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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

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Home Biblioteca Artigos de Clérigos Os cristãos e a sexualidade Humana - Uma Pastoral aos Homossexuais

Os cristãos e a sexualidade Humana - Uma Pastoral aos Homossexuais

 

Rev.Raniere Oliveira

 

INTRODUÇÃO

Talvez na história da humanidade, nenhuma outra geração tenha discutido tanto sobre a sexualidade, como a nossa. Inclusive quando se ouve reivindicações de que cada pessoa deve fazer o que achar melhor de sua vida. Isso inclui o campo da sexualidade. Daí cada um compõe sua própria “cartilha existencial” como lhe parece mais conveniente (vide o exemplo na nação de Israel em Jz.21:25).
 

Nossos ambientes sociais, como a casa, escolas, faculdades, empresas, igrejas etc.; e ainda revistas, jornais, livros e televisão nos revelam nossa saturação quanto a esse tema. Contudo, não podemos simplesmente fechar os olhos e não reconhecer que houve no século passado um forte impacto da cultura sobre o comportamento sexual, trazendo, como conseqüência, mudanças de ordem comportamental e na reformulação de uma “nova moral”.
 

Como exemplo dessa nova onda de liberalização sexual, vemos uma desproporcional exploração do corpo feminino, tornando-se uma afronta à dignidade da mulher; em que comerciais de televisão dos mais diversos artigos de consumo (como exemplo recente, as marcas de cervejas), procuram associar as formas estéticas femininas ao produto oferecido.
 

Sequer podemos ir a uma banca de revistas, ou mesmo assistir a um programa televisivo de entretenimento, sem que sejamos tomados pelos excessivos apelos visuais não só do corpo feminino, mas agora, também, do masculino. Se já não bastasse revistas pornográficas de nudez feminina, agora já se publica revistas especializadas com a nudez masculina. Isso nada tem a ver com a sexualidade e a liberdade do ser, mas a um enxurrado e danoso esquema de pornografia.
 

Contudo, não podemos negar, que somos uma geração mergulhada e preocupada com sexo, a ponto de termos uma disciplina científica para tratar e aprofundar as pesquisas nesse campo, que é a “Sexologia”, tendo, inclusive, já adquirido seu status de ciência.
 

E agora, o que nos parece, a agenda mundial não tem outra prioridade a não ser a questão homoerótica. Não se fala em outra coisa nos mais diversos segmentos jornalísticos e sociais. Dessa forma, fica evidente que nossa Igreja também resolveu atender à pressão do espírito da época, e passa a ter o seu foco de discussão na sexualidade humana, concentrada no debate da questão da homossexualidade. Mas as precipitações de algumas Dioceses em ordenar pessoas que assumidamente são praticantes do homossexualismo, nos têm levado a uma verdadeira insegurança quanto ao futuro da nossa Comunhão Anglicana, onde a grande maioria de Dioceses é contra a tal prática.
 

Com isso não quero deixar de dar importância a tal empreendimento de discussão, mas acredito que por conta de todo um consenso histórico por parte dos fiéis do passado, com uma Tradição de dois mil anos de história do Cristianismo, bem como, o ensino claro das Sagradas Escrituras, esse tema já deveria há muito estar resolvido entre nós. Torna-se necessário que façamos uma importante distinção sobre a condição homoerótica e a prática do homossexualismo. Enquanto aquela se caracteriza por inclinações, desejos e atrações de uma pessoa por outra do mesmo sexo; ainda assim, é objeto do amor de Deus tanto quanto os demais pecadores; entendemos que o mesmo deve com auxílio do Espírito Santo lutar para viver de acordo com o ideal divino, sendo acolhido por seus irmãos e irmãs na comunidade da família de Deus; enquanto que o último aspecto – o homossexualismo – tem sido condenado explicitamente ao longo da Bíblia Sagrada, e pela Tradição da Igreja, como sendo pecado, juntamente com os demais, tais quais elencados por Paulo em I Co.6:9-10 e em Gl.5:19-21, bem como, os constantes no Evangelho segundo Mc.7:21-22. Não sendo, todavia, uma lista fechada e definitiva, pois há ainda os pecados de ordem social e ecológica, entendidos pelo consenso dos fiéis cristãos atuais.
 

Entretanto, creio que na verdade, existem urgências de respostas por parte da Igreja Cristã, principalmente no campo da Bio-Ética, em que o desenvolvimento de pesquisas para a clonagem de órgãos e do próprio ser humano, urge um esforço conjunto com a Sociedade Civil, para que juntos lutemos pela preservação daquilo que entendemos ser muito mais que “embriões”, pois se configuram milagrosamente em seres humanos vivos, que estão servindo de “cobaias” nas mãos inescrupulosas de cientistas querendo ganhar milhões de dólares por suas descobertas, e ainda terem seus nomes registrados na História para as futuras gerações.
 

Todavia iremos tecer alguns comentários acerca do tema proposto, tomando-se como base principal, a Revelação de Deus à humanidade, contida nas Sagradas Escrituras, a qual nos afirma o Artigo VI dos XXXIX Artigos de Religião: “A Escritura Sagrada contêm todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma seja crido como artigo de fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação. Pelo nome de Escritura Sagrada entendemos os Livros canônicos do Velho e Novo Testamento, de cuja autoridade jamais houve qualquer dúvida na Igreja”. E que é ratificado pelo capítulo I – seção V – da Confissão de Fé de Westminster: “A autoridade da Sagrada Escritura, pela qual ela deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas única e totalmente de Deus (que é a própria verdade), que é seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus”.
 

Comentando esse capítulo da CFW, o teólogo Alexander Hodge, nos diz que a autoridade das Escrituras inspiradas não procede da Igreja, mas a autoridade da Igreja depende da autoridade da Palavra. E porque essa Escritura é autoritativa, em matéria de fé e conduta, assim como cristão e servo da família da fé, tomarei, a partir das passagens da mesma, a argumentação que prova inequivocamente que a sexualidade humana é um dom de Deus, quando obedecido os princípios básicos estabelecidos por Ele para a prática da mesma. Sem deixar de considerar o problema hermenêutico na busca da limitação e diferenciação, daquilo que devemos aceitar e interpretar como sendo fato normativo (princípios eternos), do que foi normativo apenas para uma determinada época, ou contexto cultural, tanto no Antigo Israel como nas primeiras comunidades cristãs.
 

Dois extremos, contudo, devem ser evitados na abordagem do texto bíblico: uma leitura fundamentalista, em que se procura tomar os textos ao pé da letra, e uma hermenêutica liberal, que considera a Palavra Sagrada apenas como um registro humano falível das experiências e pensamentos religiosos de um povo; trazendo para o texto uma leitura relativista, incorrendo assim na minimização do conteúdo revelacional divino. Segundo o teólogo anglicano evangélico, J. I. Packer, é a “visão que aplica ao cristianismo a impulsão iluminista da razão humana, juntamente com a pressuposição evolucionista que está em moda, de que o presente é mais sábio do que o passado. Ela chega a conclusão que a sabedoria está no mundo e a igreja deve correr atrás para se atualizar intelectualmente, a cada geração, para que possa sobreviver”.
 

Assim procuraremos fazer uma abordagem geral acerca da sexualidade humana, em seguida comentar a mesma no âmbito do Antigo e Novo Testamento; sem deixar de mencionar a recente Resolução 1.10, da Conferência de Lambeth de 1998, e o documento referente ao Encontro Extraordinário dos Primazes, ocorrido por iniciativa do Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, que, por fim, nos levará a uma proposta pastoral junto às pessoas de conduta homoerótica em nossas Paróquias.

 

I – UMA VISÃO GERAL QUANTO A SEXUALIDADE HUMANA

Segundo Dom Robinson Cavalcanti: “A sexualidade é, primariamente, um dado da natureza, um dado fundamental da constituição do ser humano. Essa dimensão instintiva tem que ser levada em conta acima de qualquer outra. É por sua sexualidade que o ser humano sobrevive e se reproduz. É por essa razão que a humanidade sobrevive e se reproduz”. (vide seu livro “Uma Bênção Chamada Sexo”)
 

Isso inclusive se torna mais completo e real, quando se valoriza o “senso sexual”, ou seja, o “Eros” como expressão do apreciar, sentir, perceber e se relacionar na diferença sexual do outro. Nesse sentido, podemos dizer que a sexualidade está no âmago do ser humano, é básico e, portanto, algo que lhe é intrínseco. Assim em sentido amplo, a sexualidade compreende “as características físicas e psíquicas resultantes da preponderância no organismo do indivíduo de hormônios masculinos e femininos” (Dom Robinson Cavalcanti).
 

O Frei Antônio Moser tratando do simplismo biologizante quanto a compreensão da sexualidade, diz-nos que “uma das maiores dificuldades consiste em fazer os ouvintes de uma palestra entenderem aquilo que Freud já pregou há cem anos: a sexualidade não pode ser confundida com sexo ou com genitalidade. Também não se confunde com órgãos sexuais, nem com os externos, nem com os internos. A sexualidade não é uma “coisa”, nem um pedaço do corpo humano: é basicamente uma energia, revestida de um extraordinário poder de mobilização do ser humano no seu todo”.
 

Assim, não podemos deixar de considerar a sexualidade humana sem uma abordagem que leve em conta, também, os aspectos antropológicos, “onde o corpo e espírito, biológico e psíquico, pessoal e social, religioso e cultural se articulem”.
 

É importante ressaltar que nenhum estudo aprofundado e sério desse tema poderá deixar de levar em conta os fatores e dimensões sócio-culturais, psicológicos, afetivos, político-ideológicos e o religioso-espiritual.
 

Todavia, se devemos considerar todos esses aspectos acima, quanto à sexualidade, Frei Antônio Moser nos afirma que, sobretudo, devemos levar em conta que “há um elemento decisivo para a superação do simplismo biologizante”. Este elemento fundamental e necessário para a compreensão da sexualidade, segundo ele, é “o cultivo do amor”. E nos contempla com esta belíssima e profunda frase: “O amor é a seiva que alimenta a integração da sexualidade”.
 

Concluímos, pois, essa primeira parte, afirmando, ainda que de forma rápida e breve, que a sexualidade humana é algo inerente ao nosso ser-no-mundo”, desde nosso nascimento até o fim da vida abrangendo todos os fatores que compõem a mesma; se nos apresentando com um esse” (constantes), como também um fieri” (vir-a-ser), a qual nos diz o Frei Antônio Moser que, “já podemos descrevê-la como sendo uma das energias que movimentam a nossa vida”.

 

II – SEXUALIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO

Como cristãos, temos que considerar o nosso entendimento quanto a questão sexual a partir do ponto de vista de Deus. Essa visão, necessariamente, começa no relato da Criação registrado em Gn.1:27 “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Aqui observamos que Deus ao criar homem e mulher, já denota o paradigma de uma relação amorosa entre pessoas de sexos opostos, que deverão manter relações sexuais normais, morais e santas, pois a ordem foi “sejam férteis e multipliquem-se” (Gn.1:29). E no versículo 31(a) temos: “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom”.
 

Por isso, podemos afirmar, com toda a segurança, que a sexualidade e o sexo são partes integrantes dessa Criação, e assim intrinsecamente bons, porque Deus assim o fez e o declarou. Considerando, até mesmo, que o sexo tem um aspecto do poder criador, e se assemelha, inclusive, a um atributo do Ser de Deus.
 

O paradigma da heterossexualidade é explícito ainda quando Deus ao instituir o casamento – união da qual a sexualidade deve ter sua expressão plena – diz: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gn.2:24). Expressando, ainda que de forma metafórica, que o homem e a mulher experimentam uma vívida e profunda interligação de um com o outro.
 

Um documento recente por parte da Congregação Para a Doutrina da Fé, da Igreja de Roma, expressa o seguinte: Em primeiro lugar, o homem, imagem de Deus, foi criado ‘homem e mulher’ (Gn.1,27). O homem e a mulher são iguais enquanto pessoas e complementares enquanto homem e mulher. A sexualidade, por um lado, faz parte da esfera biológica e, por outro, é elevada na criatura humana a um novo nível, o pessoal, em que o corpo e espírito se unem”.
 

Portanto, já no início da Bíblia observamos que Deus nos criou como seres dotados que possuem impulsos sexuais. E a realização dessa sexualidade deve estar legitimada no matrimônio, para servir antes de tudo, de desfrute e prazer sexual do casal, como também a troca de carinhos, de gestos, de ternos afetos expressando assim a santidade da relação sexual entre um homem e uma mulher, numa verdadeira liturgia de intimidades diante de Deus. Senão, vejamos o que nos relata o livro de Cantares, que registra a relação apaixonada de Salomão e a Sulamita, com descrições sensuais detalhadas de um puro relacionamento entre um casal (Ct.7:1; 8:3).
 

Quanto ao outro aspecto da relação marital, existe também a questão da procriação, como sendo parte do plano divino para a humanidade. Assim o ato sexual do casal, na plenitude da mais forte expressão do amor e carinho, proporciona dessa maneira o ambiente mais propício para a concepção e procriação.
 

Numa revista editada pela SOCEP, temos a seguinte síntese do que acima expomos, “Deus criou homem e mulher com suas peculiaridades e distinções, para que um completasse o outro, trazendo sentido e sabor à vida de ambos. Pelos laços do matrimônio proporcionou-lhes a satisfação de compartilharem suas emoções, seus ideais, seus projetos de vida e sua própria vida, por meio da intimidade, do companheirismo e amizade. Assim, no projeto de Deus primeiro vem a felicidade do casal, depois é que vem a alegria de ter filhos”.
 

Quer queiramos ou não, a sexualidade humana, na perspectiva divina é expressa no ambiente familiar, considerando que tal intimidade resulta no fato dos cônjuges se tornarem uma só carne (Gn.2:24), visando a realização mais forte do casal em nível de unidade e unicidade. E, como tal, expressa a natureza santa de Deus e os Seus sonhos e projetos para a humanidade.
 

Dessa forma, a sexualidade humana como revelada nas páginas do Antigo Testamento, é uma dádiva de Deus que deve ser manifestada em toda sua plenitude em: primeiro lugar no aspecto físico do ser: onde ocorre a celebração do amor entre um homem e uma mulher de uma forma pura e abençoada por Deus; segundo lugar no aspecto emocional do ser: através da exploração do erotismo e da amizade; terceiro lugar no aspecto espiritual do ser: onde se manifesta a realização da glória de Deus, por meio da obediência à Sua vontade.

 

III – SEXUALIDADE NO NOVO TESTAMENTO

Na epístola aos Hebreus, o autor diz: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula” (Hb.13:4).
 

Isso nos leva a concluir, que no Novo Testamento, a exemplo do Antigo Testamento, a realização sexual do homem e da mulher tem seu lugar no matrimônio. É tão verdadeira essa afirmação, que o apóstolo Paulo declara: “Eis porque deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à Igreja” (Ef.5:31-32).
 

Paulo como grande autor do Novo Testamento quis ensinar que o sexo é tão sagrado na vida humana, que chegou fazer a ilustração do matrimônio com a relação mais íntima que podemos ter com Deus.
 

O próprio Senhor Jesus quando em discussão com os fariseus a respeito do divórcio, ratifica o ideal de Deus na Criação quando lhes respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles já não são dois, mas, sim, uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe” (Mt.19:4-6).
 

Vimos que Jesus Cristo citou o livro de Gênesis, para lembrar qual padrão deveria permanecer.
 

Não podemos mudar o fato escriturístico de que a sexualidade humana, de acordo com os preceitos divinos, tem sua expressão legítima e santa no matrimônio. Pois nossos corpos, cuja composição contêm de forma inata a sexualidade, é considerado como o templo de Deus, e por conta desse mistério de acolhimento do finito para com o Infinito, da criatura hospedando seu Criador, o apóstolo pergunta: “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? E Paulo completa, nos dando a seguinte razão: “Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com seu próprio corpo” (I Co.6:19-20).
 

O Pr. Luis Palau considera, entretanto, que “na verdade, embora o significado mais profundo do sexo não seja simplesmente físico, sua expressão prática certamente o é”.
 

Com isso exposto, podemos afirmar que o Novo Testamento mantêm a mesma linha de princípio estabelecido por Deus no Antigo Testamento, quanto a questão sexual, ou seja, que a sexualidade humana foi criada e estabelecida por Deus, de forma pura e santa. Contudo devendo ser plenamente realizada na intimidade do matrimônio, entre um homem e uma mulher em estado de pureza, alegria e satisfação. Inclusive o Dr. Billy Graham chegou a emitir a seguinte declaração sobre o sexo: “O sexo, esse ato pelo qual se transmite a vida sobre a terra, deve ser a mais maravilhosa e significativa de todas as experiências humanas”.

 

IV – CONSIDERAÇÕES SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE

Vimos acima, como o relato bíblico da Criação do homem e da mulher, como padrão e projeto divino, e a relação de ambos como paradigma para toda a humanidade difere consideravelmente do mito grego, conforme apresentado por Platão, que apresentava a origem dos homens partindo de três tipos de seres, os quais compreendiam as criaturas chamadas de esféricas, que entendiam da composição de um homem com um homem, outras como de uma mulher com uma mulher e, por fim, os heterossexuais compostos de um homem e uma mulher.   
 

Entretanto, a Bíblia Sagrada nos revela que por conta da desobediência e rebeldia do homem contra seu Criador, ocorreu a Queda, e, por conseguinte, a “Depravação da Natureza Humana”, tendo em vista a razão desse mesmo homem ter-se negado a participar dos projetos eternos de Deus. Dessa forma o “coração” do homem tornou-se inclinado a proceder com maus desígnios, tais como, “os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez” (Mc.7:21-22).
 

Embora Deus tenha criado todas as coisas, e considerado que “tudo havia fica muito bom”, – incluindo aqui, obviamente, a sexualidade –, devido a essa corrupção generalizada humana, a “natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados” (Rm.8:22), a ponto da área comportamental humana ter se tornado “pecaminosa, e tornando certas condutasinaceitáveis e inerentemente apostas à maneira cristã, tais como: a promiscuidade, a prostituição, a pornografia infantil, a pedofilia, zoofilia e o sadomasoquismo” (Resolução Conciliar DAR 01/2003 Cap. VI – 6.2).
 

Partindo desse ponto, podemos afirmar que a sexualidade humana foi afetada, e como tal o padrão bíblico da monogamia e heterossexualidade foram desvirtuados. Isso é tão verdade e relevante, que a Resolução 1.10 da Conferência de Lambeth letra “a”, de conformidade com o padrão bíblico, chega a recomendar o seguinte: “em vista do ensino das Escrituras, defende a fidelidade no casamento entre um homem e uma mulher numa uniãopermanentee acredita que a abstinência é adequada para aqueles que não são chamados para o casamento”.
 

E por conta dessa corrupção na natureza do gênero humano, essa mesma Resolução 1.10, que trata da sexualidade humana, na letra “d”, “rejeita a prática homossexual como incompatível com as Escrituras...”.
 

É interessante ressaltar também que o “pai da psicanálise”, o Dr. Freud, em seu livro intitulado Leonardo da Vinci, conclui que a homossexualidade é um “desvio” (vide Ultimato nº236, p.14).
 

Entretanto, essa mesma Resolução, que citamos acima, traz uma importante consideração, quanto a autoridade das Escrituras em matéria de casamento e sexualidade, recomendando a importância da Declaração de Kuala Lumpur Sobre Sexualidade Humana (Res.1.10 – “g”).
 

Assim, será a partir das Escrituras Sagradas, preliminarmente, que devemos afirmar a fundamentação de que as relações homossexuais não têm apoio nas mesmas, antes são por elas expressamente condenadas.
 

Para tanto, seria necessário fazermos breves distinções das leis existentes no antigo Israel, como por exemplo, a Lei Civil ou Judicial que regulava a sociedade civil hebraica, não se aplicando mais sua normatividade hoje; Lei Religiosa ou Cerimonial cuja finalidade era apontar para o Messias Jesus Cristo, tendo Sua vinda tornado esta Lei superada; e, por fim, a Lei Moral, cujos mandamentos nos ensinam acerca do nosso respeito para com Deus, o Criador, e ao nosso próximo (Mt.22:34-40). Assim, a Lei Moral, permanece absoluta, imutável e eterna. É isso o que Paulo quer nos dizer em Rm.7:12 “De fato a Lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom”.
 

Uma vez colocada tais distinções legais, torna-se importante, devido ao fato de que alguns chegam a defender o argumento quanto a relação homossexual, afirmando que as proibições bíblicas quanto a mesma, se deviam à prostituição cúltica, como no caso de Dt.23:17-18; mas a condenação expressa em Lv.18:22 e 20:13 em que as proibições quanto as relações sexuais ilícitas nos dizem no entanto, que “não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante”... (NVI). Creio que a clareza desse texto seja tal, que fica evidente que a proibição homossexual nada tem haver com questões cúlticas, e, sim, com a Ética. Sem levarmos em conta, ainda as passagens de Gn.19:1-11 e Jz.19:1-30 onde é empregado nos dois incidentes do relato bíblico, o verbo hebraico yada, que segundo o erudito Waldyr Carvalho da Luz, tanto numa passagem quanto na outra, esse verbo é traduzido em português como “conhecer” não só significando a cognição perceptual, como sendo utilizado também, para se referir eufemisticamente a relação sexual (expressada no coito), no caso das passagens citadas.
 

O mesmo ensino Vétero-Testamentário é confirmado também no Novo Testamento. Se formos honestos no campo hermenêutico, nenhuma outra passagem é tão óbvia e clara, como a de Paulo em Rm.1:24-28;32.
 

No entanto, alguns ainda querem argumentar, que essa passagem de Romanos trata também de questões cúlticas, mas fica evidente, que o apóstolo estava tratando do comportamento ético e pessoal humano. Uma vez que a humanidade havia abandonado Seu Criador, e, portanto, está sob a ira do mesmo, o que tornou seu comportamento mau e imoral, levando o apóstolo Paulo dar a razão do “porque (os homens) tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza sexual... Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão” (Rm.1:21-24a;27b).
 

Portanto, não existe nada nesse texto que nos leve a pensar que Paulo estivesse escrevendo numa perspectiva das práticas sexuais dos cultos pagãos, a partir de uma cosmovisão do cenário greco-romano. Antes, porém, fica evidente que a categoria a qual ele estava se referindo, era de fato de natureza moral. Da mesma maneira que a prática do homossexualismo fora condenada no Antigo Testamento, o apóstolo Paulo, ratifica esse mesmo ensino nas páginas do Novo Testamento como continuidade da Lei Moral dada por Deus a Moisés.
 

Outros têm tentado argumentar que termos como “arsenokoitai” e malakoi no texto Paulino em I Co.6:9-11, dizem respeito a conduta de homens adultos na exploração sexual e emocional de jovens meninos. Mas, conforme John Richardson, no seu texto (traduzido pelo Rev. Marcus Throup) – O DEUS QUE PURIFICOU, tem a seguinte explicação para a palavra “arsenokoitai”: parece ser uma palavra que ele inventou. Mas ela reflete Lv.20:13, na Septuaginta (versão grega) que condena qualquer um que se deitar com um homem [arsenos] para ter relação sexual [koiten] como uma mulher”.
 

O Rev. J. I. Packer em seu texto, “Por que me Retirei”, trata das razões dele haver saído do plenário do Sínodo da Diocese Anglicana de New Westminster, Canadá, no mês de Junho de 2002, que autorizou o bispo a realizar uma liturgia para bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo. Dentre as várias razões, ele faz o seguinte comentário quanto a estas duas palavras em grego empregadas por Paulo em sua epístola aos Coríntios: “...homens que praticam a homossexualidade, como temos em algumas traduções se referem às duas palavras gregas que identificam as pessoas envolvidas nesses atos. A primeira, arsenokotai, significa, literalmente, ‘aquele que se deita com um macho’ – isso parece suficientemente claro. A segunda palavra, malakoi, é utilizada em muitas conexões com o significado de ‘não masculino’, ‘relativo a mulher’ e ‘efeminado’; aqui a referência é à pessoa do sexo masculino que se presta ao papel de mulher no contato sexual físico.
 

Por fim, gostaria ainda de mencionar um outro argumento apresentado para a prática do homossexualismo, por aqueles que tratam do ato e orientação, quando dizem o seguinte: eu já nasci homossexual. Entretanto, ainda que isso fosse verdadeiro (o que não é), jamais seria uma conduta aceitável para Deus, pelo que vimos nos textos bíblicos expostos.
 

Tal argumento poderia de certa forma também ser apresentado para a desculpa de todo e qualquer comportamento pecaminoso. Assim, haveria a completa falta de responsabilidade pessoal de cada um, tornando ineficaz a Lei de Deus; tendo a morte vicária e expiatória de Jesus Cristo sido completamente inócua e desnecessária. Por outro lado, sabemos que a tentação não é pecado em si; mas, torna-se pecado quando a alimentamos de desejos e fantasias (vide Cl.3:5). O fato concreto disso tudo é que a Bíblia nos ensina que todos nós já nascemos pecadores e necessitamos da Graça de Deus para nos libertar da escravidão do pecado, em suas várias manifestações, por pensamentos, palavras, ações e omissões.

 

V – PASTORAL COM  HOMOSSEXUAIS

Antes de tudo, se faz necessário e oportuno, afirmar, que não devemos cair no erro de confundirmos pessoas homossexuais com aquelas moralmente perversas, tais quais as que cometem desvios altamente pervertidos como a “pedofilia”, a “zoofilia”, a “necrofilia” e outros...  E, afirmamos, uma atitude homofóbica é também condenável.
 

Com isso, podemos nos concentrar na seguinte questão: “como acolher, compreender e atender pastoralmente pessoas homossexuais em nossas comunidades?”.
 

Em primeiro lugar, poderíamos seguir o exemplo evangélico do nosso Senhor Jesus Cristo, que nunca cometeu uma atitude discriminatória a qualquer pessoa que viesse à sua presença. Ele estava sempre acessível, não importando se eram crianças, ou, se a pessoa era um publicano, fariseu, samaritano, leproso, coxo, cego, rico, pobre, ou mesmo aqueles que por uma razão ou outra haviam cometido pecados de ordem moral/sexual, como no exemplo da mulher samaritana no poço de Jacó (Jo.4:1-30), e ainda no episódio daquela que foi flagrada em adultério (Jo.8:1-11). A atitude era sempre de acolhida, e não de condenação, bem como sua mensagem era de libertação, pois todos deviam “nascer de novo” (Jo.3:1-21). A exortação “Vai e não peques mais” (Jo.8:11b) é um componente fundamental dessa mensagem amorosa e libertadora.
 

Uma outra base para uma ação pastoral é encontrada na Resolução 1.10 letra “c” de Lambeth 1998, quando em nossas comunidades tivermos pessoas de orientação homossexual, buscando ajuda, deveremos estar abertos e preparados para dar-lhes atendimento pastoral, orientado-os quanto a moral da Igreja, e o poder transformador de Deus para viver suas vidas e ordenar seus relacionamentos, bem como, lhes acolher no ouvir de suas experiências.
 

Em último lugar, indicamos as orientações sugeridas, pelo Rev. Elben Magalhães Lenz César (edição nº284 da Ultimato), quando trata da “missão da Igreja frente à homossexualidade”:
 

1 - Nossa missão é não esconder nem omitir nem torcer as Escrituras que condenam efetivamente a prática homossexual.

2 - Nossa missão é fazer clara distinção entre a tendência homossexual e a prática homossexual, tal qual fazemos entre a propensão ao adultério e o adultério em si.

3 - Nossa missão é oferecer enérgica resistência aos radicais que pretendem fazer descer fogo dos céus para consumir os homossexuais.

4 - Nossa missão é mostrar que ninguém tem autoridade moral suficiente para discriminar os homossexuais, porque todos somos igualmente pecadores.

5 - Nossa missão é desmentir a chamada hierarquia de pecados, segundo a qual a prática homossexual é a mais abominável conduta humana. Paulo coloca a homossexualidade (passiva e ativa) no mesmo patamar do adultério, da idolatria, da apropriação indébita, da avareza, do alcoolismo, da calúnia e da trapaça (I Co.6:9,10).

6 -  Nossa missão é dar e alimentar a esperança de uma nova vida em Cristo: “Se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas” (II Co.5:17, NVI). Graças a essa experiência de natureza espiritual, provocada pela admissão da culpa, pelo arrependimento e pela fé nos méritos salvadores de Jesus Cristo, o efeminado, o sodomita, o adúltero, o alcoólatra e o trapaceiro podem ser chamados de ex-efeminado, ex-sodomita, ex-adúltero, ex-alcoólatra e ex-trapaceiro, como aconteceu em Corinto, na Grécia.

7 - Nossa missão é anunciar o evangelho da graça de Deus, que inclui a salvação toda: da “culpa” do pecado (justificação), do “poder” do pecado (santificação) e da “presença” do pecado (glorificação).

8 - Nossa missão é afirmar à sociedade que o ser humano, homossexual ou não, é mais do que sua sexualidade, e, portanto, cabe chamar todos à redenção integral anunciada por Jesus, incluindo aí a conversão da sexualidade.

 

VI – CONCLUSÃO

Quero concluir, fazendo menção às quatro dimensões principais, propostas pelo Revmo. Dom Robinson Cavalcanti em recente texto à DAR, que devem ser levadas em conta quanto a questão do Homossexualismo:
 

a) “a dimensão jurídica – com a defesa da igualdade de todos os cidadãos perante a Lei, em um Estado Laico, Democrático, de Direito, sem discriminações. É o que temos pessoalmente defendido ao longo de nossa existência, com veemência, tanto na teoria quanto na prática;

b) a dimensão filosófica (ontológica), com a pessoa e sua dignidade, que não deve sofrer qualquer tipo de violência. É o que a filosofia cristã personalista, e solidarista, tem defendido por décadas;

c) a dimensão pastoral, como atitude de escuta, acolhida e amor, tendo a Palavra de Deus como referência, e que é recomendada pela Conferência de Lambeth. Pastoral, contudo, que não é relações públicas, sessão de psicanálise ou de auto-ajuda, ou aplicação da abordagem de Dale Carnegie (“Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”), mas a condução solidária no caminho da sanidade/santidade;

d) a dimensão Ética e Teológica, baseadas na Revelação, a partir das Sagradas Escrituras, que tipifica a prática do homossexualismo como uma abominação perante o Senhor. E aqui todos os fatores condicionantes são apenas explicativos, e nunca justificativos”.
 

Por fim, não poderei deixar de mencionar a reafirmação dos Primazes da Resolução 1.10, sobre Sexualidade Humana, quando do Encontro Extraordinário no Palácio de Lambeth, que “as resoluções feitas pelos bispos da Comunhão Anglicana, reunidos na Conferência de Lambeth 1998 sobre as questões da Sexualidade Humana, têm força moral e demandam o respeito da comunhão como sendo a posição oficial sobre a questão”.
 

A mente da Igreja foi expressada naquela Conferência, sob a iluminação do Espírito Santo, como cristãos e anglicanos a acolhemos, ensinamos e vivenciamos.

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