pecador? Onde está a rejeição do pecado? Se esses exemplos parecem “distantes”, para trazer “mais perto de casa” (e nem falar na questão sexual), sabemos que em nossa Diocese temos pastores lutando para sobreviver, lutando para conseguir recursos financeiros para fazer a obra do Senhor, enquanto temos, por outro lado, Igrejas grandes, que poderiam ajudar, mas... Aqui encontramos uma espécie de “exclusividade”, quando precisamos mais do que nunca, incluir os nossos irmãos que estão na luta por Cristo. Meus irmãos, graças a Deus, onde o pecado abundou, a graça superabundou – podemos ter esperança, mas devemos lembrar porque podemos; devemos lembrar do preço. Vamos ser como serpentes – sábios, capazes de discernir a voz de Deus enquanto a voz do secularismo grita no nosso ouvido com tanto barulho, mas ao mesmo tempo, vamos amar de coração. Vamos ser como pombas, purificados do mal, homens e mulheres da paz, não negando que temos um problema (o pecado), mas agindo de tal maneira que a solução (Jesus) será visivelmente ativa nas nossas vidas. Oswald Spengler afirmou que: “Lutero opôs-se à igreja não porque ela exigisse demais, mas porque exigia muito pouco”. Assim nos questionamos como indivíduos e como igreja. Voltando para o início dessa mensagem. Agora, mais do que nunca, precisamos aprender a amar. Precisamos aprender a orar. Precisamos aprender a nos arriscar para Deus. Se fizermos assim, será evidente que “os portões do inferno não prevalecerão contra a igreja”. Amém!
ML. Marcus Throup |
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