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 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

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A Doutrina do Novo Nascimento na Perspectiva Anglicana

A Doutrina do Novo Nascimento na Perspectiva Anglicana

Pensamento dos Leigos


Sermão do 4° Domingo da Quaresma

Frei Ivaldo Sales da Silva, ose ( ¬)

Josué 5.9-12
Salmo 34.2-9
II Coríntios 5.16-21
Lucas: 15.1-3; 11-32

PREFAÇÃO
Este é o quarto domingo da quaresma. Para nós Anglicanos, a Quaresma tem um significado muito especial. Trata-se de um momento de profunda reflexão, memória e co-participação dos sofrimentos de Cristo que antecedem a sua morte. É, também, um momento de preparação quando Cristo vai celebrar sua última Páscoa com seus discípulos, nos quais, um deles vai traí-lo, outro vai negá-lo e todos os demais vão fugir, vão se esconder com medo dos judeus, abandonando-O diante de um julgamento injusto, com base em falsos testemunhos e um veredicto cruel: "não vejo, neste homem, nenhum motivo para que ele seja condenado", no entanto, foi julgado e condenado à morte segundo as Escrituras. Nossa cor litúrgica é a roxa, não temos nenhuma flor no altar, apenas folhagem.

Também, estamos nos preparando para a Páscoa, que significa "passagem". Na verdade, a Páscoa cristã significa passagem da escravidão do pecado para a liberdade espiritual, da morte espiritual para a vida eterna. Esta passagem no Novo testamento é compreendida pela doutrina do Novo Nascimento conforme nos ensina os evangelhos, como na referência de João 3:3: "Se alguém não nascer de novo não pode ver no reino de Deus".

INTRODUÇÃO:
O grande desafio de preparar uma mensagem é compreender o pensamento original do autor bíblico e, depois, entender como aquele texto pode ser aplicado em nosso contexto, no mundo real em que vivemos.

Ao preparar o esboço de um sermão, é recomendável ler o texto diversas vezes, para que o pensamento do autor que escreveu aquele texto possa estar claro na mente do pregador. Muitos pregadores cedem à tentação de recorrer a diversos comentários bíblicos, às vezes, até mesmo antes de ler o texto no qual vai preparar o sermão.

Quando o nosso Reitor, Rev. Quintino Orengo, me solicitou no domingo passado, para pregar hoje, desde então, venho lendo diversas vezes os textos bíblicos e todo o seu contexto para somente depois esboçar este sermão, e recorrer a outros autores que não os escritores bíblicos. Porque pregar é uma responsabilidade muito grande. Não se pode pregar o que não se compreende e não se vive. E para pregar, é preciso sentir na prática, isto é, na vida do pregador o que este sermão pode resultar na vida de seus ouvintes. Porque se o pregador prega e nada acontece, como alguém já ensinou, simplesmente o sermão evapora. Porque o objetivo é "edificar", o que se exige mudança de comportamento e crescimento em direção à estatura de Cristo.

E como Anglicanos reformados, eu entendo que temos uma responsabilidade muito grande também na área acadêmica, isto é, com a hermenêutica, com a exegese, com a metodologia e com a homilética. Se desejamos ser relevantes em nossos dias com a mensagem que Cristo nos confiou, se queremos uma igreja forte e sadia em sua teologia, em sua santidade, em sua comunhão e, em seu serviço de culto vivo, culto que agrada ao Senhor da Igreja, devemos nos esforçar para levar esta tarefa com seriedade, comprometidos com a Palavra da verdade, com o evangelho da liberdade, do poder e do amor.

Agradeço ao Rev. Quintino o amável convite para partilhar algumas idéias bíblicas que o Senhor nos ajudou a refletir durante esta quarta semana da Quaresma. E que, com a ajuda do Senhor, compreendo que é isto o que devo pregar nesta noite.

Gostaria de dizer também que eu gosto de teologia. Sou muito fascinado por ela. Gosto de me esforçar em fazer teologia. Gosto de ler teólogos sérios como: o apóstolo São Paulo, Santo Agostinho e João Calvino. Gosto, principalmente, dos contemporâneos: John Stott, Francis Schaeffer, Michael Green, Anthony Hoekema entre outros e outras.

A minha caminhada teológica recebeu muita influência destes teólogos. Mas principalmente do Dr. Francis A. Schaeffer. Ele nos ensina, por exemplo, que a salvação pode ser compreendida sob três aspectos distintos:

  • O aspecto da Justificação: está no tempo passado, quando aceitei a Cristo e Deus me declarou justificado de uma vez por todas;
     
  • O aspecto da Santificação: está no tempo presente, quando eu passo a viver como nova criatura, momento a momento, em novidade de vida;
     
  • E o aspecto da Glorificação: está no tempo futuro. Cristo virá nos buscar para um encontro glorioso com Ele e com todos aqueles irmãos e irmãs que já partiram e que já estão com Ele.

As leituras propostas em nosso LOC – Livro de Oração Comum, também nos sugerem esta linha de raciocínio. É interessante, ainda observar, como o teólogo Anthony Hoekema, a quem conheci pessoalmente numa semana teológica na Primeira Igreja Presbiteriana do Recife, e ex-professor de Teologia Sistemática do Calvin Theological Seminary, nos Estados Unidos, segue a mesma metodologia doutrinária para compreendermos a salvação de Deus ao escrever sua famosa trilogia: "Criados à Imagem de Deus"; "Salvos pela Graça"; e, "A Bíblia e o Futuro". Por favor, se tiverem a oportunidade de ler estes três livros, façam isso. Estão traduzidos em língua portuguesa pela Editora Cultura Cristã.

Agora, vejamos nos textos que acabamos de ler, as lições principais para nossa vida cristã, nesta noite:

  • Crermos que Deus é fiel em todas as promessas que fez segundo as Escrituras, e por isso, nenhuma delas podem ser frustradas;
     
  • Percebermos a necessidade de estabelecer metas e cumpri-las, se desejamos alcançar algum propósito de vida;
     
  • Entendermos que o pecado é uma coisa terrível e grave, e que suas conseqüências nos afastam de Deus e infelicita nossas almas, enfraquecendo nossa espiritualidade;
     
  • Decidirmos abandonar a vida de pecado, pois quem vive na prática do pecado não pode agradar a Deus;
     
  • Compreendermos que existe uma luta espiritual que é real, que precisamos estar atentos contra as tentações que nos advém através da carne, do mundo e do diabo.

Geralmente quando ouvimos falar de Josué, ele se nos apresenta um homem "forte e corajoso". E de fato ele é. E é assim que a Bíblia nos apresenta este homem, sem querer ter a intenção de ser um super-homem da fé, com uma super espiritualidade, mas de um homem que simplesmente aprendeu a amar e a obedecer a Deus. Porque foram as suas qualidades que o levou a ser o sucessor de Moisés: sua fé e sua disposição em obedecer ao Senhor. Josué era da tribo de Efraim (I Crôn 7.27), e nasceu durante a caminhada e fuga da escravidão do Egito, no deserto. Seu nome em hebraico, Josué, é o equivalente a Jesus, no grego. Ele testemunhou da confiança que Moises tinha em Deus, pois via como Deus o amava e cuidava dele, especialmente em face a tantas dificuldades que Moisés enfrentou para libertar o povo e conduzi-lo até as proximidades da terra prometida. Agora, cabia a Josué a grande tarefa de dar continuidade ao trabalho iniciado por Moisés, de conquistar Canaã. Mas, antes de entrar em Jericó, ele deveria circuncidar os crentes que ainda não haviam sido circuncidados.

A circuncisão era uma exigência da lei na Antiga Aliança, como sinal que acompanhava o povo de Deus. Esta circuncisão equivalia ao novo nascimento. Na Nova Aliança, Cristo é a nossa circuncisão, como expressou o apóstolo Paulo: "Nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne" (Filipenses 3.3).

Quer dizer, ela não tem mais valor em termos de cerimonial, porém, tem o seu valor em termos de saúde pública, porque, para o povo judeu, a vida era integrada; a vida pública era regida pela Torah. Segundo o shamã (Dt 6.4), "ouça Israel: O SENHOR, o nosso Deus, é o único SENHOR", El'lhoim se apresentava como Senhor de todas as coisas, não havia separação da vida espiritual e da vida material. Por isso que o salmista dizia "bendita a nação cujo Deus é o Senhor" com referência a Israel. Mas, é preciso entender que um sistema teocrático (governo de Deus), não se aplica ao Brasil – como já esclareceu o nosso bispo em um de seus artigos da Revista ULTIMATO.

E para nós, povo da Nova Aliança, nossos corações é que são circuncidados por Cristo, porque na Antiga Aliança os homens eram circuncidados, as mulheres não poderiam ser. Embora a mutilação genital feminina (MGF), isto é, a circuncisão feminina, ainda é praticada por certas correntes religiosas fundamentalistas, especialmente entre alguns grupos de muçulmanos: quando um corte genital retirando a parte externa dos grandes lábios e o clitóris, é realizada até mesmo de forma muito primitiva, para impedir que as mulheres tenham prazer, especialmente numa relação sexual, bem como para desencorajá-las contra a infidelidade conjugal e a prostituição feminina, porque o tema da sexualidade em quase todos os grupos humanos é ainda tratado dentro de um sistema bastante repressor. Confiram no livro do nosso bispo Dom Robinson Cavalcanti: "Libertação e Sexualidade". Mas no caso dos homens, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda esta prática como medida preventiva contra o câncer de pênis e até mesmo para reduzir as infecções do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana).

Agora, a última geração de crentes circuncidados saiu do Egito, com suas mulheres e seus pertences, perseguidos pelos soldados de Faraó, atravessaram o Mar Vermelho, enfrentaram os perigos do deserto por 40 anos, na caminhada, muitos se casaram, tiveram filhos e filhas, envelheceram e morreram. De maneira que uma nova geração seguia a caminhada sob a liderança do jovem Josué, prosseguindo para o alvo, para a terra prometida, o prêmio da soberana vocação. Neste episódio podemos aprender as seguintes lições:

Em primeiro lugar : o povo judeu fora liberto e conduzido para aquilo que lhes estava proposto: a terra prometida. Mas, antes de entrar e ocupar a terra precisava também ser circuncidado, como sinal de intimidade com Deus, de que era o povo escolhido de Deus. Josué, ao suceder Moisés, ordena a circuncisão e depois espera o povo sarar.

Em segundo lugar : Josué celebra a Páscoa, revive a amarga experiência da escravidão no Egito. A páscoa ou "passagem" é celebrada com alegria, pois representa a libertação. Mas, também, com muita reflexão, pois rememorava as amarguras da escravidão no Egito. Ela é a nossa vida com Cristo, como Cordeiro indo ao encontro do matadouro. A páscoa não é o céu, mas a vida cristã, momento após momento aqui no mundo, até chegarmos lá. Santos no mundo real, como escreveu um puritano.

Em terceiro lugar : cessado o maná (fruto do céu), agora o povo deveria comer do fruto da terra. Está no v.12: "comeram das novidades da terra". Isto parece até soar como coisa imunda ou pecaminosa. Comeram coisas do mundo? Em teologia de missões isto se chama aculturação. Foi o que Deus, em Cristo, fez por nós: "armou sua tenda em nosso meio", "tabernaculou-se entre nós", "habitou entre nós", "fez-se um de nós", "viveu entre nós, mas sem pecado", ou, ainda, "contextualizou-se" (conf. João 1.14). Pois o que Deus santificou não deve ser tratado como imundo.

No Salmo 34.8 o rei Davi anima o povo dizendo: "Oh, provai e vede que o Senhor é bondoso!". No original, este "bondoso" pode ser compreendido como "o Senhor é uma deliciosidade". É a delícia da Páscoa, em comer e beber de Cristo, que deliciamos nossa libertação. Vamos ler este texto lindo que Cristo ensinou durante seu discurso na sinagoga de Cafarnaum?

"Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu ,nele,. Assim como o Pai , que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram (no deserto – referindo-se ao maná) e, contudo, morreram; quem comer este pão (referindo-se à sua carne) viverá eternamente." (João 6.53-58)

Portanto, meus irmãos e minhas irmãs, esta celebração pascoal é um momento de fortalecimento espiritual para enfrentar os desafios da caminhada cristã. Pois não se pode viver a vida cristã de qualquer jeito, dissolutamente, irresponsavelmente, contaminada pelos prazeres da corrupção de nossos frágeis corações. Há regras estabelecidas por Deus através de sua santa Palavra para que possamos alcançar as metas propostas e sermos bem sucedidos. Para Abraão ser uma bênção para todas as famílias da terra, deveria ser fiel ao pacto que Deus lhe havia proposto, pacto da Antiga Aliança. Josué havia usado algumas estratégias militares, enviando espias secretamente para conhecer a terra de Jericó, aproximando-se dos possíveis lugares mais vulneráveis, como entre os bêbados, os pobres e as prostitutas, "Andai e observai a terra e Jericó". E depois, ouvindo com bastante atenção seus relatórios.

Jericó, meus irmãos e minhas irmãs, representa a vida cristã. Jericó ainda não é o céu. Josué teria que enfrentar muitas aflições, atravessar o rio Jordão, derrubar as fortes muralhas de pedra que protegiam a cidade, e por detrás das muralhas estavam os soldados fortemente armados, prontos para o combate.

Numa outra ocasião, eu preguei um sermão na Igreja Metodista de Nova Descoberta sobre a vida cristã. A vida cristã como uma caminhada onde acreditamos que estamos indo para o céu, que é o ponto de chegada. Na expressão de Paulo, "não que eu o já tenha alcançado a glorificação, mas prossigo para o alvo para o soberano premio da vocação que me está proposto" (Fp 3.12). Por isso, é muito importante estabelecermos metas bem claras e objetivas para nortear nossa caminhada ao ponto onde queremos chegar.

E para seguirmos bem nesta caminhada o apóstolo Paulo nos recomenda algumas lições muito práticas:

Em primeiro lugar : ele nos apresenta a Cristo como Aquele que viveu entre nós, mas sem pecado, "Cristo não conheceu pecado". Este conhecer é relacionamento, é deixar-se ser penetrado pelo pecado. Por isso, a justiça de Deus é totalmente satisfeita com o sacrifício do Cordeiro, sem manchas, sem pecado. Conforme Isaías 53, Ele foi moído, machucado até a morte. "O caminho que nos traz a paz estava sobre o Cordeiro que foi morto". Paulo nos ensina: "se alguém está em Cristo", indicando qualquer pessoa "se alguém", qualquer um, como nas palavras de Jesus: "se alguém quer vir após mim a si mesmo se negue, dia a dia, tome a sua Cruz e siga-me". Porque Deus nos torna, em Cristo, novas criaturas, capazes de assumir o compromisso de seguir a Cristo e pagar o preço, da mesma forma como Cristo pagou o preço pelo nosso resgate, quando tomou Sua cruz e seguiu como ovelha imaculada, muda, perante os seus tosquiadores; não abriu a sua boca e foi levado para o matadouro carregando o madeiro sobre si, onde seria derramado sua alma para a salvação de todo o que n'Ele crê. Portanto, o apóstolo João disse certa vez que "se alguém diz que ama a Deus esse deve também andar assim como Cristo andou", tomando dia a dia a sua cruz, seguindo e morrendo para o mundo e ressuscitando moralmente, numa vida de santificação, em direção ao encontro com o Pai, em Sua glória celestial. Aqui está a ética da vida do cristão.

Para João Calvino, estar em Cristo implica em viver uma vida de "retidão de consciência", e não de aparência religiosa, mas de caráter em novidade de vida. Toda ostentação, a altivez e a mentira não podem ter lugar na vida daquele que está em Cristo. O apóstolo Paulo nos exorta para despirmos do velho homem e nos revestirmos do novo, que se renova. Quem está em Cristo deve despir-se da velha criatura para poder revestir-se de nova criatura conforme Colossenses 3.1-10:

"Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória. Assim, façam morrer tudo o que pertence a natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam, uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador."

Em segundo lugar: agora que já estamos em Cristo, devemos viver em novidade de vida, em santificação, honrando a Cristo em nossos corpos e almas. Porque se realmente estamos em Cristo, já fomos justificados por Deus, conforme Romanos 5.1 e 8.1, e não há mais memória das coisas do passado pecaminoso que outrora vivíamos praticando. Deus já nos declarou justificados de uma vez para todo o sempre. A justiça de Deus, talvez seja realmente a palavra mais importante que o Novo Testamento emprega para esclarecer esta nova condição de estarmos em Cristo, do grego "dikaisune" (justificação); está tudo pago, foi tudo colocado na conta de Cristo, não há mais processo tramitando no tribunal do Supremo Juiz. As provas do sacrifício de Cristo, o nosso advogado, já satisfizeram plenamente às exigências da lei de Deus, no que se refere à penalidade por nossas transgressões. De maneira que, uma vez estando nós em Cristo, não vivemos mais na prática do pecado (I João 3:9), porque quem está em Cristo tem a segurança de que "nem a morte, nem a vida, nem os anjos, ou qualquer coisa pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 8.38-39). Esse amor do Pai é o fundamento de nossa justificação, conforme João 3.16 que diz: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna".

Em terceiro lugar : é este amor que Lucas nos faz compreender, através das parábolas narradas no texto que lemos, a expressão maior de nossa condição de sermos justificados por Deus em Cristo. O amor do Pai se enche de alegria quando algo de muito bom acontece conosco, ou seja, quando somos achados pelo Pai. "Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida"; "haverá mais alegria no céu"; "Alegrem-se comigo, pois encontrei minha moeda perdida"; "da mesma forma, há alegria na presença dos anjos de Deus"; "vamos fazer uma festa e alegrar-nos".

Na parábola da ovelha perdida, por exemplo, conta-se de um pastor que cuidava de um rebanho de cem ovelhas. Todos os dias ele levava suas ovelhas para o bosque, tendo muito cuidado contra os lobos, contra os ursos, contra os perigos dos penhascos e dos espinhos. Certa vez ao retornar percebeu pela falta de uma única ovelha. Ele vai procurá-la e quando a encontra, faz uma festa muito grande e chama os amigos para celebrar com ele.

A parábola da dona de casa que perde uma dragma, equivalente a um dia de salário, descreve como aquela mulher, diligentemente, procura por sua moeda sem parar, até poder encontrar. Demonstrando, com isso, total dedicação pelo que lhe pertence e lhe custou um dia de trabalho, e que não pode ser desperdiçado. E quando encontra a dragma, chama as amigas e diz: "vinde, regozijemos, pois achei a minha moeda que estava perdida". E emocionada oferece uma festa, convidando suas amigas para celebrar, por não conseguir conter tanta alegria em encontrar sua moeda.

Na parábola do filho pródigo, um pai tinha dois filhos perdidos. Um distante e o outro perto, um perdido do lado de fora e o outro perdido do lado de dentro. O pai quando o recupera enfatiza "importa que nos alegrássemos, pois este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado". Ora, o pai se alegra por causa do seu amor de Pai, não importa o que façamos, ele nos ama muito, com um amor incondicional e ilimitado, conforme tão maravilhosamente bem comentado pelo bispo anglicano Festo Kivengere em seu agradabilíssimo livrinho editado pela Editora Betânia: "Amor Ilimitado". O amor do Pai é um amor cuja demonstração Cristo nos apresentou na cruz há mais de 2.000 anos. O Pai nos amará sempre. Não Importa o que fizemos, se um dia transgredimos os seus mandamentos, fomos infiéis, cruéis com o seu amor de Pai. Mas, quando olhamos para aquela terrível cruz da mesma maneira que os israelitas olharam para a serpente de bronze no deserto erguida entre a terra e o céu por Moisés, decididos, voltarmos para Deus, seremos regenerados de uma vez por todas, nos tornando novas criaturas pelo precioso sangue derramado por Cristo na cruz. E nunca mais Deus se lembrará do nosso passado, como em nossa oração de confissão: "esquece o que fomos, emenda o que somos e dirige o que seremos". De maneira que somos animados pelo Espírito Santo de Deus a fazer morrer a nossa velha natureza onde habita todos os frutos da carne e do pecado. Deus nos concede poder para mortificar o pecado que habita em nós e nos conduz a vivermos uma vida nova, longe do pecado, pois quem está no pecado não pode agradar a Deus. Paulo afirma estas coisas para nos fazer entender que as coisas antigas já passaram, Deus nos justificou em Cristo para vivermos a alegria da salvação que só é possível por meio da graciosa obra consumada em Cristo Jesus naquela horrível cruz ensangüentada, que dissipou as trevas de nossos corações nos conduzindo como luz para o esplendor de Sua glória celestial. Então, só nos resta vivermos com gratidão e alegria em nossas corações pela vida eterna que Ele nos deu através de Seu Filho Jesus Cristo.

E diante de tudo o que vimos e aprendemos nesta noite, com bastante alegria vamos reafirmar a nossa fé apostólica com o Credo dos Apóstolos: "Creio em Deus Pai"...

(*) Sermão entregue no dia 18 de março de 2007 na Paróquia Anglicana do Semeador.


__________________

¬ Frei Ivaldo Sales da Silva é membro da Diocese do Recife, da Ordem de Santo Estevão – ose, e Postulante ao Ministério Ordenado; é da Equipe Pastoral da Paróquia Anglicana do Semeador, no Arcediagado Norte; é Presidente do CVC – Centro de Vivência Cristã / Pró-Vida, no bairro Nova Descoberta, em Recife-PE; Capelão da ONG ASAS – Associação de Ação Solidária, onde realiza um trabalho de Assistência Social, Capelania e Psicologia nos hospitais, nos domicílios e na sede da ASAS, para portadores de HIV/AIDS, gratuita e sigilosamente, priorizando a população carente do Recife e região metropolitana.

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