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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

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Conhecendo, Vivendo e afirmando a verdade

Rev. Miguel Uchôa

 

 

Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade.

João 16:13

 

 

Meus irmãos e minhas irmãs,

É com alegria que me coloco aqui, neste púlpito, para me dirigir a todos vocês, nesta noite tão festiva, e após um Concílio tão abençoado, e, acima de tudo, tão harmônico. Não me lembro, desde os tempos do Bispo Sherrill, de termos tido um Concílio assim. Alegro-me por ter presenciado nestes dias que a preocupação maior foi ver a obra do Senhor acontecer.
 

Alegrou-me, profundamente, ver que nestes dias ninguém esteve preocupado com o estilo de vestes que você usa, com a liturgia que a sua Paróquia desenvolve. Alegrou-me bastante o sentimento de amor que vi ressurgir em meu coração pelas comunidades de nossa Diocese. Alegrou-me muito ver que, finalmente, a essência do ser Igreja foi valorizado, e o periférico foi deixado para cada um cuidar na sua particularidade. Quando estamos unidos na essência, estamos unidos naquilo que está no coração de Deus. Assim Deus honra. Assim Deus abençoa.
 

Como foi bom não ter escutado os “conchavos” políticos, e poder concordar e apoiar praticamente todas as funções e cargos sugeridos pelo Bispo, pelo Conselho e pelo plenário. Como eu anelava por este dia, e espero que ele se multiplique a partir de agora. Espero, sinceramente, que todos lutemos para que isso seja permanente.
 

Já disse, na última reunião da Liderança Diocesana, na Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras: “Não há mais espaço neste novo tempo para aqueles que não confessam a Sã Doutrina e não primam pela ortodoxia da Palavra de Deus”. Esta é, nitidamente, a orientação de nossa Diocese.

É um novo tempo!

 

01. É um novo tempo para edificarmos relacionamentos

Existe muita gente que ainda não se conhece entre nós; nossos talentos, dons, ministérios podem ser usados como ponte para uma interação efetiva.

 

02. É um novo tempo para refazermos relacionamentos

Existe, ainda, relacionamentos machucados, feridas abertas, e creio que chegamos a um tempo em que precisamos refazer essas pontes, e sarar essas feridas. Não há mais espaço para colegas que desviam seus caminhos para não cruzar com o outro. E vocês aqui ordenados hoje, fazem parte de uma geração que tem obrigação de rejeitar isso e construir este novo tempo.

 

03. É um novo tempo para avaliarmos posturas

Vamos ser mais irmãos! Vamos ser mais presentes! Vamos ser mais disponíveis! Vamos ser mais igreja!
 

A conjuntura mundial e nacional de nossa igreja nos pede uma atitude de mais nobreza, grandeza e visão de Reino.
 

Isso me faz lembrar a história de uma jovem que estava no aeroporto, e tinha uma longa espera para seu vôo. Ela comprou um livro e um pacote de biscoitos, sentou-se em uma poltrona, abriu o pacote e começou a ler o livro. Logo sentou um homem ao seu lado, e, de repente, quando ela retira um biscoito do pacote, o homem vai e retira outro. Ele achou estranho, mas seguiu adiante. Tirou outro, e ele vai lá e faz o mesmo. Ela começa a se irritar. Fica nervosa. Afinal de contas, é muita “cara de pau” do sujeito tirar os seus biscoitos, pensou ela.
 

Olhou para o pacote, e viu que havia apenas mais um biscoito, e pensou: “Será muita cara de pau se ele pegar esse”. E o homem foi, pegou aquele último biscoito, dividiu ao meio, e deu metade a ela.
 

Ela ficou irritada, pegou suas coisas, seu livro, e se dirigiu para o avião. Chegando lá dentro percebeu que o seu pacote de biscoitos estava intacto dentro de sua bolsa. Ela, então, percebeu que havia comido os biscoitos daquele homem que dividiu com ela todo o seu pacote sem qualquer problema, ao passo em que ela estava irritada com a possibilidade de ele estar comendo os seus sagrados biscoitos.
 

Sugiro que em nossa Diocese, tenhamos a grandeza de dividir o nosso pacote de biscoitos, e entender que ele não é nosso, mas nos foi dado pelo Pai, para que possamos repartir. Definitivamente, chegou o tempo entre nós de olharmos para nosso biscoito de uma maneira mais comunitária.
 

Tenho dito, e vou reiterar: o que Deus tem dado à Igreja, não dá para possuirmos, mas para repartirmos. Quanto mais repartimos, mais Ele nos dará. Deus tem dado talentos a esta Diocese, e é hora de reparti-los de fato.
 

Quando estive na Colômbia, para observar o ministério das Igrejas em células naquele país, vi muita coisa boa, vi muito vigor e zelo pela Palavra, vi muita paixão pelas almas. Vi muita coisa que não se adaptava à nossa realidade, mas vi algo que me chamou a atenção. Posso até discordar do Pr. Cezar Castellano em muitas coisas, mas ele me deu uma lição de amor. Nunca vi ninguém olhar para seus biscoitos e ter a noção que ele tem que repartir. “Deus me deu para repartir”, dizia ele. Cresçam em seus ministérios com a noção clara de que seus sagrados biscoitos, estes que vocês estão comendo hoje, não são seus, mas estão sendo repartidos por alguém.
 

A Paróquia Anglicana do Espírito Santo, da qual hoje sou Reitor, não se cansa de dizer que o que tem recebido, tem recebido de Deus e para o Povo de Deus. Nós temos a consciência de que aqueles biscoitos não são nossos. Recebemos de alguém, e estamos dispostos a dar a outros.
 

Mas hoje é um dia de festa. Hoje a Igreja estará recebendo cinco novos Presbíteros. São os pastores do Povo de Deus aprovados, treinados, e agora, lançados ao campo para uma colheita que Deus está preparando.
 

O lema de nossa Diocese, para este próximo ano, enfatiza a palavra verdade. Por outro lado, a Pós-modernidade trouxe o conceito da verdade como algo relativo: você tem a sua “verdade” e eu tenho a minha “verdade”. Mas, de fato, a verdade é absoluta, única, vista de vários ângulos, mas uma em sua essência. Realmente nós não somos os donos da verdade, mas sabemos quem o é.
 

Gosto da definição de Henry Newman, quando ele afirma que: “Nossa liberdade, é sermos cativos da verdade”.
 

Vocês são pastores da verdade, servos de um Deus que se definiu como: “o caminho, a verdade, e a vida...”. Jo.14:6.
 

Sabe o que me chamou a atenção nestes dias? Foi o próprio lema diocesano para 2005. E dele quero tirar alguns conselhos para dar a vocês hoje, neste dia, no dia da sua Ordenação Presbiteral. Recebam como conselhos de um irmão, de um amigo, de alguém que está disposto a comer biscoitos junto com vocês, dos seus biscoitos e também dos meus.
 

Observemos nosso lema: 2005 – Ano da Sã Doutrina: Conhecendo, Vivendo e Afirmando a Verdade!
 

Permitam-me, antes de tudo, clarear que existe uma Sã Doutrina, e se a Bíblia fala de uma que é sã, parece nos advertir que há outras que não são assim.
 

O conselho de Paulo, ao seu filho na fé Tito, é claro: “Retendo firme a palavra fiel, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes”. Tt 1:9.
 

Meus irmãos e minhas irmãs,

Em um tempo onde a Palavra de Deus está sendo agredida, revisada, adulterada; em um tempo onde não há mais verdade e parece que as coisas sãs não têm muito valor; em um tempo assim, apelo a vocês, servos do Altíssimo, que não se afastem desta Palavra fiel. Estejam em intimidade, em convívio. Sejam apaixonados pela Sã Doutrina, amantes da verdade. Existe a doutrina insana, a doutrina pervertida, existem aqueles que deturpam e mudam a letra de Deus à sua conveniência. Aceitem o conselho de Deus a Josué que vimos na leitura de hoje, como conselho às suas vidas, não se desviem desta Palavra. Aceitem, então, meu primeiro e óbvio conselho: sejam apaixonados por esta Sã Doutrina. Por falta desta paixão e zelo estamos vendo onde chegou certos setores de nossa Igreja.
 

Nosso lema segue adiante:

 

01. Conhecendo a Verdade

O Evangelho lido trouxe a Palavra de Jesus: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Jo.8:32.
 

Tenham esmero no estudo da Palavra da verdade. Invistam tempo no convívio com ela. A verdade de Deus nos liberta de muitas coisas, mas, acima de tudo, nos liberta de nosso conceitos pessoais e deturpados. A verdade de Deus nos previne de nossos achismos e dos modismos dos tempos. A verdade de Deus é nossa bússola.
 

Certa vez, pregando na Igreja no Dia da Bíblia, fiz uma dinâmica, e perguntei: onde está o norte? Todos apontaram para onde entendiam ser o norte. Aconteceu uma certa confusão. Houve aqueles que apontaram para o sul, outros para o leste...
 

Vamos fazer aqui? Onde é o norte em sua opinião? Coloquem suas mãos apontando para onde você entende ser o norte. Prestem atenção agora. Deixe-me ver os pastores. Não parece muito bem. E o povo? Olha, sei onde é o norte e talvez eu seja a única pessoa aqui que, com certeza, com toda verdade, pode dizer onde está o norte. O norte está nesta direção, deste púlpito para onde o Bispo está sentado. Mas, por que sei com tanta certeza? Porque, simplesmente, tenho aqui comigo uma bússola que me mostra a direção. Sem a bússola posso chegar perto, mas não chego lá no norte. Assim é com nossa vida. Sem a bússola da verdade, a Palavra de Deus, posso até me aproximar, mas não chego no norte da verdade, não oriento minha vida, não chego na presença de Deus.
 

Meus queridos pastores, e, especialmente vocês ordinandos, não se aproximem desta Palavra apenas para preparar seus sermões. Aqui está a Sã Doutrina. Aqui está a bússola. Aqui está o norte, e a nossa orientação. Aqui está a verdade! Não façam como um pastor que, num sábado à noite, ligou para o colega desesperado e disse: “Estou te mandando o meu sermão de amanhã. Dá uma olhada e me arranja uma passagem bíblica para ele...”.

 

02. Vivendo a Verdade

O conselho de Paulo, aos Efésios, mostra que conhecer a verdade significa viver a verdade no seu dia-a-dia, seguir os seus passos, agir com esta verdade, viver. A verdade significa desenvolver atitudes que reflitam a verdade de Deus. Significa ter hábitos que condigam com a verdade, pensar de acordo com a verdade, significa despir-se do velho ser que se corrompe com os desejos enganosos.
 

Meus irmãos e irmãs,

Vamos fazer um esforço sobrecomum para vivermos a verdade de Deus em nossas vidas.

Alguém pode dizer: “Mas pastor, não é fácil”, e bem sei que não é. O apóstolo Paulo, esse gigante de Deus, esse homem que visitou o 3º céu, que esteve na presença das coisas que a nossa mente não alcança, que foi a pessoa mais influente para a fé cristã depois do próprio Cristo, disse: “Não que eu tenha alcançado, mas sigo para o alvo”. Faço minhas as suas palavras. Eu sigo para o alvo.
 

Façam suas, as palavras de Paulo: “sigam para o alvo”, em busca de viver a verdade de Deus, e me permitam dizer uma coisa a vocês: nunca permitam que satanás inculque vocês com suas palavras malignas, com suas sugestões sedutoras. Quando ele disser a você: “Não vê que você não pode viver a verdade?” Responda assim: “Não vê você, pai da mentira, que meu Pai preparou uma maneira especial para mim? Não vê você, verme das trevas, que em Cristo eu sou mais que vencedor? Não vê você, traste das trevas, que posso todas as coisas em Cristo que me fortalece?”.
 

Creio que foi Whitefield que estava deitado na cama e sentiu uma sensação pesada no ar, algo maligno. Acendeu a lâmpada, e viu uma imagem do diabo que tentava lhe amedrontar. Diz a história que ele, num sopro, apagou a luz e disse: “É só você? Eu pensava que era algo mais importante...”.
 

Por último, vivamos:

 

03. Afirmando a Verdade

Meus irmãos e minhas irmãs,

A vida com Deus vai além, muito além, de uma sensação gostosa de segurança. Até creio que ela deva ser julgada com seriedade e discernimento quando apenas nos sentimos aconchegados em nossa segurança. Em um mundo que se perverte, e até no meio de uma Igreja que cede ao espírito deste século, se contamina com suas malignidades, é seduzida pela mentira de um humanismo decaído, afirmar a verdade se faz necessário. Afirmar a verdade, queridos, vai levar vocês para fora de sua zona de conforto; vai levar vocês a, eventualmente, sentirem o frio na coluna e a incerteza do amanhã.
 

Emocionei-me neste Concílio desde seu início. Aqui todos nós, povo e pastores, demos uma clara demonstração de que nós estamos afirmando a Verdade. Demos a demonstração de que a Diocese Anglicana do Recife está unida, afirmando a Verdade.
 

Deus não nos empurra para nenhum martírio, mas, nenhum cristão pode viver sem a possibilidade de que ele possa existir. Por afirmar a verdade, Estevão foi assassinado. Por afirmar a verdade, José teve uma vida de constantes ameaças e riscos. Por afirmar a verdade, nós estaremos sempre em risco. A proposta de ser um servo Presbítero não se limita a colocar uma camisa clerical e desfilar pelas passarelas do prestígio. A proposta de ser um servo Presbítero deve incluir a possibilidade de viver o que não se deseja e o que não se sonhava. Portanto, incluam nos seus grandes sonhos as conseqüências de se afirmar a Verdade.
 

O século que passou, recente, levou consigo a marca de ter sido o século que mais produziu mártires no cristianismo, por terem afirmado a Verdade.
 

Mais do que nunca, a própria Igreja precisa de líderes que não temam afirmar a Verdade. Rejeitem a proposta do politicamente correto! Rejeitem a tentação de comprometer a mensagem! Rejeitem a sutileza da conveniência! Afirmem a verdade!
 

A Ordenação de vocês se dá em um Concílio histórico de nossa Diocese, onde, por afirmarmos a Verdade, estamos sofrendo todo tipo de ameaças e calúnias. A mentira, o abuso do poder, a maledicência, fazem parte do dia-a-dia daqueles que resistem a direção de Deus.
 

Décio, Fred, Marcone, Solange e Raniere,

Esta é a palavra que tenho para vocês. Firmes, continuaremos afirmando a Verdade. Nosso compromisso é com a Verdade. Que o Senhor tenha misericórdia de nós, e que Deus nos abençoe.

 

Rev. Miguel Uchôa

Ordenações Presbiterais

Culto de Encerramento do XXIV Concílio Diocesano

Olinda(PE), 04 de Dezembro de 2004

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