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 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

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Vivendo sob o signo da Santidade

Vivendo sob o signo da Santidade

Pensamento dos Leigos


Sermão do 12° Domingo Comum – Cor Litúrgica: Verde

Frei Ivaldo Sales da Silva, ose ( ¬)

I Reis 19:9-14
Salmo 43
Gálatas 3:23-29
Lucas 9:18-24

PREFAÇÃO:
A tradição anglicana considera todos os domingos do ano dias de festas do nosso Senhor Jesus Cristo. Entretanto, o dia de hoje, 24 de junho, é um dia santificado a Deus em memória a São João Batista, o último dos profetas messiânicos, filho de Isabel e do profeta Zacarias, primo segundo de nosso Senhor Jesus Cristo, que foi martirizado barbaramente por ordem do rei Herodes, por causa do capricho de sua amante e cunhada Herodias, ao pedir "a cabeça de João Batista em um prato".

Jesus disse que entre os nascidos de mulher, ninguém se comparava a João, que foi enviado por Deus para testemunhar da verdadeira luz, que vinda ao mundo, traria luz a todo homem, a fim de que cressem por seu intermédio, na verdadeira luz. De acordo com o nosso calendário litúrgico, o 12° domingo comum tem cor litúrgica verde, embora, hoje celebramos a vida de um mártir, poderíamos estar usando também o vermelho.

E neste dia, os textos lidos nos remetem à consciência de que somos chamados à santidade com base no sacrifício único de Cristo, para nos apresentarmos em sacrifício vivo e santo, com nossas mentes transformadas para conhecermos a vontade de Deus e vivenciá-la de maneira santa, dignamente, para o seu inteiro agrado.

INTRODUÇÃO:
Em nosso último sermão, falamos em viver sob o signo do amor, com base no amor de Deus demonstrado na obra de Cristo, na cruz. E que Ele nos comprou para sermos sua Igreja; sermos uma comunidade de amor a todo custo, tanto coletivamente quanto individualmente. Hoje falaremos sobre um outro aspecto de nossa vida cristã: a santificação.

A Confissão de fé de Westminster ensina que a:

"Santificação é obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão".

E como disse nosso Bispo Diocesano, Dom Robinson Cavalcanti: "santidade tem muito a ver com nossa compreensão de Deus o Criador que é santo, perfeito, e que nos vemos essencialmente em Jesus que chamou seus seguidores nas palavras do AT a serem perfeitos e santos como Deus". E completou Dom Robinson: "mais do que chamar, Ele dá os meios para isso na presença do Espírito Santo em nossas vidas".

É importante ressaltarmos que o termo santo deve ser entendido sob dois aspectos: o primeiro aspecto vem da raiz hebraica para designar separado. Como vemos em Dn 1:8: "Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se". O segundo aspecto, também vem da raiz hebraica para designar alguém saudável, limpo, puro. No capitulo 7 do livro de Daniel, a idéia de santo nos elucida estes dois aspectos: vs. 18, 21, 25 e 27. Calvino enfatiza que "a nossa santidade emana da fonte de nossa vocação" (p.32). O cristão verdadeiro deseja ser santo, de maneira que São Paulo escreve aos irmãos de Éfeso no primeiro capitulo de sua epístola e Dom & Asaph Borba cantam em seu disco "celebraremos com júbilo": "Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo para sermos santos, e irrepreensíveis perante Ele e em amor nos predestinou para Ele para adoção e filhos, por meio de Jesus nosso Senhor....".

A idéia, portanto, é que Deus nos separou para sermos de uso exclusivo seu, para o louvor de sua glória, para vivermos para o Seu inteiro agrado.

Creio que toda Diocese do Recife, todo o povo anglicano, conhece nossa irmã Dalila. Principalmente por causa do seu zelo com a casa de Deus. Abençoada irmã Dalila e abençoado ministério do sodalício do altar em nossa cátedra (Catedral Anglicana do Bom Samaritano). Quem ainda não viu (ou ouviu) do seu cuidado em preparar a mesa da comunhão, examinar o Ciro e as velas, acendendo-as cinco minutos antes dos ofícios, examinar a credencia, os livros litúrgicos, mostradores de hinos, o cuidado com o cálice, a obréia, o vinho, a água, o lavabo, o purificador, a patena, a pala, o véu, a toalha que é o manustérgio. A forma correta em preparar a mesa para uso exclusivo do ofício, o lavar as vestimentas do altar – o véu, o purificador, o corporal, o frontal – em "separado" e nunca misturados à toalha de mesa de nossa cozinha, porque estes instrumentos são santos, isto é, separados para uso exclusivo de Deus.

Os instrumentos musicais de nossa Paróquia também foram consagrados para uso exclusivo de nossa Paróquia, e não devem ser utilizados com outra finalidade senão para adorar a Deus com dignidade. Como eu tenho sido abençoado com o testemunho de nossa Irmã Dalila. Conhecê-la ajudou-me, também, a ser mais Anglicano.

Mas, também gostaria de citar um outro exemplo sobre santidade ao Senhor. O escritor anglicano Michael Green em seu livro: A evangelização na Igreja Primitiva, relata como Pompeu no ano 63 a.C., ao invadir Jerusalém, fez questão de entrar no templo dos judeus e não somente violando o lugar santo, como penetrou no lugar santíssimo, o santo dos santos, onde a glória de Deus, a shekinah se manifestava. Pompeu queria ver o que havia lá dentro e porque se fazia tanto mistério. E quando chegou ao santo dos santos ficou muito decepcionado, porque apesar dos gritos de "sacrilégio", pensando encontrar algo extraordinário, fantástico e cheio de mistério, encontrou exatamente nada!

Mesmo assim os judeus choraram muito, cingiram-se de panos de saco a atiraram cinzas sobre suas cabeças em sinal de humilhação, porque o lugar santo fora violado, o templo deixara de ser santo por causa da presença de um homem pagão.

Mas, os romanos não podiam compreender a razão de tanta tristeza. Era absurdo e irracional que não houvesse qualquer imagem de um deus neste santuário misterioso e tão bem guardado. E esta foi uma das razões pelas quais alguns pensavam que os judeus eram ateus. Tácito escreveu que "até o santuário deles estava vazio, seus mistérios eram sem significado".

O que me faz lembrar um texto de um pastor anglicano que se encontrara com um amigo que queria conhecer sua Paróquia. No domingo, este irmão chega no templo que já estava aberto. Havia velas no altar, uma música de fundo suave e tranqüila, e um incenso aceso. O pastor estava diante do altar quando minutos depois o irmão visitante pergunta ao pastor quando começaria o culto. O pastor cordialmente olhou para o irmão com amor e um sorriso discreto respondeu: já se passaram meia hora que o ofício havia se iniciado.

Isto demonstra a incapacidade que muitas vezes temos para contemplar a presença misteriosa e santa do Deus altíssimo em nossas igrejas e em nossas vidas, e cantar: "Santo, Santo, Santo é o Senhor, dos exércitos o Rei: Sua glória enche a terra; Sua glória enche a Igreja; Sua glória enche a minha vida... Santo é o Senhor!".

Quando Elias sobe ao monte Horebe e esconde-se numa caverna para passar a noite, escondido de Acabe e Jezabel, Samuel diz:

"Eis que passava o Senhor: e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o Senhor não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranqüilo e suave. Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna, e ouve o Senhor falar com ele: Que fazes aqui, Elias?"

Não é o barulho do culto através de nossas guitarras, baterias, trompetes, contrabaixos, palmas e danças coreografadas que faz a presença de Deus se manifestar. Embora que estas coisas aconteçam não para tornar o culto mais ou menos espiritual, mas porque a presença de Deus se manifestou ali e o resultado foi um brado de alegria, júbilo, louvores, danças e tudo o mais que Ele merece e quer receber com santa dignidade. Mas é o coração quebrantado e contrito por compreender a santidade deste Deus que exige de cada um de nós uma vida santa e um culto santo.

Para vivermos sob o signo da santidade é necessário, em primeiro lugar, termos a consciência da santidade de Deus.

Todos aqueles homens e mulheres de Deus, os profetas do AT e amigos de Jesus no NT, tinham esta consciência com base na experiência real e pessoal com Deus em seu mais alto nível da Trindade e caíram de rosto em terra, quebrantados e arrependidos pela consciência de seu pecado e de sua gravidade bem como do alto preço, pago por Jesus naquela cruz da montanha no ano 33 de sua vida.

A Bíblia diz que Elias era homem semelhante a nós, sujeito às mesmas fraquezas. Deus o encontrou nas montanhas e o fez profeta, no reinado de Acabe 894- 853 a.C., em Israel. Acabe era casado com uma bruxa chamada Jezabel. Ambos fizeram o povo de Deus errar o Seu propósito que era de ser o Deus de um povo santo para construir uma nação santa. Ambos eram devotos de Baal, até lhes edificaram um templo, para prestar-lhes culto, sacrificavam até mesmo crianças vivas.

Deus chamou Elias e lhe deu a grande missão de confrontar o rei Acabe e sua rainha Jezabel. Elias amava muito a Deus e compreendia quão santo era o Deus de Israel e quão exigente era Sua vontade para que o povo se aproximasse d'Ele. Por isso vai, denuncia o pecado de Acabe e da perversa Jezabel. A experiência pessoal com Deus foi tão real e tão decisiva, que ele recebeu do Senhor o poder de fechar as janelas do céu para que não chovesse sobre a terra por três anos e meio, e isto realmente aconteceu.

Neste período, o profeta foi alimentado por corvos do ribeiro de Querite e por uma viúva pobre de Zarefete cuja panela de farinha e botija de azeite não se esvaziava por causa da ação de Deus através de Seu servo Elias.

Mais tarde, ele enfrenta 450 falsos profetas de Baal no monte Carmelo, fazendo com que fogo caísse do céu sobre o altar derrotando as falsas predições deles. Por esta razão Acabe e Jezabel em sua ira ainda mais implacável passaram a perseguir o profeta Elias, a fim de querer matá-lo, eliminando sua presença de uma vez para sempre em seu reinado.

Então ele foge para salvar a sua vida, porque Acabe e Jezabel haviam promovido o extermínio de muitos profetas do Senhor, e Elias teve medo por sua vida. E na fuga para Judá, Elias se refugia numa caverna; ele é agora um profeta marcado para morrer, por isso se exila em Berseba, tamanha era a crueldade e perversidade do rei de Israel e de sua rainha. Porém, maior ainda era a consciência e o zelo que o profeta tinha com respeito à santidade de Deus. A experiência de Elias com relação a Deus é que Ele era um "fogo consumidor". Moisés, por exemplo, quando se defronta com uma chama de fogo, no meio duma sarça, ele olhou e viu que a sarça ardia no fogo, mas não se consumia. E quando tenta se aproximar para ver de perto aquela maravilha, Deus diz: "Moisés, não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar que estais é terra santa" (Êxodo 3:5).

Experiência semelhante tem Josué no capítulo 5:13-15, diante de Deus que lhe aparece com uma espada nua. Josué se prostrou com o rosto em terra, e o adorou. Neste instante o Senhor fala a Josué: "Josué... descalça as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é santo".

Também podemos perceber esta consciência da santidade de Deus no chamado de Gideão, quando Deus lhe aparece em Ofra. Disse Gideão: "Ai de mim, Senhor Deus! Pois vi o anjo do Senhor face a face" (Jz 6:11-24).

Outra foi a experiência de Manoá e sua mulher, os pais de Sansão: "Certamente morreremos porque vimos a Deus!".

Ainda outro exemplo é a visão do profeta Isaías, quando vê o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono e os serafins clamavam uns para os outros: "Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; toda a terra está cheia da sua glória". Isaías entra em crise e diz: "Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio dum povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos" (Is 6:1,3,5).

Ainda poderíamos falar de Ezequias, Oseías, Daniel, Paulo no caminho de Damasco, João na lha de Patmos e tantos outros.

Elias foi tomado pelo poder do Deus santo e viu o fogo do céu da glória de Deus, a shekinah, descer sobre o altar e consumir todo o holocausto.

Comentando este texto alguém se expressou da seguinte maneira:

"O senhor mandou um fogo santo que queimou todo o sacrifício. Queimou toda a lenha. O fogo foi tão forte, que até mesmo queimou as pedras, e secou a água. O fogo era tão santo e tão quente que o buraco que estava cheio de água ficou completamente seco."

E a Bíblia ainda diz: "O que vendo todo o povo, caíram de rosto em terra, e adorando ao Senhor disseram: O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!".

E o rei Acabe, e sua mulher, estava também no monte Carmelo e transtornados assistiam tudo aquilo diante de seus olhos, ficando cada vez mais indignados diante do zelo pela consciência que Elias possuía com respeito à santidade de Deus.

Em segundo lugar, para vivermos sob o signo da santidade é necessário também, termos um desejo intenso de nos aproximarmos da presença da santidade de Deus.

Assim como Elias luta pela santidade do povo de Deus, desejando aproximar-se da presença do Deus que existe, do Deus que é real, infinito, mas, pessoal no mais alto nível da Trindade, os filhos de Coré cantavam: "Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levam ao teu santo monte e aos teus tabernáculos" (Sal 43:3).

Para nos aproximarmos da santidade de Deus, precisamos ter o desejo de nos aproximar de sua luz e de sua verdade. Isto vem do Salmo 119:105: "Lâmpada para os meus pés e a tua palavra e luz par os meus caminhos".

Lâmpada para mostrar o caminho onde devo pisar e luz para dar norte, direção, onde devo seguir.

Para viver sob o signo da santidade é necessário desejar despojar-me da vida de pecado. Porque o pecado faz enorme separação entre nós e o nosso Deus de maneira que este Deus santo não habita onde há pecado e o Espírito Santo não atua em vidas impuras, lamacentadas pelo pecado.

Na epístola aos Gálatas, o apóstolo nos faz compreender que fomos justificados através da obra vicária de Cristo para vivermos uma vida de santidade e de liberdade, para nos aproximar da santidade de Deus, adorando-O e servindo-O, pois o Deus santo deseja habitar no meio dos louvores da Sua Igreja. Não de qualquer igreja, mas da Igreja Santa, Una, Católica e Apostólica. Igreja onde Cristo é a pedra principal, a pedra angular e a rocha de ofensa contra a incredulidade. Por isso, devemos lutar também nós para termos esta consciência transformada e não nos conformar com as coisas do mundo, porque "santificação significa salvação do poder e da influência do pecado" (Shedd).

A exemplo da novela O PEREGRINO, de John Bunnyan, não devemos nos conformar, tomar a forma do mundo, mas resistir ao diabo e fugir de toda aparência do mal. O salmista se apresenta também aqui como peregrino exilado pelas bandas do norte, conforme II Rs 14:14, desejando retornar para o santo monte, o tabernáculo, o altar de Deus, o lugar da presença do altíssimo. E o tema que Paulo trabalha em toda sua epístola aos Gálatas é o tema da santificação, não legalista, mas baseada na obra justificadora de Cristo para nos levar ao lugar da santidade, o lugar do céu, isto é, junto a Deus. E isto não é conquistado através de nossos esforços, como nos ensina Calvino, mas com base no que Cristo fez. E segundo F. Schaeffer, não podemos nos tornar santos apenas com um estilo de vida ascética, isolado do resto do mundo, como um eremita alienado da própria vida. Por isso Paulo diz: "logo não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim (G 2:20).

Não era essa, portanto, a intenção do salmista quando expressou o seu sentimento do desejo de subir ao monte santo; ele não estava pensando em subir numa montanha e ficar sentado lá no alto, meditando, mergulhado no infinito impessoal como os monges tibetanos. O salmista desejava subir ao santo monte, aproximar-se do tabernáculo, com a ajuda da luz e da verdade de Deus, de um Deus real, pessoal e que se comunica com o salmista, com sua criação, para gozar da companhia, da presença real com Deus. O salmista desejava aproximar-se deste tabernáculo porque era ali o lugar da habitação de Deus, de forma também racional, compreensível, portanto. Disse ele:

"Eu irei ao altar de Deus que é a minha grande alegria ao som da harpa eu louvarei ao Deus real e pessoal que está presente e não está calado, este Deus que é o objeto do meu louvor e a razão da minha vida, o meu Deus em quem confio e em quem a minha alma se deleita; Ele é todo o meu prazer" (grifo meu).

Este tabernáculo onde se encontra o altar de Deus pode ser interpretado aqui, como a Casa de Deus, a Igreja de Cristo, a Paróquia Anglicana do Semeador. Todas as vezes que participamos da Eucaristia, quando o pão é levantado, nos lembramos das palavras de Cristo: "assim como Moisés levantou a serpente no deserto, importa que o Filho do Homem seja também levantado". Pois é a cruz erguida entre o céu e a terra convergindo para a nossa redenção, curando-nos de todo pecado. É o corpo de Cristo quebrado, partido, feito pelo trigo moído e triturado para nos alimentar espiritualmente; mata a nossa fome, sacia a nossa sede e nos vivifica espiritualmente, eticamente, moralmente, portanto.

E todas as vezes que o cálice do Senhor é erguido, nós olhamos e vemos o reflexo de nosso rosto, nos curvamos ante nosso pecado e o sacrifício pelo sangue que foi jorrado da cruz para nos purificar, para nos justificar de uma vez por todas, e nos santificar momento após momento. Mas a santificação aqui não é de coisas exteriores como nos ensina Paulo em Gálatas. Não se mede a santidade de ninguém através de usos e costumes. Ser santo não significa, necessariamente, não fumar, não beber, não dançar, não usar brincos, piercings ou tatuagens, cabelos compridos e barba (no caso dos homens), cabelos curtos e calça comprida (no caso das mulheres). Não é isso que Paulo fala em suas epístolas. As vestimentas das moças de Sião, por exemplo, deixavam-nas muito bonitas e elegantes, conforme Is 3:10-24; Gn 24:22,47 e 65; elas usavam enfeites de anéis nos tornozelos, toucas e ornamentos em forma de meia lua, pendentes, braceletes, véus esvoaçantes, turbantes, cadeiazinhas para os passos, cintos, caixinhas de perfumes, amuletos, sinetes, jóias pendentes no nariz, vestidos de festas, mantos, xales, bolsas, espelhos, camisas finíssimas, atavios de cabeça, véus grandes, cinta, encrespadura de cabelo, vestes suntuosas; eram cheias de formosura, de beleza e de glória, digna de uma música de Tom Jobim: "que coisa mais linda e cheia de graça". Este é um dos aspectos que precisamos refletir em nossas Igrejas: não é porque você se converteu a Cristo que agora tem de deixar de cuidar da aparência, do corpo, da beleza, dos recursos da natureza para melhorar a aparência exterior.

Muito embora Pedro advertisse que a beleza exterior não serve para esconder a falta de beleza interior, de uma mente limpa, de um coração puro, de uma conduta ética e nobre e de uma intenção honesta. Estas duas coisas podem e devem andar juntas. Beleza interior somada a beleza exterior. Nenhuma é mais importante ou primordial que a outra, apesar dos modernos conceitos de padrão de beleza que assistimos através da mídia, especialmente durante os concursos de beleza, dos desfiles de moda pelo mundo a fora. É bom vestir-se bem, andar cheiroso, ter cuidado com a pele, com o corpo. Estar junto de alguém assim é muito agradável. Igualmente é bom andar cheio do Espírito Santo, sentir o aroma de Cristo nas pessoas. Paulo sugere que o Espírito Santo foi dado aos Gálatas não pelas obras da lei, mas pela pregação da fé, para a nossa vida de fé e de santificação. E santificação aqui não está na voz passiva, mas ativa. Por isso, em suas cartas, Paulo emprega diversos verbos, como "despojando-se", "despindo-se", "abandonando", "deixando" – Rm 13:11; Ef 4:22-24; Cl 3:8-10. É muito importante compreendermos que a santidade de vida não se origina nem de uma atitude baseada em usos e costumes nem se baseia de uma atitude passiva, mas ativa. Eu decido abandonar a vida de pecado e perseguir a santificação sem a qual ninguém verá o Senhor.

Em terceiro lugar, para vivermos sob o signo da santidade é necessário ainda coragem de confessar Cristo como Senhor, com base na Sua obra vicária; o que Ele fez por nós na cruz há mais de dois mil anos, o Cordeiro de Deus oferecido sem defeito e sem mácula conforme I Pedro 1:3-23 e Malaquias 1:6-8. E o evangelista Lucas nos propõe uma atitude de obediência viva e santa, ativa, portanto: seguir os passos de Jesus como discípulos, não sentir vergonha de ser diferente do resto do mundo, porque fomos chamados à santidade. Senão vejamos:

a) Cristo, o Filho de Deus derramou seu precioso sangue para nos santificar de todo o pecado;

b) Deus, nosso Pai, nos separou para o sacrifício vivo e santo de nossas vidas para o seu inteiro agrado;

c) O Espírito Santo nos leva à comunhão com o Pai e com o Filho, e nos prepara conferindo-nos poder para o seu serviço.

Estas verdades são suficientes para nos dar força e coragem para testemunharmos de nossa fé em Jesus de forma totalmente santa. Segundo Paulo, Deus quer que sejamos santos por uma razão muito clara: ele é santo! (confira I Ts 4:3-8; Hb 12:1). Numa atitude ativa, e não passiva, devemos lutar para estar nos "desembaraçando do peso", isto é, livrando-nos do pecado que nos torna pesado, incapazes de caminhar, de seguir a Cristo, de perseguir a vida de santificação neste mundo presente, neste momento histórico de nossas vidas. É igualmente importante entendermos que a santificação não é fruto de um capricho de Deus, conforme nos ensina Moisés, mas a santificação é tanto uma exigência da Lei de Deus (Lv 20:7,8,26): "Sede santo porque eu o Senhor sou santo", como também uma exigência da graça de Deus (Lc 11:44;19:2;20:7). Porque Deus deseja se aproximar de nós, ser nosso amigo, expressar o seu amor e cuidado por nós, mesmo sendo nós imperfeitos, finitos, limitados, pecadores, portanto. E o nosso pecado impede esta aproximação, atrapalha esta comunhão, nos afasta do nosso Criador. Deus é impedido de aproximar-se de nós quando deliberadamente escolhemos viver uma vida cheia de pecado, longe de Sua presença santa.

No Antigo Testamento, Uzá, em só olhar para dentro da Arca da Aliança, foi fulminado, no tempo da Lei (Antiga Aliança), porque a Arca representava a presença gloriosa e santa do Altíssimo. E no Novo Testamento, na Igreja de Jerusalém, Ananias e Safira foram disciplinados severamente por Deus, por terem deliberadamente mentido contra o Espírito Santo, no tempo da graça (Nova Aliança). Por isso, devemos ter muito cuidado, especialmente quando estamos cantando na Igreja, se estamos cantando com os lábios e o coração longe do Senhor, de suas exigências. Parece que este é o momento quando mais mentimos na Igreja: quando estamos cantando; quando vamos entregar nossos dízimos e ofertas alçadas, com o coração amargurado, desafeiçoado com o irmão ou com a irmã. Malaquias chama isso de ofertas com defeito: "aceitaria Eu isso de vocês, diz o Senhor" (Ml 1:6-14); ou quando participamos da Ceia do Senhor indignamente: "por isso muitos estão doentes e outros morreram", afirma Paulo. (I Cor 11:30). Mas, graças a Deus por sua inesgotável misericórdia (Lm 3:22-23), e por Seu Espírito Santo que nos assiste em nossas fraquezas, como ensina o apóstolo Paulo aos Romanos.

Quero confessar que muitas vezes fico bastante triste com nossas posturas dentro da casa do Senhor: pela falta de reverência, fruto de uma débil educação e consciência da santidade e dignidade do Senhor. Pergunto agora: será que da maneira como muitas vezes nos portamos na casa de Deus realmente glorificamos o Seu nome santo? Irreverentemente, cochichando ou conversando quando o Senhor está falando durante a leitura de sua Palavra santa, na pregação, nas orações, nos louvores? Às vezes me dá a sensação que estamos no cinema ou no teatro. Vamos à Igreja quando queremos, faltamos e não damos nenhuma explicação, não respeitamos os horários, não estudamos a lição da EBD, não ensaiamos dignamente os hinos e cânticos, entramos no templo mastigando chicletes, comendo pipocas, inclinamos a cabeça no ombro do namorado ou da namorada, saímos e entramos diversas vezes no templo como se o serviço litúrgico fosse um entretenimento (Ml 1:13), e esquecemos o que o Senhor nos diz em sua Palavra: "não usarás o nome do Senhor teu Deus em vão" ou "guarda o teu pé quando entrares na casa do Senhor".

CONCLUSÃO:
Quero concluir dizendo que, viver sob o signo da santidade tem algumas implicações:

(a) Agrada a Deus: santidade está dentro do propósito de Deus para nossas vidas: "sede santos por que eu o Senhor sou santo"; "esta é a vontade de Deus, a nossa santificação"; "Deus nos escolheu em Cristo para sermos santos", e o que agrada a Deus deve nos agradar também;

(b) Livra-nos de quedas. Cada vez que me aproximo mais do Senhor, de sua santidade, conseqüentemente mais me afasto de tropeçar e de cair;

(c) Concede-nos vitórias: pois é por meio da santidade que podemos ver a Deus, receber d'Ele o seu galardão e evita viver sob correção o tempo todo (Hb 12:25; Hb 10:30,31).

Por outro lado, quanto mais perseguimos a vida de santidade mais sofremos perseguição. Porque a proposta de santificação é antagônica a proposta do mundo moderno. Por isso Paulo adverte: qualquer crente que procurar viver uma vida piedosamente santa em Cristo Jesus, será perseguido. Isto tem base no ensino de Cristo: "se me perseguiram a mim, perseguirão a vocês também; pois assim como é o Mestre será também o seu discípulo: santo" (grifo meu).

E assim como Elias desejava agradar a Deus, sendo zeloso para que o povo manifestasse a glória de Deus entre todas as nações, e Jesus conclamando-nos para testemunharmos d'Ele, com coragem diante de uma cultura nociva e uma geração que odeia a Deus pois perseguiram e mataram a Cristo e seus discípulos e profetas, esforcemo-nos para viver uma vida santa sob a égide do Espírito Santo, porque como já vimos em Malaquias, vida não santa é uma ofensa a Deus (Ml 1:6-8).

E Jesus conclui dizendo: "quem se envergonhar de mim, de viver uma vida em santidade, este não é digno de mim, não é digno de ser meu discípulo".

Vivamos, portanto, sob o signo da santidade com a ajuda do Senhor.

AMÉM!


__________________

¬ Frei Ivaldo Sales da Silva é membro da Diocese do Recife, da Ordem de Santo Estevão – ose, e Postulante ao Ministério Ordenado; é da Equipe Pastoral da Paróquia Anglicana do Semeador, no Arcediagado Norte; é Presidente do CVC – Centro de Vivência Cristã / Pró-Vida, no bairro Nova Descoberta, em Recife-PE; Capelão da ONG ASAS – Associação de Ação Solidária, onde realiza um trabalho de Assistência Social, Capelania e Psicologia nos hospitais, nos domicílios e na sede da ASAS, para portadores de HIV/AIDS, gratuita e sigilosamente, priorizando a população carente do Recife e região metropolitana.

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